Novamente o silêncio. Como se Gonçalo precisasse recuperar a
força necessária para continuar a desnudar a alma, despindo todo o sofrimento e
angústia que a envolviam.
Lágrimas silenciosas rolavam pelas faces pálidas de Helena,
e a sua mão como se tivesse vida própria, apertou a dele tentando dar-lhe ânimo. Ante aquela sofrida confissão, toda a raiva que ela guardara durante
aqueles anos desapareceu deixando no seu lugar apenas o imenso amor que
sempre existiu no seu coração e que durante anos, ela tentara em vão esconder por trás da muralha do ódio e uma enorme compaixão pelo nítido sofrimento
dele. Pouco depois ele retomou a
palavra.
-O cérebro é um órgão muito complexo. Danos físicos são fáceis de detetar, mas danos psicológicos são mais difíceis de avaliar. A minha neurologista diz que as palpitações e flashbacks que sofro são reais, mas a causa dos mesmos não é nada que ela possa identificar e tratar. Acredita que eles estão relacionados com a perda de memória. Devido ao facto do meu subconsciente ter bloqueado memórias do acidente, eu não fui capaz de processá-las e seguir em frente.
O psiquiatra diz que talvez o traumatismo que sofri com a pancada na
cabeça tenha apagado algum pedaço de memória e o psicólogo que talvez de forma inconsciente,
o cérebro tenha bloqueado essa informação por medo de voltar a sofrer ao
recordar. O certo é que no início de Setembro faz catorze anos e eu continuo
desesperado tentando recuperar uma parte da minha vida que se perdeu nesse
maldito acidente.
Durante todo este
tempo, sempre que me cruzava com uma mulher mais ou menos da minha idade, pensava
se poderia ser aquela a quem amara ao ponto de querer casar-me, todavia não é nada fácil encontrar uma pessoa de quem não se sabe sequer o nome e nunca senti nada de especial, nem nenhuma mostrou
reconhecer-me. Já tinha perdido a esperança, quando um dia fui à escola da
minha sobrinha, para uma reunião de encarregados de educação. A minha irmã é
viúva e além da Sara, que viu naquele dia, tem outro filho o Miguel ainda bebé, razão porque assumi a responsabilidade de
ser o encarregado de educação da Sara, na escola, para evitar deslocações da minha irmã.
Quando a Helena chocou comigo, o meu corpo reagiu de forma estranha, e quando me olhou, vi surpresa e medo nos seus olhos. Quis perguntar se me conhecia, mas você fugiu e desde aí pensava em como encontra-la de novo. A minha sobrinha disse-me que não era professora naquela escola, e que só podia ser uma mãe, que ia para a reunião das onze.
Não sabia como fazer para a encontrar e desesperava-me quando atendi a Matilde no hospital. E quando vi a sua filha, levei um choque pelas semelhanças com a minha irmã e minha mãe.
Acreditei que tivesse chegado a hora de descobrir aquela parte desconhecida do meu passado, mas fiquei sem chão quando mais tarde fui ver a menina pedindo que me ouvisse e a Helena me expulsou do quarto.
Desesperado falei com um psiquiatra, amigo de longa data que me disse que parecia que finalmente eu tinha encontrado a mulher da minha vida e provavelmente a menina seria minha filha. Aconselhou-me a fazer o teste de ADN, mas eu seria incapaz de o fazer às escondidas. Por isso decidi fazer mais uma tentativa para que me escutasse e coloquei o cartão dentro do livro que ofereci à Matilde.
Diga-me por favor, - pediu olhando-a desesperado. É a Helena a
mulher a quem amei? E a Matilde é minha filha?




