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3.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXVI

 


Dirigiu-se à cozinha, onde Isilda punha o almoço no carrinho que o marido levaria ao doente.

- Joaquim – disse ela, -  se o doente lhe pedir para fechar as cortinas, não o faça. De hoje em diante não mais o quero, no quarto às escuras.

- Está bem, menina. O doutor Azevedo já nos avisou que eram as suas ordens que tínhamos de cumprir e não as do doutor Tiago. Só espero que ele não nos despeça.

- Não poderá fazê-lo. Tudo o que fazemos é em prol da sua recuperação e tenho a certeza de que daqui a uns tempos ele compreenderá isso. Agora pode ir antes que o almoço arrefeça.

-Que lhe disse? – perguntou o doutor Azevedo enquanto se sentavam à mesa.

- Que amanhã iniciaríamos os tratamentos, com ou sem a sua cooperação e que não ia admitir que mantivesse o quarto às escuras.

Creio que nesta fase é necessário contrariá-lo, espicaçar o seu amor próprio, desencadeando-lhe a raiva e o desejo de mostrar que estou errada. Sei que não vai ser fácil e estou preparada para que me agrida verbalmente na tentativa de que faça como as outras profissionais que me antecederam. Quando vir que nada do que me disser me fará desistir, começará a colaborar, quanto mais não seja para que o deixe em paz.

 Oxalá esteja certa. Deixei o plano de tratamentos na gaveta da secretária que está na sala de tratamentos. De qualquer modo, telefonarei amanhã à noite para saber como foi o dia. 

-Pelo que me disse do seu sobrinho, penso que se me mostrar dócil, e me mostrar magoada com a sua atitude, não vou conseguir outra atitude do que aquela que tem tido. E muito menos se perceber que tenho pena dele. Nenhum homem aceita bem a compaixão, muito menos alguém como o doutor Tiago. Ele queixa-se de dores, toma algum tipo de medicação?

-Penso que não. Na última consulta que fez no hospital, receitaram-lhe analgésicos e  antidepressivos. Mas o Joaquim diz que ele se nega a tomá-los. O neurocirurgião, queria enviá-lo para o Alcoitão para a sua recuperação, mas ele recusou e pediu alta. Quanto tempo pensa que ele levará até começar a reagir?

- Não me atrevo a tentar adivinhar. Não será nada fácil. Primeiro ele terá de aceitar o que lhe aconteceu, não só fisicamente, como o fim dos sonhos que teria com a noiva. E entender que a vida segue em frente, só pára quando morremos e que por isso é necessário acompanhá-la. Seria muito mais fácil se ele aceitasse a ajuda psicológica.

Todavia não vi o relatório dos médicos, não sei qual a lesão exata que ele terá. E como o doutor sabe, alguns danos na coluna são irreversíveis, outros são pouco importantes, mas entre os dois existe uma infinidade de lesões mais ou menos graves. Vou dar o meu melhor, mas não posso prometer milagres.

- Os relatórios estão com os pais, mas eu já os li. A cirurgia corrigiu o estrago maior, e segundo eles, não há nenhuma lesão irreversível. Ele tem alguma sensibilidade nas pernas, mas é incapaz de andar, ou mesmo suster-se de pé sem apoio. A opinião do neurocirurgião, é que ele pode recuperar por completo o uso das pernas, mas precisa de muita fisioterapia de estimulação e recuperação além claro, da força de vontade. A fisioterapia que lhe receitei é baseada nessa afirmação.

O resto da refeição, decorreu em silêncio e pouco depois, o doutor despedia-se do sobrinho e partia em direção à capital.


2.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XIX



O almoço decorreu com alguma animação por parte de Arminda, que adorava ter à mesa os seus dois homens, como ela costumava dizer. Filho único e tantos anos, afastado do país, Nuno sempre que tinha o fim-de-semana livre, ia almoçar com os pais. Adorava ver aquele brilho de felicidade nos olhos maternos.

Depois do almoço, pai e filho, deixavam-na entregue aos afazeres domésticos e iam até ao café, onde durante uma hora, tomavam o seu café e se entretinham numa amena conversa. Mais tarde regressavam a casa, viam um pouco de televisão, comentavam os casos mais noticiados da semana, e por fim, volta das cinco da tarde despedia-se e regressava a casa. 
Raramente saía à noite, embora naqueles dias de final de maio, com temperaturas a fazer lembrar o Verão já tão próximo apetecesse dar uma volta.

Não foi diferente naquele dia. Apesar da conversa trivial com a mãe, Nuno não conseguia esquecer o que o pai lhe contara e estava ansioso por estar a sós com ele, para tentar saber mais sobre aquele assunto. Porém não queria perguntar-lhe diretamente.
Desde criança sempre tivera uma grande ligação ao progenitor que soubera sempre impor disciplina, sem descurar o amor. Isso fizera com que além de pai, fosse amigo e confidente para o jovem. Mesmo agora, após tantos anos separados, e sendo ele já um quarentão, sentia uma grande admiração pelo pai e só confiava nele para falar do que lhe ia na alma.

O que o pai lhe contara sobre Luísa, não lhe saía da cabeça, e fazia com que se questionasse sobre as verdadeiras causas que levaram a jovem, a romper a relação que os unia. Seria o caso dela ter sido obrigada pelo pai? Podia ter acontecido já que ela era menor. Mas se assim fosse porque não confiou nele? Porque não lhe contou? Ele teria ido falar com o pai dela, teria lutado por eles, e pelo amor que os unia. Precisava saber a verdade. Ele sempre fora um homem justo. Se estava errado em relação aos factos do passado, não podia de jeito algum continuar com desejos de vingança.

- Estás muito pensativo hoje, - disse o pai quando se sentavam à mesa no café.
O empregado aproximou-se, e eles pediram apenas cafés. Depois, que ele se afastou, Nuno perguntou:
- Dissestes que dizem que a Luísa se atirou do carro. Porque é que que ela faria semelhante coisa?
- Talvez porque a primeira mulher de Álvaro Soromenho se suicidou com seiscentos e cinco, forte. Ele disse que o fez porque estava deprimida. Ora pouco antes da sua morte, a figura de Luísa assemelhava-se em muito à da falecida primeira mulher dele, por isso os vizinhos pensam que ela se tentou suicidar.  Havia tempos que ele dizia a toda a gente que a sua mulher estava com depressão. Depois, o condutor do carro que os seguia, disse que ela se atirou do carro, e que o mesmo saiu desgovernado para a outra faixa onde chocou com o camião. Foi isso que saiu nos jornais da época.

Interrompeu a conversa para corresponder ao cumprimento de um amigo. Logo que o amigo se afastou, retomou a palavra, com um aviso ao filho.
- Se não queres retomar a história onde a deixaste, esquecendo o que se passou pelo meio, tem cuidado Nuno. A vingança, é um pau de dois bicos. Acabamos muitas vezes por descobrir que a ferida que provocámos em nós, é superior à que provocámos no objeto da nossa vingança.


22.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXII




Quando chegaram, o inspetor Morais, ainda não tinha regressado do almoço, mas tinha deixado ordens para que lhe colhessem as impressões digitais e as comparassem com as de Fernando Monte Real que já lhes tinham sido enviadas de manhã pelo Arquivo Central. Depois de recolhidas e enviadas para os peritos que as iam analisar, eles ficaram a aguardar, até que o policial regressasse o que demorou apenas um quarto de hora. 

Depois de os cumprimentar, pediu que entrassem no seu gabinete, e explicou-lhes o trabalho de pesquisa já efetuado junto da direção da Orquestra Nova do Porto, que lhes facultara todas as informações sobre o pianista desaparecido juntamente com a sua fotografia, e ou ele tinha um sósia perfeito, ou era realmente a pessoa em questão.

 Faltava apenas a resposta dos peritos na comparação das impressões digitais mas isso era muito rápido, devia estar a chegar. E chegou cinco minutos mais tarde por fax. Sem qualquer dúvida, ele era o pianista desaparecido em Los Angeles no dia cinco de Dezembro, quando se encontrava em coma no Hospital de S. José em Lisboa, desde o dia três. 

- Um mistério bem cabeludo, - disse o inspetor. Está claro para nós que alguém se quis livrar de si. Assim depois de o abandonarem morto na berma da estrada, - acredito que quem o fez, estava convencido que estaria morto, viajaram para os Estados Unidos com os seus documentos e registaram-se no hotel. Provavelmente quem o fez, viajou de volta para Portugal, com a sua verdadeira identidade.

 O seu desaparecimento seria comunicado à polícia americana, e o senhor seria sepultado em Portugal como indigente. E todas as investigações posteriores diriam que tinha viajado e desaparecido no estrangeiro, pelo que o caso seria arquivado sem solução. 

O que levaria alguém a elaborar um tal plano é o que temos de descobrir. Ou o senhor está metido com algum gang que já se fartou de si, ou viu alguma coisa que não podia, nem devia ver. Em qualquer dos casos a sua vida não está fácil. Vamos manter segredo sobre o facto de estar vivo. 

Quem se deu a tanto trabalho para se livrar de si, vai querer acabar o serviço, se souber que está bem de saúde. Vou-lhe pedir que evite aparecer em locais onde possa ser fotografado. Continua em casa da doutora?
- Sim, - disseram os dois em uníssono.
- E há algum inconveniente em manter-se lá enquanto dura a investigação doutora? 



29.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE X



Quando voltou depois de almoço, encontrou em cima da secretária, uma caixa com papel de impressora, que ela abriu para tirar algumas folhas e guardar as restantes. Acabara de ligar o gravador, quando ele entrou no escritório.

- Olá. Já viu o papel?
- Sim. Já o guardei. Acabei de verificar que já cheguei ao fim do que estava no gravador. A cópia, está impressa e arquivada numa pasta.

- Muito bem. Gostaria que lesse para mim. Há muito tempo que não leio um livro.
- E tem algum preferido?
- Sim. Tinha comprado “Os poemas possíveis” de José Saramago, que não cheguei a ler. Deve estar algures nessa estante. Gosta de poesia?
- Sim, embora não conheça o livro em questão, mas procuro-o já.

Percorreu a estante até encontrar o que ele pediu. Sentou-se dizendo:
-Aqui está. Posso começar?
-Por favor.

Processo (a)
As palavras mais simples, mais comuns, 
As de trazer por casa e dar de troco, 
Em língua doutro mundo se convertem: 
Basta que, de sol, os olhos do poeta, 
Rasando, as iluminem. 


Com voz pausada, ela foi lendo, um após outro, os poemas do autor, perante o silêncio dele. Um quarto de hora depois foi interrompida.
- De momento chega. Importa-se de conversar um pouco? A Isabel lê muito bem. Sente o que está a ler. E decerto, este não é o tipo de poeta, que uma jovem prefere.
- Porquê?
- Pelo que me leu, não são poemas de amor  e esses são normalmente, os que as jovens mais gostam de ler.

- Realmente nunca tinha lido poemas de José Saramago, embora tenha lido muitas  das suas obras em prosa. Mas contrariamente ao que diz, senti, que eram poemas de amor. De amor à liberdade, à fraternidade, e à luta por um mundo melhor. É talvez um amor diferente, mas nem por isso deixa de ser amor.

- Tem um excelente sentido de análise. Não é muito vulgar nas jovens de hoje.
- Talvez eu nem seja tão jovem assim. Ou talvez tenha tido um bom mestre, - respondeu perscrutando-lhe o rosto, tentando adivinhar alguma emoção.
- E teve?
- Sim. Um grande amigo, que me iniciou nas leituras, ensinando-me a buscar o 
verdadeiro sentido daquilo que lia.

Será que ele se lembraria dela? De quando leram juntos, os "Contos da Montanha" de Miguel Torga, ou "Por Quem os Sinos Dobram"  de  Hemingway? Ou ainda como lhe ensinou a gostar de Saramago, lendo-lhe "Levantado do chão" e explicando-lhe um Alentejo sofrido e lutador, que ela não conhecera e ainda não dera na escola.  Dos livros que lhe emprestou, e que ela lia com sofreguidão, só pensando em estar à altura dele? Se o fez, não deixou transparecer no seu rosto nenhum sinal visível.
- Pode-se dizer então, que gosta muito de ler.
- Gosto? Sou uma leitora compulsiva.



(a) - José Saramago, em "Os poemas possíveis". 3ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1981.

14.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXII


Mais tarde, Teresa recordaria aquela primeira saída com o empresário como um dia especial. O almoço decorrera em harmonia, como se efetivamente fossem velhos amigos. João falou do seu trabalho, dentro da firma que ele mesmo criara, do jogo que lançara na véspera, de como se sentia feliz e divertido enquanto criador de jogos, que iriam divertir muita gente em todo o mundo.

Teresa disse que era mais ou menos a mesma sensação que ela sentia, quando conseguiam um novo creme ou uma nova massa.

- És pasteleira? Foi o que cursaste?

- Não. Cheguei ao último ano de Economia.  Fui até há pouco tempo a gerente. Tenho um pasteleiro, um homem fantástico, que me ensinou muitos dos segredos de pastelaria e com quem gosto de experimentar novas criações. Mário é um homem incrível, sem ele não teria conseguido o sucesso que consegui. Foi ele que ao levar-me até ao seio da sua família, evitou a minha solidão, quando a minha tia-avó Julieta morreu.

João, remexeu-se na cadeira. Quem raio era aquele Mário, de quem ela falava com tanto entusiasmo. Sentiu-se incomodado. Ele não podia estar com ciúmes do pasteleiro, ou podia? Alheia aos pensamentos do empresário, Teresa continuou:

-Fui até há pouco tempo a gerente. Agora estou afastada. Contratei a filha do Mário como gerente. É minha amiga, tenho plena confiança nela, e sei que o pai a ajudará nalgum problema que possa surgir como me ajudou a mim, tantas vezes. Há cinco anos que trabalho de segunda a sábado mais de doze horas por dia. Resolvi fazer uma pausa durante um ano ou dois. Graças a Deus o negócio vai muito bem, posso dar-me a esse luxo.

Tinham acabado a refeição, e Teresa sentia-se feliz porque não se sentira enjoada, nem com vómitos como ao pequeno almoço.

O empregado retirou o serviço deixando a carta das sobremesas e eles escolheram “Ananás dos Açores confitado”

Depois do café que apenas João tomou, ele pediu e  pagou a conta. Saíram do restaurante e caminharam lado a lado, em direção ao Mercedes que os esperava no parque. Apesar do empresário não lhe ter tocado, Teresa estava por demais consciente do homem que seguia a seu lado. Já no automóvel, ele disse:

-Gostava de te mostrar a minha empresa. É sábado, não haverá ninguém lá senão o porteiro e os seguranças. Queres ir, ou sentes-te muito cansada?

-Estou um pouco cansada sim, mas o pior é o sono. Estou tão sonolenta que sou capaz de me deixar dormir no carro.

- Se assim é, faz a vontade ao corpo. Eu vou devagar, e quando chegarmos já estarás mais desperta.

Pôs o carro a trabalhar e fez a manobra para seguir em direção a Sintra. A volta era maior, mas se ela adormecesse dava-lhe um pouco mais de tempo para descansar. Sentia-se bem junto dela, não queria ir já levá-la a casa. Era a primeira vez que se sentia tão bem junto de uma mulher que não era sua amante.  Bom, também se sentia bem quando saía com Olga. Mas Olga não contava. Era como uma irmã mais velha. Naquele momento ouviu uma respiração diferente e olhou a sua companheira. Teresa tinha adormecido.

Tinha no rosto uma expressão suave, nada semelhante à tensão que demonstrava na ida para o almoço. Parece que a sua estratégia para ganhar a confiança dela, estava a resultar.


9.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXX

 



Abriu a porta da rua, e João já se encontrava de pé junto do seu automóvel. Vestia umas calças pretas e uma camisa branca de mangas arregaçadas. Ao vê-la puxou os óculos escuros para a testa, e aproximou-se. Indecisa sobre como cumprimentá-lo, numa sociedade onde quase toda a gente usava o beijo social, mas não se sentindo à vontade para o fazer, aguardou que ele tomasse a iniciativa, e João estendeu as mãos e segurou as dela.

- Bom dia, como estás?

- Bem e tu? – retorquiu sentindo que a voz lhe tremia, nervosa com o calor que as mãos dele estavam a provocar no seu corpo. Que era aquilo? Nunca tinha sentido nada igual, só podiam ser as suas hormonas descontroladas com a gravidez.

-Eu estou bem, mas vamos para o carro, está muito calor – disse largando-lhe as mãos e pegando-lhe no braço.

Acompanhou-a ao carro, abriu-lhe a porta e esperou que se sentasse para  a fechar, puxar os óculos escuros para os olhos, dar a volta ao carro e sentar-se ao volante. Ligou o motor e arrancou, ao mesmo tempo que lançava um olhar rápido sobre a sua companheira. Reparou que também ela tinha colocado os óculos escuros, tinha as mãos no colo, uma apertando a outra, e uma postura rígida, como se não estivesse à vontade ou temesse algo. Sorriu.

- Pensei que, dado que estamos no verão, seria agradável almoçar à beira-mar. Reservei mesa no Albatroz em Cascais. Conheces?

-Não.

- O serviço é bom, o ambiente estupendo e a vista espetacular. Acredito que vais gostar.

- Tenho a certeza que sim.

O silêncio que se seguiu foi quebrado quando ele disse:

-Não te conheço bem, mas em relação à última vez que te vi, acho-te abatida. Tens passado mal?

- Até agora não. Apenas tinha muito sono. Mas esta manhã começaram os enjoos, e levei mais de duas horas com vómitos.

- E quando vais ao médico?

-Mês que vem, dia seis. Faço oito semanas, e vou fazer a primeira ecografia.  Parabéns pela tua festa. Vi a reportagem nas notícias, ontem, parece que foi um sucesso - disse para mudar o rumo da conversa, pois não se sentia à vontade para falar da sua gravidez com ele. Era certo que era o pai do seu bebé e que ela lhe tinha prometido que ele faria parte da vida da criança, mas isso não impedia que falar do seu estado, fizesse com que o seu rosto parecesse um tomate e sentisse vontade de se esconder, onde ele não a visse, pelo menos até ao nascimento do bebé. Percebendo ou não o que se passava com ela, João disse:

- Olha Teresa, acredito que esta situação seja difícil para ti; e de certa forma também o é para mim. Afinal somos dois desconhecidos que por um erro médico se vêem obrigados a conviver. Todavia somos os dois adultos, ambos queremos essa criança, e por ela estamos dispostos a lutar.  E como sabes neste caso há duas formas de luta. Ou lutamos um contra o outro, com todos os inconvenientes que isso acarreta, especialmente para a criança, ou lutamos lado a lado para que cresça num ambiente de amor e respeito.  

Tinham chegado ao parque do restaurante, ele estacionou o carro e levantou os óculos escuros, voltando-se para ela, que desapertava o cinto. Esticou o braço e tirou-lhe os óculos. Uma lágrima desprendeu-se dos olhos femininos e deslizou-lhe pelo rosto. Num movimento suave com o dedo grande ele limpou-a.

-Confia em mim, Teresa. Juro-te que não te farei mal, se fores leal comigo. E agora põe um sorriso nesse rosto bonito e vamos entrar que está na hora.

7.12.19

CONTOS DE NATAL - O URSINHO COR DE CARAMELO


Ah-ha! Finalmente tinha encontrado o presente perfeito para a meia de Eric!
O urso cor de caramelo estava sentado, todo empoleirado, em exibição junto da montra da frente da loja. Numa mão segurava uma bola de futebol, mesmo com os cordões e tudo e, na outra, um capacete! Depois de ter localizado o urso, já sabia que tinha que me esgueirar até lá mais tarde, para o comprar sem ter os mais pequenos à minha volta. Estava tão entusiasmada!


Todos os anos, a nossa família ia para o centro comercial durante uma hora para arranjarmos as prendas de Natal uns dos outros. O meu marido, David, e eu separávamo-nos, levando um ou dois miúdos a fazer as compras para os outros membros da família. Depois, encontrávamo-nos num sítio combinado e trocávamos de miúdos para completar as listas.

Após o almoço, os três miúdos já tinham acabado as suas listas.
David levou então as crianças, cansadas mas felizes, para o carro, onde eu me juntaria a eles depois de completar a minha incumbência específica. Os miúdos tinham-se portado mesmo bem, e eu não demoraria porque sabia exatamente o que queria e onde estava.

Ao entrar na pequena loja, o empregado cumprimentou-me com um alegre sorriso.
— Posso ajudá-la?
— Oh, não, obrigada! — disse eu, toda confiante. — Estive aqui ainda há pouco, e agora escapei-me de volta sem as crianças para comprar o que preciso.
Apressei-me em direção à prateleira, pronta para agarrar no bichinho e ir embora. Imaginem a minha surpresa! O urso não estava lá! Remexi em todos os outros animais de peluche em exposição — mas nada de urso cor de caramelo.
Interpelei o empregado, que respondeu:
— Oh, lamento. Alguém comprou esse urso mesmo há pouquinho, e não temos mais.

Sentia-me derrotada. Tinham sido só umas duas horas! Quem poderia ter comprado aquele urso? Poderia procurar uma outra coisa, mas já tinha estado em praticamente todas as lojas do centro comercial sem ter visto algo que se aproximasse sequer do presente ideal. Além disso, os meus filhos estavam no carro, à espera. Com um enorme suspiro, apressei-me a sair do centro, ao encontro da minha família.

Na manhã de Natal os miúdos abriram todos os seus presentes.
Agora era a nossa vez.
— Mamã, abre primeiro o meu!
Eric irradiava alegria, empunhando o seu presente embrulhado em papel infantil.
— Está bem. O que é que me terás comprado?
— Não te digo!

Era o primeiro ano em que ele nada dizia, ele que geralmente proclamava bem alto os segredos de Natal que sabia!
Abri a embalagem devagar.
— Humm… O que será isto? — provoquei-o.
Ele riu-se.
— Abre e logo vais descobrir!

Assim que o papel se abriu totalmente, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Diante de mim estava o urso cor de caramelo que eu tanto queria para ele!
E ele tinha-o comprado para a minha coleção de ursinhos!
— Gostas?

A sua carinha esperava, ansiosa e orgulhosa.
— Na verdade, eu também queria muito esse urso, mas achei que seria um lindo presente para ti, Mamã!

Engolindo as lágrimas, abracei-o e disse-lhe:
— Adoro, querido. Obrigada. É realmente a prenda perfeita!

Paula F. Blevins


18.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE IX




Quando voltou, duas horas mais tarde, a tia Rosa já tinha chegado, com o seu inseparável Tomé, um gato que quase não se conseguia mexer, de tão gordo que estava. A mãe, já estava com o almoço pronto para pôr na mesa. Depois de beijar a tia, comentou:
- Gordinho o bichano, tia.
- Que queres, ficou assim depois de castrado. Já me tinham dito, mas o malandro não parava em casa antes da operação.
- Coitado...
 – Vamos almoçar que se faz tarde – interrompeu a mãe com a terrina da sopa na mão.
O almoço foi servido com as duas mulheres sempre tagarelando. Absorto nos seus pensamentos, Pedro isolou-se da conversa e foi com sobressalto que sentiu a mão da tia no seu braço, seguida da pergunta:
- Não me estás a ouvir, rapaz?
 – Desculpe tia, estava a pensar nas férias...
 – Então vê se me arranjas por lá namorada, que eu bem sei o desgosto que a minha irmã sente de nunca mais te resolveres a criar o teu ninho. Sabes que és um caso raro na nossa família? Nunca ninguém esteve solteiro até à tua idade.
- Ora tia, quando chegar a hora, eu penso nisso...
 – Quando chegar a hora? Mas rapaz estás quase com trinta anos.
 

Incomodado com o rumo da conversa, Pedro levantou-se dando o almoço por terminado.
- Vês o que fizeste, mulher? - A voz da mãe fez-se ouvir em tom de reprovação. - Por tua causa não comeu o suficiente.
- Ora essa! Mas eu não disse nada demais. Não me digas que o teu filho fez votos de castidade. Ora se ele não é padre...
 – Nada disso, minha mãe- apressou-se a dizer o jovem, para evitar a preocupação da mãe. - Não quis comer mais para não me dar o sono a conduzir. Pelo caminho paro em qualquer lado e como mais alguma coisa. Vou pôr as malas no carro. A distância é grande, e a mãe sabe que não gosto de velocidades.
E dizendo isto voltou costas às duas mulheres, que continuaram a conversar. Tratou de meter a bagagem no carro e voltou para se despedir. Abraçou primeiro a tia, fazendo-lhe recomendações em relação à mãe, e por fim abraçou esta, apertando-a com força junto ao peito.
- Que se passa, filho? Sinto-te estranho desde ontem. Parece que me escondes alguma coisa.
- Nada mãe, é que é a primeira vez que vou de férias sem a sua companhia – enquanto tentava tranquilizar a mãe, não pôde deixar de pensar que coração de mãe sempre adivinha o que lhe querem esconder.
Arrancou e sem olhar para trás ergueu a mão num adeus. Sabia que as duas mulheres iriam estar ali acenando até o carro desaparecer na curva da estrada.

14.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXIV







No dia seguinte às onze horas o telemóvel tocou.
- Falaste com ele? – Perguntou ansioso
- Acabei de o fazer.
- Disseste-lhe que sou seu pai, e que quero vê-lo?
- Sim.
- E ele?
- Ficou muito feliz. Nunca tinha percebido o desejo que ele tinha, de ter um pai, presente. Queria saber quando vens. Disse-lhe que vinhas jantar.
Fez-se silêncio do outro lado.
- Que foi? Arrependeste-te? Devia imaginar! - Indignou-se ela ao pensar na decepção do menino.
- Muito mal me julgas, - disse com tristeza. - Escuta, não tens com quem deixá-lo após o almoço? Quero mostrar-te uma coisa, antes de me encontrar com o nosso filho. É muito importante para mim, para ele, para todos nós.
Que poderia ser tão importante assim? E que relação poderia ter com Martim? E, com quem deixar o menino num domingo, dois dias antes do Natal? Será que os padrinhos poderiam ficar com ele?
- Então? Posso ir buscar-te?
- Não sei. Vou telefonar à Luísa. Se ela não puder ficar com ele, não poderei ir. Telefona-me dentro de meia hora.
Desligou, e marcou o número da amiga.
- Luísa?
- Olha que milagre! Pensei que te tinhas esquecido de nós.
- Não. Aconteceram muitas coisas. O Rui descobriu o Martim
- O quê? Como foi isso?
- Depois conto-te. Agora o que interessa é que o Martim já sabe que o pai voltou, que vai chegar esta noite para jantar, mas o Rui quer que eu vá sair esta tarde com ele. Diz que é muito importante, algo que tem para me mostrar ou dizer, antes de conhecer o filho. Tenho medo, de que possa ser alguma coisa genética, sei lá. Estou apavorada. Podes ficar com o Martim?
- Claro que sim, mulher. Estava a pensar levar o André ao circo esta tarde. Aproveito e levo os dois. E não te preocupes. Não deve ser nada de importante.
- Obrigada. Nem sei como te agradecer. O Martim vai ficar radiante quando souber que vai ao circo.
Desligou o telefone e chamou o filho
- Chamaste mamã?
- Sim filho. A madrinha vem buscar-te a seguir ao almoço. Vai levar-te ao  circo com o André.
- Que bom! -Gritou o garoto, batendo as palmas.
Voltou para a sala, onde estava a ver os desenhos animados.
O telemóvel voltou a tocar.
- Então?
- Vem buscar-me às duas e meia.
- Obrigado.
Desligou o aparelho com uma interrogação:
Aquele obrigado, soara-lhe como um soluço contido, ou fora ilusão sua?





31.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XII


Na hora do almoço, não se falava de outra coisa no refeitório, que não fosse o novo dono, e a recente reunião.
As duas amigas, que sempre partilhavam a mesma mesa, não fugiam à regra.
- Que te pareceu Tê?
- Implacável.
- Sabes que tive a mesma sensação? Um homem disposto a tirar do seu caminho, tudo o que possa impedi-lo de chegar aonde quer. Desculpa, - disse ao ver as lágrimas assomarem ao rosto da amiga. – Não queria magoar-te.
- Não tens culpa. É verdade. Só que às vezes as verdades magoam. Apesar de tudo, acredito que se alguém pode salvar a empresa, esse alguém é ele.
- Ontem à noite, fui ao Google pesquisá-lo. Já o fizeste Tê?
- Não. Não quero saber nada dele, a não ser que de momento é o meu patrão. Já te disse que vou começar a enviar currículos para outras empresas.
- Pois digo-te que é impressionante o que descobri. Tem imensos e diversificados negócios, a maior parte na Inglaterra.  É muito rico. E deve ser solteiro. Não li nada sobre casamento.
- Não me interessa, Luísa.
- Não mesmo, amiga? Então porque pensas ir-te embora? Se fosse como dizes, tinhas necessidade de fugir dele? Esqueces que te conheci antes e depois que te deixou sozinha, que acompanhei toda a tua gravidez, as tuas noites de choro? Pode um amor tão forte, morrer assim sem deixar uma réstia de esperança, uma pequena fagulha pronta a reacender-se?
- Pode. Não há amor que sobreviva a uma grande traição. E o seu abandono sem uma explicação, ao fim de dois anos de entrega total da minha parte, foi uma traição sem tamanho. Temo que ele descubra o Martim. E que mo queira tirar. Como viste à pouco, é implacável quando quer alguma coisa.
- Não me convences Tê. Já te olhaste ao espelho? És uma mulher muito bonita. Tens tido nestes anos vários pretendentes. E mantens – te só. Não sais com um homem há séculos, se é que saíste com algum depois do Martim nascer. E se ele é o pai do teu filho, diz-me tu, se houve mais algum homem na tua vida.
- Não quero dar um padrasto ao meu filho. Estamos muito bem os dois sozinhos.
-E à noite na cama? Não sentes falta de um homem? O corpo não te anseia por nada?- perguntou Luísa quase num murmúrio.
- Sabes bem que há outras coisas, capazes de aliviar a tensão do corpo, sem recorrer ao homem. - Respondeu no mesmo tom
Tinham acabado a refeição, iam voltar aos seus postos de trabalho.
- Para o corpo sim, e para o coração? – Perguntou Luísa pondo-se de pé.
Teresa não respondeu.


28.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE VII




- A sua irmã inventou essa história. Olhe para mim. Há dois anos tinha trinta e sete anos. Acha que me ia meter com uma jovenzinha de quem quase podia ser pai? Quem pensa que sou?
-Não sei. Não o conheço, mas não acredito que a Susana tivesse inventado semelhante história. Se não o conhecesse como iria saber da sua existência. De resto esta discussão não tem sentido. Basta que faça um teste de ADN e fica tudo esclarecido.
-Teste de ADN, pois claro. Como é que não me lembrei disso. Teria disponibilidade para fazer o teste amanhã?
-Hoje mesmo se quiser. Mas antes deixe-me dizer-lhe que não pretendo nada do senhor, e que só lhe dei conhecimento da existência da Matilde porque a minha irmã assim o desejava, e o deixou bem expresso, na carta de despedida como pôde ler. Ela acreditava que todas as crianças deviam conhecer e conviver com o pai. Espero que não tenha ideias de ma tirar, quando tiver a confirmação do teste. A Susana já estava em depressão quando ela nasceu, não tinha condições de tratar da sua pessoa, quanto mais de uma filha. E eu fui desde a primeira hora, a sua verdadeira mãe, a única que conheceu.
- Se a menina fosse minha, decerto que iria lutar por ela e trataria de lhe dar a melhor vida possível. Mas não corre esse risco, fique descansada. Esta tarde mesmo vou tratar disso. Pode dar-me um número de telefone para onde eu possa informar do dia e hora do exame?
Ela deu-lhe o número que ele registou no telemóvel. De seguida levantou-se e dirigiu-se para a porta. 
- Não quer ver a menina? perguntou Isabel
- Não há a mais remota possibilidade de que ela seja minha filha. Convença-se disso. E depois do teste vou impugnar essa certidão. Tenha a certeza.
Natália saiu da cozinha com a menina ao colo, logo depois que ela cerrou a porta, nas costas do empresário.
- Era o pai da Matilde? – perguntou enquanto lhe passava a criança para os braços.
- Não sei. Ele diz que nunca conheceu a Susana e afirma-se muito seguro disso. Inclusivo vai marcar um exame de ADN, para provar que não tem nada a ver com a menina. Disse-me que a Susana mentiu, que nunca se meteria com uma jovenzinha e se o fizesse assumiria as suas responsabilidades. E a verdade é que parecia sincero. Estou tão confusa.
- Está a querer fugir com o rabo à seringa, Como é que a Susana sabia da sua existência, para registar a menina em seu nome?
- Não sei Natália, ai, não puxes os cabelos à mãe, querida. Vamos já almoçar.
- Já lhe dei o almoço enquanto atendia o homem. Reparou bem nele?
- A Matilde está a cair de sono. Uma vez que já lhe deu o almoço, vou deitá-la e já conversamos.
Levou a menina para o quarto, mudou-lhe a fralda e deitou-a. Depois voltou à cozinha.


Estou de volta, mais logo já vou visitar-vos. Ontem cheguei super cansada da minha visita de estudo. Vários museus e um castelo,  em S. Bartolomeu de Messines e Silves. Fartá-mo-nos de andar, e de subir com um calor abrasador. Trinta e quatro graus à sombra. Daqui a dias estarão as fotos no "As minhas imagens." 
A quem perguntou pelo meu cunhado, ele está a recuperar, foi transferido do S, José para e Curry Cabral, já começou a fazer fisioterapia.

23.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE III




Isabel poisou o prato em cima da mesa da cozinha, retirou o babete à menina e pegando-lhe ao colo tirou-a da cadeira.
- Agora vamos mudar a fraldinha, e a Matilde  vai fazer ó-ó.
Levou a menina para o quarto, mudou-lhe a fralda e deitou-a. Fechou a persiana e saiu.
Lavou e arrumou a loiça do almoço, separou a roupa branca da escura e pôs a máquina a lavar.  Finalmente sentou-se um pouco no sofá. Estava cansada. Fechou os olhos e deixou-se levar pelas lembranças.
Isabel tinha dez anos, quando o pai falecera, vítima de atropelamento, quando regressava a casa, depois de um dia de trabalho, deixando a mãe com duas crianças pequenas. Ela e Susana então com três meses de idade. Fora uma vida de muitos sacrifícios para a mãe, mas apesar de não terem brinquedos caros, nem roupas de marca, nunca lhes faltou o necessário, embora a mãe tivesse que deitar mão a qualquer trabalho extra que lhe aparecesse já que o ordenado como operária numa fábrica de confeções, era curto para alimentar, vestir, calçar e educar duas filhas. Menos mal que o seguro de vida do marido pagou a casa, pelo que tinham um teto para morar e não tinham que se preocupar com a despesa da renda da casa.
Isabel compreendia a situação, e não tinha outro desejo que não fosse acabar o secundário e arranjar um trabalho que lhe desse pelo menos para as suas despesas. Assim quando acabou os estudos empregou-se numa retrosaria e matriculou-se na faculdade a fim de tirar o curso de secretariado e tradução. Mais tarde, pouco antes da morte da mãe, Acabado o curso, serviu-lhe para se empregar como secretária numa grande empresa, com um bom salário.
Susana sempre fora uma criança difícil. Talvez que lhe tivesse faltado a disciplina dum pai. A mãe trabalhava tanto que quase não tinha tempo para ela, e a irmã vivia desculpando a sua rebeldia.  Melhorou depois que foi para a Universidade, e principalmente durante o tempo que namorou com Ricardo.
Isabel não chegou a conhecer o empresário. Susana nunca o convidara a ir lá a casa, e ela suspeitava que a irmã tinha vergonha da casa delas, dos móveis antigos e fora de moda. Depois de repente, o namoro acabou e a irmã ficou ainda mais instável e deprimida. E se a gravidez foi vivida quase de forma apática, a situação piorou bastante depois do nascimento da filha, até que dez meses antes, Susana se suicidara, deixando-lhe aquela carta e a sua filha.
E como um mal nunca vem só, logo após da morte da irmã,talvez por conta do tempo de crise que o país vivia, a empresa onde trabalhava, abriu falência. Agora quase a terminar o subsídio de desemprego, ela precisava com urgência de arranjar um trabalho que lhes permitir-se sustentarem-se.

8.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIII


No dia seguinte, com as férias a meio estava a caminho de casa. Apesar de toda a beleza dos sítios onde estivera, ela sentia falta do trabalho, do "stress" da cidade.  As belezas naturais tinham deixado de a entusiasmar. Que importava ter na sua frente a oitava maravilha do mundo, se não tinha ao lado ninguém, com quem partilhar os sentimentos que a sua beleza lhe provocava?
“Estás mal Paula. Se a aproximação dos trinta, te põe assim, que será de ti quando chegares aos quarenta?” – pensou enquanto se dirigia pela autoestrada em direção a casa.  Parou na área de serviço de Alcácer do Sal para esticar as pernas e beber um café. Aproveitou para telefonar para o escritório
- Estou.
- Irene estou a caminho de casa. Não sei se rejeitaste algum trabalho, mas a partir deste momento podes aceitar o que aparecer.
- Mas…não ias estar um mês de férias?
- Cansei de não fazer nada. Amanhã falamos.
Desligou a chamada, e voltou ao carro decidida a chegar a casa o mais depressa possível. O dia estava bonito mas a temperatura acima dos trinta e cinco graus, fazia-a desejar tomar um duche refrescante, vestir uma roupa leve, e ficar por casa a mandriar. Infelizmente quando chegasse tinha que ir fazer compras, pois não tinha nada em casa, e retomando o trabalho no dia seguinte, ficava com o tempo mais escasso.
Uma hora depois entrava em casa. Foi à cozinha, levantou a persiana a fim de deixar entrar a luz, e abriu as torneiras de segurança da água e do gás. Ligou o frigorífico, e foi à sala onde levantou a persiana apenas o suficiente para dar à divisão um pouco de luz, já que aquela hora o som incidia com toda a sua força sobre aquela janela. Voltou ao corredor, pegou na mala e na bolsa, e dirigiu-se ao quarto, onde as largou, junto aos pés da cama. Fez subir a persiana, e foi à casa de banho onde se despiu, meteu debaixo do chuveiro e deixou que a água tépida deslizasse pelo seu corpo suado, como uma carícia.
Terminado o duche, enrolou uma toalha à volta do corpo, e foi ao quarto onde procurou, uns calções brancos e um top da mesma cor. Da primeira gaveta da cómoda, retirou um conjunto de roupa íntima branca, uma delicada mistura de  algodão e renda, e retirando a toalha vestiu-se em seguida, sem utilizar o creme hidratante que costumava usar. Estava tanto calor, que certamente tomaria outro duche a meio da tarde, e aí sim utilizaria o creme. Pegou no telemóvel e marcou o número da madrasta.
-Estou…
-Cidália, já voltei. Como estão?
-Estou sozinha. O teu pai foi pescar com uns amigos e o Miguel. Parece que os amigos também levavam os filhos, num programa de pais e filhos. Só devem vir lá para o fim da tarde.
-E já almoçaste? Podias vir almoçar comigo. Não tenho nada em casa tenho que ir às compras, almoçávamos no Centro Comercial.
- Passas por aqui a apanhar-me?
- Estou aí dentro de quinze minutos. Até já.
Poisou o telemóvel em cima da mesa da cozinha. Abriu uma gaveta tirou um bloco, uma caneta, e foi fazendo uma lista daquilo que precisava comprar. Quando terminou, arrancou a folha, dobrou-a e guardou-a na mala, juntamente com a carteira, os documentos e o telemóvel. Pegou as chaves e saiu.




26.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIII







Chegou uns minutos depois.
- Desculpem. Atrasei-me um pouco. Vou só lavar as mãos, volto já.
O almoço decorreu animado. Matilde, queria saber tudo, fazia muitas perguntas.
Simão respondia brincando com a irmã. Os pais sorriam felizes, e Ana comia calada. Sentia-se marginalizada. Porque é que o irmão, não tinha sido assim simpático com ela, como o estava sendo com Matilde?
Acabado o almoço, o pai voltou para o escritório. A irmã, que tinha combinado ir ver uma casa com o noivo, despediu-se dizendo que iria à noite ao aeroporto.
Simão, também se aprestava para sair, quando ela disse:
-Espera. Quero falar contigo.
A empregada, levantava a mesa, e a mãe que se dirigia para a sala, disse.
- Porque não vão para o escritório do pai? Lá podem conversar à vontade.
Nenhum dos dois respondeu, mas Ana encaminhou-se para o escritório, e ele seguiu-a.
Ela entrou e aproximou-se da janela. Ele fechou a porta e apoiou nela as costas.
Semicerrou os olhos. Como era linda. Assim, vista na contraluz da janela, era como uma aparição.
Decorreram uns momentos de espera até que ela se voltou. Estava zangada. Ele sabia. Conhecia-a, como se conhecia a si mesmo. Escondeu as mãos nos bolsos, para que ela não se desse conta dos punhos cerrados, quando se aproximou.
- Vais ficar aí especado sem dizer nada? A porta não cai.
- Eu? – Procurou parecer indiferente. - Estou à espera. Afinal foste tu que quiseste falar comigo.
- Vais-te embora hoje e não me dizias nada. Soube pelo pai. -  queixou-se ela.
- Não tinha que te dizer, Ana. Sabias que ia estar poucos dias, tenho uma exposição na próxima semana. Tens a tua vida, a tua casa, que nem sei onde fica, não ia ao escritório para to comunicar. Além disso, supus que o pai o fizesse.
- Não é desculpa, Simão. Os telefones também servem para as pessoas se comunicarem. E não me venhas dizer que não sabias o número. Qualquer pessoa desta casa, to daria.
Era verdade. Ele sabia que lho devia ter comunicado. Porém preferia partir sem se despedir dela. Era menos doloroso. E só ele sabia o quanto lhe doía.  

reedição

Amanhã vou estar fora em visita de estudo. Desculpem a ausência