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7.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIX


No sábado, Teresa acordou cedo.  Sentia-se cansada. O calor excessivo que já vinha da segunda metade de Junho, e se prolongara por aquela primeira quinzena de Julho, com noites de temperaturas verdadeiramente tropicais, fazia com que dormisse pouco e mal. Depois durante o dia, sentia-se cansada e muito sonolenta. Tinha tanto sono, que por vezes tinha a sensação de que não dormia há meses. Fora uma grande ideia ter contratado Inês para gerente da pastelaria. Do jeito que se sentia, nunca teria conseguido manter o ritmo de trabalho.

Nessa manhã, além do sono e cansaço, começaram os enjoos e vomitara tudo quanto tentara comer, não sabia se efeito da gravidez, ou se porque estava nervosa, com a aproximação da hora em que o empresário a viria buscar para a levar a almoçar.

Ele não lhe dissera onde era o almoço e isso preocupava-a. E se fossem vistos por algum jornalista? Teresa vira nas notícias do dia anterior uma reportagem da festa sobre o lançamento do jogo. Ela não usava o computador a não ser em trabalho, não percebia nada de jogos, mas a julgar pelos muitos jornalistas que o rodeavam, aquele lançamento era algo de muito importante.  Desligou a televisão a pensar que se ele já era famoso antes, agora sê-lo-ia muito mais. Caramba, não lhe bastava a situação em que estava metida, tinha que ser com um homem rico e famoso. Se fosse um pobre anónimo, provavelmente nem chegaria a saber o que tinha acontecido.

Às vezes arrependia-se de o ter procurado. Quem sabe ele levava alguns meses para descobrir a sua identidade, e ela não estaria agora preocupada com aquela convivência. “Foste precipitada como sempre. Quantas vezes te disse que as cadelas apressadas parem os filhos cegos?” Era o que a avó lhe costumava dizer quando em criança, agia de forma impulsiva.

Todavia ela sabia que não conseguiria conviver com a angústia de não saber o que o empresário faria quando descobrisse a sua identidade.  Agora pelo menos, tinham conversado, e não fosse ela, tão desconfiada em relação ao sexo oposto, poderia pensar que “o diabo não era tão mau como o pintavam”.

Depois do banho, viu-se ao espelho e observou as diferenças no seu corpo. O ventre estava mais arredondado, os seios maiores, e a auréola que rodeava os mamilos mais escura. Além disso estavam muito sensíveis e doloridos ao toque. Seria normal? Segundo o livro que estivera a ler, dizia que sim, embora também acrescentava que umas mulheres tinham muito mais sintomas que outras. Será que ela iria ser uma daquelas mulheres que a meio da gravidez já têm um barrigão que parecem estar no fim do tempo? A sua amiga Inês fizera uma barriga pequena e, no entanto, o Martim nascera com peso e comprimento normal. Depois também se sentia muito cansada. Se aquilo era às cinco semanas, como ia conseguir chegar às quarenta? Bom quando voltasse ao médico, ele lhe diria se aquilo era ou não normal, para o tempo que tinha. E por falar no médico, tinha pensado muito, e ia pedir à sua ginecologista  se a podia acompanhar e se lhe aconselhava um obstetra. Não queria continuar a ir ao Centro de PMA. Tinha perdido a confiança neles. E de resto fora com a sua ginecologista que fizera vários tratamentos anti esterilidade a fim de tornar maiores as hipótese de ficar grávida após o primeiro procedimento, já que sabia que algumas mulheres só o conseguiam à segunda ou terceira vez.

Olhou o relógio. Onze e meia. Tinha-se perdido nos seus pensamentos. Abriu o roupeiro e depois de uns momentos de indecisão optou por umas calças de algodão rosa-velho e um top de alças branco. Escovou o cabelo e prendeu-o num coque. Olhou-se ao espelho e não gostou do seu aspeto, mas também nunca gostara de maquilhagem. Bom, a bem da verdade ela até gostara bastante de se ver, quando a esteticista da Inês, a maquilhara no dia do casamento da amiga. Mas ela nunca se maquilhara, e não tinha ideia nenhuma de como fazê-lo, pelo que apenas passou o batom incolor e hidratante nos lábios e deu-se por pronta.

Pouco depois ouviu a campainha, pegou na mala e desceu.

 

6.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVI


Ela que nunca fazia perguntas, não se conteve e perguntou enquanto lhe servia o café.
-Então? Há alguma novidade?
- O Pedro pensa que pode haver. Ele encontrou uma imagem do Fernando, no gabinete de contabilidade. O registo da hora, marca as vinte e uma horas, e a essa hora é suposto não haver ninguém na firma, a não ser alguém que esteja a fazer serão para acabar algum trabalho extra. Se fosse o teu pai que lá estivesse a essa hora, seria normal. Qualquer outra pessoa, não podia estar naquele gabinete, aquela hora.
- E quem é esse Fernando?
- O sobrinho do meu ex-sócio. O curioso é que ele nunca trabalhou na empresa, oficialmente. Mas lembro-me que uns dois meses antes de descobrirmos o desvio, ele passou um tempo lá, ajudando o tio, que tinha sofrido um enfarte e estava muito débil.
- Então pode ter sido esse Fernando, a cometer o desfalque?
- Pode. Todavia para ter acesso à conta, ele tinha que ter acesso à senha do teu pai. O Pedro, diz que tem que investigar a vida do Fernando, por essa altura, pois não se pode acusar uma pessoa sem ter provas para manter a acusação. Só com provas consistentes, poderá ter na mão a chave para reabrir o processo.
- Mas como é que esse Fernando, teve acesso à senha do meu pai?
-Na altura ainda não tínhamos o actual sistema de segurança. Ele só foi introduzido depois do desfalque. Tínhamos  segurança privada nas instalações, mas a segurança informática e bancária deixava muito a desejar.
Segundo o Pedro, se ele conheceu a senha do tio, era fácil conhecer as outras, já que na altura, havia uma senha única, que correspondia à empresa, seguida da inicial do nome do utilizador. Ele não ia utilizar a senha do tio nem a minha. Se utilizasse a da Alice,  a secretária, provavelmente ninguém acreditaria e a investigação podia chegar até ele. Mas utilizando a do teu pai, e sobretudo  adulterando os livros, provava a culpabilidade dele. Acontece que é essencial saber, se havia motivações e tentar seguir o rasto do dinheiro. Só conseguindo-o teremos a prova, para reabrir o processo.
- E como vão conseguir isso, agora tanto tempo depois?
-Para nós seria impossível, mas não para um investigador da Judiciária, e o Pedro é dos melhores. Pode levar algum tempo, mas ele consegue, podes acreditar.
- Obrigado. Nunca te poderei pagar o que estás a fazer por nós. O meu pai tem sofrido tanto!
-É também por mim, Sandra. Não posso permitir que haja quem pense que o fiz para obrigar o meu sócio a vender-me a sua parte, e acabei condenando um inocente à prisão.
- Nunca me perdoarás, pois não? – perguntou com tristeza.
Ele sorriu.
-Não há nada a perdoar Sandra. Se estivesse no teu lugar, era capaz de ter pensado o mesmo.
Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vai descansar. Quem sabe, não demorará muito a teres o teu pai de volta.


21.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE IV





Pousou o telemóvel sobre a mesa-de-cabeceira, e dirigiu-se  à casa de banho.  Despiu-se, enfiou a roupa que acabara de despir,  no cesto da roupa suja, abriu a torneira da água e meteu-se debaixo do chuveiro.  Depois do duche, enxugou-se, enfiou o robe sobre o corpo nu e regressou ao quarto. Retirou do armário umas calças de ganga e um suéter que vestiu. Voltou à casa de banho, pendurou o roupão no cabide atrás da porta  e olhou com desconfiança a imagem que o espelho lhe devolvia. Pese toda a atração que provocava no sexo oposto, Gil nunca se considerara um homem bonito. Podia reconhecer que no conjunto dos seus traços, tinha um aspeto agradável, mas bonito não era. Todavia a imagem que naquele momento, o espelho lhe devolvia, nada tinha que merecesse um segundo olhar.  Certo que continuava a ter um porte atlético, mas os olhos mortiços e rodeados de olheiras, o olhar cansado, a barba incipiente de quem passara o dia sem se barbear, o ricto amargo na boca e o cabelo húmido, estavam longe de lhe dar um ar muito atraente. Respirou fundo, passou os dedos pelos cabelos, puxando para trás uma madeixa rebelde, endireitou a gola do suéter azul, e apertou o cinto nas calças de ganga. Por fim saiu da casa de banho, desceu as escadas e dirigiu-se ao seu escritório. 
O jantar seria às oito como era hábito, ainda tinha tempo para ver o correio, e verificar alguns documentos que precisaria para o dia seguinte. Depois ao serão analisaria a proposta que Luna, a sua agente lhe fizera chegar. Precisava embrenhar-se no trabalho a fim de esquecer por algum tempo, o hospital, Sara e Mariana a sua filha. Gostava de pensar nela dando-lhe o nome que iria ter, e não como uma bebé. Era uma estupidez, o seu lado prático reconhecia-o, mas no seu coração era como se ao pronunciar-lhe o nome lhe enviasse um sopro de vida que a fortalecesse.
Mariana, fora o nome da sua mãe. Uma mulher humilde e trabalhadora que criara sozinha os três filhos, já que o marido, um mulherengo incorrigível, a quem ela ia perdoando todas as traições, acabara por troca-la por outra mulher mais jovem, logo após o nascimento de Laura, a mais nova dos três irmãos. Por isso, ele escolhera esse nome para a filha. Como uma homenagem e um agradecimento à mulher que tanto os amou e tanto se sacrificou por eles. Pena que tivesse morrido tão jovem, sem que ele pudesse dar-lhe a velhice que ela merecia, mas o maldito cancro acabara com ela em menos de um ano, precisamente na altura, em que ele ia assinar o primeiro grande contrato da sua vida. Graças a isso pôde montar a pequena empresa de artigos desportivos, com que o irmão sonhava e pagar a Universidade à irmã.
Depois foram oito anos em que somou verbas astronómicas não só com o futebol, mas também com os contratos publicitários. O nome de Gil Gaspar, tornou-se no toque de Midas. Foi já nos anos finais dessa época dourada que conheceu aquela que viria a ser a sua mulher.
Sara era uma jovem completamente desconhecida, muito bonita e com uma excelente figura, que sonhava vir a ser modelo, e que um agente de publicidade descobrira e convidara para fazer par com ele numa campanha publicitária.
Era uma beleza, mas mais do que isso foi a sua timidez e o seu ar ingénuo que os encantara, a ele e ao fotógrafo.
O anúncio fora um êxito, e a agência convidara-a para alguns desfiles, mas o mundo da moda é um mar de intrigas e interesses, onde é preciso muito mais do que uma carinha bonita e algum talento, para se chegar ao cume. 


29.1.19

SANTUÁRIO DO SENHOR BOM JESUS DO CARVALHAL






Na primeira foto panorâmica do belo painel de azulejos de "Os círios no Santuário do Senhor Jesus". Na segunda uma composição dos vários quadros. Por favor ampliem as fotos.Consta que este era o mais importante local de culto antes antes de 1917 e das aparições na Cova de Iria. Hoje apesar de se encontrar a pouco mais de 1Km do famoso jardim Oriental do Berardo, acredito que a maioria das pessoas que vão ao Bombarral, visitar o jardim, se vão sem saberem do belo Santuário ali tão perto.






"O Carvalhal foi repovoado depois da reconquista de Óbidos aos Mouros em 1147, por D. Afonso Henriques. Em 1371, D. Fernando desanexou o Cadaval de Óbidos e o Carvalhal passou a pertencer ao concelho do Cadaval; em 24 de Outubro de 1855 voltou a pertencer a Óbidos e em 28 de Março de 1914, com a criação do concelho do Bombarral, passou a fazer parte do novo concelho. A Paróquia foi curato da apresentação do prior de beneficiados de Nossa Senhora da Assunção de Óbidos até à nova restauração pastoral do Patriarcado, já no séc. XX. O Santuário foi construído sobre as ruínas duma primitiva ermida dedicada a São Pedro de Finis Terra que ruíu com o terramoto de 1755. Entretanto, sem precisão de data, já a Imagem do Senhor Jesus fora recolhida na capela-mor da referida ermida que seria a primeira igreja paroquial. A Imagem do Senhor Jesus é duma beleza ímpar, envolve mistério e lenda,  não se sabendo com exactidão a sua origem. Poderá admitir-se a hipótese de, na ocasião da reforma protestante na Europa Central, a Imagem ter sido lançada ao mar, como aconteceu em situações de radicalidade no movimento protestante, vindo a ser encontrada na praia de Peniche.

A lenda diz: "andava um pescador no mar de Peniche, eis senão quando, vê um caixote a boiar perto do barco, com muita curiosidade, arrasta o caixote para a praia e logo se faz ouvir uma voz: leva-me até poderes... O pescador, convencido que estava uma pessoa dentro do caixote, abriu-o e ficou surpreendido ao olhar para a Imagem do crucificado. Obediente àquela voz misteriosa, o pescador colocou a Imagem aos ombros e começou a caminhar na direcção para onde habitualmente ia fazer a venda do peixe. A Imagem não lhe pesava, mas quando chegou junto a ermida de São Pedro, tornou-se tão pesada que não conseguiu avançar mais. Foi ao casario que ficava próximo chamar alguém para o ajudar, mas o peso da imagem era tanto que resolveram deixá-la na Ermida. Logo se divulgou a noticia que naquela Capela estava "huma devota antiga imagem de Christo crucificado, pela qual Deus obra muytos milagres e he mui frequentada de devotos Romeyros das Villas circunvisinhas". Assim, ao longo do séc. XIX e início do séc. XX, o Templo ampliou-se, construiram-se as casas dos romeiros e outras acomodações para acolher os peregrinos. O sino mais antigo que se encontra numa das torres da igreja tem a data de 1737 com a seguinte inscrição: "Bone-Jesus-Miserere Nobis"; seria o único sino da primitiva igreja; os outros três sinos, da mesma torre, datam de 1862. A segunda torre foi construída por iniciativa do padre José da Costa Prata e concluí-se em 1909. O arvoredo do adro da igreja foi plantado em Abril de 1867. O coreto foi construído em 1895. Em 1910 o mesmo sacerdote adquiriu o terreno da parte baixa do Santuário, que arborizou e murou, ampliando assim, substancialmente, o recinto do Santuário.

Descrição da Igreja do Santuário:

A igreja, de uma só nave, tem o tecto em madeira ornamentado com 15 painéis de florões, contendo o do centro os símbolos da paixão de Jesus. Na capela-mor está o Sacrário em talha dourada e um retábulo constituído por duas colunas coríntias, em madeira, entre as quais estão as imagens do Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria, ambas em madeira policromada; ao fundo, em posição elevada, com acesso próprio, está o Trono trabalhado em talha dourada Joanina, onde se guarda a veneranda Imagem do Senhor Jesus. Há uma capela lateral, onde se encontra a imagem do Senhor dos Passos, enquadrada num vistoso baldaquino dourado; na mesma capela podemos venerar as imagens de Nossa Senhora das Dores, Santo António, Santo Antão, Santa Teresa do Menino Jesus, São Luís de Gonzaga, Santa Rita, Santa Luzia, Nossa Senhora da Conceição e Santa Filomena; há ainda um altar túmulo com a imagem do Senhor Morto; nesta capela Celebra-se o Sacramento da Reconciliação. Em frente está o Baptistério com a antiga pia em pedra e o nicho dos Santos Óleos. Do mesmo lado, na parede, está um púlpito em madeira muito bem trabalhada. No corpo da igreja, de frente, estão dois altares, um com a imagem de São Pedro e o outro com a imagem de São Paulo. "


Fonte : site oficial do Santuário


Dá para perceber que não tenho escrito nada novo. 
E que estou a "roubar" textos de outro blog que poucos leitores do Sexta visitam. Em compasso de espera para a cirurgia, com uma festa de aniversário para preparar para esse mesmo dia e a azáfama do lançamento do livro, o tempo não dá para nada.



4.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XIV


Ainda o sol não tinha nascido, quando Anete acordou. Levantou-se, e ao encaminhar-se para a casa de banho, reparou no vestido, que largara de forma negligente em cima de uma cadeira. Olhá-lo, recordou-lhe o jantar do dia anterior, e o homem que a levara a jantar.
Não havia dúvida de que Salvador era um homem muito interessante. Havia um não sei quê de mistério nele que a atraía e a repelia ao mesmo tempo. Aquela história sobre a cunhada e a confusão gerada, tão depressa lhe parecia autêntica como completamente inverossímil. E se na véspera a possibilidade de saber mais sobre ele no jantar a tinha entusiasmado, a verdade é que o jantar fora nesse aspeto uma desilusão. Ele levara-a a falar da sua vida, quase sem ela se aperceber, enquanto ele não dissera mais do que o que lhe tinha dito de manhã. Tinha sido educado, gentil mesmo, mas ela não conseguira decifrar a expressão dos enigmáticos olhos cor de âmbar, que por vezes escureciam e se assemelhavam ao doce chocolate.
Trocaram números de telefone, passaram a tratar-se por tu, e despediram-se com a promessa verbal de voltarem a sair juntos outro dia. Mas será que isso iria acontecer? Os sentimentos de Anete eram muito confusos. Ela gostaria de voltar a sair com ele. O seu toque quando lhe segurou no braço, pôs-lhe o corpo a tremer e fez-lhe sonhar com coisas nunca experimentadas. Mas ao mesmo tempo, temia o aprofundar daquela amizade. Para desastre já lhe bastava o anterior casamento. Tinha vinte e oito anos, gostaria de formar uma família, ter filhos. O seu ideal de vida sempre fora, ter três filhos como a sua mãe. Mas os anos passaram rapidamente, e dentro de poucos anos o seu relógio biológico deixaria de funcionar. A natureza não fora benéfica para as mulheres. Era uma injustiça, que os homens pudessem ser pais em qualquer idade, e as mulheres estivessem limitadas a tão poucos anos. Enquanto tomava duche, pensou que se estava a afastar daquilo que naquele momento era a sua prioridade. Conseguir um emprego. Tinha amealhado algum dinheiro, mas uma boa parte já se fora, na compra da mobília,  loiças e eletrodomésticos. Montar uma casa, ainda que simples e pequena como a dela, sai caro, e não queria ter que recorrer aos pais, para a sua subsistência. 
Anete não tinha um curso superior. Dera os estudos por terminados no fim do secundário. Gostava muito de artesanato, e antes do casamento trabalhara nisso com algum sucesso. Agora gostaria de algo diferente. Gostava do contacto com pessoas, pelo que uma loja talvez fosse o ideal. Mas a agência tinha-lhe proposto outra coisa.
Acabou de se arranjar e olhou-se no espelho. A imagem devolvida agradou-lhe. Procurou a carta que lhe tinham dado na agência de emprego, meteu-a na mala, e saiu, dirigindo-se ao metro. Uma conhecida clínica esperava-a.




18.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XVII


Ela que nunca fazia perguntas, não se conteve e perguntou enquanto lhe servia o café.
-Então? Há alguma novidade?
- O Pedro pensa que pode haver. Ele encontrou uma imagem do Fernando, no gabinete de contabilidade. O registo da hora, marca as vinte e duas horas, e a essa hora é suposto não haver ninguém na firma, a não ser alguém que esteja a fazer serão para acabar algum trabalho extra. Se fosse o teu pai que lá estivesse a essa hora, seria normal. Qualquer outra pessoa, não podia estar ali, aquela hora.
- E quem é esse Fernando?
- O sobrinho do meu ex-sócio. O curioso é que ele nunca trabalhou na empresa, oficialmente. Mas lembro que uns dois meses antes de descobrirmos o desvio, ele passou um tempo lá, ajudando o tio, que tinha sofrido um enfarte e estava muito débil.
- Então pode ter sido esse Fernando, a cometer o desfalque?
- Pode. Mas para ter acesso ao dinheiro ele tinha que ter acesso à senha do teu pai. O Pedro, diz que tem que investigar a vida do Fernando, por essa altura. Só com todas essas informações, poderá ter na mão a chave para reabrir o processo.
- Mas como é que ele soube a senha do meu pai?
-Na altura ainda não tínhamos o actual sistema de segurança. Ele só foi introduzido depois do desfalque. Tínhamos  segurança privada nas instalações, mas a segurança informática e bancária deixava muito a desejar.
Segundo o Pedro, se ele conheceu a senha do tio, era fácil conhecer as outras, já que na altura, havia uma senha unica, que correspondia à empresa, seguida da inicial do nome do utilizador. Ele não ia utilizar a senha do tio nem a minha. Se utilizasse a da Alice, provavelmente ninguém acreditaria e a investigação podia chegar até ele. Mas utilizando a do teu pai, e sobretudo  adulterando os livros, provava a culpabilidade dele. Acontece que é essencial saber, se havia motivações e tentar seguir o rasto do dinheiro. Só conseguindo-o teremos a prova, para reabrir o processo.
- Obrigada. Nunca te poderei pagar o que estás a fazer por nós. O meu pai tem sofrido tanto!
-É também por mim. Não posso permitir que haja quem pense que o fiz para obrigar o meu sócio a vender-me a sua parte, e acabei condenando um inocente à prisão.
- Nunca me perdoarás, pois não? – Perguntou com tristeza.
Ele sorriu.
-Não há nada a perdoar Sandra. Se estivesse no teu lugar, era capaz de ter pensado o mesmo.
Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vai descansar. Quem sabe, não demorará muito a teres o teu pai de volta.


30.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XI


Duas horas depois, o assunto estava resolvido. Louis era um bom amigo, não teve de se esforçar muito para que lhe atendesse o pedido. Glória iria receber em breve a proposta e depressa estaria em Paris.
 Pensou em Daniela. A imagem da jovem assaltara-o várias vezes, desde que a conhecera dez dias atrás. Aquela sim era uma mulher interessante. Bonita, inteligente, e cheia de personalidade. Gostaria de saber mais coisas sobre ela. Mas como fazê-lo? Claro, um detetive, dir-lhe-ia tudo sobre ela. Porém sem saber porquê repugnou-lhe a ideia de saber que um outro homem andasse a espiar a jovem. Passou a mão pela testa.
Tinha-lhe deixado o seu número e em dez dias ela não lhe telefonara. Que se passava? Será que ia fazer de conta que ele não existia? Mas não era possível. Ele não lhe passara nenhuma procuração, ela ia precisar da sua assinatura, para novas compras. Mais do que isso, ele tinha direito a ser informado sobre o funcionamento da fábrica. Pegou no catálogo, guardou o telemóvel e saiu.
- Vou sair. Liga-me se necessário, - disse a Rita ao passar pelo seu gabinete. Vou à fábrica de tecelagem.
Rita fez um movimento de assentimento com a cabeça, e ficou a pensar que qualquer coisa não estava bem com o último negócio efetuado pelo patrão. Conhecia-o demasiado bem.
Ele estacionou o carro no parque da fábrica e entrou. Cumprimentou, Madalena com um aceno de cabeça, e abriu a porta do gabinete sem se preocupar em bater.
- Boa tarde
Ela olhou-o furiosa.
-Não te ensinaram a bater à porta?
- Porquê? Este espaço também é meu.
-Tens razão. Mas se pensas proceder sempre assim, deixa de ser meu. Amanhã passarei a ocupar o gabinete da Madalena. Ela não deve importar-se de trabalhar no escritório com as outras duas empregadas.
Ficou furioso. Sabia que não procedera bem. Tinha-o feito de propósito para a ver irritada e ela devolvera-lhe a jogada na mesma proporção.
- Não precisas sair. Não voltará a acontecer. Irritas-me, sabes?
Atirou com o catálogo para cima da sua secretária, e voltando-lhe as costas, aproximou-se da janela.
Ela não disse nada. Como podia ela, irritar um homem tão poderoso, tão cheio de confiança em si mesmo? Nervosa, brincou com a esferográfica, e esperou.


15.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XX


Um sorriso rompeu no rosto materno, tão luminoso como raio de sol em dia de chuva. Ela ergueu a mão, e acariciou-lhe os cabelos, com a mesma ternura com que o fazia em criança, quando o filho procurava a sua cumplicidade, nalguma travessura.
- Vai descansar, filho. Já é tarde e tens que levantar cedo. A viagem é longa. 
Obedecendo, o jovem levantou-se, e dando um beijo na face enrugada, murmurou:
- Boa noite, mãe. Durma bem.
- Deus te abençoe meu filho. Que os anjos velem o teu sono.
Ao regressar à cozinha, Maria deu-se conta de que não tinham jantado. A mesa continuava posta, esperando a hora que já passara há muito. Encolheu os ombros, guardou a janta no frigorífico, apagou a luz e foi-se deitar.


Acordou na manhã seguinte com o delicioso aroma do café invadindo-lhe o quarto. Enquanto se dirigia para o duche, os acontecimentos da noite anterior, desfilaram na sua mente, como fita em tela de cinema. Adormecera tarde e tinha a sensação de pouco ter dormido.

Deixou que a água resvalasse pelo seu corpo, como se fosse uma carícia revigorante. Depois, com o corpo envolto na toalha, iniciou o escanhoamento do rosto. Enquanto o fazia a imagem de Rita pareceu sair dos seus pensamentos, e apareceu reflectida ao lado da sua, no espelho. Fechou os olhos e imediatamente soltou um queixume. Acabara de se cortar...

Na cozinha, Maria acabara de barrar as torradas. O filho deveria estar a entrar para o pequeno-almoço. Se bem o conhecia, não devia ter dormido grande coisa. Nunca em toda a sua vida,  vira o filho apaixonado. Namoricos, quando andava na escola, sim. Tivera muitos. Era um cata-vento, muito mais interessado nos rabos de saias, do que nos estudos. Depois subitamente acalmou, e nunca mais o viu interessado em ninguém. Até à noite anterior. Aí, percebera, mais pelo seu tom de voz do que pelas palavras pronunciadas que o seu menino deixara de o ser, e era agora um homem profundamente apaixonado. Tentou imaginar como seria aquela Rita. Seria uma boa pessoa? Seria capaz de fazer o filho feliz? Não parecia dar muito crédito aos elogios do filho. Tinha idade e experiência suficiente para saber que um homem apaixonado fica cego para tudo, menos para aquilo que ele próprio idealiza.

- Bom dia, mãe. Hum que cheirinho delicioso – disse curvando-se para a beijar.

- Meu ou do pequeno-almoço? - Questionou ela rindo.

- Os dois, mãe, os dois – respondeu rindo também.