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25.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE X




Na rua o homem parou, piscou os olhos por causa da luz daquele bonito dia de sol, e respirou fundo. Depois retomou a marcha, seguindo Helena em direção ao carro. Quando o veiculo começou a rodar, ela comentou:

-Amanhã, vamos ao centro comercial. Precisa de comprar algumas roupas.
- Mas como? Não tenho dinheiro!
- Eu sei. Mas posso emprestar-lhe o suficiente para que compre o necessário. Pagar-me-á quando recuperar a sua vida.
- E se isso nunca acontecer, doutora? Não posso viver às custas da sua generosidade.
- Não se preocupe. Quando menos esperar, recupera a memória. Foi pena que não se deixasse hipnotizar. Podia ser que o psiquiatra tivesse descoberto algo.
- Mas não foi culpa minha, juro.
- Chegamos, - disse ela estacionando o carro junto de um prédio de apartamentos. Moro no segundo andar. Vamos?

Acionou o mecanismo da chave para fechar o automóvel, ao mesmo tempo que se dirigia para a entrada do prédio seguida pelo homem. Se a porteira a visse, decerto ia estranhar. Morava ali há três anos, e nunca entrara ninguém na sua casa, a não ser a empregada, e os seus pais, quando vinham passar uns dias com ela. 

Não utilizaram o elevador. Ela nunca o usava, preferindo subir os dois lances de escadas, e naquele dia não foi diferente, até porque pensou, que depois de tantos dias, na cama, ele precisaria de exercício. Abriu a porta, acendeu a luz, pendurou a mala num cabide à entrada e voltando-se para ele que se mantinha em silêncio, disse:
- Venha, vou mostrar-lhe a casa. Aqui é a sala, digamos de recreio. Aqui pode ler, ouvir música, ou ver TV. Aqui é a sala de refeições. É pouco utilizada, como vivo sozinha com o filho, comemos sempre na cozinha. É mais aconchegante. O quarto principal, o quarto do Diogo, e o quarto dos meus pais, que será o seu, enquanto aqui estiver. No armário, estão algumas roupas, para dormir confortável hoje. Espero ter acertado com o tamanho. Aqui  são as casas de banho. Esta é a que uso com o Diogo. 
A porta ao lado, é de outra casa de banho cuja diferença consiste, em que esta tem banheira, e a outra apenas duche. No resto são iguais. Poderá usá-la.
E finalmente a cozinha. 
Voltou-lhe as costas, mas ele pôs-lhe uma mão no ombro e forçou-a a voltar-se. Segurou as mãos dela entre as suas, e perguntou olhando-a com intensidade:




19.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE VIII

 


Uma hora depois, Gonçalo acabava de dar a sopa ao seu afilhado, Miguel de vinte e seis meses, enquanto a irmã punha a mesa para o almoço deles.

Então, Laura disse à filha:

- Sara, já acabaste de comer, vai para a sala brincar com o mano, enquanto a mãe e o tio almoçam. Podes ligar a televisão.

As crianças saíram e os dois sentaram-se à mesa. 

Ele e a irmã tinham uma pequena diferença de idades, dois anos apenas e desde criança, sempre foram muito unidos, até que ainda na Universidade ela conhecera Joaquim Cardoso e os dois se apaixonaram. Laura ficou grávida e foi complicado, os dois eram muito jovens, estavam ainda a terminar o curso, tinham a cabeça cheia de sonhos, e o terem de casar à pressa não era nenhum deles. 

Mas quando tomaram conhecimento da gravidez, de imediato a assumiram, sem que o aborto passasse pela cabeça de nenhum deles. Joaquim, estava a terminar o curso de direito, já tinha assegurado trabalho em Lisboa, no escritório do tio, também advogado.

 Laura formara-se em Literatura e Línguas, sonhava ser professora. Tinham casado pouco antes do fim do curso e logo que o terminaram mudaram-se para Lisboa, onde ficaram a viver em casa dos tios do Joaquim, que na prática era como se fossem seus pais, pois o criaram desde que aos seis anos perdera os pais num acidente.

Fora um grande desgosto para os seus pais, especialmente para a mãe que sonhava com outro tipo de casamento para a filha. Não que tivesse algo contra Quim, (era assim que amigos e família o chamavam), mas não queria separar-se da filha, principalmente quando esta estava prestes a torná-la avó.

Gonçalo apoiou o casal, mostrando aos pais que não tinha qualquer sentido, Laura ficar em casa dos pais em Braga, quando os dois estavam tão apaixonados e Quim ia começar uma nova vida em Lisboa. Ele precisava do apoio da esposa, não de estar preocupado e cheio de saudades, porque a mulher ficara lá longe.

Sara nascera cinco meses depois. Era uma menina linda, mais parecida com o pai e o tio do que com a mãe. E Laura ficou em casa com ela, até aos dois anos, altura em que a levou para uma creche, e iniciou a sua carreira de professora, num colégio particular bem perto de casa.

Durante dez anos, foram um casal feliz. Tão feliz que tinham resolvido ter outro filho.  E então sem nada que o fizesse prever, no final de uma tarde de Outono, Quim que em toda a sua vida nunca se queixara sequer de uma dor de cabeça, sentiu-se mal, e morreu a caminho do hospital. A autópsia registara que morrera de um aneurisma cerebral. Sara tinha dez anos e Laura estava grávida de cinco meses. E fora nessa altura que Gonçalo viera para Lisboa. Inicialmente ficara a viver com a irmã, apoiando-a na gravidez, cuidando da sobrinha, de modo a que elas ultrapassassem aquela fase de maior dor.

Apoio que se manteve, depois de Miguel ter nascido, até que há meio ano atrás, decidira que era altura de deixar a casa da irmã, e alugar um apartamento onde pudesse ter alguns momentos só para si.

Mas a irmã sabia que podia recorrer a ele sempre que precisasse desde que não estivesse de serviço no hospital.

- Já pensaste que talvez esteja na hora de pores o Miguel numa creche e voltares ao ensino? – perguntou Gonçalo enquanto partia um pouco de pão.

-Não. É ainda tão pequeno!

- A Sara tinha dois anos quando foi para a creche. O Miguel já tem mais dois meses.

- Mas a Sara tinha pai e mãe. O Miguel só me tem a mim.

 


24.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIV

 





 Sentia-se nervosa.
Quim ainda foi à cozinha, mas o tio já se tinha retirado, e estavam apenas os dois jovens ajudantes, a fazer a limpeza e  preparando as coisas para o dia seguinte.

E finalmente regressaram a casa.
Como se previamente tivessem chegado a acordo, ambos se dirigiram à sala. Quim deixou-se cair no cadeirão, ela sentou-se no sofá. Após uns minutos de silêncio, ele pediu.
- Fala-me de ti.
- De mim? – admirou-se. Será que o pai dele, não lhe tinha falado dela? - O que queres saber?- interrogou por sua vez.

- Tudo. Por exemplo, porque aceitaste este casamento absurdo?
Ficou espantada. Absurdo? Se era assim que pensava porque tinha escrito ao pai e lhe pedira para o organizar?
- Se pensas que é absurdo, porque o propuseste?

- Não é essa a questão, Sofia. Pelas razões de que já falámos, sabes que eu não podia ir a Portugal. Mas tu és mulher. Uma mulher muito bonita por sinal. Os teus pais podem ser considerados abastados, num país com o nível do nosso, especialmente nas aldeias. E és filha única o que faz de ti um excelente partido a quem não faltariam pretendentes. Julgo saber, o que os pais nas nossas aldeias, são capazes de fazer com a vida dos filhos, especialmente quando são mulheres. Também sei que os nossos pais são amigos. O que quero saber, é se tu aceitaste este casamento, de livre vontade, ou se o teu pai to impôs.

Sofia, pensou que a alusão dele à sua beleza, era um sinal de que tinha reparado nela. Respondeu sem saber onde ele queria chegar com semelhante interrogatório.
- O meu pai nunca me impôs que casasse contigo. Ele falou-me do teu desejo, de casares com uma moça da terra, e de que o teu pai gostava de mim para sua nora.  E eu aceitei. Só isso.

- Porquê? Para esqueceres alguém?
- Não há ninguém para esquecer, - respondeu irritada. Estava cada vez mais  nervosa. Porquê aquele interrogatório? Nem parecia o homem agradável que se mostrara até há poucos minutos.
- Desculpa. Não queria irritar-te. Apenas entender as tuas razões para te casares assim com um desconhecido. Eu sei que os casamentos por procuração são correntes no nosso país, mas geralmente são casais que já se conheciam, ou que foram namorados e por razões várias tiveram que se separar. Os casamentos entre desconhecidos, penso que serão bem mais raros.

18.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXIV




Saíram do elevador para um átrio, redondo, com amplas janelas por onde o sol entrava radioso. À volta das paredes, exceto na saída do ascensor,   inúmeros vasos com plantas, quebrado apenas por uma porta de carvalho. No centro maples de verga e uma pequena mesa também de verga com tampo de vidro, davam a ilusão de uma sala no meio da natureza.

- O que é isto? -perguntou Teresa sem saber o que pensar.

- Já vais ver, - disse ele pegando-lhe suavemente no braço, e levando-a em direção à porta que abriu. – Sê bem-vinda à minha casa.

- Vives aqui? – perguntou olhando surpreendida para a sala que se podia observar da entrada.

- Sim. Mas anda, vem sentar-te um pouco para descansares, depois mostro-te o resto da casa, - disse encaminhando-a para a sala.

- Meu Deus, - disse ela ao ver o tamanho da sala, - só consigo pensar na dificuldade em manter limpa esta casa. Como consegues?

- A empresa tem uma equipa de limpeza, e é essa equipa que limpa também a minha casa. E não tenho razão de queixa.  Queres beber alguma coisa? Uma água, um chá…

-Uma água, está bem.

-Vou buscar, - disse saindo da sala.

Voltou pouco depois com um tabuleiro no qual trazia uma garrafa de água mineral, dois copos e uma garrafa de cerveja.

Sentou-se na sua frente e depois de beber um gole de cerveja, disse:

- Pudemos conversar um pouco sobre o teu estado, ou ainda não te sentes à vontade comigo?

- O que queres saber?

- Estás bem de saúde? Pergunto, porque te queixaste de te sentires cansada e com muito sono. Eu pensava que esses sintomas só apareciam lá para o fim da gravidez.

-Penso que é normal, pelo menos esses sintomas são referenciados no livro sobre gravidez que tenho andado a ler. De qualquer modo tenciono telefonar à minha médica na próxima semana. Quero que ela me siga, ou me aconselhe alguém da sua confiança para me seguir.  Estou a pensar deixar o médico do Centro Clínico do PMA.

-Acho bem. Depois do que fizeram é difícil confiar neles.

Acabou de beber a cerveja, poisou o copo no tabuleiro, levantou-se e perguntou:

-Estás pronta para conhecer o resto da casa?

Em respostas ela levantou-se. Ele pegou no tabuleiro e saiu em direção à cozinha, seguido por ela.

- Meu Deus, esta cozinha é o sonho de qualquer mulher! – Teresa estava espantada com o tamanho, a beleza e funcionalidade da cozinha

- É também o meu.

- O quê, tu sabes cozinhar?

- Qual é o espanto? Vivo sozinho há muitos anos, e embora conheça bons restaurantes, por sistema não gosto de comer fora. Então, restavam-me duas opções. Ou aprendia a cozinhar, ou passava fome. Optei pela primeira. De resto, atualmente a Internet está cheia de excelentes receitas, e eu gosto de cozinhar.

 

10.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE V




O homem não respondeu. Pegou nas chaves, dirigiu-se para a porta, abriu-a e colocou-se de lado para ela entrar. Depois fez o mesmo e fechou a porta atrás de si. Então a sua mão agarrou-lhe o braço como se fosse uma tenaz, ao mesmo tempo que dizia com voz rude.
- Vamos lá, mocinha, vai levar-me para a sala, que precisamos ter uma conversa séria.
Qualquer coisa na voz dele, levou-a a obedecer, encaminhando-se para a sala. Aí chegados, ele empurrou-a sem muita delicadeza para o sofá, onde ela se deixou cair, pálida de medo e raiva. A tensão entre os dois era enorme.
Então ele rompeu o silêncio.
-Não sei como era o teu casamento, - disse tuteando-a – todavia a julgar pelo teu marido e pelo vício que o dominava, não devia ser muito feliz. Eu chamo-me André Ferreira Angeloni. Meio português, meio italiano, tenho trinta  e três anos, e sou jogador profissional. Acredites ou não, nunca nos dez anos que percorro os casinos, em todo o mundo, tinha encontrado um indivíduo tão agarrado ao vício quanto o teu marido. Naquele dia ele tinha gasto todo o seu dinheiro, mas queria a todo o custo continuar a jogar. A banca não lhe cedeu mais fichas, provavelmente conheciam-no e sabiam que ele não poderia pagar. Então ele começou a percorrer as mesas abordando os jogadores, oferecendo-lhes a casa em troca de quem lhe desse meios para continuar a jogar. Eu estou cá há pouco tempo. Não conhecia o teu marido, mas não sei que diabo me passou pela cabeça, que me prontifiquei a trocar o que me oferecia pelo que desejava. Uma avultada quantia que ele trocou por fichas,  para continuar a jogar. E claro, voltou a perder. E antes que fiques a pensar, em coisas escusas, eu nunca joguei com ele. No dia seguinte, ele não foi ao casino e dois dias depois, ouvi comentários sobre o seu suicídio. Nem sequer sabia que ele tinha feito um testamento a meu favor, nem que tinha incluído a cláusula de teres que viver comigo seis meses. Ainda não entendo porque o fez. Só o soube hoje no advogado.
A única coisa que tenho comigo, é o documento da dívida e a oferta da sua residência, e de todo o seu conteúdo, como penhora dela.
Meteu a mão no bolso e tirou o documento, que lhe jogou para o regaço.
-Aí está. Podes verificar a data e as assinaturas. Dirás que a casa vale muito mais. De acordo. Mas de qualquer modo, depois do testamento que o teu marido fez, isso já não conta. Ele o fez, de livre e espontânea vontade, e em pleno uso das suas faculdades. 
Além de jogador, eu sou um cidadão do mundo, cheguei há pouco tempo a Portugal, não sei quanto tempo vou ficar. Estou num hotel. Suponho que esta casa terá um quarto de hóspedes. Vou deixar-te só para que leias a carta do teu marido e prepares um quarto. Amanhã ao fim do dia, trago as minhas coisas. Não precisas ter medo de mim, não te digo que pudemos ser amigos, porque não creio que o desejes, mas posso garantir que não te farei qualquer mal. Juro.





5.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE II


Naquele dia, Eva levantara-se cedo. Quase não conseguira dormir, de nervosa que estava. Tinha pedido dispensa, no emprego, a fim de tratar de alguns assuntos relacionados com a sua recente viuvez, e para ir ao escritório de advocacia. Depois do banho matinal, tomou o pequeno-almoço, meteu a mala e o saco com as roupas do falecido no carro e dirigiu-se à instituição onde ia deixá-las. Depois passou pelo orfanato onde sempre vivera, a fim de se aconselhar com a Irmã Madalena com quem sempre tivera uma relação especial, e que foi para ela aquilo que mais se assemelhava com uma mãe. 
Na verdade a jovem freira apaixonara-se por aquela bebé tão pequenina e frágil, e a tomara sob a sua proteção desde o primeiro dia. Às vezes Eva pensava, que o amor da Irmã Madalena, fora a causa de nunca ter sido adotada.
Mais calma, regressou a casa, e entreteve-se com uma breve limpeza, enquanto fazia o almoço. Mais tarde, depois da refeição, vestiu uma saia preta, que se lhe ajustava ao corpo, delineando-o na perfeição, e um camiseiro branco. Completou o conjunto com umas sandálias de salto alto e uma bolsa em tons de bege.
Não tinha por hábito, a maquilhagem que usava muito raramente em ocasiões especiais, e naquele momento não achou necessária. Demorou a encontrar lugar para estacionar, pelo que entrou na sala de recepção do escritório, apenas dois minutos antes da hora marcada. Na sala, além da recepcionista, encontrava-se um homem, de pé junto à janela, que se voltou  ao ouvi-la entrar.
Eva, identificou-se com a empregada, que pelo telefone interno falou com o advogado, e disse de seguida.
-Podem entrar. O doutor espera-os.
Surpreendida ela lançou um breve olhar para o homem que se dirigia para a porta.
Era alto, vestia umas calças de sarja bege, e uma camisa desportiva branca, cujas mangas tinha arregaçado até ao cotovelo. Não se atreveu a olhar-lhe para o rosto, mas se já estava nervosa, pior ficou naquele momento. Quem seria aquele homem e que tinha a ver com o falecido Alfredo?
Entraram no escritório, onde atrás da secretária se encontrava um homem de aproximadamente cinquenta anos, meio calvo, que depois de os cumprimentar, os mandou sentar. Abriu a pasta, e tirou de dentro dela uma carta, que entregou a Eva, dizendo-lhe que a deveria ler, após a leitura do testamento. Depois deu início à leitura do mesmo. Eva não queria acreditar naquilo que ouvia. Como fora possível que o marido tivesse deixado a sua casa, aquele desconhecido? E que raio de cláusula era aquela de que devia viver com ele, durante seis meses? Que loucura era aquela? Sentiu que uma onda de mal-estar lhe invadia o corpo, que um garrote lhe apertava a garganta impedindo-a de respirar, e teria caído no chão, não fora a pronta intervenção do homem a seu lado.


25.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XVIII




- Pois a minha proposta é a seguinte. Montas uma boa sala de consultório, com tudo o que seja necessário para dar consultas e para tratar de uma boca. Eu assumo as consultas e terás que arranjar um bom dentista. Pudemos dividir o espaço trabalhando duas vezes por semana cada um em dias alternados. A propósito tu imaginas quantas doenças advêm de uma boca em mau estado?
-Mas tu és uma neurologista.
-Mas antes de me poder especializar, a minha formação foi medicina geral. Isso não me preocupa, até posso exercer as duas especialidades alternadamente sempre que necessário. Imaginas quanto tempo de espera tem atualmente uma consulta de neurologia num hospital público? E a gente a quem a Fundação se destina não tem meios para os privados. Mas adiante, o que me preocupa, é que um projeto como o que o Alcides me descreveu, não é coisa de meia dúzia de milhões. Tanto eu como o Marco conhecemos os teus sonhos desde que somos gente. Mas lembras-te do que a nossa mãe dizia? “Não se pode dar um passo maior do que a perna.” Tens noção daquilo em que te estás a meter? Que eu saiba não tens nenhum poço de petróleo nem nenhuma mina de ouro.
- Não. Mas tenho um gestor financeiro que vale o seu peso em ouro, e alguns investimentos no oriente, em poços de petróleo sim. De resto, deves saber que há sempre alguns mecenas que preferem investir dinheiro em obras destas, do que ter de o dar ao estado em impostos.
- Bom tu é que sabes. Tens alguma ideia do investimento inicial?
-Uns cem milhões aproximadamente.
A jovem, assobiou ao mesmo tempo que se inclinava sobre a secretária, na frente do irmão.
- Caramba, Gil, quase me matas do coração. Como é que podes dizer isso assim com essa calma?
- Laura, eu nasci pobre, mas Deus deu-me um dom que me trouxe muito dinheiro. E quando esse acabou, deu-me este, - apontou para a cabeça – que continuou a dar-me muito dinheiro. Por fim deu-me pessoas especiais, honestas e inteligentes que fazem crescer a minha fortuna todos os dias. ELE ficaria muito desiludido comigo, se eu me limitasse a amontoar os milhões. E na verdade, eu também não gostaria de mim próprio se fosse assim. Porque eu sei que quando morrer a única diferença com o nascimento será que nasci nu e morro vestido. Tudo o resto cá ficará.
 -És um filósofo e um filantropo.  Mas tens uma filha, e poderás ter mais filhos. Não pensas neles?
-Claro que sim. Mas não é o dinheiro a melhor coisa que lhes quero deixar. Quero que eles encontrem um mundo melhor do que aquele que eu encontrei e quero lutar para que isso aconteça. E ensinar-lhes com o meu exemplo a também eles contribuírem com a sua parte para essa mudança. Como diz o meu amigo Rogério, "mudar o mundo não custa. Leva é tempo."
Calou-se por momentos e depois disse:
-A esta hora, a Inês já deve ter chegado do hospital. Hoje não vi a minha filha mais do que cinco minutos. E estava a dormir. Também não pude falar com o médico dela que estava no bloco operatório. Importas-te de ver se ela já chegou e pedir-lhe que venha aqui falar comigo? Gostava que estivesses presente, podíamos resolver a situação do filho dela.
- Está bem. Continuamos a nossa conversa ao jantar – disse saindo da biblioteca




12.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE IV


Ao passar pela sala, Pedro verificou que esta se encontrava agora completamente cheia.
- Então que lhe disse o médico? - perguntou o jovem com quem conversara anteriormente.
- Que não via nada de importante. Mandou-me fazer análises e recomendou-me passeios e distracção. Voltarei cá quando tiver os resultados das análises.
-Victor Ferreira - chamou a assistente
- Então adeus e as melhoras. A menina está a chamar-me.
- Obrigado. As melhoras também para si.
O jovem acabava de passar a porta do consultório e já nem devia ter ouvido as últimas palavras de Pedro. Este aguardou a volta da assistente, pagou a consulta e saiu. Na rua respirou fundo.
A mãe já devia estar ansiosa à sua espera. Pobre mãe. Os seus setenta e um anos tinham sido bem sofridos, mas não queria que ele contratasse uma empregada. Dizia, zangada, que velhice não é invalidez.
- Boa tarde mãe. Como foi o seu dia? - perguntou enquanto a beijava.
- Normal, filho. E o teu? Foste ao médico? Que disse ele? - perguntou ansiosa e preocupada.
- Ora mãe, que queria que dissesse? Que não me encontrava nada de maior, que me distraísse. E mandou-me fazer umas análises e voltar lá quando tivesse os resultados.
- E os pulmões, filho? Viu-te lá no tal aparelho?
 – Claro, mãe. Pode ficar descansada, que não vou morrer tuberculoso, - e afastou-se rindo.
A mãe foi atrás dele.
- Não te rias filho. Andas mal-encarado e sem apetite. Sou velha, mas não sou cega. Nem quero pensar o que vai ser de mim se te acontece alguma coisa grave.
- Ora mãe, não me fale de coisas tristes. O médico disse para me distrair, e ninguém se distrai com tristezas. E mudando de conversa, o que é o jantar?
 – Pato assado.
- Ora valha-a Deus minha mãe. Então tem o meu prato favorito para o jantar e não dizia nada? Vamos lá para a mesa que já me cresce água na boca, -
disse-o rindo, mas o riso soou-lhe a falso. E mentalmente pediu a Deus que a mãe não o percebesse. Sentou-se à mesa e foi com grande esforço que conseguiu comer o suficiente para não deixar a mãe mais preocupada. Na verdade, embora fosse o seu prato preferido, não sentia qualquer vontade de comer.



15.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXV


Ouviu a campainha. Vestiu o casaco, pegou na mala, abriu a porta e saiu.
-Olá.- Disse ele, ao mesmo tempo que se inclinava e lhe aflorava a testa com um beijo breve.
- Foste pontual. Não me quero demorar.
- Não te preocupes, - disse abrindo-lhe a porta do carro.
- Onde vamos?
-A minha casa.
“Mau. Se ele pensava em levá-la para sua casa no intuito de uma tarde na cama, nunca lhe perdoaria”
- Não te preocupes. Confia em mim.
Era como se ele tivesse adivinhado os seus pensamentos. Chegaram a um luxuoso condomínio. Um segurança, abriu o portão e o carro rolou até se deter em frente de um bonito edifício de dois pisos.
Ajudou-a a descer, e conduziu-a pelo braço até casa. Abriu a porta, e desviou-se para lhe dar passagem. Quase de uma forma inconsciente fechou a porta com o calcanhar. Teresa, não se atrevia a falar. Deixou que lhe despisse o casaco, e a conduzisse à sala.
Pegou num comando e fez correr o reposteiro que cobria a enorme janela, inundando a sala de luz. Ela viu que estava numa divisão de grandes dimensões. Reparou na parede coberta de livros, atrás de um dos sofás. No móvel bar, e na brancura dos enormes sofás. Em frente de um deles, uma mesa de vidro. Sobre ela um par de ténis de criança, e um álbum.
- Senta-te Tê. Trouxe-te aqui para te mostrar algo, que nunca pensei mostrar a ninguém.
Sentou-se e ele sentou-se a seu lado. Pegou no álbum, abriu-o e entregou-lho.
Ela viu vários recortes de jornal. Eram muito antigos. Leu o primeiro.
Relatava um crime. Uma mulher vítima de maus tratos, matara o marido. E tinha uma foto de um homem estendido no chão. Leu outro. Falava do mesmo crime. Sem compreender o que se passava, virou a página. E viu mais recortes. Com ligeiras variantes, mais ou menos sensacionalistas, os recortes traziam todos a mesma notícia.
Numa delas havia uma foto de criança. Dizia-se que era o filho do casal, que devia ser enviado para numa instituição estatal.  Numa outra dizia-se que a mulher aguardava julgamento em prisão preventiva, e que o filho fora acolhido por uns tios.
Sem saber o que pensar olhou para Rui.
- Eram os meus pais. Eu sou essa criança.- Disse com voz rouca.
Sentiu-se zonza. Como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O que viu nos olhos do homem, era terrível. Estendeu a mão e colocando-a sobre a masculina, apertou-a suavemente. Ele continuou
 - Por mais que me esforce, não me recordo de ter visto algum dia o meu pai sóbrio. Em contrapartida sempre me lembro de ouvir os seus gritos e o choro da minha mãe, quando ele lhe batia.

16.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE L









EPÍLOGO


-Agora que já nos conhecemos, aceitas sair comigo? - perguntou Ricardo
-Para onde? – perguntou Isabel.
- Por aí, ao sabor do destino. Estamos no mês de Junho, e  em Lisboa há um arraial em cada esquina. Amanhã é sábado, não precisamos levantar cedo. Podemos ir até um bar, ou simplesmente passear junto ao Tejo de mãos dadas. Tu decides.
- Dá-me cinco minutos para mudar de roupa, não me parece que estejamos adequadamente vestidos para esse tipo de programa.
- Muito bem, eu também vou.
Meia hora depois, os dois de calças de ganga e T-shirt passeavam de mãos dadas, junto ao Tejo, admirando os reflexos das luzes nas águas calmas do rio, misturando-se com os pares de namorados que por ali andavam.
Mais tarde, nessa noite, fizeram amor como nunca tinham feito. Apaixonadamente sim, mas também com muita ternura. Porque já não eram apenas os corpos que estavam em sintonia, nem o desejo que os unia. Nessa noite, os dois eram realmente um só de corpo e alma, unidos pelo sublime sentimento do amor. Mais tarde, deitados, os dois nus em cima dos lençóis, perfumados pelas pétalas de rosa, Ricardo disse, acariciando a cabeça que repousava no seu peito.
- Sempre foi muito bom, mas hoje foi maravilhoso. Saber que nos amamos mudou tudo. Despoletou emoções, intensificou sensações, transformou o bom em ótimo.
Ela não respondeu, e de repente ele ficou inseguro:
- Não foi assim contigo? - questionou
Ela levantou a cabeça e beijou-o
- Sabes que foi. Simplesmente de repente ocorreu-me um pensamento. E se algum dia o teu irmão descobre a verdade sobre a Matilde?
- Nunca o saberá. Se a Susana te disse que o encontrou e ele fingiu não reconhecê-la, não vai querer saber nada dela. Deve ter medo que a esposa descubra alguma coisa, e o deixe, já que o sogro é um homem muito rico, e a mulher é a única herdeira. É um bandalho, toda a vida tentou prejudicar-me, mas desta vez, o céu trocou-lhe as voltas. Deus escreveu direito por linhas tortas, como se costuma dizer, pois graças à sua canalhice, hoje temos uma filha maravilhosa, estamos juntos e felizes. E ainda que um dia nos encontre, ele nunca te conheceu nem sabe quem és. Não te preocupes, a Matilde é tão nossa filha, quanto os outros que me deres – disse beijando-a de novo e puxando-a suavemente para cima dele.
-Olá, hoje temos dose dupla - disse ela rindo
-Tu mereces, - respondeu segundos antes, da sua língua chegar ao mamilo dela.
Em seguida as palavras transformaram-se em gemidos e ela mergulhou num mar de sensações que a percorriam da cabeça aos pés.
 No dia seguinte, enquanto tomavam o pequeno-almoço, Ricardo disse:
- E se deixássemos a Matilde mais um dia com os avós e ficássemos com o dia para namorar? Uma espécie de mini lua-de-mel em qualquer sítio bonito. Achas que eles se importariam?
-Aqueles dois? Ficavam lá com ela nem que fosse a semana inteira. Adoram-na. O meu receio é que ela estranhe. Uma noite já ficou outras vezes, mas duas?
- Vamos vê-la e falamos com eles. Se ela chorar, telefonam e voltamos.
Não chorou, e eles passaram um dia maravilhoso na Ericeira, e uma noite de sonho, no hotel Vila Galé.
E se ambos pensavam que não poderiam ser mais felizes, descobriram o seu engano, um ano depois, quando o médico na sala de partos, levantou a bebé e a apresentou dizendo-lhes: 
- Pais, eis a vossa filha. Parabéns. É uma bela menina.


 Fim


21.7.18

O DIREITO À VERDADE - XL





Envergonhada, sentindo-se imunda e feia, tentou fechar a porta, mas Cláudio foi rápido a introduzir um pé na ombreira, não deixando que o fizesse.
- Não querida, não vou deixar que me expulses da tua casa e me fujas como fizeste em Coimbra.
Sentindo que as lágrimas ameaçavam correr pelo rosto, ela largou a porta e virou-lhe as costas.
- Andava em limpezas. Não estou minimamente apresentável, para receber visitas.
- Estás linda como sempre. Mas se ficas mais confortável tomando banho e mudando de roupa, eu espero o tempo necessário na tua sala. Porém não me vou embora sem termos uma conversa séria.
- Nesse caso, a sala é aqui, -disse abrindo uma porta. Vou pôr-me apresentável. Mas antes quero saber como me descobriste, quem te deu a minha morada.
- Dir-te-ei quando voltares, - disse sentando-se no sofá.
Helena não insistiu. Foi ao quarto, tirou um conjunto de roupa íntima da cómoda, pegou numas calças de seda pretas e numa blusa azul e dirigiu-se à casa de banho.
Nunca na sua vida, a jovem tomou um duche tão rápido. Pensar que Cláudio estava na sala e que no tempo de espera, podia entreter-se a imaginá-la nua, punha-a nervosa.
Com o corpo enrolado na toalha secou o cabelo, vestindo-se de seguida. Escovou o cabelo à pressa, ansiosa por saber como ele a tinha encontrado.
- Bom, aqui estou. Podes começar.
Cláudio estava feliz. Voltar a encontrá-la, saber que tinha sobre ela o poder de a deixar assim, ruborizada e nervosa, era algo que o encantava. Apeteceu-lhe brincar.
-Isso são modos de cumprimentar o teu futuro marido? Nem sequer um inocente beijinho? Desiludes-me.
- Deixa-te de brincadeiras estúpidas, -disse, lançando-lhe um olhar furioso. Como chegaste até minha casa? Quem te deu a morada?
- Jorge Noronha, o nosso pai.
- O nosso… pai…-  soletrou ela deixando-se cair numa cadeira. Imagens rápidas dos sonhos eróticos, que preenchiam algumas das suas noites,  perpassaram na sua memória. Mas então… nós somos irmãos?
- Não, claro que não, - disse pondo-se em pé. O pai nunca te falou de mim? Sou filho de Carmo, a mulher com quem se casou, anos depois do divórcio com a tua mãe. Minha mãe era viúva e eu já tinha nove anos quando eles se conheceram. No entanto, habituei-me a chamar-lhe pai por duas razões. A primeira, porque ele me criou com tanto amor, como se eu fosse de verdade, seu filho. A segunda, porque sabia do muito que ele queria um filho e a mãe, não podia dar-lho. Quando eu nasci, alguma coisa correu mal no parto e a mãe ficou impossibilitada de ter mais filhos. O que importa, é que não somos irmãos e por isso podemos amar-nos, sem qualquer prurido de consciência.
- Falas de amor como se ele existisse entre nós. Conhecemo-nos há dias.


Bom fim-de-semana

13.2.18

A VIDA É ...UM COMBOIO - PARTE XXXIX







- Foi o Martim, não foi? Eu devia ter desconfiado.
- O Martim? – Paulo estava verdadeiramente surpreendido. – O que é que tem o Martim?
Desta vez foi Ricardo quem ficou surpreso. Interrogou a irmã:
- Não lhe contaste do Martim?
- Não. Ainda não, - disse Amélia corando.
-O que é que há com o Martim? O que é que eu devia saber?
Percebendo que havia uma nuvem naquela sala que precisava ser dissipada, Olga disse:
- Vou dar um beijo ao Martim e certificar-me que ele não vai aparecer de surpresa e ouvir algo que não deva.
Quando ela saiu, Amélia deixou-se cair no sofá, como se de repente lhe tivessem faltado as forças.
- O Martim não é filho do meu falecido marido, - disse sem se atrever a olhar para o noivo.
- Não? – Ele arqueou uma sobrancelha em sinal de perplexidade.
- Não. Mas não penses mal de mim, - disse fitando-o com firmeza. Afonso morreu há quase doze anos. Quando ele morreu eu estava grávida, mas pelo desgosto da sua morte, ou porque tivesse de ser, perdi o meu bebé. Foi um grande desgosto. Depois descobri a traição de Afonso e decidi que nunca mais queria saber de homem algum, mas queria o meu bebé. Decidi recorrer a um banco de esperma, mas a lista de espera era enorme. Então pedi ao Ricardo, que me arranjasse entre os seus amigos, um homem bonito e honesto para dador. 
Calou-se ao ver o olhar amoroso de Paulo, e o seu sorriso radiante. Olhou para o irmão e viu-o comovido. Foi com se de repente um enorme clarão iluminasse tudo à sua volta. Levantou-se, e estendeu a mão ao noivo.
- Tu! Tu és o pai do Martim?
Ele abraçou-a feliz.
- Sim querida, o Martim é meu filho. Bem que mo dizia o coração. Olhava para ele e sentia-me na infância. Como se visse nele parte de mim. Bendita sejas, nunca me senti tão feliz em toda a vida. E ele pensa que o pai morreu...
-Eu sempre lhe disse que o pai tinha ido viajar. Ele é que meteu na cabeça essa ideia quando soube que eu era viúva.
-Temos que lhe contar. Hoje mesmo, Amélia, hoje mesmo.
As lágrimas corriam pela face feminina, enquanto abraçava o noivo e o irmão.
- Já chega de emoções por hoje, - disse Ricardo. - Acho que estou a precisar de uma bebida forte. Também querem?- perguntou dirigindo-se ao bar.
Paulo beijou docemente a noiva e voltando-se para o amigo disse:
- Devia estar zangado contigo. Mentiste-me. Felizmente parece que os astros conspiraram contra ti.
- Vou chamar a Olga e o Martim. Vamos jantar antes que o assado fique sem graça. E, querido, acho melhor contarmos a verdade ao Martim amanhã. Se o fizermos hoje, a excitação vai tirar-lhe o sono.
- Tens razão. Vai então chamá-los.
Pouco depois, davam início ao jantar que decorreu muito animado. Depois do jantar, levantaram a mesa e meteram a loiça na máquina. Martim despediu-se e foi para a cama, e os quatro adultos sentaram-se na sala para um pouco mais de conversa.


Ora bem aqui está o episódio tão esperado.  Porém a história ainda não acaba aqui. Porém amanhã é um dia especial. É o dia dos namorados, pelo que a história será interrompida. A propósito já viram que maldade maior o dia dos namorados, cair na quarta feira de cinzas, dia de jejum. e abstinência? Nem quero ouvir as recomendações do D. Manuel Clemente.

E continuando a minha brincadeira, Cá estou eu hoje de Rainha Má.




Bom Carnaval 

15.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXVIII


Naquele domingo de outono, o sol brilhava, num céu imaculadamente azul, com a temperatura a rondar os vinte e quatro graus, o que levava a crer que o S. Martinho estava a prolongar o “seu” verão para além da data, Anete e seus pais levantaram-se cedo, a fim de assistir à missa das oito. Os pais não perdiam a missa dominical, e ela gostava de os acompanhar.
Depois da homilia, quando se preparavam para regressar, Anete viu-se constrangida a cumprimentar a ex-sogra, que se encontrava na companhia do filho. Arrependeu-se de ter ido com os pais. Devia ter pensado que aquilo podia acontecer. Ela não tinha nenhum problema em cumprimentar o ex-marido. Os dois foram e eram amigos, e na verdade nunca se sentiram de outro modo. Mas Laura, a mãe, culpava-a pelo divórcio, e não lhe perdoava. De modo que foram uns momentos de grande constrangimento.
No regresso, foram para a cozinha, mas enquanto mãe e filha ficavam a tratar do almoço, o pai saiu pela porta que dava para as traseiras da casa, onde havia um quintal. Junto à casa, um largo canteiro, onde se viam plantados vários pés de couve tronchuda, que haveriam de acompanhar as batatas e o bacalhau na consoada. À volta alguns pés de alface. Num outro canteiro do lado direito, várias ervas aromáticas, que a mulher costumava usar na cozinha. Salsa, coentros, manjericão, cebolinho, hortelã, e outras, impregnavam o ar de uma mistura de aromas. Havia ainda um canteiro maior, com couves já adultas, cenouras e nabos. Algumas iriam ser arrancadas daí a pouco, para o cozido à portuguesa que a mulher e a filha estavam a confecionar para o almoço. 
Tinha disposto a parte cultivada do quintal, junto à residência, por forma a ficar mais perto, da torneira na hora de regar. Mais ao fundo, junto ao muro, e aproveitando a sombra de duas macieiras e uma nespereira, ele tinha construído uma casa de brincar, para os netos; e montado um baloiço numa armação metálica. Eles gostavam de brincar ali, quando iam passar o dia lá em casa, e naquele dia com dois novos amiguinhos, não ia ser diferente, pelo que ele se dedicou a verificar se tudo estava em ordem, de forma a evitar qualquer acidente.
Satisfeito com a inspeção, regressava a casa, quando a  porta se abriu e a mulher lhe pediu que escolhesse 3 couves das maiores e uns quantos nabos e cenouras.  Arrancou-as,  lavou-lhes a terra debaixo da torneira e só então as levou para a cozinha, 
Depois, enquanto as duas mulheres continuavam os preparativos para o almoço, ele foi para a sala e ligou a televisão.
Meia hora depois, chegou o filho mais novo. Luís abraçou e beijou a mãe e de seguida abraçou fortemente a irmã. Logo a afastou para a mirar, olho no olho, procurando descobrir se ela estava bem. Anete sorriu, levantou a mão e passou-a pelo rosto recém-barbeado do irmão.
- Não te preocupes, estou ótima.
O irmão relaxou. Deu-lhe um beijo na testa e seguiu para a sala, onde se juntou ao progenitor. Logo depois, chegou Ricardo e a família. O irmão voltou a assegurar que nada mudara entre eles, e a interrogar como ela se sentia. As crianças foram brincar para o quintal, enquanto os homens se entretinham na sala com uma acalorada discussão sobre futebol.
                                                                    



21.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XX




- Mas isso é uma ótima noticia. – Soltou-a. - Vem, vamos para a sala, quero que me contes tudo. Senta-te aqui ao meu lado,- disse afundando-se no sofá.
- O café!
- Quem quer saber de café agora? – Estendeu-lhe a mão num convite mudo.
Ela sentou-se a seu lado e ele passou-lhe o braço pelos ombros puxando-a para si.
- Conta-me tudo. Não, deixa-me adivinhar, o Pedro descobriu que foi mesmo o Fernando?
Ela relatou-lhe a conversa tida com o inspetor nessa tarde.
- Tenho pena do António. Não merecia este desgosto. Aquele sobrinho é a única família que lhe resta. Amanhã mesmo vou pedir ao nosso advogado que tome conta do caso, e tenho a certeza de que não demorará muito, terás o teu pai em casa. E mais tarde, quando se recuperar, faço questão de o readmitir.
Levantou-lhe o queixo, procurando o seu olhar.
- E então não haverá nada mais que impeça a nossa união. Quero que saibas, que até que te conheci, nunca acreditei no amor tal como o descrevem os apaixonados. O amor para mim era uma utopia, uma miragem, o que me interessava mesmo era o sexo. Todos os meus amigos, sabiam que eu era assim, e nenhum deles acreditaria ainda que lhes jurasse, que há meses venho a tua casa apenas para estar contigo, sem nunca ir contigo para a cama. E no entanto aconteceu, não porque não te deseje, e Santo Deus, como te desejo, mas porque és diferente de todas as outras. E és diferente, porque te amo, porque desejo fazer parte da tua vida, até ao meu último suspiro. Entendes?
- Como não ia entender, se comungo do mesmo sonho?
Segurou o rosto dele entre as suas mãos, e pediu quase sem voz:
-Por favor Gabriel. Vai-te agora! Não consigo ser tua enquanto não vir meu pai reabilitado. Mesmo amando-te com todo o meu ser.



EPILOGO





Um mês depois, o juiz assinava a revogação da pena e ordenava a libertação de Joaquim Machado, bem como a prisão preventiva de Fernando Lourenço.
As marcas do tempo e da vergonha eram bem visíveis no rosto e no corpo do pai da jovem, que parecia ter envelhecido mais de dez anos naqueles quatro anos de cativeiro.
À sua espera tinha a filha, que lhe explicou como tinha chegado ao verdadeiro culpado, bem como o papel importante de Gabriel e do seu amigo inspetor em todo o processo.
Não foi difícil para o homem que ouvia, reparar no brilho dos olhos da filha cada vez que falava do seu chefe. Temeu por ela. Afinal eles eram pobres, viviam do seu salário, o empresário era um homem muito rico e com fama de mulherengo.  Mas o temor só durou até à noite quando Gabriel se apresentou em sua casa, para pedir a mão de Sandra com anel de noivado, e a informação de que queria casar o mais rápido possível.
Quando os jornais sensacionalistas, tiveram conhecimento do noivado, muita coisa se escreveu, chegando a dizerem que Gabriel se casava com a filha do homem que estivera injustamente preso, para evitar um processo de indemnização.
Eles não se importaram. Sabiam dos sentimentos que os uniam, e do longo percurso percorrido até aquele momento.
A noiva fez questão de uma cerimonia simples e intima, apenas para os familiares e padrinhos.
Ela não queria continuar a ver-se nas páginas dos jornais, nem a ler as mentiras com que a imprensa os brindava
Com a bênção paterna, casaram duas semanas depois.
Dias mais tarde, em plena lua-de-mel, na pista de dança do hotel, ele confessava-lhe que se apaixonara por ela, ao vê-la dançar o tango, e que desde aí, sonhava com o momento em que os dois o dançassem juntos.
E então como se os músicos tivessem ouvido as suas palavras, ouviram-se os primeiros acordes da música “À média luz”



Fim

Elvira Carvalho