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24.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVI



O resto do dia de Natal passou correndo entre a ajuda à amiga, e as brincadeiras com a afilhada. De vez em quando lembrava-se da quinta e pensava como estaria Tiago a viver aquele dia tão simbólico para as famílias. Continuaria isolado no quarto, ou estaria na sala ou na cozinha, convivendo com a família?

Nos últimos dias, tinha-se estabelecido entre os dois, uma relação doente-tratadora, bem mais agradável do que inicialmente, em que detetava no doente uma agressividade latente, embora Anabela suspeitasse que era mais contra a vida e o que lhe acontecera, do que contra ela. Todavia nos últimos dias parecia menos revoltado e mais disposto a lutar pela sua cura.

Ela soube desde início de que havia alguma coisa por trás do seu desespero e da sua vontade de desistir da vida, que não apenas ter perdido o andar. Provavelmente o desgosto de ter sido abandonado pela noiva, a poucos meses do casamento.

-Estás muito calada, amiga. Saudades do teu doutor?

-Não é o meu doutor, Paula. Nem são saudades. É um doente que eu queria ver a interessar-se mais pela sua recuperação, e que temo não conseguir tratar com êxito. Há qualquer coisa nele que ainda não consegui descobrir, que lhe tirou a vontade de viver e de se esforçar pela sua reabilitação. Talvez seja o facto de a noiva o ter abandonado na cama do hospital, a poucos meses do casamento.

Estavam os três sentados na sala. Patrícia já dormia há muito tempo, e olhando o relógio, Anabela disse:

-Meu Deus, são quase onze horas e amanhã tenho de estar na quinta antes das dez para a sessão matinal de fisioterapia. Vou levantar-me cedo, e como é sábado e vocês não têm de trabalhar, é melhor eu despedir-me já.

Levantou-se e abraçou os amigos, depois disse emocionada:

-Obrigado, por me acolherem na vossa família como uma de vós, e por todo o carinho e apoio que me têm dado. Bem Hajam!

Voltou costas sem esperar resposta, pois receava começar a chorar.

Muito cedo na manhã seguinte, levantou-se, tomou um duche rápido, limpou a casa de banho e arrumou o quarto sempre procurando não fazer muito barulho para não acordar o casal, ou a afilhada. Às sete, sem tomar o pequeno-almoço, que decidiu tomar no caminho ou até na quinta, iniciou a viagem de regresso.

 

4.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LIV

 


Naquela noite, enquanto Gabriela jantava, e João fazia como de costume companhia a Teresa, a conversa recaiu sobre a ecografia e a emoção que ambos sentiram. E então ele perguntou-lhe se já tinha pensado nas suas vidas quando os bebés nascessem, ao que ela respondeu que lhe prometera falar nisso quando passasse a barreira dos três meses. Faltavam quatro semanas e talvez fosse superstição sua, mas antes das doze semanas não tomaria nenhuma decisão pensando no seu futuro e no das crianças.

- Eu tenho fé que vai correr tudo bem e até já imagino os três meninos…

- E se forem três meninas, - interrompeu Teresa. Fará alguma diferença?

- Nenhuma, - respondeu prontamente. Penso que de forma inconsciente, quando se espera um filho, uma pessoa tem sempre tendência a falar no seu próprio sexo. Um homem fala em meninos, uma mulher em meninas, mas na prática pouco importa. O que realmente conta, é que sejam saudáveis. E vão ser felizes porque se vão ter uns aos outros, vão poder brincar juntos, amar-se e apoiar-se. Crescer sozinho, é muito triste.

- Foi assim contigo?

-Foi. O meu pai era uma pessoa muito severa, e a única amiga que eu tinha era a Olga, que vivia no mesmo pátio mesmo ao lado da minha casa, mas ela tinha quase onze anos a mais que eu. Quando eu tinha cinco anos ela já estava no secundário e tinha mais ou menos o mesmo corpo que tem hoje. É fácil de perceber que as minhas brincadeiras não lhe interessavam.

- E a tua mãe?

É uma história muito complicada, não dá para ta contar agora, a Gabriela deve estar a voltar do jantar. Mas prometo que ta conto em breve.

-Eu também sou filha única, mas nunca fui uma criança solitária, pois na aldeia éramos todos muito unidos. Mas de certo modo tenho pena destas crianças.  Eles nunca vão ter o carinho de tios, primos ou avós. Eu não conheci o meu pai, nem o meu avô, mas a minha avó era uma grande mulher e foi sempre um pilar de apoio para a filha e neta. Os nossos filhos nunca vão ter esse apoio.

- Não. Mas vão apoiar-se entre si e vão contar com todo o amor da nossa parte. E poderão vir a contar com o apoio de tios e primos, pois acabo de saber que tenho um irmão, que me parece ser uma boa pessoa. Em breve conto-te tudo. Desejo que saibas tudo sobre mim, para que, quando chegar a hora de tomares uma decisão, não tenhas dúvidas.

Naquele momento a enfermeira regressou ao quarto, e isso impediu Teresa de responder se é que o queria fazer. Ele despediu-se desejando uma boa noite às duas, e saiu do quarto.

Já no escritório, olhou o relógio. Nove e dez da noite. Não eram horas de ligar ao irmão, provavelmente estaria com a noiva, mas podia mandar uma mensagem.

Escreveu:

“David, já li a carta. Queria estar contigo, gostava que me falasses da mãe e de ti. Conhecer-te. E dar-me a conhecer. Quando puderes dispor de umas horas, avisa-me. João”

Um quarto de hora depois chegou a resposta.

“Amanhã não tenho audiências. Tenho dois clientes de manhã, e a tarde livre. Podemos almoçar juntos. Telefono-te quando estiver livre e combinamos. David”

Pôs de lado o telemóvel, abriu o portátil e dedicou-se a ler os emails recebidos, quase todos de felicitações pelo “Survive II”.

 

11.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XII


Pouco depois sentados à mesa do restaurante, Gil pergunta ao irmão:
- Como vai a tua relação com a Isabel?
- Que há nenhuma relação. Ela não acredita em mim, pensa que apenas quero seduzi-la para a levar para a cama.
- E tens a certeza de que não se trata disso?
- Absoluta. Desejo-a é claro, é uma mulher muito bonita, e eu não sou propriamente um santo. Mas o que sinto por ela é muito mais do que isso. É uma vontade de estar juntos, de partilhar emoções, de formar uma família. Tenho trinta e dois anos, e nunca soube o que era uma verdadeira família. Sei que a mãe nos amou muito, que era capaz de dar a vida por qualquer um de nós. Trabalhou até ao limite para que nunca tivéssemos fome, e o nosso corpo agradeceu, mas a alma cresceu sedenta de carinho. Não estou a censura-la. A vida era muito difícil na altura, especialmente para uma mulher sozinha com três filhos. Tu foste muito novo para o clube, tinhas um sonho, algo a que te agarrares. A princípio vinhas dormir a casa, mas quase só te via quando já estava a cair de sono.
Depois quando se aperceberam da tua genialidade, passaste a viver lá, só vinhas a casa ao fim-de-semana. Eu cuidava da Laura, para que a mãe continuasse a trabalhar. As suas brincadeiras, não me diziam nada, tínhamos gostos e sonhos diferentes. Tinha saudades tuas. E sonhava com uma família diferente. Com uma mesa onde estivéssemos com os nossos pais.
 E jurei que quando crescesse e arranjasse um emprego, procurava uma mulher e me casava. Sonhava com a minha casa, a minha mulher e um ou dois filhos. Nunca senti inveja de ti, do teu êxito, do muito dinheiro que ganhavas. Todavia senti um pouco de inveja quando te casaste. Ias ter uma família, e eu continuava mais só que nunca, pois a Laura crescera, entrara na Universidade, tinha a sua própria vida, e a nossa mãe já tinha entregado a alma ao Criador, alguns anos atrás.
Porém apesar do meu sonho os anos foram passando e nenhuma das mulheres que conheci, e conheci imensas, embora a maioria nem fosse capaz de recordar o meu nome. Só me procuravam na esperança de que tas apresentasse. Apesar disso nunca senti vontade de formar com alguma delas uma família, pelo contrário repugnava-me a ideia de poder viver o resto da vida com elas. Até conhecer a Isabel. Com ela eu desejo tudo. O corpo, e a alma. Quero adormecer todas as noites no calor do seu corpo, acordar com o seu sorriso. Se isto não é amor, então não faço ideia do que seja o amor. Infelizmente, apesar de acreditar que não lhe sou indiferente, ela não acredita em mim e não sei como convencê-la.
- Se a amas assim e acreditas que ela também gosta de ti, toma uma atitude drástica. Faz qualquer coisa que a surpreenda e lhe dê a certeza do teu amor.
-Que tipo de atitude? Tens alguma ideia?
- Compra-lhe um bonito anel de noivado. Depois convida-a para jantar, leva-a a um bom restaurante e durante o jantar, dás-lhe o anel e pede-a em casamento. Ou se achas que ela não vai aceitar o jantar, leva a Teresa e a Raquel ao escritório, e na presença delas, oferece-lhe o anel, e pede-a em casamento. Com duas testemunhas ela não vai duvidar das tuas intenções.
Tinham acabado de almoçar. Gil chamou o empregado, pagou a conta e saiu seguido do irmão.
Despediram-se já no exterior, com o jovem desejando sorte ao irmão antes de entrar no carro e seguir para o hospital.
Três dias depois, Gil voltou à empresa e desta vez chegou antes da hora de abertura, conforme combinado de véspera com Marco. O doutor Alcides só chegaria perto das onze horas, para que eles assinassem os documentos de doação e alteração do registo da empresa, mas Marco, seguindo o conselho do irmão ia pedir Isabel em casamento, e queria que ele estivesse presente, para que à jovem não restassem quaisquer dúvidas, sobre a seriedade do pedido. Na véspera, marcara uma reunião com as três mulheres, no início do dia, pelo que iriam abrir as portas um pouco mais tarde nesse dia.

9.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIV




Naquele momento Francisca entrou na sala. Trocara o fato do casamento por um conjunto de calça e blusa azul-escuro, de corte simples mas elegante. Sem maquilhagem, a farta cabeleira presa numa trança, de sabrinas, parecia ainda mais jovem.
O homem levantou-se e avançou para ela.  
- Estás mais calma? Não te preocupes, vai dar tudo certo. Ouves as crianças? Estão muito felizes com a brincadeira no jardim. Podes ir até lá, ou vê-las aqui da janela. A Graça está com elas. Tem tanto jeito para lidar com crianças que me admira de ainda não ter engravidado. – Olhou o relógio. São onze e quarenta, encomendei o almoço para o meio-dia e trinta. Vou tomar um duche, e trocar de roupa.
Afastou-se sem lhe dar tempo a responder. Francisca foi até à janela. Viu a cunhada com a pequenita no baloiço. Marta, a mais crescida descia o escorrega, seguida por João, rindo com aquela alegria que só as crianças têm. Abriu a porta e saiu para o jardim.
Simão perdia-se na perseguição de uma bela borboleta. Correu para ela mal a viu.
-Mãe, a “tia” Graça, disse que logo não voltamos para casa dos avós. É verdade que vamos ficar aqui para sempre?
- Sim filho, é verdade. A mãe já te tinha dito que estava a preparar o vosso quarto para ficarem a viver com a mãe.
- Mas não contaste que ias casar com o “tio” Afonso. Nem aos avós.
-Sabes filho, às vezes as pessoas têm segredos que não podem contar às outras. Mas depois vem um dia em que deixa de ser segredo e já se pode contar.
- Então o vosso casamento é segredo? Assim como o pai ser uma estrelinha no céu?
- Sim filho.
O menino com um ar sério disse:
- Fica descansada, não conto a ninguém.
Francisca acariciou-lhe a cabeça sorrindo.
-Vai brincar filho.
A criança não se afastou. Como se alguma coisa o preocupasse.
Perguntou:
- Também vais ser mãe da Ana e da Marta?
-De certo modo, sim filho. Tu sabes que todas as crianças devem ter um pai e uma mãe. A mãe delas, como o vosso pai é agora uma estrelinha no céu. Eu tentarei fazer o meu melhor, para que elas não se sintam tristes.
Naquele momento, chegou o almoço. Graça retirou a sobrinha do baloiço, e Francisca chamou as crianças que estavam no escorrega. Depois todos tomaram o caminho de casa.

reedição
Este Simão é um menino especial, não acham? Fiquem atentos a ele... .

1.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE II






O carro rodou pela rua principal, voltou à esquerda e deteve-se uns metros mais à frente, junto de um portão verde que dava acesso a uma casa senhorial, quase se poderia dizer um palacete, rodeado de um pequeno jardim, cercado por um muro pintado de branco. O homem accionou o comando, o portão abriu-se e o automóvel percorreu a meia centena de metros até à entrada da casa. Os ocupantes saíram, com as crianças fazendo algazarra, pois pretendiam ficar no jardim, onde dois baloiços e um escorrega solitário, eram um apelo irresistível à brincadeira. Porém o homem não deixou, dizendo que primeiro tinham que despir aquelas roupas e vestir algo mais confortável para as brincadeiras que se propunham. Então sim poderiam brincar até à hora do almoço. Pouco convencidas, as crianças lá seguiram com os adultos para casa, onde os esperava uma serviçal de meia-idade. 
Lá dentro, a noiva tentou acompanhar as duas mulheres ao quarto dos miúdos,  mas o marido segurando-lhe a mão, reteve-a.
- Vem comigo. A Graça e a empregada cuidam deles.
Entraram num aposento espaçoso, misto de sala e escritório, com uma ampla janela, em frente da qual havia uma secretária. As paredes estavam repletas de livros. Num dos cantos havia um sofá, uma mesa de apoio e um vaso com uma bela planta verde. Formava uma espécie de recanto íntimo, como se alguém gostasse de estar ali, e a mulher pensou, se seria hábito da falecida, estar ali enquanto o homem trabalhava.
- Senta-te. Precisamos conversar, ainda há alguns pontos que não esclarecemos.
Sentou-se. Formavam um casal curioso. Ele alto, moreno, cabelos escuros, já com alguns fios brancos aparecendo indiscretos. Os olhos também escuros encerravam uma grande tristeza. A sua figura tinha uma elegância natural. Estava quase a fazer quarenta anos. Ela de estatura média, morena, cabelos e olhos amendoados. Tinha trinta anos embora parecesse mais jovem, e também não demonstrava a alegria natural de quem tinha acabado de casar. Parecia nervosa, pelo constante retorcer das mãos. Mantinha o olhar fixo nos seus sapatos, como se eles fossem a oitava maravilha do mundo, ou não tivesse coragem de encarar o homem. 


reedição




11.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXV


                                                     Foto DAQUI


Ainda naquele dia, Clara iniciou uma nova rotina com as crianças. Depois do almoço subiram ao quarto, mas quando elas pensavam que iam dormir, Clara anunciou que tinham-se acabado as sestas. As aulas iam começar dentro de dez dias, e eles precisavam programar o seu relógio biológico, a fim de não adormecerem na sala de aulas, na parte da tarde. Assim sendo, e aproveitando que de tarde o terraço estava à sombra, ali iam ficar até à hora do lanche. Para os entreter, e desenvolver as suas capacidades criativas, deu a cada um uma folha em branco e lápis de cor pedindo-lhes que fizessem um desenho e depois contassem uma história sobre o desenho. Mais tarde depois do lanche, foram então para o jardim, onde tinham os seus aparelhos de brincar, baloiços e escorregas. A ideia de Clara era que eles esgotassem as suas reservas energéticas de modo a adormecerem facilmente apesar da ausência do pai na hora de se deitarem.
Ao jantar, não o vendo à mesa, voltou a tristeza, e apesar de todo o seu esforço, apenas comeram a sopa e a fruta.
Nos dias seguintes, Clara e o irmão revezaram-se nas brincadeiras com as crianças, na tentativa de que não se sentissem tão tristes com a partida do pai.
No Domingo a meio da tarde, Clara recebeu uma mensagem de Ricardo. Dizia que às seis horas iria estar com eles, via Skype. De modo que um pouco antes da hora marcada, reuniram-se os três na biblioteca.  Clara ligou o computador e aguardaram com ansiedade a ligação.
Apesar de saber que Ricardo tinha ido para o Afeganistão, só quando ele apareceu no ecrã, Clara soube que se encontrava em Pol-i-Charki, no arredores de Cabul, no Corpo do Exército Nacional Afegão, para apoiar o levantamento e treino daquela unidade, tendo por fim último a criação de condições para a sua autossustentação. Enquanto as crianças se atropelavam para fazer perguntas ao pai, contar as novidades dos últimos dias, e falarem das saudades que sentiam, Clara não deixava de observar Ricardo. Era estranho, ligar aquele homem com aquela farda camuflada, ao homem elegante que ela conhecia.
- Muito bem meninos, estou muito contente por ver que estão bem. Fiquei muito feliz com o vosso presente. Amo-vos muito. Mas apesar de aí ainda ser dia, aqui são quase onze horas da noite, e o pai tem que ir dormir. Quando puder volto a falar convosco. Agora se me derem licença queria falar um pouco com a Clara. Boa noite, meus filhos.
- Boa noite, pai. Dorme bem – despediu-se Bernardo formando com as mãozitas um coração.
-Boa noite pai. Volta depressa – disse a irmã fazendo um gesto como se abraçasse o pai.
- Vão ver se a Antónia precisa ajuda para por a mesa. Eu já lá vou ter, - disse Clara.
Acompanhou as crianças à porta e voltou para a secretária.
-Olá – saudou enquanto se maldizia por não lhe ocorrer nada mais criativo para dizer.
- Olá! Aquela gravação foi uma ideia genial. Vejo-a todas as noites. Ajuda-me a mitigar as saudades. Não tenho palavras para te agradecer.
- Não precisas de o fazer.
-Deixa-me continuar. Vou ficar aqui seis meses. Só podemos utilizar a Internet, para video-chamadas particulares à noite e numa sala todos ao mesmo tempo, apenas separados por um tabique, o que tira toda a privacidade a quem está a comunicar. Além disso não o podemos fazer todos os dias, nem todos ao mesmo tempo.  Por isso  temos uma escala onde nos inscrevemos. E poderemos fazê-lo  duas ou três vezes por mês. Não sei quando poderei voltar a falar. Vou ter que desligar agora.
E a imagem desapareceu sem que Clara tivesse tempo de responder.



21.7.18

O DIREITO À VERDADE - XL





Envergonhada, sentindo-se imunda e feia, tentou fechar a porta, mas Cláudio foi rápido a introduzir um pé na ombreira, não deixando que o fizesse.
- Não querida, não vou deixar que me expulses da tua casa e me fujas como fizeste em Coimbra.
Sentindo que as lágrimas ameaçavam correr pelo rosto, ela largou a porta e virou-lhe as costas.
- Andava em limpezas. Não estou minimamente apresentável, para receber visitas.
- Estás linda como sempre. Mas se ficas mais confortável tomando banho e mudando de roupa, eu espero o tempo necessário na tua sala. Porém não me vou embora sem termos uma conversa séria.
- Nesse caso, a sala é aqui, -disse abrindo uma porta. Vou pôr-me apresentável. Mas antes quero saber como me descobriste, quem te deu a minha morada.
- Dir-te-ei quando voltares, - disse sentando-se no sofá.
Helena não insistiu. Foi ao quarto, tirou um conjunto de roupa íntima da cómoda, pegou numas calças de seda pretas e numa blusa azul e dirigiu-se à casa de banho.
Nunca na sua vida, a jovem tomou um duche tão rápido. Pensar que Cláudio estava na sala e que no tempo de espera, podia entreter-se a imaginá-la nua, punha-a nervosa.
Com o corpo enrolado na toalha secou o cabelo, vestindo-se de seguida. Escovou o cabelo à pressa, ansiosa por saber como ele a tinha encontrado.
- Bom, aqui estou. Podes começar.
Cláudio estava feliz. Voltar a encontrá-la, saber que tinha sobre ela o poder de a deixar assim, ruborizada e nervosa, era algo que o encantava. Apeteceu-lhe brincar.
-Isso são modos de cumprimentar o teu futuro marido? Nem sequer um inocente beijinho? Desiludes-me.
- Deixa-te de brincadeiras estúpidas, -disse, lançando-lhe um olhar furioso. Como chegaste até minha casa? Quem te deu a morada?
- Jorge Noronha, o nosso pai.
- O nosso… pai…-  soletrou ela deixando-se cair numa cadeira. Imagens rápidas dos sonhos eróticos, que preenchiam algumas das suas noites,  perpassaram na sua memória. Mas então… nós somos irmãos?
- Não, claro que não, - disse pondo-se em pé. O pai nunca te falou de mim? Sou filho de Carmo, a mulher com quem se casou, anos depois do divórcio com a tua mãe. Minha mãe era viúva e eu já tinha nove anos quando eles se conheceram. No entanto, habituei-me a chamar-lhe pai por duas razões. A primeira, porque ele me criou com tanto amor, como se eu fosse de verdade, seu filho. A segunda, porque sabia do muito que ele queria um filho e a mãe, não podia dar-lho. Quando eu nasci, alguma coisa correu mal no parto e a mãe ficou impossibilitada de ter mais filhos. O que importa, é que não somos irmãos e por isso podemos amar-nos, sem qualquer prurido de consciência.
- Falas de amor como se ele existisse entre nós. Conhecemo-nos há dias.


Bom fim-de-semana

31.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XII


A jovem, que a sua secretária acabava de introduzir no seu gabinete, em nada se assemelhava aquela que ali estivera procurando o pai do sobrinho, três semanas atrás. As calças de ganga foram substituídas por um gracioso conjunto de saia e top em seda verde e os ténis deram lugar a sapatos de salto agulha, que a faziam parecer mais alta.
- Boa tarde, -saudou. Confesso que estou intrigada com a carta que recebi a convocar-me para esta entrevista.
- Senta-te, - disse indicando-lhe a cadeira. Devo dizer-te que receei que não aparecesses, depois da maneira com que me descartaste naquele dia. Por favor não insultes a minha inteligência com uma desculpa, - acrescentou ao ver que se preparava para falar.
- Deves entender que nunca te tinha visto antes, e que a minha vida nada tem a ver com a do rico empresário que és.
- Talvez te enganes. Tenho uma proposta para te fazer, mas antes de continuar, quero dizer-te que sou um homem sério, incapaz de brincadeiras estúpidas, e portanto o que te vou propor é a sério, por muito absurdo que te pareça. Tenho trinta e oito anos, e sou solteiro. Tenho vários negócios e mais dinheiro do que posso gastar o resto da vida. Por outro lado, tu tens a teu cargo o teu sobrinho, e a tua mãe, que segundo sei esteve muito doente, e talvez ainda esteja.
- Andaste a investigar-me?- Perguntou tirando os óculos num gesto que ele já tinha visto e que provavelmente repetia quando se irritava.
- Por favor acalma-te e ouve-me até ao fim. O que te proponho não é uma aventura, a troco de dinheiro. Proponho-te um casamento, com o qual a tua mãe terá direito aos melhores tratamentos, e mais, proponho-te a adoção legal do teu sobrinho e a melhor educação para ele, como convém ao meu futuro herdeiro. Além de te proporcionar uma vida de princesa.
- A que propósito? És gay? Ou impotente?
-Nem uma coisa nem outra. Juro-te.
-Então, não entendo. O que pode levar um homem rico, e bonito, a propor casamento a uma mulher que mal conhece, como se lhe estivesse a propor um negócio?
- De certo modo é um negócio. Eu sinto falta de uma família, e posso dar-lhe tudo o que ela precise. Tu tens uma família e terás que levar uma vida de sacrifício para suprimires as suas necessidades mais básicas. Um casamento seria uma boa solução para os dois.
- Um casamento de conveniência. Isso não daria certo. E o amor?
- Salvo raras exceções, o amor não passa de uma invenção dos romancistas. Ao longo da vida, quantos casais conheceste que se casaram apaixonados, e se divorciaram em menos de dois anos?
- E se eu te disser que estou apaixonada?
-Estás?
- Não. Mas isso nem interessa. O que me importa é tentar entender. Porquê eu? Com tanta mulher bonita, na sociedade em que te moves?
- Já pensaste que de certa maneira me sinto responsável pelo mal que um meu empregado causou à tua irmã? E que pelo facto de ele ter usado o meu nome, me sinta com vontade de tornar essa criança meu filho de facto?


20.2.18

ENTRE DUAS DATAS - PARTE III




                                                                foto da net



Os últimos homens galgavam as escadas a correr. Mais gritos, mais risos, mais lágrimas. Os olhos de Clara ficaram presos num belo moço que subia lentamente as escadas, como se não tivesse pressa de chegar. Filho de uma viúva, moradora ali ao lado na Telha, antigo companheiro de brincadeiras, o jovem  alto e robusto, parecia carregar nas costas o  peso do universo.
 Aproximou-se dele, e saudou:
- Olá Pedro, como estás?
-Olá rapariga, - respondeu no seu vozeirão forte. - Como queres que esteja, um homem como eu? Não vês tu? Toda esta gente está feliz, contente, e olha para mim? Que diferença entre este dia e o outro no ano passado. Também eu nessa altura galguei estas escadas quase sem as ver. Também eu tinha aqui a minha mulher, à minha espera. E hoje... hoje...
As últimas palavras morreram num som rouco que mais parecia um soluço.
- Olha Pedro, é verdade que estiveram quase a afundar-se durante um temporal? - Clara tentava assim afastar maus pensamentos da mente do jovem.
- É verdade sim. Foi quando saímos dos bancos de pesca, da ilha de Baffin, a caminho da Gronelândia. Fomos apanhados por um violento temporal. Partiu-se um guincho, e ao cair apanhou o barco inclinado por uma vaga maior, provocou um pequeno rombo no casco do navio e começámos a meter água. O motor parou. Todos estávamos assustados. Chegámos a pensar que não saíamos dali com vida. O vento forte, e as vagas altas, atiravam o barco de um lado para o outro, como de dançasse uma música infernal. Uns rezavam em voz alta, outros apertavam ao peito as fotografias da família. E entretanto afundávamo-nos irremediavelmente. Foi então que o Santos, o contramestre gritou:
- "Que fazeis aí parados, homens de Deus? Deixai-vos de choros idiotas, ou ides servir de jantar aos peixes. Venham aqui ajudar, rápido. Mulheres que fossem, não estavam tão assustadas." Não sei o que cada um sentiu. Mas lutando contra o vento, presos a cordas por causa das ondas que varriam o convés, descemos ao porão e tentámos tapar o buraco. Eu fui para a bomba tirar a água, o Santos, o Ti'Amadeu, e mais seis homens lá conseguiram depois de muito esforço tapar o buraco. Incrível como um rombo tão pequeno metia tanta água, e fazia tanta pressão. O Jorge da Rita agarrou uns desperdícios, e de escopro e martelo foi calafetando à volta da tábua nova que os homens tinham pregado sobre a de estava a deixar passar a água. Tivemos ainda que lutar com o temporal durante um bom par de horas, mas a questão da água fora resolvida.

Continua 


26.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XVII



Paulo levantou-se cedo. Tomou um duche, e foi até à cozinha onde começou a preparar o pequeno-almoço. Tinha chegado na véspera já bem tarde, à quinta, onde em pequeno tanta vez brincara, nas longas férias da escola. De toda a sua infância, aqueles eram os únicos tempos de que sentia saudades. Dos passeios pela margem do rio, com Alfredo, o filho do caseiro. Pouco mais velho que Paulo, foi seu companheiro de brincadeiras e de pesca, quando  Casimiro, o pai, decidia ir com os dois à pesca no rio Nabão. Também se lembrava bem dos doces, que Augusta, a mulher do caseiro lhes fazia. Os anos passaram, eles cresceram, e enquanto Paulo ia para a Universidade, Alfredo, terminado o secundário, ficou a trabalhar na quinta com o pai. Um dia, num bailarico em Alvaiázere, conheceu uma moçoila da freguesia de Lagarteira, por quem se apaixonou. Mais tarde, quando o pai faleceu, Alfredo assumiu com naturalidade o lugar de caseiro. Paulo não ia à quinta desde que Alfredo casara há uns quinze anos atrás. Mas quando chegara na véspera, fora recebido com o mesmo carinho de sempre, especialmente pela velha Augusta, que se emocionou até às lágrimas ao abraçar o “seu menino”
- Bom dia, - saudou Alfredo ao entrar na cozinha, com a sua mulher. Não perdeste o hábito de te levantares cedo.
-Dormir num sítio com este é uma perda de tempo. Ainda há cavalos na quinta?
- Claro. O teu tio adorava-os e são ótimos para percorrer a herdade. Não sei se tens conhecimento, mas isto já não é uma simples quinta. O teu tio foi comprando terrenos, sempre que alguém queria vender e hoje é uma das maiores herdades da zona. Temos zonas de cultivo e de pastoreio. E um bom rebanho.
- Não sei para que queria tantas terras, tanta riqueza. Levou uma vida de escravo sempre a trabalhar, sempre a amealhar, nunca amou, nunca viveu verdadeiramente.
- Não sabemos se nunca amou. Se calhar tentou esquecer no trabalho um amor impossível.
- Que queres dizer com isso? Nunca lhe conheci nenhum interesse amoroso.
- Uma vez, meu pai disse que a mulher que ele amou mais do que a si próprio, tinha escolhido o irmão.
- A minha mãe? – Perguntou surpreendido.
- Não sei. Mas pode ter sido por isso que ele tenha tomado conta de ti e tenha lutado para fazer de ti um homem muito rico. Sabes que confessou à minha mãe, que o maior desgosto que tinha, era de morrer, sem te deixar casado e com filhos?
Tinham acabado a refeição.
- Selo dois cavalos e vens comigo? – Perguntou Alfredo no momento em que a sua mãe entrava na cozinha com os dois netos.
- São os teus filhos? – Perguntou Paulo, olhando para os dois rapazinhos.
- São. António tem onze anos, está no sexto ano, e Paulo com oito está no terceiro. Matilde, só tem três anos e ainda dorme até tarde.
- Parabéns. São muito bonitos. Vamos lá então ver como está a propriedade.



24.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE II






O carro rodou pela rua principal, voltou à esquerda e deteve-se uns metros mais à frente, junto de um portão verde que dava acesso a uma casa senhorial, quase se poderia dizer um palacete, rodeado de um pequeno jardim, cercado por um muro pintado de branco. O homem accionou o comando, o portão abriu-se e o automóvel percorreu a meia centena de metros até à entrada da casa.. Os ocupantes saíram, com as crianças fazendo algazarra, pois pretendiam ficar no jardim, onde dois baloiços e um escorrega solitário, eram um apelo irresistível à brincadeira. Porém o homem não deixou, dizendo que primeiro tinham que despir aquelas roupas e vestir algo mais confortável para as brincadeiras que se propunham. Então sim poderiam brincar até à hora do almoço. Pouco convencidas, as crianças lá seguiram com os adultos para casa, onde os esperava uma serviçal de meia-idade. 
Lá dentro, a noiva tentou acompanhar as duas mulheres ao quarto dos miúdos,  mas o marido segurando-lhe a mão, reteve-a.
- Vem comigo. A Graça e a empregada cuidam deles.
Entraram num aposento espaçoso, misto de sala e escritório, com uma ampla janela, em frente da qual havia uma secretária. As paredes estavam repletas de livros. Num dos cantos havia um sofá, uma mesa de apoio e um vaso com uma bela planta verde. Formava uma espécie de recanto íntimo, como se alguém gostasse de estar ali, e a mulher pensou, se seria hábito da falecida, estar ali enquanto o homem trabalhava.
- Senta-te. Precisamos conversar, ainda há alguns pontos que não esclarecemos.
Sentou-se. Formavam um casal curioso. Ele alto, moreno, cabelos escuros, já com alguns fios brancos aparecendo indiscretos. Os olhos também escuros encerravam uma grande tristeza. A sua figura tinha uma elegância natural. Estava quase a fazer quarenta anos. Ela de estatura média, morena, cabelos e olhos amendoados. Tinha trinta anos embora parecesse mais jovem, e também não demonstrava a alegria natural de quem tinha acabado de casar. Parecia nervosa, pelo constante retorcer das mãos. Mantinha o olhar fixo nos seus sapatos, como se eles fossem a oitava maravilha do mundo, ou não tivesse coragem de encarar o homem.