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22.1.19

QUEM SABE FAZ A HORA... - PARTE III

reedição




Cecília era uma bela mulher. Alta, morena, corpo curvilíneo, e um rosto onde se destacavam dois belos e expressivos olhos castanhos. Boca pequena e carnuda, ladeada por duas pequenas covinhas sempre que sorria. Tinha acabado de fazer trinta e seis anos, e estava em toda a plenitude da sua beleza.
Há muitos anos atrás era quase uma menina, tinha namorado o João. Na verdade ele fora o primeiro e único amor da sua vida, muito embora outros homens tivessem entrado nela.
- Então amiga, arrependida? - perguntou Sandra.
- Bem sabes que não. Mas estou apreensiva. E se depois de me ver, ele não sentir nada? Tenho medo: - disse baixinho. Tão baixinho que Sandra mais adivinhou que ouviu. E perdeu-se de novo nas suas recordações.
No final dos anos oitenta, muitas empresas abriram falência, muita gente perdeu o emprego. O pai de Cecília fora um dos que se viram de um momento para o outro sem emprego. O irmão, que emigrara há anos para o Brasil, insistia para que ele fosse para lá. Artur resistia, apesar das saudades que tinha do irmão, e dos pais que já tinham ido. Por causa da esposa e da filha que não mostravam vontade em sair de Lisboa. Perdido o emprego, e sem grandes esperanças de conseguir outro que lhe permitisse o mesmo nível de vida, não lhe restou outra coisa que convencer a mulher e a filha a fazer as malas.
No Brasil, Cecília levou muitas noites sem dormir. Chorando de saudades. De Lisboa, dos amigos e principalmente do João. Escreveu longas e inflamadas cartas de amor, que nunca enviou. Com o passar do tempo, as lágrimas foram secando. Um dia quase sem dar por isso viu-se noiva do primo. Influenciada pelos pais, pelos tios, e também pelo devotado amor que Alberto lhe dedicara desde o dia em que a conheceu. Para Cecília, tanto fazia. O seu coração tinha ficado lá longe. Só a avó se preocupava. Que ela não parecia uma noiva feliz. Que ela não demonstrava a alegria de uma noiva. Mas ainda assim Cecília casou num dia de Santo António. Um casamento que durou três anos. Três anos dum casamento, onde havia respeito, amizade, e carinho, mas onde nunca houve pelo menos da sua parte, desejo, ou paixão. E não fora aquele fatídico acidente, que vitimara Alberto, talvez Cecília se tivesse resignado àquela vida. Ou talvez não, quem sabe.

21.1.19

QUEM SABE, FAZ A HORA... PARTE II

reedição





-João, estás-me a ouvir? Fala a Cecília, não te lembras de mim?
- Bom... gaguejou João enquanto tentava descobrir, quem raio era aquela Cecília, que parecia conhecê-lo tão bem.
- Estou a ver. Não te lembras de mim é o que é. Devia ficar zangada sabes? Não te lembrares da tua primeira namorada...
- Cecília Pedrosa? - Perguntou incrédulo
- Ah! Afinal lembras-te, - disse soltando uma sonora gargalhada.
João raciocinava a mil. Cecília Pedrosa. Mas então ela não estava no Brasil? E como é que se lembrara de lhe telefonar? E como obtivera o número do seu telefone?
- Cheguei ontem do Brasil. E acabo de encontrar a Sandra que me deu o teu número.
“Diabos, parece que escutou os meus pensamentos”, pensou.
- Olha, - continuou Cecília do outro lado. Estamos aqui em Alcântara, num bar que tu conheces bem, segundo diz a Sandra. Não queres vir ter connosco?
Sandra era a irmã do Zé. O bar só podia ser o que costumavam frequentar. Sandra era uma boa amiga. Não daria o seu número, a qualquer uma.
E depois Cecília tinha sido a sua primeira namorada, ainda antes da faculdade. Mas depois fora para o Brasil e nunca mais soubera dela... 
- Então João, - a voz do outro lado soava com impaciência
- Eu vou - numa fracção de segundo João resolvera arriscar. Afinal era noite de Sexta-feira, no dia seguinte poderia dormir até tarde.
Desligou o telefone e dirigiu-se à casa de banho para um duche rápido. Enquanto se barbeava, surpreendeu-se com uma pergunta.
Estaria casada? Sacudiu a cabeça. Claro que não. Uma mulher casada não telefona a um ex-namorado, convidando-o a sair.
Continuaria bonita? Há tantos anos que não se viam. 
Vestiu umas calças de ganga e uma camisola de gola alta, enquanto fazia mentalmente as contas.
"Deve estar com trinta e seis anos", murmurou vestindo o casaco.
Fechou a porta e caminhando a passos largos dirigiu-se ao elevador.



Bom amigos, esta história é como viram ontem uma reedição. Tem uns quatro anos e apenas quatro episódios. Alguns leitores mais antigos lembram-se. Continuo a não ter nada novo para vós, a não ser a certeza de que não serei operada hoje uma vez que não me telefonaram da clínica na Sexta-feira, a dizer que o tal especialista que o cirurgião pediu, está disponível esta segunda. 

13.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXVI


- Minha filha! Meu Deus! Como é que a tua mãe foi capaz de semelhante maldade? Nunca lhe vou perdoar que me tivesse roubado a alegria do teu nascimento, as tuas gracinhas, o teu crescimento.
- Sem fazermos o exame não podemos ter a certeza.
- Faremos o exame se isso te deixa mais confiante. Por mim, não é necessário. Se nasceste nessa data, não tenho qualquer dúvida. Eu e a tua mãe éramos muito apaixonados, mas ela era muito insegura, achava que não era merecedora do meu amor e tinha uns ciúmes doentios. Disse que eu a traí, pediu o divórcio e foi para casa da irmã em Lisboa. Nunca mais me quis ver, nem ouvir, apesar dos meus esforços. E juro-te que nunca houve tal traição. É verdade que me viu abraçar uma mulher. Era uma prima em segundo grau que estava de partida para o Brasil, sem data de regresso. Não era um abraço de amantes nem beijo nem nada disso. Era uma despedida, duma familiar, que durou até hoje, pois nunca regressou. Tua mãe nunca aceitou sequer as minhas explicações. Mas conhecendo-a como conheci, sabendo do amor que me devotava, tenho a certeza de que nunca me teria traído. Estou em crer que nunca mais quis saber de nenhum homem.
- É verdade, nunca a vi interessada por ninguém.
- E dizes que faleceu há menos de um mês?
-Sim. Quando fui retirar as coisas do seu quarto para dar a uma instituição, encontrei este envelope. Há aqui também as vossas certidões de nascimento e encontrei também isto, - disse estendendo-lhe a caixa com o anel de noivado e a aliança.
Ele abriu a caixa, olhou as joias e voltou a fechá-la. Devolveu-lha
- Eram dela. Agora são tuas. Mas fala-me de ti, filha. Agora que a Natália morreu, com quem vives? E onde? Quero apresentar-te a toda a gente, levar-te lá para casa, mas tens que me dar algum tempo, a minha mulher tem estado doente, tenho que a preparar para esta notícia. Não posso dizer-lho assim de repente, pode sofrer algum choque não sei.
- Não precisa de me apresentar a ninguém. Eu só queria saber quem era o meu pai, já que a minha mãe sempre me disse que eu tinha nascido de uma aventura e que nem ela mesma sabia quem era o meu pai. Gostaria que fizéssemos o teste o mais rápido possível. Depois regresso a Lisboa, não quero atrapalhar a sua vida.
-Como podes pensar assim? Espero que não tenhas herdado a insegurança da tua mãe. A minha casa é a tua casa. Queres fazer o exame, vamos fazê-lo, embora ele seja desnecessário. És minha filha, e tens o direito a participar da minha vida, a conhecer a minha casa e a minha família. Queres fazer o exame na segunda-feira?
-Não tem que ser marcado?
- Não. Sendo particular penso que não. De qualquer modo eu vou agora passar pela clínica e confirmo. Depois telefono-te. Agora tenho de ir. Meu Deus, uma filha. Eu tenho uma filha linda e não sabia.
Pôs-se de pé. Por momentos ficou indeciso. Depois pediu:
-Posso dar-te um abraço?
Sem responder a jovem refugiou-se nos seus braços. As lágrimas rolavam pelas suas faces morenas. Emocionado, Jorge depositou um beijo na testa da jovem.
- Não chores filha. Tudo vai correr bem, vais ver.
Largou-a, e dirigiu-se à porta. A jovem ficou a vê-lo afastar-se.




Gente, vocês querem que eu continue com esta história o fim de semana? Ou querem descansar?

30.11.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE V




O paquete Vera Cruz estava a chegar a Alcântara. Na amurada do navio, um homem destacava-se do mar de gente que se preparava para o desembarque. Não teria ainda cinquenta anos, alto, bem vestido, mas com um ar cansado, observava a cidade.
Lisboa, a bela cidade, que deixara há quase três décadas quando partira para o Brasil em busca de fortuna. Quantas asneiras se fazem na juventude, quando a ambição nos domina. O Chico era muito jovem quando perdera os pais. Os primeiros anos, vivera com um tio sapateiro, com quem aprendera o ofício. Quando o tio morrera, o Chico ficara com a pequena oficina, onde confeccionava ou arranjava o calçado. Foi nessa altura que conheceu a Esperança. Era a moça mais bonita do bairro. Tinha uns grandes olhos castanhos, docemente amendoados. Conheceram-se e amaram-se no mesmo instante. Ele era nessa época, um belo rapaz, com um ar altaneiro que fascinava as moças casadoiras, e as deixava suspirando pelos cantos. Mas ele só tinha olhos para a sua Esperança.
Durante dois anos trocaram juras de amor, e sonharam com um futuro a dois, muito feliz.
Mas o negócio não corria bem ao Chico, cada vez mais os fregueses optavam por comprar sapatos feitos em vez de os mandarem fazer, e ele ouvira falar do Brasil, e das muitas oportunidades de conseguir fortuna lá. E um dia decidiu-se. Vendeu a oficina, e comprou a passagem. Com tudo decidido, procurou a namorada e falou-lhe da viagem, dos seus sonhos de riqueza, e da separação que teriam de viver em prol de um futuro melhor.
Ela chorou. Com intensidade, como fazem as mulheres que amam de verdade. Tentando consolá-la ele dizia que seria por pouco tempo. Logo que estivesse a trabalhar, arranjava casa, e casavam por procuração. Depois ela embarcava e ia ter com ele ao Brasil.

18.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LV



                              Av. Pinheiro Chagas em Lourenço Marques, 1970
                                                          Foto Daqui

Foi uma noite de pesadelo, o Manuel e a mulher estavam apavorados com o que podia acontecer à filha, lá em cima no avião. Eles não sabiam que a filha estava já longe da tempestade e muito acima dela.
Só iriam ficar descansados quando recebessem notícias da filha. Que chegaram dias depois,  num postal enviado do aeroporto de Luanda, onde o avião fez a primeira escala. 
Mais tarde chegaria uma carta já de Lourenço Marques, que os deixaria mais sossegados. Ela diz que a cidade é grande, bonita, e que por lá tudo está calmo.
Em Junho, morrem Almada Negreiros e o barreirense e revolucionário Henrique Galvão. Este último no Brasil, onde se refugiara depois do assalto ao Santa Maria.
A 27 de Julho morre Salazar, e  em Agosto a filha manda notícias a dizer que em breve, vão para Nampula. Em Outubro, António, um dos cunhados do Manuel, que vivera na sua casa até ao casamento, parte para Moçambique, não como militar mas como trabalhador da C.U.F. Vai para Nacala, onde a empresa tem uma filial. 
 De Nampula, as notícias da filha, não falam de guerra. Falam de seca e de escassez de alimentos. Manuel prepara uma encomenda que manda para Moçambique, mas leva tanto tempo a lá chegar que metade das coisas já chegam impróprias para consumo. 
Quase no final do ano, a fiscalização vai à Seca e obriga a que os trabalhadores da mesma passem a estar registados na Caixa de Previdência. Até aí os descontos efectuados, eram para a Casa dos Pescadores, e os trabalhadores só tinham direito a um médico uma vez por semana, e a um enfermeiro diário no posto médico da seca.  Este registo na Caixa da Previdência, dava-lhes direito a outra assistência.
Também fizeram exigências que melhoravam a vida dos trabalhadores, como o uso de luvas de borracha, para lidar com o bacalhau molhado, o que em dias de muito frio, fazia toda a diferença. 
O Natal desse ano, decorreu com grande tristeza.  Era a primeira vez que um dos filhos não estava à mesa, nessa noite.

4.11.13

ELISA II



Elisa viu-se nessa altura obrigada a contar a verdade aos pais. Tinha que deixar o filho com alguém para ganhar-lhe o sustento. E quem melhor que os pais? O pai só lhe disse que devia ter contado antes. E que tomaria conta do neto, como se fora um filho. Elisa deixou o filho lá na aldeia e veio para Lisboa ser criada de servir. Não pensava em namorados. Tudo o que juntava mandava para os pais, para o sustento do filho. Mas um dia conheceu o António. António era moço de Lisboa, com muito mais experiência de vida, e não foi difícil dar a volta à cabeça da jovem. Prometeu-lhe casamento, criar-lhe o filho, dar-lhe até o seu nome. Elisa ia viver com ele, e logo que acabasse a tropa, tratavam do casório. E mandavam vir o filho. Elisa acreditou. E um tempo depois deu-se conta que estava outra vez grávida. Quando António soube da gravidez, os seus modos alteraram-se. Começou a chegar cada dia mais tarde, com a desculpa de que tinha serviço no quartel. E um dia deixou de aparecer. Elisa foi lá ao quartel. Queria saber o que se passava. Mas lá disseram-lhe que ele tinha pedido para ser transferido. E começou novo calvário para Elisa. Quando o adiantado estado de gravidez não a deixava já trabalhar, recorreu à instituição de Santa Zita, que a ajudou até que a menina nasceu, bem como nos primeiros tempos, até que ela conseguiu com a ajuda da instituição arranjar trabalho.
A vida de Elisa foi uma vida de escravidão ao trabalho para criar os filhos. Porque depois da morte da mãe, teve que ir buscar o filho mais velho, para junto de si. Foi pai e mãe dos filhos.
Nunca mais quis ouvir falar de homens na sua vida.
Quando os filhos cresceram, Portugal tornou-se pequeno para os seus sonhos. Só pensavam em emigrar para o Brasil. O sonho duma vida melhor fez com que juntassem todos os tostões para a viagem. E lá foram deixando a promessa de mandarem ir a mãe tão logo tivessem casa e trabalho.
A principio as cartas do Brasil chegavam todas as semanas. Eram cartas cheias de novidades e promessas. Depois passaram a ser de mês a mês. A vida corria bem, a filha tinha até casado, e só estavam esperando mudar de casa para mandar a passagem. É que a casa era pequena. Mais tarde nascera a neta, a despesa era maior. Depois o filho casou, tinha mais despesas. Aos poucos Elisa apercebeu-se que tinha perdido os filhos quando se despediu deles em Alcântara.
Por fim as cartas deixaram de chegar. O olhar perdeu-se no horizonte, o corpo foi-se vergando ao desgosto e ao peso dos anos.
Elisa foi hoje a sepultar...
Nunca vi um funeral tão triste. Meia dúzia de vizinhos, ninguém de família. E enquanto a terra caía sobre a urna, eu pensava se os filhos iriam pensar algum dia no abandono a que votaram a mãe.
Elisa foi hoje a sepultar... e enquanto jogo uma flor sobre a sepultura murmuro uma prece:
Senhor, se é verdade que existe o paraíso, tem piedade desta tua serva, que já teve o seu inferno...

Maria Elvira Carvalho


22.7.13

SEM TITULO - II PARTE




Acordou sobressaltado com o toque do telefone. Atendeu e do outro lado uma voz maviosa, falou o seu nome. Ficou surpreendido e irritado. Quem tinha o desplante de lhe ligar, numa hora tão imprópria.
-João, estás-me a ouvir? Fala a Cecília, não te lembras de mim?
- Bom... gaguejou João enquanto tentava descobrir, quem raio era aquela Cecília, que parecia conhecê-lo tão bem.
- Estou a ver. Não te lembras de mim é o que é. Devia ficar zangada sabes? Não te lembrares da tua primeira namorada...
- Cecília Pedrosa? - perguntou incrédulo
- Ah! Afinal lembras-te, - disse soltando uma sonora gargalhada.
João raciocinava a mil. Cecília Pedrosa. Mas então ela não estava no Brasil? E como é que se lembrara de lhe telefonar? E como obtivera o nº do seu telefone?
- Cheguei ontem do Brasil. E acabo de encontrar a Sandra que me deu o teu nº.
“Diabos, parece que escutou os meus pensamentos”, pensou.
- Olha, - continuou Cecília do outro lado. Estamos aqui em Alcântara, num barzinho que tu conheces bem, segundo diz a Sandra. Não queres vir ter conosco?
Sandra era a irmã do Zé. O bar só podia ser o que costumavam frequentar. Sandra era uma boa amiga. Não daria o seu número, a qualquer uma.
E depois Cecília tinha sido a sua primeira namorada, ainda antes da faculdade. Mas depois fora para o Brasil e nunca mais soubera dela... Estaria casada?
- Então João? - a voz do outro lado soava com impaciência
- Eu vou - numa fração de segundo João resolvera arriscar. Afinal era noite de Sexta-feira, no dia seguinte poderia dormir até tarde.
Desligou o telefone e dirigiu-se ao quarto para se vestir. Veio-lhe novamente à memória, uma pergunta? Estaria casada? Sacudiu a cabeça. Decerto que não. Uma mulher casada, não telefona a um ex-namorado convidando-o a sair. Continuaria bonita? Já lá iam uns bons anos. Mentalmente fez contas. Deve estar com 36 anos, murmurou para si enquanto fechava a porta.
E caminhando a passos largos dirigiu-se ao elevador.


Continuo à espera das vossas sugestões para o titulo do conto.


Desejo a todos que por aqui passem, uma boa semana