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16.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXI




Pela primeira vez desde que se tinha tornado um adulto, Cláudio sentiu que o pai lhe estava a esconder alguma coisa.  Conhecia-o bem. Talvez fosse algum problema com o casal, ou quem sabe o médico dissera-lhe alguma coisa sobre a saúde da mulher que ele não lhe queria contar para não o preocupar. Porque com os negócios não era. Nunca tinham corrido tão bem como no ano anterior, e este ano, a menos que acontecesse uma catástrofe natural, como chuvas intensas ou queda de granizo, que naquela época e com as uvas quase na fase das vindimas seria realmente uma grave perda, o ano ia ser muito profícuo.  Porém o tempo estava bom e o prognóstico do IPMA para os próximos dez dias não podia ser melhor. Teria que telefonar ao seu amigo Doutor Ricardo Souto, para saber se havia alguma coisa de errado com a mãe.
Até ele chegaram as onze badaladas do sino da Igreja. Devia ir deitar-se, tinha muito trabalho no dia seguinte. Mas a noite estava quente, o céu estrelado, e não se ouvia outro ruído que não o cantar dos grilos na sua ária de sedução para atrair a fêmea. E as cigarras. Cláudio gostava de ficar ali em silêncio, a sós consigo mesmo e com os seus pensamentos mais íntimos, que ultimamente tinham um nome. Helena.
Porque teria a jovem fugido dele? Porque não lhe dera, nem dera a si própria a hipótese de se conhecerem melhor? Será que tinha alguém a quem não queria trair? Um namorado, um noivo?
Porque havia ela de ter aparecido na sua vida, se não tinha intenção de ficar? E porque raio ele não conseguia esquecê-la? Mal se abstraía do que estava a fazer e logo ela chegava, e se instalava nos seus pensamentos como dona e senhora.
À noite, sozinho no enorme leito de casal, parecia-lhe sentir o seu perfume, a doçura dos seus lábios. Começava a sentir o peso da solidão. Estava na altura de procurar uma companheira. O pior é que até conhecer Helena, não se interessara por nenhuma, e agora, só a jovem lhe interessava. Mas como encontrá-la? Não podia andar, como os arautos da idade média, de cidade em cidade, gritando o seu nome.
Levantou-se aborrecido consigo próprio. Desde quando, ele, Cláudio Guerreiro, pensava parvoíces, tais como andar de cidade em cidade a gritar o nome de uma mulher? O melhor que tinha a fazer era ir deitar-se e tentar dormir. De dia, com os imensos afazeres, é muito mais fácil esquecer. E talvez a recordação da jovem lhe desse tréguas.
Pouco depois dormia profundamente. Acordou sobressaltado com a sensação de que não estava sozinho. Abriu os olhos e ficou espantado ao ver Helena, envergando uma curta e sensual camisa de dormir. Estava de pé junto à cama e sorria para ele.
"Não é possível, estou a dormir, isto é um sonho,"- pensou enquanto esfregava os olhos, esperando que a visão desaparecesse, mas quando os abriu, ficou espantado ao ver a jovem não só não tinha desaparecido, como naquele momento, se deitava a seu lado.
- Que fazes aqui? – Perguntou estupefacto.
- Chamaste-me e eu vim, - respondeu-lhe num sussurro.
Ainda sem entender como era possível, ele estendeu os braços e ela aninhou-se neles. Começaram a beijar-se. Primeiro docemente, depois com toda a força da paixão que os possuía. Beijavam-se, e despiam-se mutuamente, mãos e bocas percorrendo os corpos em carícias loucas, até que não podendo mais protelar o momento. Cláudio entrou nela e os dois iniciaram a dança mais antiga da humanidade.
No momento sublime em que ela gritou o seu nome, acordou encharcado em suor, deitado sobre a almofada. Acendeu a luz. Quatro horas da madrugada. Sentou-se na cama e procurou os chinelos. Precisava com urgência de um duche. 



Gente estão cansados da história? É que está tudo a falar no final!... E a procissão ainda só está no adro. 


A quem pergunta pela minha saúde, estou a fazer fisioterapia e estou melhor, embora longe de estar bem.
Esta tarde, fui a uma consulta de oftalmologia, pois notei que estava a deixar de ver do olho direito e como a mãe tinha glaucoma e o irmão tem glaucoma e quando descobriu já estava cego da um olho e com apenas metade de visão no outro, fiquei assustada e fui logo de manhã marcar uma consulta.
Pois bem o farol direito está com uma catarata que já me está a roubar 50% da visão. Mas não há nenhum sinal de glaucoma.
Aconselhou a operação até ao fim do ano.

11.4.16

MANEL DA LENHA.- PARTE XLVI


Esta era a casa da porteira, A janela é o quarto, a outra janelinha redonda é a casa de banho e a porta dá acesso à cozinha. Foto minha.


Nos dias que se seguiram os jornais contaram como puderam a tragédia. E digo que contaram como puderam porque as chuvas não explicam tanta morte, e tanta gente desalojada. Certo que a chuva foi muita, dizem que casos destes só acontecem uma vez a cada 500 anos. Mas a miséria em que vivia grande parte da população, muitos em barracas situadas perto de ribeiros, matou tanto ou mais que a chuva. Porém,  isso os jornais não podiam noticiar, que a censura  cortava tudo o que pudesse pôr em questão o governo . 
No laboratório onde a filha trabalhava, tinha várias colegas de Odivelas, uma das zonas mais afectadas. Algumas perderam tudo o que tinham. Em todo o país, mobilizaram-se as pessoas na aquisição do mais essencial para socorro das vitimas que sobreviveram à catástrofe. Na Seca, juntaram-se cobertores, lençóis e  outras roupas de agasalho que foram enviadas para lá. Apesar de  serem pobres, todos contribuiriam com o que puderam.
No final do ano a porteira do portão principal da Seca, morreu. O Gerente da Seca, propôs que ao Manuel que a sua mulher, fosse a nova porteira.  Isso queria dizer que a Gravelina passava a trabalhar o ano inteiro, não apenas durante os meses da safra. Por outro lado deixava de trabalhar na Seca, já que aquele portão tinha movimento o dia inteiro. Porém a casa da porteira, era muito pequena, tinha apenas um quarto, uma cozinha, e casa de banho, pequena, apenas com um lavatório, e uma sanita. Ainda assim melhor que no barracão, onde não havia nada, e Manuel tivera que fazer uma casinha de madeira ao largo da casa para os alívios fisiológicos.
Havia também um telefone, para comunicar com o escritório, sempre que alguém sem ser trabalhador queria entrar. Ora se por um lado a proposta era boa, por outro, o facto da casa ser tão pequena e ele ter três filhos tornava inviável a aceitação. 
Então o Manuel propôs ao gerente, a possibilidade de continuar a viver no velho barracão, mesmo com a mulher porteira no outro portão.
Ele aceitou, e assim a Gravelina, ia logo de manhã para o outro portão, fazia lá o almoço e almoçavam lá, depois à noite, fechava o portão e ia dormir junto da família.
Por essa altura, Manuel sabe que um sobrinho da  mulher 
acaba de embarcar para Angola. Mais um para a maldita guerra.