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22.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLV


Anabela acordou sentindo um beijo molhado no rosto. Abriu os olhos e viu a seu lado, ajoelhada na cama a pequena Patrícia. Abriu os braços e a menina correspondeu ao abraço com todo o amor e alegria que só as crianças demonstram, com toda a naturalidade por aqueles que amam. Que bom era que os adultos amassem com a mesma intensidade e fossem igualmente sinceros e transparentes. Haveria muito menos sofrimento no mundo. Mas em qualquer época do nosso crescimento tudo muda, pensou a jovem com tristeza.

- Madrinha, a mãe já está na cozinha. Ela disse para não te acordar, mas eu gosto tanto de ti e queria tanto que fosses brincar comigo um bocadinho.

-À sua malandra interesseira, - disse Anabela fazendo cocegas à afilhada que começou a contorcer o corpito rindo alto.

-Bom, então é melhor que vás ter com a mamã, enquanto eu tomo banho e me visto.

A menina saltou da cama e saiu correndo do quarto. Suspirando, Anabela saiu da cama, pegou na mochila onde tinha a roupa que trouxera e com ela na mão abriu a porta e saiu para a casa de banho no corredor.

Tomou um duche rápido, vestiu-se, tirou o secador do armário e secou o cabelo.

Depois escovou os dentes. Tudo o que estava naquela casa de banho era de seu uso exclusivo. Os donos da casa usavam o quarto maior com casa de banho que sempre fora o quarto de Paula por ter sido ela a alugar o apartamento. Ela e as outras jovens que lá viveram, durante os anos de estudo, usavam um dos dois quartos mais pequenos, e a casa de banho do corredor.

 Quando Paula casou já só lá viviam elas as duas. Conta a vontade de Paula, Anabela arranjou outro quarto mais perto da Universidade, para deixar o jovem casal viver a sua intimidade sem testemunhos, mas Paula fizera questão de sempre manter o seu quarto e a casa de banho para o seu uso sempre que ela quisesse voltar.

 Ela, dava graças a Deus, pela relação que a unia ao casal, que era mais de família, do que de simples amizade. No seu coração carente de afetos, sentia como se Paula fosse sua irmã, Diogo seu cunhado e Patrícia a sua sobrinha querida. E como familiares amados, se portaram os dois, quando a vida com o marido se tornara num inferno. Anabela nunca esqueceria o carinho e o apoio que deles recebeu inclusivo depois da morte do marido.

-Bom dia, - saudou pouco depois ao entrar na cozinha.

-Bom dia, querida, - saudou-a o casal em uníssono.

Sentou-se à mesa dizendo:

-Há muito tempo que não dormia tão bem. Foi como voltar aos meus tempos de estudante.

-Folgo em sabê-lo, mas agora é melhor tomares o pequeno-almoço. Não sei se continuas com os mesmos hábitos daquela época, mas tens aqui iogurte, torradas, manteiga e doce. Penso que de bebida continua a ser o café puro, verdade? - perguntou a amiga.

-Pois sim, um iogurte, uma torrada e café.

 

21.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XV

 





A tarde desse dia passou-a no hospital com os seus alunos, mas também com a outra professora, e os alunos dela.
Soube que a colega teria alta no dia seguinte, se até lá continuasse a não haver sinais do traumatismo craniano. Algumas das crianças, com ferimentos menos graves, que tinham ficado internadas por precaução estavam a ter alta nessa tarde, e em princípio ficariam só aquelas que foram submetidas a cirurgia. Seis ao todo, sendo cinco meninos da sua turma e uma menina da turma da colega.

No fim-de-semana, Luísa passou as tardes no hospital, principalmente junto de uma das crianças que tinha os pais emigrados, e vivia com os avós. Ela sabia das saudades que o pequeno tinha dos pais. Os avós adoravam-no, mas já eram idosos,  o avô tinha problemas de saúde e a avó não podia estar muito tempo no hospital, pelo que Luísa tomou a seu cargo a criança, como se fora um familiar.

Adorava crianças. Fora isso que a levara a escolher a profissão que tinha, pois depois da sua experiência matrimonial, não acreditava possível voltar a confiar num homem ao ponto de pensar em casar e em ter as suas próprias crianças. Há uns quatro anos ainda pensara em recorrer a um banco de esperma. Mas depois pensou que uma criança precisava de pai e mãe para se sentir completa. Ela fora criada apenas pelo pai, e sabia bem o que isso era. Então decidiu que não traria um filho ao mundo para viver a vida só pela metade.

Tinha um carinho especial pelos seus alunos. E talvez por isso, as crianças gostavam dela e se esforçavam para cumprir os objetivos impostos para cada ano.
Na segunda-feira, retomou as aulas, com as crianças ainda inquietas pelo susto que tinham passado e pela falta dos colegas ainda internados. Como Beatriz, a colega acidentada, ainda estava de baixa, apesar de já ter tido alta hospitalar, e como havia apenas duas turmas do terceiro ano, Luísa teve que ficar nesse dia com todas as crianças, o que lhe tornou o dia muito desgastante. Ainda assim, quando às dezasseis horas terminaram as aulas, foi direta para o hospital.

Não tinha voltado a encontrar o doutor Nuno Albuquerque, embora soubesse pelos miúdos que os ia ver todos os dias. Inicialmente tinha receio de voltar a encontrá-lo. Porém depois percebeu que ele estava ou nas urgências ou no bloco operatório, ou nas consultas externas. Só ia à enfermaria para a visita diária, e isso era sempre de manhã, fora de horas de visita.
Não percebia o que se passava com ela. Se por um lado receava encontrá-lo por outro desejava-o. Gostaria de poder falar com ele, saber como vivia, se tinha casado, se tinha filhos. Afinal, ele fora a pessoa que ela mais amara na vida, mesmo que ele pensasse o contrário. Sentir-se-ia melhor, se soubesse que não lhe guardara rancor, e era feliz.







24.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE IV


Apesar da enorme tensão que sentia, Luísa tinha-se esforçado por aparentar naturalidade. Agora no táxi a caminho de casa, dava livre curso ao nervosismo que a acometera, quando o olhara no elevador. Reconhecera-o imediatamente, e mentalmente pediu a toda a corte celeste que ele não a tivesse reconhecido.
 Infelizmente isso não acontecera.
Ela sabia que estava hoje bem diferente daquela menina que há dezasseis anos atrás, experimentara nos seus braços todas as delícias do amor.
Olhava sem ver as ruas percorridas pelo táxi, presa às memórias do passado. Tão absorta que se sobressaltou com a paragem do veículo. Pagou e dirigiu-se casa.  
Com mão trémula, abriu a porta. Pendurou a mala no cabide existente no vestíbulo. Dirigiu-se à casa de banho, e abriu a água para encher a banheira.

 Raramente se dava ao luxo de um banho de imersão. Considerava que era um desperdício de água. Gostava mais do duche, mas aquele dia tinha sido muito atribulado, sofrera emoções intensas durante e após o acidente, temera que alguma das crianças com ferimentos mais graves, não resistisse. Depois no hospital tivera que dar apoio aos pais dos alunos que iam chegando em clima de grande aflição. E para terminar o dia encontrava Nuno Albuquerque, que ela julgava em qualquer parte do mundo, menos ali na cidade.

Estava mais velho, claro, tinham-se passado dezasseis anos. Quando se separaram, ele tinha vinte e cinco anos, hoje estaria com quarenta e um embora aparentasse mais. Parecia mais forte, o seu olhar era mais duro, mas nem os fios prateados que lhe adornavam as têmporas, nem as pequenas rugas à volta dos olhos, lhe diminuíam o encanto. Antes pelo contrário. 

Conheceram-se há dezassete anos, numa festa de aniversário de uma colega de escola. Nuno, fora convidado pelo irmão da aniversariante, de quem era amigo e colega. Ambos eram médicos e trabalhavam no mesmo hospital. 
Luísa tinha chegado há poucos minutos, quando se sentiu atraída pelo olhar dele. Foi como se dois polos se atraíssem. Conversaram, riram, dançaram. Toda a noite ficaram juntos. Ele era tão diferente dos seus colegas de escola, que ao seu lado, todos os outros lhe pareciam demasiado infantis. Nuno era um idealista. Ele não pensava fazer carreira naquele hospital. Queria ir para África, para países cujo nome, ela quase desconhecia, dar assistência aqueles que nada tinham. Ela admirara-o por isso. E amara-o ainda mais.
A partir desse dia, e durante meses, encontraram-se quase diariamente. Com ele trocou o primeiro beijo, com ele descobriu as emoções do amor, e os prazeres do sexo .
Porém um dia, o pai descobriu e tudo mudou.

7.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVIII

 


- Queres dizer que meu pai perdeu a memória e por isso não sabia da minha existência? - perguntou Matilde depois da longa explicação da mãe. Mas porque não lho disseste tu?

Mãe e filha encontravam-se no quarto da última. Helena acabara de fazer um resumo do que Gonçalo lhe contara, mas Matilde era uma menina muito inteligente e um tanto precoce. Seria muito diferente se fosse uma criança de tenra idade a quem ele se limitaria a dar uma explicação mais ou menos romanceada para explicar a ausência paterna.  

- Como acabei de te dizer, nós apaixonámo-nos nas férias. Nem um nem outro estávamos na nossa terra, e o nosso contacto era o telemóvel que se perdeu no acidente. Eu só sabia que o teu pai vivia em Braga e estava na Universidade no Porto. Não tinha como encontra-lo depois dele não responder às minhas mensagens. Na verdade, nunca mais soube nada dele até há poucos dias. Nem sequer sabia se tinha casado, se tinha outra família.

- E casou? Tem outros filhos?

 -Não. Segundo sei, um dos amigos com quem estava de férias no Algarve quando nos conhecemos, um dia perguntou-lhe por mim e estranhando que estando tão apaixonados eu não tivesse ido vê-lo. Desde aí ele nunca mais deixou de pensar em mim, e por isso nunca casou.

- E agora, recuperou a memória? E é um homem normal ou está tontinho?

- À parte o não recordar aquela parte da sua vida, antes do acidente, não tem nada de tontinho, é até muito inteligente.

-Bom, e agora que já o encontraste, vais-me dizer quem é? E falar-lhe de mim? Quando vou conhecê-lo?

-Na verdade, já o conheces, filha. Lembras—te do doutor Gonçalo, aquele médico que te deu o livro? É o teu pai.

- O quê? Não pode ser!

- Porque dizes isso? - perguntou Helena assombrada.

- Mãe, ele é moreno, tem olhos escuros, eu sou loira e tenho olhos azuis. Não me pareço nada com ele. Como não me pareço contigo, tinha que ser parecida com ele e não sou.

- O Gonçalo parece-se com o pai. Tu pareceste com a sua mãe, e a sua irmã. Os filhos nem sempre se parecem com os pais. Às vezes vão buscar parecenças aos avós e até aos bisavós. Na verdade, foi por tu seres parecidíssima com a tua tia, que ele soube que nos encontrara.

-E agora, mãe? Como vai ser a nossa vida daqui para a frente? Ele já sabe que eu existo, mas vai querer ser meu pai? Ou vai aparecer uma ou duas vezes por ano e fingir que eu não existo no resto do ano? Porque se assim for, eu vivo bem sem ele.

-Não Matilde, o teu pai não é assim. Ele que ver-te, levar-te para conheceres a sua família, ser teu pai a sério. Ele até quer casar comigo.

-É claro que quer casar contigo. De outro modo nunca seria meu pai a sério, pois nunca seríamos uma família com os avós, ou o tio Sérgio.

-Não é bem assim, Matilde. Nem todos os pais vivem juntos. Decerto tens colegas com pais divorciados – disse Helena sentindo uma angústia enorme.

- Claro, como a Sónia. Mas a mãe dela voltou a casar e o pai também. Tem agora duas famílias e até mais irmãos. Tu e o Gonçalo estão sozinhos. Se ele quer casar o que te impede de o fazer? Não gostavas dele antes de eu nascer?  Ele teve culpa de ter perdido a memória? Então porque não queres casar? – perguntou obstinada.

 

11.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVIII

 




- Queres dizer que ela é a mulher que procuro?

-Nada disso! Estou apenas a raciocinar em voz alta. E dizes que a criança é parecidíssima com a Laura? Que idade tem essa menina? Viste a data de nascimento?

-Claro. Faz em Maio, treze anos. Não estás a pensar que essa criança pode ser minha, estás?

-Porque não? Eu estava presente no hospital, quando o Ricardo te perguntou se continuavas apaixonado por aquela jovem, e falou de como vocês passaram as férias grudados um no outro.

-Não! Tu conheces-me. Eu nunca seria irresponsável ao ponto de engravidar uma jovem, quando ainda não tinha condições de casar com ela. De certeza tomei precauções para que isso não acontecesse.

 -Tu és médico. Sabes melhor que ninguém que não há nenhum método cem por cento infalível. Essas coisas acontecem. Pensa no que aconteceu com a tua irmã. Pensas que ela queria engravidar naquela altura?

 - Mas como é possível, se houve uma paixão tão intensa assim, eu continuar a não me lembrar dessa época?

- É possível! O nosso cérebro, é um enorme armazém, cheio de milhares e milhares de memórias. Elas não são todas guardadas da mesma maneira. Há milhares de coisas que vivenciamos um dia e que nunca mais recordamos porque o nosso cérebro as arquiva como sem importância, outras que recordamos durante uma época e outras que recordamos toda a vida, porque elas são arquivadas em diversos zonas consoante a importância que lhes damos nos momentos em que as vivemos. Não te vou falar dos vários tipos de amnésia, porque já falámos disso há bastante tempo e tenho a certeza que tens investigado todas, suas causas e sintomas. Sabes que quando a amnésia é provocada por um trauma psicológico, stress, ou álcool ela pode terminar em qualquer momento logo que a vida do paciente volte ao normal. Mas quando é provocada por um trauma físico, como uma pancada na cabeça, um AVC, um tumor, ou qualquer outra agressão, a zona do cérebro que foi afetada, pode não recuperar nunca e nesse caso, as memórias armazenadas nessa zona desaparecem para sempre tal como documentos desaparecem quando devorados por um incêndio.

- E não posso fazer nada? Meu Deus, não posso viver nesta incerteza o resto da vida.

 - Claro que podes. Deste o primeiro passo. Convence-a a escutar—te. Sê sincero.

- Mas admitindo que seja ela, e que a menina possa ser minha filha. Que direito tenho eu de entrar assim sem mais nem menos na vida delas? E se ela tem alguém? O facto de não ser casada, não quer dizer que não viva numa relação feliz.

-Ou não. E não podes sabê-lo sem falares com ela.

-Se ela quiser falar comigo! E se isso não acontecer?

-Está tão atormentado, que quase não raciocinas. Estás de serviço amanhã?

- Não! Estou livre este fim de semana.

- Dá no mesmo. Podes sempre ir lá logo de manhã. Leva um Kit de ADN, e faz a recolha.

Se como penso a menina for tua filha, ela não poderá deixar de te ouvir. Tens o direito de poder ver e acompanhar o crescimento e educação dela, mesmo que ela tenha outra relação e não queira saber de ti como possível marido. E se não tiver ninguém, depende de ti quereres ou não conquistá-la de novo.

 -- Meu Deus, Fernando! Não posso admitir que aquela menina linda possa ser minha filha, e pensar que podia levar a vida inteira sem ter conhecimento disso.

-Tens que o admitir se fizeres o teste de ADN e for esse o resultado. E ela não poderá tirar os teus direitos de pai.

-Mas como vou fazer o teste de ADN sem a sua autorização? Isso é ilegal!

-É? Mas não dizem que os fins justificam os meios?  De resto se o resultado for negativo, ela nunca saberá que o fizeste. E se for positivo, não terá coragem de participar de ti. Pensará que a filha não lhe perdoaria se soubesse que acabou com a tua carreira, e as mulheres pensam sempre nos filhos antes de qualquer outra coisa.  E agora se te fosses vestir e fossemos dar uma volta por aí?

 - Desculpa, sei que a tua intenção é boa, mas não tenho vontade nenhuma de sair.

-- Bom então agora aceito aquela cerveja que me ofereceste há bocado. Também não estou com muita vontade de sair. Tens estado com a Laura? Como é que ela está?

Gonçalo levantou—se e foi à cozinha buscar a cerveja. Não lhe passara despercebida a tristeza na voz do amigo.


2.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XIV

 


Gonçalo regressou ao gabinete e continuou a atender os doentes, mas o rosto de Matilde não lhe saía da cabeça. Num breve intervalo sem doentes, abriu a carteira e tirou uma fotografia observando-a de sobrolho franzido. Era uma fotografia da sua irmã quando criança, mas qualquer um que a visse diria que era daquela menina de nome Matilde Caldeira, que se encontrava agora no bloco operatório. E aquela sensação esquisita que ele sentira dias antes quando aquela mulher chocara com ele, junto à escola da sobrinha, e se repetira horas antes ao vê-la junto da maca da filha?

Voltou a guardar a foto na carteira quando lhe trouxeram a inscrição de um novo doente.

Algumas horas mais tarde, terminado o turno entrou no automóvel, mas em vez de o pôr a trabalhar e se dirigir a casa, mais uma vez retirou a foto da irmã da carteira e ficou observando-a pensativo. Não conseguia tirar aquela menina do pensamento, aqueles olhos azuis tão brilhantes e luminosos. Ele nunca vira outros assim a não ser na sua mãe e irmã. Aliás aquela criança desconhecida, era mais parecida com a sua irmã, do que Sara, a filha dela. Será que a sua mãe tinha algum familiar que ele desconhecia a viver em Lisboa?

Saiu do carro e voltou ao hospital. Tinha de falar com aquela mulher. Talvez ela pensasse que ele tinha enlouquecido, mas conhecia-se. Sabia que não iria conseguir sossegar sem saber se a menina e a mãe tinham alguma ligação à sua família. Subiu ao terceiro andar, onde esperava encontrar as duas, pois tinha visto no computador que a laparoscopia tinha terminado duas horas antes e a mãe deveria estar com ela até às vinte, hora limite das visitas.

Ainda não sabia bem como iria abordar o assunto, talvez a mulher pensasse que ele estava louco, mas algo dentro de si lhe dizia que fosse em frente.

Entrou no quarto e com um rápido olhar, verificou que a paciente dormia, enquanto a mãe se encontrava sentada num cadeirão junto à janela. 

Leu rapidamente as anotações na papeleta aos pés da cama, vendo pelo canto do olho como a mulher se punha de pé, mas não se aproximava. Teve a certeza que apesar de já não ter a bata nem o estetoscópio ela o reconhecera como o médico que mandara a filha para a cirurgia. Ficara muito nervosa.

-- Aconteceu alguma coisa com a minha filha, doutor? - perguntou com voz rouca. - Ela está bem, não está?

- Está, não se preocupe. Aliás não estou aqui como médico, o meu turno já terminou. Preciso de falar consigo de algo que é de vital importância para mim, mas este não é o local nem a hora. Queria apenas que me prometesse que podemos conversar, quando a sua filha tiver alta.

- Se não tem a ver com a saúde dela, não entendo o que possa ter a falar comigo, se mal nos conhecemos.

- Eu sei que parece loucura, e que estou a por em perigo o meu emprego e a minha carreira, caso a senhora decida participar de mim, ou me acuse de assédio, todavia juro-lhe que não lhe vou causar qualquer dano, nem quero molestá-la de forma alguma.

Helena estava aterrorizada. Inicialmente pensara que ele tivesse descoberto que Matilde era sua filha, mas logo afastou esse pensamento. Percebeu que ele não se lembrava dela, e sentiu raiva de si própria por todos os anos em que guardou as memórias daquele amor.

Ele caminhou até à janela. Apoiou as costas no parapeito e fitou-a. Ela aguentou-lhe o olhar e viu nele tristeza e dor. Surpreendeu-se.

- Desde que chocou comigo naquele dia em frente à escola, sinto-me confuso.  Não consigo deixar de pensar que de algum modo a senhora está ligada a mim, ou à minha família, mas não consigo recordar de que maneira. E hoje ao conhecer a sua filha, o meu coração disparou e a confusão aumentou. Não sei explicar, mas foi como se o coração soubesse algo, que a memória desconhece.

Sentindo que as pernas ameaçavam deixar de lhe sustentar o corpo, Helena sentou-se enquanto ele abria a carteira e retirava a foto da irmã. Estendeu-lha.

-Por favor, senhora. Veja, esta foto.

Com a mão a tremer Helena pegou na foto e olhou. A parecença com Matilde era assombrosa. Não fora as roupas e ela diria que de algum modo ele tinha fotografado a sua filha.

- É… sua filha? – perguntou quase sem voz.

- Não tenho filhos, sou solteiro. É uma foto antiga da minha irmã, mais ou menos com a idade da sua filha. Percebe a minha confusão, e porque preciso falar consigo? – perguntou Gonçalo quando ela lhe devolveu a foto.

Nesse momento Matilde gemeu e a mãe apressou-se a dirigir-se para a cabeceira de cama, dizendo.

- Por favor, vá-se embora!

Sem responder ele saiu do quarto. Ela debruçada sobre a cama da filha, sentiu um aperto no peito ao vê-lo sair com os ombros inclinados como se carregasse nas costas, o peso de uma grande dor.

 

14.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE VI


- Lena, já passa das dez e meia. Não te esqueceste da reunião na escola, pois não?

- Meu Deus, já? Estava distraída, com o inventário dos bens do caso Mendes verso Correia. Tenho que resolver isto esta semana. Mas agora tenho mesmo que ir. Até logo, Rita.

Saiu, meteu-se no automóvel e dirigiu-se à escola. Ficou aborrecida ao chegar e verificar que não tinha lugar para estacionar no parque frente à mesma. Deu uma pequena volta e estacionou numa transversal ali perto. A caminho da entrada olhou o relógio. Estava quase em cima da hora e ela detestava chegar atrasada. Apressou o passo e ao dobrar a esquina para entrar na zona da escola chocou com um homem que vinha em sentido contrário, trazendo uma menina pela mão. Teria caído se ele não a tivesse segurado.

- Está bem? – perguntou ele

- Desculpe, a culpa foi minha, estou atrasada, vinha quase a correr - disse ela  levantando os olhos para ele.  Nesse momento, o seu rosto empalideceu, sentiu que as pernas lhe tremiam, mas num enorme esforço de vontade, desprendeu-se dos seus braços, e correu para o portão da escola.

-Que mulher maluca! - disse a menina e dando a mão ao homem que continuava estático olhando o portão da escola, perguntou:

-Vamos?

-Vamos sim, Princesa, a tua mãe já deve estar a perguntar-se porque nos demoramos tanto.

 - A mãe não sabe que vou contigo. Ia ligar-lhe quando soube que não tinha as duas últimas aulas, mas então vi-te a saíres da sala de reuniões e já não o fiz.

Entraram no carro e a caminho de casa, ele perguntou:

-Conheces todas as professoras da escola, Sara? Aquela mulher é professora?

-Tenho a certeza que não. Nunca a vi antes. Mas hoje é dia de reunião de pais. Deve ser alguma mãe, que ia para a reunião das onze. Porquê?

-Curiosidade, Sara. Apenas isso.

Não voltou a falar até chegarem a casa. Gonçalo estava inquieto. Só tinha segurado aquela mulher durante breves segundos, mas a sensação que teve foi muito estranha. Como se de algum modo, o seu destino estivesse ligado ao daquela desconhecida.

 Chegaram. Mal teve tempo de estacionar, em frente da moradia e já uma jovem mulher abria a porta de casa.

- Já em casa, Sara? – perguntou admirada

- Não tinha as duas horas de Inglês. Ia telefonar-te, mas então vi o tio Gonçalo a sair da reunião e vim com ele. O mano?

- Está a dormir.  Vamos entrar. Gonçalo, quero que me contes tudo sobre a reunião. Como está a Sara nos estudos?

- Não tens razões para estar preocupada. A tua filha é uma ótima aluna. Vai ter excelentes notas como sempre.

-Obrigado. Não sei o que seria de nós sem ti. Vamos entrar?

Afastou--se para deixar entrar a filha e o irmão, fechando a porta em seguida. 

- Mãe, vou para o meu quarto fazer os TPCS.  Almoças connosco, tio?

- Se a tua mãe me convidar, - respondeu o homem sorrindo.

- E desde quando, é preciso convidar-te?  Não tens hospital hoje? – perguntou Laura.

 

Finalmente ontem levei a primeira dose da AstraZeneca. Mas ainda tive que ir buscar mais um documento ao meu centro médico. Hoje tenho uma nova ida ao hospital para uma consulta de pneumologia. Não me tem sido possível visitar-vos. Ou melhor tenho lido alguns dos vossos posts nas salas de espera, mas não consigo comentar através do telemóvel. Penso conseguir voltar ao normal no próximo fim de semana

7.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE III

 


Contrariamente ao que Lena pensava, nem os pais, nem o irmão a recriminaram e embora ela soubesse que estavam desgostosos, apoiaram-na na decisão de ter o bebé.

Assim depois de conversar com os pais, cancelar a matrícula e adiar os estudos, pelo menos até o bebé nascer, despediu-se de Rita, e regressou ao lar paterno, não sem antes  ter convidado a amiga para madrinha do bebé e lhe ter pedido para a ir visitar à quinta sempre que quisesse e pudesse. Precisava mais que nunca da sua amizade. 

 A gravidez decorreu sem percalços e no final de Maio do ano seguinte, Helena dava à luz uma bela menina, com cinquenta centímetros e três quilos e duzentos gramas, a quem registou com o nome de Matilde.

Matilde cresceu robusta e sadia e cedo conquistou o amor dos avós.

Porém no dia em que completou o primeiro ano de vida, Joaquim, o avô, decidiu que era altura de ter uma conversa séria com a filha e disse-lhe:

-Lena, ontem conversei com a tua mãe, e ambos estamos de acordo, em que se ainda pretendes continuar os teus estudos, é altura de o fazeres. Pensa que já passaram dois anos da data em que terminaste o Secundário e quanto mais tarde, mais te custará a ambientares-te e mais terás esquecido daquilo que já aprendeste. Talvez queiras desistir por causa da tua filha, mas se assim é, cometes um erro enorme e é meu dever de pai aconselhar-te. 

É precisamente por ela que deves continuar os teus estudos e seguir uma carreira, tornares-te uma mulher independente, já que desde menina, nunca gostaste da vida na quinta e não serias feliz aqui na aldeia. E se tu não és feliz a tua filha também não o será, nem te agradecerá o sacrifício que faças por ela.

Sei que a Rita gosta muito de ti e adora a afilhada. Falei com ela esta tarde, enquanto adormecias a Matilde e estamos de acordo em que precisas de seguir com a tua vida. Prometeu que te ajudará a cuidar dela enquanto não arranjas uma boa creche. Nós ficaríamos encantados em cuidar dela, mas a menina ia sentir a tua falta, e depois já não somos novos e ela precisa conviver com outras crianças. Que dizes?

-Não sei, pai. Na verdade, o que me propõe é a realização de um sonho. Mas tudo isso custa muito dinheiro. Como posso pagar propinas, livros, roupas para mim e para a minha filha, creche, alojamento e alimentação? Não posso continuar a sobrecarregar—vos com despesas. Um bebé, é uma despesa enorme, e vocês têm pago tudo até agora. Não vos posso sobrecarregar mais.

- Bom, lembro-te que tens uma conta no banco que abrimos quando nasceste. Não é uma grande fortuna, mas dá para um bom tempinho. O teu irmão usou a dele quando decidiu ir viver com a Sofia, para montar  a casa e comprar o carro. E como sabes a tua mãe, vai vender a casa que herdou da tua avó, já recebeu o sinal e tem a escritura marcada. Decidimos dividir esse dinheiro pelos dois, nós não precisamos dele, e de qualquer modo será para vocês, quando nós partimos. Mas para quê guardá-lo se é agora que vos faz falta? Assim não terás de te preocupar, tanto mais que a Rita me disse que não vai aceitar dinheiro pelo quarto, troca o aluguer pela vossa companhia. Pensa nisso, filha.



 

24.2.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE II

 


 




 A mãe, arrumou o quarto, pegou no vestido de noiva que estava pendurado no armário e estendeu-o em cima da cama alisando-o para ver se não haveria alguma ruga que lhe estragasse o brilho. Satisfeita com o resultado saiu e dirigiu-se à sala, onde as irmãs, cunhadas e sobrinhas esperavam. 
-Celeste e Maria João, - disse dirigindo-se às duas sobrinhas, a Sofia está a tomar banho, decerto agradeceria a vossa ajuda para se vestir e pentear, eu vou-me vestir.

Entrou no quarto de casal, onde o marido andava às voltas com o nó da gravata, e procurou no armário o fato que ia levar ao casamento da filha. Estava muito nervosa. A falar verdade não lhe agradava nada aquele casamento arranjado entre o marido e o pai do noivo. É verdade que eles eram amigos desde sempre, e que ele era boa pessoa. Mas o rapaz fora para a França ainda miúdo sabe-se lá no que se teria tornado. Não se conformava. Nem percebia porque a filha tinha aceitado aquele disparate.
  
Não conseguia aceitar a ideia, de que aquele  casamento,  ia levar a sua menina para o estrangeiro, sem saber quando voltaria a vê-la. Já tinha brigado com o marido, mas ele dizia-lhe, que apenas fizera uma proposta à filha, que ela aceitara. Não a forçara, nem sequer a aconselhara a aceitar. A decisão fora só dela, e  se era isso que ela desejava, eles não se podiam recriminar.

Já no quarto, depois do duche tomado, Sofia retirou da comoda um conjunto de peças íntimas, branco e um saiote comprido engomado, que serviria para armar a saia do longo vestido de noiva, e deu início à tarefa de se vestir, ajudada pelas duas primas.
-Não vestes combinação? - perguntou Celeste admirava.
-Não
Sabia que a mãe iria ralhar com ela, fazia-o sempre que ela não vestia combinação, mas era uma peça com que embirrava, e que pensava nunca mais usar a partir do seu casamento.

-Meu Deus Sofia, não sei como tens coragem de casar assim sem sequer conheceres o rapaz, - disse Maria João enquanto escovava o cabelo da prima. Eu não seria capaz.
-Eu também não, - disse Celeste, acariciando a seda do vestido. Ainda mais ir para tão longe, numa terra estranha, sem pai ou mãe, que te ajudem a ambientares-te. És muito aventureira.

Sofia limitou-se a sorrir. Estava feliz. Não porque estivesse apaixonada, ela nunca sentira tal sentimento por nenhum homem, apesar de sonhar com o amor.
Qual é a mulher que não sonha?  As mulheres sonham com o amor, antes mesmo de começarem a pensar em homens. Só muito mais tarde, quando se enamoram, dão ao sonho um rosto, põe um nome ao  amor. 

Mas ela mal conhecia o futuro marido. Lembrava-se dele, apesar de ainda não ter nove anos, quando ele com quinze, fora visitar uns tios que tinham emigrado há muitos anos para a França. E por lá ficou com eles. Afinal a visita, não passara de um estratagema, para fugir do país e da mais que certa ida para a guerra do Ultramar. Com aquela idade não foi muito difícil, dois anos mais tarde, seria impossível. Teria que recorrer à fuga clandestina.


Nota: Esta história será publicada às Segundas, Quartas e Sextas
.

17.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XVIII

 

- Esperava esclarecer tudo na volta. Mas então fugiste e não me atendias o telefone. Fui ter com a tua avó e abri-lhe o coração. É por isso que estou aqui.
- Meu Deus! – Exclamou a jovem, incapaz de entender, tudo o que ele lhe dizia.
- Desnudei-te a minha alma, Isabel. Agora é a tua vez. Porque foste até mim, com um nome falso? Porquê, abandonares a tua carreira de advogada, para estares ao meu lado?
- Tenho mesmo que to dizer? Não basta a humilhação que sofri há dez anos?

Pôs-se de pé. Doía-lhe o peito, ardiam-lhe os olhos, tremiam-lhe as mãos. Ele pôs-se igualmente de pé, aproximou-se dela, pôs-lhe as mãos nos ombros e fitou-a com seriedade.
- Santo Deus, Isabel! Que querias que eu fizesse? Que tomasse o que com tanta generosidade me oferecias? Seria monstruoso. Eras uma menina. Tinhas só dezasseis anos.

- Mas nunca mais me procuraste. E passaram dez anos, - queixou-se ela.
- Nos primeiros cinco anos esperei com ansiedade que voltasses. Todos os anos no verão, telefonava aos amigos, perguntava por ti. Se me tivessem dito que tinhas regressado, eu voltaria imediatamente. Para ti, para o teu amor.  Mas tu não voltaste. Então, pensei que o que te tinha movido, tinha sido apenas um impulso, uma criancice de menina que desponta para a vida e se confunde com o que sente. Pensei que estarias arrependida, e nem me querias ver. Tentei esquecer-te e dediquei-me à escrita. 

Depois tive o acidente, e já não fazia sentido procurar-te. Fiquei tão feliz quando apareceste. Tentei que falasses, logo no primeiro dia, quando te perguntei se não nos conhecíamos. Mas fingiste que não. Que podia eu fazer senão seguir o teu jogo, e aguardar?

-Mas disseste que eu era uma irmã, - queixou-se
- Foi por isso que fugiste? Porque eu disse que dez anos atrás, tinha tido uma amiguinha a quem amava como irmã? Não te parece uma maluquice, ter ciúmes daquela miúda?
-Não foram ciúmes. Foi o pensamento de que nunca seria, mais para ti. do que uma irmã.

18.5.20

ISABEL - PARTE IV


Santuário do Sameiro     

Imersa nas suas memórias, Isabel reviu o dia do seu casamento. Sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Uma autentica princesa, envolta no longo vestido branco de renda e cetim, o rosto escondido sob o longo véu de tule, tudo confeccionado com muito amor e carinho pela sua mãe com a ajuda da madrinha. Isabel era filha única, nascera quando a mãe já passara os quarenta, e os pais casados há mais de vinte anos, já se tinham conformado com o facto de não terem descendência. Fora por isso uma menina muito amada, a quem os pais tentavam dar tudo o que podiam, às vezes até com sacrifício das suas próprias necessidades.
Mentalmente encontrou-se de novo na igreja enfeitada, ouviu o choro nervoso e emocionado da mãe, viu o brilho no olhar de Fernando, que a esperava junto ao altar enquanto ela avançava pelo braço do pai, e por fim o abraço emocionado dos pais, quando o sacerdote os declarou marido e mulher e os abençoou, dando por terminada a cerimónia que a uniu ao homem amado.
A partida para a lua-de-mel em Braga, as noites de louca paixão, os dias de descoberta, os passeios pela cidade, a ida ao Bom Jesus, em agradecimento pela felicidade partilhada, as fotos tiradas na Senhora do Sameiro, o regresso a casa, a volta do marido ao emprego, os primeiros dias como dona de casa, a sua decisão de arranjar um trabalho fora de casa, que lhe ocupasse não só parte do tempo morto que passava sozinha, mas que também desse para ajudar no orçamento, tudo passou pela sua memória como estivesse numa sala de cinema, vendo um filme.
A manhã ia avançando e embora o sol ainda não se tivesse feito presente, o dia estava agora muito melhor e a praia começava a encher-se de gente. Isabel olhou para trás e viu que estava já tão longe que a cidade, era já um ponto minúsculo ao longe. Resolveu voltar e deu meia volta percorrendo agora a praia no sentido inverso.
O telemóvel voltou a tocar e de novo era a sua assistente. Depois de uma breve conversa, desligou o aparelho e sentindo sede, lembrou-se que deixara a garrafa de água na bolsa. A poucos metros nas dunas avistou um pequeno restaurante e dirigiu-se para lá.
Depois de comprar uma garrafa de água e de saciar a sede, retomou o caminho de volta e embrenhou-se de novo no seu passado
Estava-se no mês de Agosto e Isabel preparava as coisas para uns dias de férias que iam passar a Albufeira. Ela não conhecia nada no Algarve, mas Fernando tinha lá uns tios que viam no sobrinho, o filho que nunca tiveram e estavam sempre a convidá-los para passarem as férias as férias em sua casa. Naquele ano tinham decidido aceitar a oferta.  Assim aquela Sexta-feira era o último dia de trabalho de Fernando antes das férias. No dia seguinte apanhariam o comboio da manhã rumo ao Algarve e por isso ela ia metendo na mala o necessário para aqueles quinze dias, enquanto aprontava o jantar.
Foi nessa altura que o telefone tocou. Pensou que seria o marido a avisar que chegaria mais tarde, e pensou que não dava jeito nenhum, fazer serão, justamente nesse dia.


12.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VII


Quando duas horas depois, André voltou, a primeira coisa que viu, assim que Eva lhe abriu a porta, foi o seu rosto congestionado, e os olhos vermelhos e inchados, indicadores claros de ter levado o tempo a chorar. Sentiu um baque no peito. Era tão jovem. Parecia uma menina e já tão sofrida. Sorriu, tentando animá-la.
- Trouxe jantar para os dois. Calculei que não te apetecesse cozinhar. E uma vez que ia sair do hotel preferi fazê-lo antes do jantar. Vou pôr a mala no quarto e já venho. Queres por a mesa? Na cozinha, se não te importas.
Estendeu-lhe o saco, e seguiu com a mala para o quarto. Eva pôs a mesa. Depois abriu o saco, e tirou dele uma garrafa de vinho tinto, um recipiente com frango assado, outro com batatas fritas, um com salada e uma caixa de gelado, que colocou no congelador. Procedia quase como um autómato, pensando quão estranha era a vida. De manhã, ela nem sonhava com a existência de André. E agora ali estava a por a mesa, para um jantar a dois, como se fossem um casal, ou pelo menos amigos íntimos. Curioso é que depois do embate inicial, e sobretudo depois da conversa que tiveram horas antes, ela deixou de recear o que lhe podia acontecer no futuro. Confiava nele? Sim, mas não de peito aberto. Como diria a Irmã Madalena, confiava, desconfiando. Muita água teria que correr debaixo da ponte, até que voltasse a confiar em alguém, em pleno, como confiara no marido.
- Espero que gostes de frango,- disse ele ao voltar minutos depois.- Teria telefonado para te perguntar, mas não tenho o teu número. Pudemos começar? Estou cheio de fome.
Puxou-lhe a cadeira para ela se sentar, e esse pequeno gesto, fez com os olhos femininos, ficassem rasos de água. Nunca ninguém tivera com ela gesto tão delicado, nem sequer o marido no tempo de namoro, muito menos depois de casados. Durante alguns minutos comeram em silêncio. Depois ele retomou a palavra.
- A tua família, já sabe o que se passou?
- Não tenho família!
-Como assim? Ninguém? Nem sequer um parente afastado?
-Não. Fui abandonada à porta de uma instituição católica que acolhe órfãos. E lá vivi até ao casamento. A Irmã Madalena, é o mais parecido que tenho com uma família.
André despejou um pouco de vinho no seu copo, e tentou fazer o mesmo no dela, que o cobriu com a mão dizendo:
-Não obrigada. Prefiro água.
Olhou-a pensativo. Será que estava grávida? Isso justificaria o ter desmaiado no advogado e o não querer bebidas alcoólicas. Ou será que temia que ele a embebedasse, para depois abusar dela?


22.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXIX


- Estou…
- Menina Laura?
- Sim. Aconteceu alguma coisa, Celeste? – perguntou ao reconhecer a voz da governanta do seu irmão.
- Não sabemos, menina. O senhor telefonou ontem, pouco depois das dez da noite, a perguntar como estava a filha, disse que estava a caminho, mas até agora não apareceu, nem voltou a ligar. Estamos muito preocupadas, tanto mais que a menina Mariana se mostra muito nervosa esta manhã. Talvez estranhe a ausência do pai.
Laura olhou o relógio. Faltava um quarto para o meio dia. Ficou preocupada. O seu irmão não estaria tantas horas sem telefonar para casa.
- Obrigada por ter ligado, Celeste. Vou ver se entro em contacto com ele. Com esta tempestade, deve ter parado em algum hotel para dormir – disse sem grande convicção, tentando acalmar as empregadas.
 De seguida, marcou o número do telemóvel do irmão, que tocou durante muito tempo, sem que ninguém atendesse.
“Acalma-te, pode estar no banho, não ouvir o telemóvel” - murmurou para si mesma. Esperou cinco minutos e voltou a ligar com o mesmo resultado.  Cada vez mais nervosa, ligou para a loja do seu irmão Marco. Foi Isabel, a cunhada quem atendeu a chamada.
- Isabel, o Marco está aí? – perguntou. Preciso falar com ele.
- Está no armazém. Espera um momento que vou chamá-lo.
Pouco depois, Marco atendia a chamada.
- Estou…
-Marco sabes alguma coisa do Gil?
-Não porquê? Aconteceu alguma coisa? – perguntou em sobressalto.
-A verdade é que não sabemos. Sabias que ele ia estar ontem na Universidade do Minho, não é verdade?
- Sim, disse-me no domingo quando foi almoçar lá a casa.
- Recebi um telefonema da Celeste muito preocupada. Ele telefonou ontem à noite,depois das dez horas,  para saber como estava a Mariana e disse que estava a caminho. Não chegou, nem voltou a dar notícias, e não atende o telefone. Estou em pânico.
- Meu Deus, Estás em casa? Sim? Vou já para aí. Telefona ao Alcides, vê se ele pode ajudar-nos.
Laura, telefonou ao noivo, e contou-lhe o que se passava. Ele disse que estaria em sua casa dentro de dez minutos, e ela desligou o telemóvel e deixou-se cair no sofá em soluços. Tinha a certeza de que alguma coisa de muito grave tinha acontecido ao irmão. Gil era o homem mais responsável que ela conhecera em toda a vida, adorava a filha e mesmo quando viajava para o estrangeiro, estava sempre em contacto e fazia chamadas de vídeo para ver e falar com a filha.
Minutos depois a campainha tocava. Foi abrir. Era Marco. Abraçou-a carinhosamente e entrou. Ela ia fechar a porta quando Alcides saiu do elevador. Deu-lhe um beijo e entrou em casa. Cumprimentou o futuro cunhado e os três dirigiram-se à sala.
Laura, repetiu palavra por palavra, o que Celeste lhe dissera. Enquanto a ouvia, Marco marcava o número do irmão que chamou imenso tempo até ouvir a mensagem do gravador. Uns minutos depois voltava a ligar e ouviu de imediato a gravação de que o número não estava disponível. Repetiu a chamada e aconteceu o mesmo.


18.11.19

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XV






Nos dias que se seguiram Gil, teve que ir ao aeroporto esperar o pai de Sara e os seus meios-irmãos, e levá-los para um hotel. Apesar da sua casa ter espaço suficiente para os instalar, ele vira-os apenas três vezes em todo o tempo que durou o seu casamento, não tinha com eles um vínculo afetivo que lhe permitisse sentir-se confortável em partilhar com eles a sua casa. Por outro lado, eles eram respetivamente avô e tios da sua filha, e tinham todo o direito de querer vir a Portugal ver a menina quando quisessem. Foi isso mesmo que disse ao sogro, quando o levou ao hospital para que pudesse ver a neta.
Pese a tragédia que se abatera sobre a sua vida, Gil contava com o apoio constante dos seus irmãos. Marco e Laura, que logo que soube do nascimento da sobrinha viajou para Portugal.
Foi Laura quem fez as entrevistas para a ama da bebé, apesar das empregadas de Gil, garantirem que entre as três cuidariam da menina, com todo o carinho, como se de uma neta se tratasse. Mas Laura disse que a criança precisaria de uma pessoa mais jovem para cuidar dela. E dado que era uma bebé prematura, ela exigira e acabara por contratar, uma ama com conhecimentos de enfermagem. Gil ainda nem a vira, apenas sabia pela irmã, que se chamava Inês, tinha trinta anos e era divorciada. Bom a vida da ama não lhe interessava, só desejava que fosse competente. Ela iria ao escritório do advogado assinar o contrato no dia seguinte, e seria a partir desse momento a ama da sua filha. Laura decidira que ela devia ir todos os dias ao hospital e estar com a menina todo o tempo que lhe fosse permitido a fim de que a bebé, se habituasse à sua presença.
Também o doutor Alcides, foi de uma enorme ajuda. Ele estivera presente junto da família, como se de um membro da mesma se tratasse, muito embora Gil pensasse que não o fazia apenas por altruísmo. Não lhe passara despercebido, o agrado do advogado quando lhe apresentara a sua irmã. Nem a troca de olhares que surpreendeu entre os dois por mais do que uma vez. Se isso ia significar ou não alguma coisa, não sabia, mas não lhe desagradava nada se os dois se apaixonassem. Tinha pelo advogado uma relação que ia muito para além da que um cliente tem pelo seu causídico.
Após o funeral, Gil acompanhou a família da sua falecida esposa ao aeroporto, reiterou o convite para virem visitar a bebé quando quisessem, mas o sogro usando de uma franqueza que muito lhe agradou, disse:
- Não será muito fácil, voltar a Portugal tão cedo. A minha família, é grande, os dois rapazes mais velhos, que já estão a trabalhar dão uma pequena ajuda, mas os dois também se preparam para constituir família, e não podem ajudar muito
. Os outros ainda estão na escola, e eu e a minha mulher trabalhamos muito para lhes dar o essencial. E as viagens para Portugal, são caras.
- Mas isso não é problema. Só me dizem quando querem vir, eu trato do resto.
- Eu sei que o senhor é rico e que o faz sem qualquer esforço, mas não. Se o aceitei agora, foi porque era a única hipótese que tínhamos de nos despedir da nossa querida Sara. Nunca mais o farei. Um homem pode ser pobre, mas isso não quer dizer que não tenha orgulho. De qualquer modo, muito obrigado por tudo, e se por acaso um dia for a França com a menina e quiser passar pela minha casa, vou ter muito gosto em poder abraçar a minha neta.
Despediram-se com um forte abraço. Gil ficou no aeroporto até o avião se elevar nas alturas.