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22.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LVIII

 


E chegou o dia 31 de Dezembro, e aproximava-se a noite de fim de ano. Os dois dias anteriores, tinham passado a correr, entre os exercícios, cada dia mais fáceis de Tiago e alegres refeições em que a simpatia e cordialidade de Peter era notória. E a alegria de Tiago com a presença do amigo, não lhe ficava atrás, de tal modo que por vezes Anabela se sentia a mais e então se afastava. Mas logo, Tiago ou Peter lhe pegavam no braço e a traziam de novo ao convívio.

O ambiente era tal, que pela primeira vez na vida, Anabela esqueceu Óscar e conviveu como qualquer outra jovem da sua idade em harmonia, com os dois homens, abertamente. Aquela, seria a última noite que Peter estaria com eles, no dia seguinte partiria, e Anabela não tardaria a fazer o mesmo, pois embora Tiago quisesse prolongar a sua estadia, por mais um mês, a verdade é que ele já não precisava dela. O que faltava na sua recuperação podia fazer em qualquer clínica.

Enquanto ajudava Isilda na cozinha, com as iguarias que os deliciariam na ceia daquela noite, Anabela pensava em como a vida era estranha. Três meses antes chegara àquela casa, com a alma ferida, cujo único consolo era o carinho dos seus compadres e da pequena Patrícia. A luta que teve de enfrentar para tirar o doente do marasmo não foi fácil, mas teve o valor de não lhe dar tempo a remoer a sua dor. E a paz e o carinho que encontrou naquela casa, foram o melhor dos lenitivos. Apenas a animosidade do doente lhe amargava os dias.

Depois quase sem se dar conta, o mau humor foi desaparecendo, e o irascível doutor, foi ficando cada dia mais cordial. Isso tornou os dias da sua estadia mais prazerosos. Era como se a paz que disfrutava na quinta se tornasse ainda mais pacífica e luminosa.

Agora, que chegava a hora da partida, sentia um aperto no peito, uma grande tristeza no coração. Tinha-se afeiçoado ao caseiro, sentia Isilda como uma verdadeira amiga, e Tiago…

Que sentimentos tão contraditórios sentiu naqueles três meses. Primeiro admirou o homem, pelos seus ideais, pela sua luta por um mundo mais igualitário. Encheu-se de compaixão, quando o viu no primeiro dia, naquele quarto escuro, a barba crescida, o rosto macilento, os olhos sem brilho.

Mais tarde a raiva substituiu a compaixão ao perceber que o doente tinha escolhido o caminho para a morte, em vez de lutar pela sua recuperação.

Manteve durante os primeiros tempos uma luta constante para trazê-lo de volta e embora por vezes se sentisse desanimada, nunca desistiu. Orgulhou-se mais dele que de si mesma, quando percebeu que ele tinha voltado a querer viver, a querer voltar a ser a mesma pessoa de antigamente. E nos últimos tempos, depois que a atitude de Tiago, mudara por completo, Anabela sentiu um orgulho imenso pelo seu trabalho, mas também uma grande amizade pelo doente.

Sim, ela estava convencida que era uma simples e bela amizade. De modo nenhum queria pensar que podia ser algo mais…

 

 

 

17.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LVI

 



 Enquanto Anabela passeava pela quinta, na pequena salinha os dois amigos punham a conversa em dia.

-Bonita a tua enfermeira. Com uma enfermeira assim, também não me importava estar doente - disse Peter dando uma amigável palmada no ombro do amigo.

- Não digas asneiras. Ser ferido de uma forma tão brutal, não é uma doença, é um acidente, que pode ferir mais do que o corpo. Pode fazer-nos descrer da humanidade, de Deus, dos nossos ideais. 

Estive entre a vida e a morte e quando saí do estado comatoso, tinha sofrido várias cirurgias e estava com os membros inferiores paralisados. Todavia, mais do que as chagas físicas, são as da alma, aquelas que mais custam a cicatrizar.

-Sei. Mantive correspondência com os teus pais. Sei que a tua noiva, rompeu contigo no hospital e isso deve ter sido um golpe terrível. Lembro dos teus projetos de casamento para quando regressasses da missão.

-Curiosamente, não foi o rompimento dela o que mais me doeu. Sabes que a explosão me atingiu a bacia até à virilha?

-Não! Pensava que tinhas sido atingido só nas costas.

-Bom, não sei o que aconteceu, não me recordo, mas ao ouvir o estrondo devo ter tentado virar o corpo, talvez para ver o que tinha acontecido, e a explosão apanhou-me não só as costas mas parte do lado esquerdo até à coxa. O braço protegeu o tórax, mas não a bacia. 

Calou-se por momentos como se ainda lhe custasse falar do que lhe acontecera. 

-Os médicos disseram-me que estavam convencidos que eu voltaria a andar, mas não podiam garantir que eu pudesse voltar a funcionar como homem pois parte do ventre do lado esquerdo foi bastante atingido e a minha parte genital e reprodutora podia ter sido afetada.  Com esta informação, eu sabia antes mesmo da visita da Sandra, que não podia manter o noivado.

-Mas de qualquer modo foi cruel da parte dela, não esperar sequer que tivesses alta para terminar o noivado.

-Talvez, mas ao contrário do que os meus pais pensam, não foi isso que me fez entrar em depressão e desejar a morte, mas a informação médica, e o facto de que mesmo após ter tido alta hospitalar nunca mais ter sentido desejo, nem conseguido uma ereção; (e olha que meu tio se esforçou bastante, em escolher as mais belas enfermeiras que conhecia).

-Meu Deus, amigo, mas isso é terrível.

- Foi. De tal modo que desisti de viver. Corri com todas as enfermeiras, que meu tio enviou, vivia num quarto às escuras, não queria falar com ninguém, e quase não comia. Simplesmente tinha desistido de viver. E então meu tio enviou a Anabela.

 

15.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LV

 

Os dois homens, entraram na sala, enquanto Anabela se dirigia à cozinha para avisar Isilda de que podia levar a merenda à salinha e perguntar se ela precisaria de alguma ajuda para o jantar. Depois subiu ao seu quarto despiu a bata, tomou um duche e vestiu um conjunto de lã cor-de-mel.

Como Isilda dissera que não precisava da sua ajuda, e o dia apesar do frio intenso, se apresentava bonito, resolveu dar uma volta pela quinta. Hesitou entre o casaco de fazenda grossa, castanho e o casaco parka verde-azeitona, acabando por escolher o último por ser mais quente. Calçou as botas e sentindo-se confortável, desceu as escadas e saiu. 

Olhou o relógio. Quatro e meia da tarde. No fim do ano, os dias eram bem curtos e não tardaria a cair a noite. De qualquer modo ela não sairia da quinta, precisava apenas esticar um pouco as pernas e para ser sincera consigo mesma, também não se sentia muito à-vontade com os dois homens. Peter era simpático, extrovertido e um pouco brincalhão, diferente de Tiago que era um homem sério e muito intenso. Curioso como dois homens tão diferentes podiam ter uma relação de amizade, tão forte. Talvez fosse verdade a história de que polos opostos se atraem.

A bem da verdade, não era Peter quem a inibia, mas sim Tiago. Ela não sabia que se teria passado naqueles dois dias que esteve ausente, para as festas de Natal, mas embora Isilda, não se tivesse apercebido de nada especial, ela sabia que alguma coisa acontecera, e tinha de ter sido muito importante, porque o doente que ela deixara, não era o mesmo que encontrara. 

 A indiferença que ela lia nos olhos dele, tinha sido substituída por algo que ela juraria ser... desejo, talvez paixão. A rebeldia tão frequente anteriormente, tinha desaparecido. Tiago estava muito mais calmo, aceitava sem contestar e executava com entusiasmo todos os exercícios que ela lhe mandava fazer. Às vezes, Anabela tinha mesmo de se impor, a fim de que o entusiasmo masculino, não o levasse a cometer nenhum excesso que viesse a prejudicar o que já tinham conseguido.

Tinha de telefonar ao doutor Azevedo. A sua presença ali, já não se justificava, embora Tiago ainda tivesse de fazer mais algum tempo de fisioterapia, já podia fazê-lo em qualquer clínica, pois mesmo que ainda não pudesse conduzir, Joaquim que era um verdadeiro faz-tudo na propriedade, podia conduzir por ele. Afinal era ele que o fazia, sempre que era necessário ir às compras.

A noite caíra e com ela o frio intensificara-se. Anabela levantou o capuz, tentando proteger-se e iniciou o regresso a casa. Talvez Isilda precisasse de ajuda na cozinha.  Na quinta, o jantar era servido mais cedo que na cidade, e eles tinha em casa um convidado.

13.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LIV

 


Nos dois dias que se seguiram, Tiago entregou-se de corpo e alma, aos exercícios, silenciando todo e qualquer comentário de origem pessoal. A sua recuperação era cada vez mais nítida, de tal modo que no final do segundo dia, Anabela comentou com Isilda que provavelmente no início do ano, iria embora, pois embora Tiago pudesse ter de continuar a fisioterapia por mais algum tempo, poderia fazê-lo em qualquer clínica sem precisar de ter uma fisioterapeuta em casa.

Na manhã, da antevéspera do Ano Novo, Anabela acabara a sessão de fisioterapia a Tiago quando após uma leve batida na porta, esta se abriu para dar passagem a um homem alto e magro, que devia andar perto dos quarenta anos, ruivo e de olhos cor de âmbar provável legado de algum antepassado escocês.

-Peter! - exclamou Tiago abrindo um alegre sorriso e descendo da marquesa de tratamento, para se dirigir ao amigo.

-Desculpe enfermeira, interromper a sessão, mas tinha um enorme desejo de ver este morto-vivo, - disse o recém-chegado.

-Ora, já tínhamos acabado, - respondeu Anabela, estendendo o par das canadianas a Tiago

Os dois homens trocaram um apertado abraço que emocionou a jovem. Ela sabia que o visitante era esperado pelo seu paciente, com alguma ansiedade, e que os dois eram amigos, todavia não pensou que houvesse uma tal ligação entre os dois. Não era apenas uma simples amizade, era mais como se fossem dois irmãos, que se amavam e se reencontravam após longa separação.

E a verdade é que os dois tinham desenvolvido esse sentimento único, que une duas pessoas solitárias e com os mesmos ideais.

- Foi com uma enorme emoção que soube que estavas vivo. Quando o helicóptero levantou voo, do acampamento, ninguém tinha esperança de que chegasses ao hospital de Bangui, vivo. Mais tarde, soubemos que não só tinhas resistido, como após dois dias em que se fez tudo o que era possível para te manter vivo, te tinham enviado para um hospital alemão.  A partir daí nunca mais tivemos notícias e só soube que estavas vivo quando acabamos a comissão, e telefonei aos teus pais. Rapaz, isso é que foi dar um pontapé na morte.

Nesse momento, tendo arrumado a sala de tratamento, e querendo dar privacidade aos dois amigos, Anabela, despediu-se dizendo a Tiago que levasse o seu amigo até à salinha, onde Isilda lhes iria servir o lanche.

Com as alterações que a casa sofrera, para que Tiago tivesse o seu quarto no rés -do-chão e a sala de tratamentos, a antiga sala de estar, tinha sido transferida para o piso de cima, o que era difícil para Tiago, apesar dele já se movimentar com uma certa facilidade com as canadianas. Mas subir uma escada era ainda uma enorme dificuldade. Assim, sabendo da próxima visita, Anabela, Isilda e Joaquim, uns dias antes esvaziaram o quarto de arrumos, que a antiga dona tinha entre a sala e a cozinha, e trouxeram alguns moveis e sofás, que Tiago mandara guardar na garagem, quando herdou a casa, e renovou a decoração, transformando o quarto numa pequena, mas agradável e confortável salinha.

 

10.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LIII

 



Anabela recolheu-se no seu quarto incomodada. A atitude de Tiago para com ela, vinha mudando nas duas últimas semanas. Estava mais cooperante nos exercícios, é certo, mas ultimamente parecia tão interessado na vida dela, como na sua recuperação. E aquele abraço, mexera com ela. 

Muitos doentes já tinham tido um gesto semelhante, quando se desequilibravam, era apenas uma tentativa de não caírem. O abraço de Tiago foi diferente. Podia dizer-se que era apenas o júbilo, de quem, ao fim de longos meses em que pensara, que nunca mais poderia andar, verificava que afinal o podia fazer. E certamente ela acreditaria que era apenas isso, não fora a paixão que vira brilhar nos olhos dele.

Sem dúvida que Tiago era um belo homem. Especialmente agora que o seu corpo tinha ganhado peso e massa muscular devido ao intenso tratamento no ginásio. Mas que podia ele querer com ela? Profissionalmente era seu superior e no momento era um doente e ela a sua fisioterapeuta. Nada podia haver entre eles, mesmo que ela estivesse interessada numa nova relação, coisa que depois de Óscar e do que sofrera com ele, não sabia se algum dia voltaria a desejar.

 Anabela reconhecia que desde o primeiro momento em que conhecera Tiago e soubera das suas ideias em relação ao mundo que o rodeava, sentira uma grande admiração por ele, mas quem não sentiria o mesmo perante os ideais do homem e a maneira como se tinha entregado a eles?

O que tinha a fazer, era intensificar os exercícios de marcha de modo a poder sair, logo após o Ano Novo. Depois talvez ainda conseguisse uma vaga para o Hospital inglês, ou quem sabe, o doutor Azevedo lhe oferecesse um contrato de trabalho na sua clinica. De uma coisa estava certa, de momento não estava preparada para voltar ao hospital, onde todos a conheciam e sabiam do seu passado. Não queria a piedade de ninguém.

Postos os seus pensamentos em ordem, desceu e entreteve-se na cozinha ajudando Isilda, com o jantar e ouvindo as muitas e engraçadas histórias sobre os “velhos tempos”, na quinta e na vila.

 Em dezembro os dias acabam depressa e as noites são longas. Anabela, preferia a companhia da cozinheira e do marido, à televisão que tinha no seu quarto. Na verdade, nunca ligara muito à TV. Gostava de ler um bom livro, ou de uma ida ao cinema. E sobretudo gostava de conviver com a sua amiga Paula e família. De resto, ela sempre tivera por companhia habitual a solidão. Primeiro com a mãe a quem o álcool tirara toda a capacidade de ser verdadeiramente uma mãe, depois com a velha senhora que a recolhera, que fora sem dúvida, melhor do que o orfanato, ou mesmo do que a sua mãe, mas a quem os muitos anos, e o seu grande desgosto com a morte do companheiro de toda a vida, não permitiam dar à pequena Anabela, mais do que o conforto dum teto e do alimento físico. A alma de Anabela, sempre fora descuidada e desde muito cedo aprendera a viver na solidão.

 

8.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LII

 

Nessa mesma tarde, ao entrar na sala de tratamentos, Tiago dirigiu a cadeira para junto da passadeira a fim de tentar andar, mas Anabela virou a cadeira dizendo-lhe:

-Primeiro vamos fazer alguns exercícios com os elásticos num pequeno aquecimento a fim de preparar os músculos para então tentar caminhar.

Então depois de estar deitado na marquesa, entregou-lhe os elásticos. Durante dez minutos deixou-o executar os exercícios a que estava habituado, depois disse:

-Pode parar e vamos então tentar o treino de marcha. O doutor já consegue estar de pé, mas aguenta o peso do corpo nos braços. Então quero que me oiça com atenção e siga a minha orientação, - disse enquanto o doente dirigia a cadeira até à passadeira para tentar iniciar a marcha.

Primeiro fique de pé, colocando as mãos na barra e fazendo todo o peso do corpo sobre os braços. Depois respire fundo e vá soltando o peso do corpo lentamente sobre as pernas. Sinta o chão debaixo dos pés. Se sentir dores avise-me se estiver tudo bem, deixe de fazer força nos braços por completo, Mantendo-os na barra de apoio prontos a segurá-lo se sentir dores fortes ou se perder o equilíbrio

Se continuar bem levante um pé e tente balançá-lo para a frente, sustentando o corpo no pé que está apoiado e nos braços. Não se preocupe se sentir o tronco impulsionado para a frente, pois é normal, mas pare e avise se sentir dores fortes. Caso contrário, pouse o pé no chão e embora mantenha as mãos na barras de apoio, tente deixar o peso do corpo apenas nas pernas. Se continuar bem experimente fazer o mesmo com o outro pé. Isso, assim, muito bem. Acaba de dar um primeiro passo. Como se sente?

-Bem.

-Então vamos continuar. Hoje apenas cinco minutos. Não quero que se esforce em demasia. Iremos aumentar gradualmente o tempo até que esteja bem.

Cinco minutos depois, Anabela trouxe a cadeira para junto da passadeira.

-Parabéns. O pior já passou. As pernas recuperaram o movimento, acredito que mais duas semanas e poderei dar o meu trabalho por concluído.

-Obrigado. É um milagre, e devo-o a si - disse ao mesmo tempo, que em vez de rodar o corpo para se sentar na cadeira, deu apenas meia-volta estendeu os braços e abraçou Anabela.

Não foi um abraço, apertado, ele continuava dentro da passadeira e Anabela ao lado desta pelo que entre ambos havia as barras de apoio, mas ainda assim, Anabela sentiu o corpo tremer, e uma emoção estranha.

-Então, que é isso? Compreendo que se sinta feliz, mas não precisa agradecer. Não fiz nada mais que fazer-lhe os tratamentos que seu tio prescreveu. É a minha profissão. A sua força de vontade é que fez o resto, - disse tirando-lhe os braços do seu corpo e apoiando-os barra. E por favor sente-se. Não quero que regrida por ter abusado no primeiro dia, - concluiu 

Ele assim fez e enquanto se movimentava para o quarto disse:

-Até amanhã. Um dia, quando eu tiver recuperado totalmente, conversaremos sobre isso.

6.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LI

  (RECORDANDO O ÚLTIMO CAPÍTULO)


Intrigada, Anabela arrumou a sala, guardou a ficha do doente, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou a empregada, pondo a mesa para o almoço.

- Bom dia, Isilda. Aconteceu alguma coisa especial nestes dois dias que estive ausente?

- Bom dia, Anabela. Bom foi Natal, e os pais do menino Tiago vieram passar o Natal. Porquê?

- O doutor Tiago, parece bem melhor, mais animado, mais conversador…

-Bem, isso está. Há dias que o meu Joaquim me dizia que ele estava bem melhor, já a movimentar a cadeira sozinho, e a tornar-se mais independente. Mas como sabe eu só entro no quarto quando vou fazer limpeza e isso é sempre pela manhã, ou quando está no banho ou nos exercícios de modo que nunca o vejo. Porém nestes dois dias ele veio comer à mesa com os pais, e realmente parecia outra pessoa, muito diferente de há um mês. Conversou bastante com os pais e eles estavam muito esperançosos, de que em breve o filho voltasse a andar. Por que pergunta?

-Porque anteontem quando fui embora, ele continuava com mau humor, e precisou da minha ajuda para sair da maca para a cadeira. E hoje, não só não precisou dessa ajuda, como estava bem-humorado e conversador.

- Ele soube ontem notícias de outro doutor que estava com ele, lá em África e ficou bastante contente. Mas penso que não foi esse o milagre pois ele já se mostrou simpático e bem-disposto na véspera, durante a consoada.

- Bom, vou até ao quarto, preciso mudar de roupa, e já volto para lhe ajudar.

Despejou a mochila em cima da cama, pôs de lado os dois embrulhos e guardou na cómoda a roupa que trouxera.  Depois de ter lavado a cara e o rosto, pegou nos dois embrulhos e desceu.

-Já na cozinha, entregou a Isilda um dos embrulhos, pôs o outro na cadeira onde Joaquim costumava sentar-se dizendo:

-É uma pequena lembrança de Natal.

-Obrigada. Mas não carecia de estar a gastar dinheiro connosco. E demais não comprámos nada para si.

- Mas que mais me podiam dar, se já me deram tanta atenção e carinho durante estas semanas? De resto como disse é apenas uma lembrança.

A empregada rasgou o embrulho e retirou uma bonita camisola de lã, cor de salmão.

- Obrigada. É tão bonita. E macia – disse encostando a malha ao rosto.

Nesse momento entrou Joaquim e a conversa repetiu-se. E depois de rasgar o seu embrulho, retirou um belo pulôver de lã castanho, que ele agradeceu. De seguida perguntou à mulher.

- Tens o almoço pronto para levar ao doutor?

- Tenho. É só preparar o tabuleiro.

Pouco depois ele levava o almoço ao patrão.

 

Nota:  Amigos vou tentar acabar esta história, mas não sei se o conseguirei fazer pois os problemas que tenho enfrentado desde abril, têm-me deixado sem inspiração para nada.

5.6.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LI

 


Intrigada, Anabela arrumou a sala, guardou a ficha do doente, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou a empregada, pondo a mesa para o almoço.

- Bom dia, Isilda. Aconteceu alguma coisa especial nestes dois dias que estive ausente?

- Bom dia, Anabela. Bom foi Natal, e os pais do menino Tiago vieram passar o Natal. Porquê?

- O doutor Tiago, parece bem melhor, mais animado, mais conversador…

-Bem, isso está. Há dias que o meu Joaquim me dizia que ele estava bem melhor, já a movimentar a cadeira sozinho, e a tornar-se mais independente. Mas como sabe eu só entro no quarto quando vou fazer limpeza e isso é sempre pela manhã, ou quando está no banho ou nos exercícios de modo que nunca o vejo. Porém nestes dois dias ele veio comer à mesa com os pais, e realmente parecia outra pessoa, muito diferente de há um mês. Conversou bastante com os pais e eles estavam muito esperançosos, de que em breve o filho voltasse a andar. Por que pergunta?

-Porque anteontem quando fui embora, ele continuava com mau humor, e precisou da minha ajuda para sair da maca para a cadeira. E hoje, não só não precisou dessa ajuda, como estava bem-humorado e conversador.

- Ele soube ontem notícias de outro doutor que estava com ele, lá em África e ficou bastante contente. Mas penso que não foi esse o milagre pois ele já se mostrou simpático e bem-disposto na véspera, durante a consoada.

- Bom, vou até ao quarto, preciso mudar de roupa, e já volto para lhe ajudar.

Despejou a mochila em cima da cama, pôs de lado os dois embrulhos e guardou na cómoda a roupa que trouxera.  Depois de ter lavado a cara e o rosto, pegou nos dois embrulhos e desceu.

-Já na cozinha, entregou a Isilda um dos embrulhos, pôs o outro na cadeira onde Joaquim costumava sentar-se dizendo:

-É uma pequena lembrança de Natal.

-Obrigada. Mas não carecia de estar a gastar dinheiro connosco. E demais não comprámos nada para si.

- Mas que mais me podiam dar, se já me deram tanta atenção e carinho durante estas semanas? De resto como disse é apenas uma lembrança.

A empregada rasgou o embrulho e retirou uma bonita camisola de lã, cor de salmão.

- Obrigada. É tão bonita. E macia – disse encostando a malha ao rosto.

Nesse momento entrou Joaquim e a conversa repetiu-se. E depois de rasgar o seu embrulho, retirou um belo pulôver de lã castanho, que ele agradeceu. De seguida perguntou à mulher.

- Tens o almoço pronto para levar ao doutor?

- Tenho. É só preparar o tabuleiro.

Pouco depois ele levava o almoço ao patrão.

 

 Nota: Não estou a conseguir fazer visitas diárias, não só por causa dos olhos, como também por absoluta falta de tempo. Estamos no fim da época escolar e (da Universidade Sénior, que frequento). E até ao dia 15, há ensaios, festas de encerramento,  passeios, almoços, enfim. Por outro lado, este é também o mês em que eu e o marido, temos de fazer os exames de saúde anuais pois temos consultas a 22, 26 e 27. Comentarei sempre que possível. Provavelmente terei que fazer uma nova pausa. 

26.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVII

 


Tiago aproximou-se da mulher que se encontrava de costas e abraçou-a. Baixou a cabeça e depositou um terno beijo no pescoço feminino, enquanto as suas mãos acariciavam a barriga proeminente de quem está em adiantado estado de gravidez. Sentiu como um empurrando e rindo disse:

-Ena começou cedo, os treinos de futebol, hoje o rapaz.

A mulher riu e iniciou o movimento de se voltar nos braços dele, e exatamente nesse momento Tiago despertou um tanto confuso, sem noção de onde estava.

Passou a mão pela testa suada e pensou que o aquecimento do quarto devia estar muito alto, pois não era normal estar a suar em pleno Natal. Ou seria efeito do sonho. Tentou lembrar de mais alguma coisa mas não conseguia recordar. E que quereria, dizer o sonho que acabara de ter? A mulher grávida era sua mulher, isso ele tinha a certeza. Quereria isso dizer que afinal nada grave acontecera com a sua parte sexual e reprodutora?

Depois de na véspera ter acordado com aquela bendita ereção, ele já sabia que a parte sexual funcionava, mas isso não queria dizer que a parte reprodutora estivesse igualmente bem. E podia ter uma vida sexual satisfatória e ser estéril. Então o sonho seria a confirmação do seu inconsciente de que tudo estava bem, ou apenas a resposta ao enorme desejo que ele tinha de um dia poder ter a sua família? E quem seria aquela mulher? E porque estava de costas? O que quereria dizer tal sonho?

-Bom dia, doutor! - Saudou Joaquim ao entrar no quarto arrancando-o aos seus pensamentos.

-Bom dia, Joaquim. Os meus pais já se levantaram?

-Já sim. Já tomaram o pequeno-almoço e saíram para irem à missa das oito. A senhora sua mãe, queria vir ao quarto, mas o seu pai, disse-lhe que era melhor deixarem-no descansar, viriam vê-lo depois da missa, - disse o caseiro enquanto puxava a cadeira de rodas para junto do leito.

-Acreditas em sonhos, Joaquim? Acreditas que eles nos queiram dizer alguma coisa?

- Sonhos? Acredito que existem, pois já tenho sonhado, muito ao longo da vida. Mas nunca entendi se o que sonhava tinha ou não algum significado para mim.   Quem era muito ligada nisso era a minha falecida sogra. Ela dizia que eles sempre passavam uma mensagem, e que a Bíblia, relata sonhos que avisaram reis de vitórias e derrotas, ainda antes do tempo em que Cristo andava pelo mundo. E as pessoas costumavam procurá-la, quando tinham sonhos que as deixavam intrigadas.

- Que pena que já não esteja entre nós, - disse Tiago dirigindo-se à casa de banho. Nos últimos dias ele começara a ir para o banho sozinho, utilizando a força dos braços para movimentar a cadeira.


24.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLVI



O resto do dia de Natal passou correndo entre a ajuda à amiga, e as brincadeiras com a afilhada. De vez em quando lembrava-se da quinta e pensava como estaria Tiago a viver aquele dia tão simbólico para as famílias. Continuaria isolado no quarto, ou estaria na sala ou na cozinha, convivendo com a família?

Nos últimos dias, tinha-se estabelecido entre os dois, uma relação doente-tratadora, bem mais agradável do que inicialmente, em que detetava no doente uma agressividade latente, embora Anabela suspeitasse que era mais contra a vida e o que lhe acontecera, do que contra ela. Todavia nos últimos dias parecia menos revoltado e mais disposto a lutar pela sua cura.

Ela soube desde início de que havia alguma coisa por trás do seu desespero e da sua vontade de desistir da vida, que não apenas ter perdido o andar. Provavelmente o desgosto de ter sido abandonado pela noiva, a poucos meses do casamento.

-Estás muito calada, amiga. Saudades do teu doutor?

-Não é o meu doutor, Paula. Nem são saudades. É um doente que eu queria ver a interessar-se mais pela sua recuperação, e que temo não conseguir tratar com êxito. Há qualquer coisa nele que ainda não consegui descobrir, que lhe tirou a vontade de viver e de se esforçar pela sua reabilitação. Talvez seja o facto de a noiva o ter abandonado na cama do hospital, a poucos meses do casamento.

Estavam os três sentados na sala. Patrícia já dormia há muito tempo, e olhando o relógio, Anabela disse:

-Meu Deus, são quase onze horas e amanhã tenho de estar na quinta antes das dez para a sessão matinal de fisioterapia. Vou levantar-me cedo, e como é sábado e vocês não têm de trabalhar, é melhor eu despedir-me já.

Levantou-se e abraçou os amigos, depois disse emocionada:

-Obrigado, por me acolherem na vossa família como uma de vós, e por todo o carinho e apoio que me têm dado. Bem Hajam!

Voltou costas sem esperar resposta, pois receava começar a chorar.

Muito cedo na manhã seguinte, levantou-se, tomou um duche rápido, limpou a casa de banho e arrumou o quarto sempre procurando não fazer muito barulho para não acordar o casal, ou a afilhada. Às sete, sem tomar o pequeno-almoço, que decidiu tomar no caminho ou até na quinta, iniciou a viagem de regresso.

 

22.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLV


Anabela acordou sentindo um beijo molhado no rosto. Abriu os olhos e viu a seu lado, ajoelhada na cama a pequena Patrícia. Abriu os braços e a menina correspondeu ao abraço com todo o amor e alegria que só as crianças demonstram, com toda a naturalidade por aqueles que amam. Que bom era que os adultos amassem com a mesma intensidade e fossem igualmente sinceros e transparentes. Haveria muito menos sofrimento no mundo. Mas em qualquer época do nosso crescimento tudo muda, pensou a jovem com tristeza.

- Madrinha, a mãe já está na cozinha. Ela disse para não te acordar, mas eu gosto tanto de ti e queria tanto que fosses brincar comigo um bocadinho.

-À sua malandra interesseira, - disse Anabela fazendo cocegas à afilhada que começou a contorcer o corpito rindo alto.

-Bom, então é melhor que vás ter com a mamã, enquanto eu tomo banho e me visto.

A menina saltou da cama e saiu correndo do quarto. Suspirando, Anabela saiu da cama, pegou na mochila onde tinha a roupa que trouxera e com ela na mão abriu a porta e saiu para a casa de banho no corredor.

Tomou um duche rápido, vestiu-se, tirou o secador do armário e secou o cabelo.

Depois escovou os dentes. Tudo o que estava naquela casa de banho era de seu uso exclusivo. Os donos da casa usavam o quarto maior com casa de banho que sempre fora o quarto de Paula por ter sido ela a alugar o apartamento. Ela e as outras jovens que lá viveram, durante os anos de estudo, usavam um dos dois quartos mais pequenos, e a casa de banho do corredor.

 Quando Paula casou já só lá viviam elas as duas. Conta a vontade de Paula, Anabela arranjou outro quarto mais perto da Universidade, para deixar o jovem casal viver a sua intimidade sem testemunhos, mas Paula fizera questão de sempre manter o seu quarto e a casa de banho para o seu uso sempre que ela quisesse voltar.

 Ela, dava graças a Deus, pela relação que a unia ao casal, que era mais de família, do que de simples amizade. No seu coração carente de afetos, sentia como se Paula fosse sua irmã, Diogo seu cunhado e Patrícia a sua sobrinha querida. E como familiares amados, se portaram os dois, quando a vida com o marido se tornara num inferno. Anabela nunca esqueceria o carinho e o apoio que deles recebeu inclusivo depois da morte do marido.

-Bom dia, - saudou pouco depois ao entrar na cozinha.

-Bom dia, querida, - saudou-a o casal em uníssono.

Sentou-se à mesa dizendo:

-Há muito tempo que não dormia tão bem. Foi como voltar aos meus tempos de estudante.

-Folgo em sabê-lo, mas agora é melhor tomares o pequeno-almoço. Não sei se continuas com os mesmos hábitos daquela época, mas tens aqui iogurte, torradas, manteiga e doce. Penso que de bebida continua a ser o café puro, verdade? - perguntou a amiga.

-Pois sim, um iogurte, uma torrada e café.

 

8.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLIV


Na quinta, Tiago conversava com os pais na grande cozinha, onde eles decidiram que deveriam jantar, por ser mais acolhedora do que a sala de refeições, ter suficiente espaço, e evitar dar trabalho aos dois empregados que passariam a consoada com eles. De resto o doutor Azevedo, e a esposa só se juntariam a eles no dia seguinte para o almoço, já que a consoada, a passariam em casa de filha.

- Confesso que estou muito contente, com a tua evolução, - dizia naquele momento Armindo, o pai do jovem. – Da última vez que aqui estivemos,

correste connosco de um jeito que a tua mãe chorou o tempo todo.

-Desculpa, pai. Eu sei que não me portei muito bem convosco, mas a falar verdade, o meu desespero era tão grande, sentia-me tão revoltado, que a única coisa que desejava era que me deixassem sozinho até que a natureza fizesse a sua parte e eu deixasse de sofrer. Na verdade, mentalmente eu amaldiçoava os médicos, que tanto se esforçaram para me fazer viver.

-Um homem nunca deve perder a esperança, filho. Já te olhaste ao espelho? O teu corpo está bem mais forte, e com a continuação dos tratamentos tenho a certeza de que voltarás a andar. Depois ficarão apenas as cicatrizes, para recordar-te o que te aconteceu e para te lembrar que não é preciso ires para sítios longínquos, onde a paz está tão ausente como o alimento, para ajudares os outros. Aqui no nosso país, há infelizmente muita gente que tem de escolher entre a saúde e a comida.

-Além disso, - acrescentou a mãe, voltando-se para o filho, mostrando que estava atenta à conversa embora os dois pensassem, que estava distraída com a conversa da empregada. Está na hora de arranjares uma boa rapariga, e formares o teu lar. Quando somos jovens pensamos sempre que o tempo passa devagar demais para os nossos desejos. Não é verdade, a vida é curta, passa a correr e quando deres por isso estás demasiado velho para formares um lar. 

-Vamos deixar essa conversa de casamento para outro dia, -protestou o jovem.

- Eu sei que sofreste um desgosto com a Sandra, mas nem todas as mulheres são tão frívolas e egoístas como ela. A tua enfermeira por exemplo, é uma mulher muito interessante e segundo o teu tio é uma ótima profissional e uma excelente moça.

- Mãe, em primeiro lugar, uma boa profissional não se envolve com o seu doente. É  eticamente incorreto. Segundo, a Anabela tem tantas ou mais cicatrizes que eu para curar. E, como deves saber as Cicatrizes da alma, não desaparecem nas mãos de qualquer cirurgião plástico. Terceiro, acho que está na hora de me recolher, a noite vai longa e a cadeira de rodas não é o assento mais confortável do mundo.

-Sei. Tu queres é fugir da conversa. Mas tudo bem, não volto a falar do assunto, todavia não posso prometer que não voltarei a ele. O meu maior desgosto será chegar ao fim dos meus dias e saber que vou partir e te deixo sozinho.

-Por favor, querida. Hoje não é noite para falar de partidas. Vamos falar de coisas alegres, ou recolher à cama se o cansaço começa a tomar conta de nós.

-Boa noite a todos, - despediu-se Tiago enquanto dava a volta à cadeira e se dirigia para o quarto seguido pelo Joaquim.

3.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLII


Eram quase sete horas quando Anabela chegou a casa de Paula carregada de embrulhos, quase tudo roupas e brinquedos para a sua afilhada, que entregou a Diogo quando ele abriu a porta dizendo:

- Tenho de voltar ao carro buscar a mala e o resto dos embrulhos.

-Entra. Está muito frio na rua. A Paula está a dar banho à Patrícia e eu vou só pôr isto debaixo da árvore e já vou buscar o que te falta.

A jovem aguardou que ele pousasse os embrulhos e entregou-lhe as chaves do carro dizendo-lhe:

-Vou ter com as meninas.

- No quarto da afilhada, Paula acabara de vestir a menina com um bonito pijama vermelho, que exibia um barbudo Pai Natal na parte de cima e dezenas de renas, nas calças.

-Olha, mãe a madrinha chegou, - disse a criança saindo a correr para os braços de Anabela que a ergueu do chão e lhe cobriu a carinha mimosa de beijos, perante o ar sorridente da mãe.

- Meu Deus, Paula como ela cresceu durante este mês! E já diz madrinha corretamente.

- É verdade! As crianças nestas idades surpreendem-nos todos os dias. E tu como estás?

Anabela pousou a criança no chão e abraçou a amiga. Só depois respondeu:

-Vai-se vivendo.

-Anda, o jantar está pronto, vamos jantar. Depois de deitar a Patrícia temos a noite toda para pôr a conversa em dia. Tens sido uma amiga má. Os teus emails só pedem notícias e dizes que estás bem, mas nunca falas do doente, nem de como ele tem evoluído.

Enquanto as duas se dirigiam à cozinha para levar o jantar para a mesa, na sala, Diogo impedia a filha de começar a rasgar os embrulhos que estavam debaixo da iluminada árvore. Pouco depois Anabela dava a sopa à afilhada, seguida de um puré de batata e cenoura com pequenas lascas de bacalhau a que foram cuidadosamente retiradas todas espinhas. Só depois da pequenita ter comido, os adultos iniciaram a refeição que decorreu em ambiente de sã amizade e camaradagem.

Depois do jantar, as duas amigas levaram a loiça suja para a cozinha, e voltaram a pôr a mesa com diversos pratos de iguarias tradicionais, entre as quais o famoso bolo-rei, o arroz-doce, os sonhos e filhoses, bem como os frutos secos, figos, nozes, amêndoas e outros.

Tinham acabado de pôr a mesa, quando a campainha tocou.

- Quem será? – perguntou Anabela, enquanto Diogo pegava a filha ao colo e se dirigia para a porta.

-É o Pai Natal, - respondeu a amiga rindo.

E na verdade, Diogo regressava com a figura do simpático velhinho, perante o olhar admirado de Anabela.

- Ô-Ô-Ô. Que linda menina temos aqui. Sabes quem eu sou? Eu sou o Pai Natal. Vim trazer um presente que me esqueci de deixar a noite passada debaixo da árvore e dizer que assim que eu sair já podes abrir os eus presentes, - disse estendendo-lhe uma caixa que a criança aceitou os olhos brilhando de alegria.

O Pai Natal despediu-se em seguida dizendo que ainda tinha muitos presentes para entregar, e Diogo acompanhou-o à porta, despedindo-se dele com um abraço de agradecimento. Logo voltou para a sala, separando os presentes para a filha e colocando na sua frente para que ela abrisse.

Na cozinha, Anabela perguntou:

-Quem era?

-Um colega do Diogo. Veio entregar o presente da firma. Como é solteiro é o encarregado de manter vivo a figura do Pai Natal para os mais pequenitos. Já o fez o ano passado, mas na altura estiveste de serviço no hospital.