Cecília era uma bela mulher. Alta, morena, corpo curvilíneo, e um rosto onde se destacavam dois belos e expressivos olhos castanhos. Boca pequena e carnuda, ladeada por duas pequenas covinhas sempre que sorria. Tinha acabado de fazer trinta e seis anos, e estava em toda a plenitude da sua beleza.
Há muitos anos atrás era quase uma menina, tinha namorado o João. Na verdade ele fora o primeiro e único amor da sua vida, muito embora outros homens tivessem entrado nela.
- Então amiga, arrependida? - perguntou Sandra.
- Bem sabes que não. Mas estou apreensiva. E se depois de me ver, ele não sentir nada? Tenho medo: - disse baixinho. Tão baixinho que Sandra mais adivinhou que ouviu. E perdeu-se de novo nas suas recordações.
No final dos anos oitenta, muitas empresas abriram falência, muita gente perdeu o emprego. O pai de Cecília fora um dos que se viram de um momento para o outro sem emprego. O irmão, que emigrara há anos para o Brasil, insistia para que ele fosse para lá. Artur resistia, apesar das saudades que tinha do irmão, e dos pais que já tinham ido. Por causa da esposa e da filha que não mostravam vontade em sair de Lisboa. Perdido o emprego, e sem grandes esperanças de conseguir outro que lhe permitisse o mesmo nível de vida, não lhe restou outra coisa que convencer a mulher e a filha a fazer as malas.
No Brasil, Cecília levou muitas noites sem dormir. Chorando de saudades. De Lisboa, dos amigos e principalmente do João. Escreveu longas e inflamadas cartas de amor, que nunca enviou. Com o passar do tempo, as lágrimas foram secando. Um dia quase sem dar por isso viu-se noiva do primo. Influenciada pelos pais, pelos tios, e também pelo devotado amor que Alberto lhe dedicara desde o dia em que a conheceu. Para Cecília, tanto fazia. O seu coração tinha ficado lá longe. Só a avó se preocupava. Que ela não parecia uma noiva feliz. Que ela não demonstrava a alegria de uma noiva. Mas ainda assim Cecília casou num dia de Santo António. Um casamento que durou três anos. Três anos dum casamento, onde havia respeito, amizade, e carinho, mas onde nunca houve pelo menos da sua parte, desejo, ou paixão. E não fora aquele fatídico acidente, que vitimara Alberto, talvez Cecília se tivesse resignado àquela vida. Ou talvez não, quem sabe.





