Olhou o relógio. Já passava das quatro da tarde. Precisava despachar-se. Dirigiu-se ao quarto, retirou uma mala de cima do guarda-fatos e colocou-a em cima da cama. Começou a procurar a roupa para a viagem. Calças de ganga, T-shirt, calções, fatos de banho, páreos, lenços, pijamas e roupa interior. Não pensava em saídas noturnas, precisava descansar, não de divertimentos. Começou a arrumar tudo na mala. Antes de a fechar pensou melhor, e foi buscar um vestido de seda estampado com motivos florais. Era um vestido simples mas elegante, ideal para uma saída à noite se algum dia isso lhe apetecesse.
Fechou a mala e foi buscar um saco onde colocou dois
pares de sandálias rasas, chinelos de praia, chinelos de quarto, ténis, e um
par de sandálias vermelhas, de salto alto, que faziam conjunto com o vestido de
seda. Antes de fechar o saco procurou lembrar-se se faltava alguma coisa.
Convencida que o que faltava eram só as coisas de última hora como os produtos
de higiene e um ou dois dos últimos livros que tinha comprado e ainda não
tivera tempo para ler, fechou a mala e o saco e colocou-os no chão.
Sentou-se em cima da cama e relembrou a conversa com a
madrasta. Como o pai tinha sido cruel! Porque não se limitara a dar parte à
polícia do roubo, sem acusar o empregado? Mais uma vez tentava lembrar de
António no escritório da empresa do pai, e mais uma vez não o encontrou nas
suas memórias. Também não admirava. Naquela época ela odiava aquele escritório, pensava que era por causa dele que o pai não lhe dedicava tempo nem atenção. Lembrava isso sim que no escritório
trabalhavam dois homens e uma mulher. Um dos homens era mais velho, o outro bem
como a mulher eram mais jovens. Mas não conseguia recordar o rosto de nenhum
dos três. Suspirando levantou-se e voltou à cozinha. Abriu o frigorífico. Lá não havia mais nada senão a caixa da “pizza” guardada na
antevéspera. Retirou-a e jogou-a no caixote do lixo. Depois abriu o congelador e lá também
não havia nada. Ultimamente nem sequer tinha tido tempo de ir às compras.
Desligou o frigorífico, a fim de o deixar a descongelar para limpar depois do
jantar. Lavou as duas chávenas do chá limpou-as e guardou-as. Deu uma olhada à
sala, ajeitou as almofadas no sofá, fechou a persiana, e pensando que estava
tudo em ordem foi ao quarto, retirou da cómoda um conjunto de roupa interior de
algodão rosa. E com ele na mão foi para a casa de banho a fim de tomar duche e despachar-se para estar em casa do pai a horas do jantar.
Meia hora mais tarde, saiu de casa envergando um vestido
de alças e um casaquinho do mesmo tecido. Levava o cabelo apanhado, e calçava
sandálias de salto alto.
Tinha a chave da casa do pai, mas desde que saíra de casa
para viver sozinha nunca mais a utilizara. Aquela fora a sua casa até esse dia,
agora era a casa do pai. Tocou a campainha e aguardou que a empregada viesse
abrir mas foi Miguel, quem a abriu a porta, cheio de alegria. Paula baixou-se e abraçou
o menino com todo o carinho.
-Onde estão todos? – perguntou entrando em casa pela mão
do menino.
- A mãe está no quarto, o pai no escritório. Vou avisá-los que já
chegaste.
Deixo-vos com a minha última foto. Como vêm o olho está quase tão aberto como o outro.
Só que não vê.




