Um dia, tinha os meus sete anos, estava no primeiro ano, a escola ia fazer uma recita de Natal. Fui escolhido para entrar. Na altura estavam na moda uns ténis que se tornavam luminosos com o andar. Todos os meninos da minha sala os tinham, menos eu. Então a professora disse que seria bonito que todos os levassem calçados no dia da recita. Faria um efeito muito bonito no palco.
Fiquei muito triste. Cheguei a casa a chorar. A minha mãe quis saber o que se passava, e eu contei-lhe. Prometeu que me comprava os ténis. Naquela semana trabalhou mais horas do que nunca
Na sexta-feira à saída da escola levou-me à sapataria e compramos os ténis. Não cabia em mim de contente. Escondi-os debaixo da cama, e fiquei a sonhar com o dia da festa. Todos os dias quando chegava da escola,ia buscar a caixa, e sentava-me na cama, a olhar para eles. Eram tão bonitos. Não via a hora de os poder calçar. Porém no dia da festa, a caixa não estava no sítio. Procurei por todo o quarto, e não a encontrando fui perguntar por ela, à mãe. Disse-me a chorar que ele os tinha descoberto, e os tinha entregado na loja em troca do dinheiro. Só não me disse que era para se embebedar, mas não era preciso. Eu sabia. Jurei à minha mãe que havia de ser um homem muito rico. Depois, enlouquecido pela raiva, ou pela vida que levávamos, adoeci de tal modo que fiquei de cama. Levei três dias com febre, e vómitos.
Falava baixo e devagar. Notava-se quão penosas eram aquelas recordações. Teresa tinha os olhos rasos de água. Não conseguia imaginar, uma criança com um sofrimento tão grande. Levantou a mão e acariciou ternamente a face masculina. Não era a carícia de uma mulher apaixonada. Era a carícia de uma mãe, solidária com o sofrimento do filho.
Rui agarrou os ténis, e pressionou-os na mesa, fazendo com que uma corrente luminosa, percorresse a face visível da base.



