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22.6.18

O DIREITO À VERDADE - V





Lena acordou, já passava das sete da tarde. Passou a mão pela testa transpirada, mais pelo sono inquieto, povoado de fantasmagóricas figuras que se riam dela, do que pelo calor, apesar do dia ter estado bem quente. Ainda assim a dor de cabeça, mercê do efeito das aspirinas, passara.
Foi à cozinha, ligou o esquentador, e dirigiu-se à casa de banho a fim de tomar um duche. Despiu-se, meteu a roupa no cesto da roupa suja e meteu-se debaixo do chuveiro. Fechou a água, esfregou energicamente o corpo com o gel duche, e voltou a abrir a torneira, deixando que a água tépida deslizasse sobre o corpo, como se fosse uma carícia.
Findo o duche, espalhou pelo corpo o creme hidratante e vestiu o roupão sobre o corpo nu. Olhou-se ao espelho enquanto secava o cabelo. As olheiras ao redor dos belos olhos denunciavam o sofrimento e as noites sem dormir dos últimos dias. Recordou o achado dessa tarde, e pensou no que poderia ter levado a mãe a mentir-lhe a vida inteira.
"Será que o tio Alberto sabe disto? É claro que sim. A mãe não podia ter escondido da irmã e cunhado um casamento e divórcio, quando eram a sua única família e eram tão amigos,” – pensou.
Tinha que falar com ele o mais rápido possível. Escovou o cabelo acabado de secar, e dirigindo-se à cozinha onde preparou uma torrada e aqueceu um copo de leite. Tinha comida no frigorífico que sobrara da véspera, mas ficaria para o almoço do dia seguinte, estava sem apetite.
Quando acabou de comer pegou no telemóvel e ligou ao tio.
- Tio, disseste que qualquer coisa te ligasse. Preciso de ti.
- Aconteceu alguma coisa? Sentes-te mal?
-Aconteceu que encontrei no armário da mãe uma caixa com documentos, Uma certidão de casamento, outra de divórcio, um anel de noivado e uma aliança, entre outras coisas, Sabias disto?
Um curto silêncio do outro lado. Depois a resposta do tio.
- Sabia.
-Como foi possível que ela me tivesse mentido a vida inteira? E como é que vocês nunca me contaram?
- Não podíamos fazê-lo. A tua mãe fez-nos jurar que não te dizíamos nada.
-Preciso que me contes tudo. Tenho o direito de saber, é a minha vida, as minhas raízes. Podemos almoçar juntos, amanhã?
- Claro. Vou-te buscar ao meio-dia. Tens preferência por algum sítio?
-Eu preferia almoçar em casa. Quero mostrar-te os documentos que encontrei e é mais sossegado para conversarmos. Posso preparar o almoço.
- De modo nenhum. Precisas descansar. Ainda há, aí na rua, aquele restaurante que serve comidas para fora?
- O Estrela-do-mar? Sim.
- Então não te preocupes. Eu passo por lá e levo o almoço. Já jantaste?
-Já – mentiu.
-Muito bem. Deita-te cedo e procura descansar. Amanhã falamos.



Por ser um fim de semana especial, esta história só volta na Segunda Feira
Bom fim-de-semana a quem por aqui passar

21.6.18

O DIREITO À VERDADE - IV



A perplexidade tinha-se apossado do espírito de Helena Trindade, a jovem, a quem todos os amigos e conhecidos, tratavam por Lena. Não tinha dormido nada na noite anterior, doía-lhe terrivelmente a cabeça. Deixou a caixa em cima do sofá, levantou-se e foi à cozinha. Procurou numa gaveta, e encontrou uma caixa de aspirinas. Retirou dois comprimidos que engoliu com um copo de água e dirigiu-se para o quarto onde se deixou cair em cima da cama. Não se despira, só queria ver se descansava um pouco, de modo a aliviar a dor de cabeça, embora a recém-descoberta, não a deixasse sossegar. Como é que a mãe fora capaz de lhe mentir? E sustentar a mesma mentira durante tantos anos.
Segundo sabia, a sua mãe viera viver para aquela casa, há mais de vinte anos.  Decerto antes mesmo do seu nascimento, já que ela nascera na Maternidade Alfredo da Costa. Também segundo a mãe, não tinha mais família que a irmã casada e já com um filho. Segundo lhe contou, as duas viviam em S. Pedro do Sul, na casa que fora dos seus antepassados. Ana, a tia, empregara-se no hotel Vouga nas termas, enquanto Natália, a mãe, trabalhava numa loja de tecidos, na Praça do Município. A tia conhecera o jovem Alberto Castro, quando ele acompanhara a mãe, que precisava fazer um tratamento termal.  Foi amor à primeira vista, e quando dona Alzira terminou os tratamentos os jovens já falavam em casamento. 
Alberto vivia em Lisboa com os pais. Quando ele partiu as vizinhas diziam à jovem Ana, que não tivesse esperanças. O rapaz quisera divertir-se enquanto a mãe fazia os tratamentos, mas uma vez em casa nunca mais se ia lembrar dela. Não foi assim. Alberto escrevia regularmente, e por vezes telefonava. Pediu-lhe os documentos e disse que ia tratar do casamento. Ela disse-lhe que queria casar ali na terra, na Igreja de S. Francisco onde fora batizada. Ele aceitou e quando voltou a S. Pedro, no Verão de mil novecentos e oitenta e sete, vinha acompanhado dos pais e irmã, e tinham o casamento marcado para dois dias depois.
Ana, despediu-se da irmã, com um abraço apertado, a saudade já a marcar presença no seu coração, mas o dever da esposa é acompanhar o marido, e não podia impor a presença da irmã, à sua nova família que mal conhecia.
Natália continuara em S. Pedro, vivendo na casa que fora dos seus avós e mais tarde de seus pais. Tinha muitas saudades da irmã, que só via uma vez por ano, durante as férias. Quando a mãe ficara grávida, e contara à irmã,  e as duas decidiram vender a casa, e com a sua parte da herança, ela mudara-se para Lisboa, e alugara uma casa, precisamente aquela onde vivia, e que anos mais tarde quando a dona da casa morrera, o herdeiro decidira vender. Como inquilina, a mãe tinha prioridade na compra, que por esse mesmo motivo foi muito mais barata, que se estivesse devoluta. 
Isto fora o que a mãe sempre lhe dissera. Mas então segundo aqueles documentos a mãe, viera para Lisboa logo a seguir ao divórcio, provavelmente para que o marido não tivesse conhecimento de que estava grávida, e pudesse requerer o seu direito paternal sobre o bebé.
A mãe, sempre trabalhara numa loja, na Avenida Almirante Reis. Mas além do trabalho diário das nove  às dezanove horas, a mãe ainda fazia rissóis e croquetes que vendia aos vizinhos e às colegas na Loja. E às vezes ainda fazia pequenos arranjos em roupas aos fins-de-semana. Umas bainhas para subir ou descer, uma saia para apertar, uma gola de camisa para virar, enfim o que lhe aparecia. Como trabalhava perto de casa, não tinha despesas com transportes. Assim as duas foram vivendo sem que ela mexesse na maior parte do dinheiro, da sua parte, na  venda da casa e pinhal, que as duas irmãs tinham herdado. Natália depositara esse dinheiro numa conta a prazo. Com os juros altos da época, a conta cresceu, bastante  e assim pôde comprar a casa, em dois mil e dois, quando a senhoria morreu e o herdeiro a quis vender.





Gente, Toda a noite  choveu e a trovoada foi forte.  Vejam as fotos que acabei de tirar da minha varanda.  ( 9. 00 horas) Penso que alguém devia avisar o Senhor do Tempo, que o Verão começa hoje.