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30.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXVIII




Casaram cinco meses depois, em setembro, exatamente quando fazia catorze anos que ela recebera a última mensagem dele.

Os cinco meses que antecederam o casamento, foram de muita persistência, companheirismo e apoio, por parte de Gonçalo, que deve ter esgotado todas as técnicas de sedução que conhecia, antes que Helena aceitasse finalmente o casamento. Não que estivesse convencida do amor de Gonçalo. 

Ainda pensava que tudo o que ele fazia, se devia ao facto do enorme desejo que ele sentia de ter uma família e também porque não à intensa atração sexual que os unia. Reconhecia que ele amava apaixonadamente a filha, mas a ela…

Todavia depois de muito pensar resolveu arriscar. Quem sabe acabaria descobrindo que estava errada. E depois ou se casaria com ele ou se condenaria a uma vida inteira de solidão. Não conseguira esquecê-lo durante catorze anos, quando pensava que era um cafajeste, como ia conseguir esquecê-lo agora?

No espaço de tempo decorrido, desde aquele dia em que Helena e a filha foram apresentadas à família paterna, a relação dos dois com as duas famílias fora-se estreitando, com sucessivos fins de semana ora em Braga, ora na quinta entre Alpedrinha e a serra da Gardunha.

A data fora escolhida pelos dois, como um recomeço da história que os uniu no passado. Era como se pretendessem que aquele dia feliz, apagasse das suas memórias o acidente de Gonçalo e a desilusão de Helena.

E sim, foi o casamento mais bonito a que os convidados já tinham assistido.

 

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Dois anos depois…

Mal Gonçalo parou o carro junto da sua residência, a porta abriu—se e dela saíram Matilde, seguida da tia Laura e dos primos Sara e Miguel.

Gonçalo deu a volta ao carro e ajudou a esposa a sair enquanto Laura abria a porta traseira e tiravam os dois ovos onde dormiam os gémeos Rafael e Mariana nascidos por cesariana três dias antes. Matilde, agora uma bela adolescente de quinze anos apressou-se a pegar no ovo onde dormia Mariana, encantada com a bebé loira tão parecida consigo.

 Já em casa, Gonçalo ajudou Helena a deitar-se na grande cama de casal, enquanto a irmã deitava os bebés num enorme berço, onde ficariam os dois no primeiro mês. Depois passariam para o quarto ao lado, onde seriam então separados e cada um teria o seu próprio berço.

- Todos lá para fora agora, - ordenou Laura. Os bebés devem dormir descansados e a mãe precisa descansar.

Matilde aproximou-se da cama e disse:

-A madrinha telefonou a dizer que vinham cá esta noite, para ver os bebés e falar contigo.

Depois baixou-se e deu um beijo na mãe, de seguida beijou o pai e disse:

-Estou muito feliz com os meus irmãozinhos. Obrigado aos dois por esta felicidade.

Saiu do quarto em seguida fechando a porta atrás de si.

Gonçalo sentou-se na beira da cama e segurou a mão da esposa entre as suas.

- E eu também te agradeço querida, por teres acreditado no meu amor, mesmo eu não tendo recuperado a memória e teres transformado a minha vida amargurada e solitária, nesta felicidade que partilhamos.

Curvou-se para a beijar enquanto Helena emocionada fechava os olhos, deixando rolar pela face uma lágrima de felicidade

 

 

 

 FIM


Nota:

A história que se seguirá é uma reedição. Foi publicada a primeira vez em 2016. Os mais antigos já a leram, mas talvez gostem de a recordar. Ultimamente tenho dificuldade em conseguir escrever novas histórias. Além de tomar conta das netas, tenho o problema dos olhos e a saúde da minha outra metade que não tem andado bem.  Com várias consultas e exames este mês, e uma colonoscopia e endoscopia marcada para fins de Agosto, quando este capítulo for publicado já estaremos no Algarve a aproveitar os quinze dias de férias do filho, em que não teremos de cuidar das netas para recuperar e recarregar baterias.

Não tenho internet lá, a não ser no telemóvel, tudo o que sair até ao dia do meu regresso, (15 de Agosto) já está agendado.

 

31.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE X



No dia seguinte, encontraram-se no laboratório, fizeram o teste e separaram-se quase sem se falarem. O resultado demoraria uma semana, e ele não pensava voltar a vê-la antes disso.
Ricardo seguiu para a sua empresa um tanto atónito. Tivera ocasião de ver a criança enquanto esperava para fazer o teste, e sentira-se impressionado com os seus olhos cinzentos, o cabelo negro e a cor morena. Não se parecia nada com a mulher, fosse ela tia, como dizia, ou mãe, como a criança lhe chamava.  Ele continuava muito desconfiado em relação aquela história. No entanto para ser sincero, diria que a criança se parecia bem mais com ele, do que com ela. Apesar disso estava de consciência tranquila. Não que ele não tivesse as suas aventuras, Mas nunca se envolveria com uma ninfeta, por muito bonita que fosse. Ele gostava de mulheres mais velhas. E além disso, tinha uma regra de ouro, que nunca, em circunstância alguma, quebrava. Nunca fazia sexo sem preservativo, ainda que a mulher lhe jurasse que tomava a pílula ou tinha o DIU. Podia estar com uma mulher muito bonita, e muito excitado,  mas se não tivesse um preservativo com ele, arranjava qualquer pretexto, ia para casa e tomava um banho gelado. Depois do que Ivone lhe fizera, ficara vacinado. Relembrou aquela história, que condicionou todo o seu futuro e ainda hoje, lhe doía. 
Na altura em que a conheceu, tinha apenas vinte anos, era "um miúdo" com as hormonas em ebulição e nenhuma experiência de vida.  Ivone, era tão linda quanto pérfida. Era apenas três anos mais velha, mas sabia mais da arte de sedução que muitas mulheres aos quarenta. Resultado, dois meses depois ela comunicou-lhe que estava grávida, e ele ficou louco de felicidade e pediu-a em casamento. Na altura, ainda nem tinha terminado os estudos, não tinha emprego, nem sabia como ia sustentar uma família, mas estava completamente fascinado por ela, de tal modo que o seu pai, propôs-lhe fazer o casamento e assumir as despesas com a sua casa, em troca dele ir trabalhar para a oficina e terminar os estudos à noite.
Porém logo depois de casados, Ivone deixou cair a máscara. Queria sair quase todas as noites e clamava que ele nunca estava disponível para isso e que se sentia como ave numa gaiola. Uma noite ainda não tinham dois meses de casados chegou a casa e não a encontrou. Sem saber onde a procurar esperou o seu regresso. Ela chegou quase à uma da manhã. Veio acompanhada por um casal, mas ainda assim ele não gostou de que tivesse saído e tiveram a primeira discussão séria. Depois dessa vieram outras, a sua vida transformara-se num inferno que ele só suportava por causa do bebé.  Seis meses mais tarde, já nem estranhava quando chegava à casa depois das aulas e não a encontrava. E estava tão cansado, que raramente dava pela sua chegada. Com a desculpa de que a gravidez a incomodava e não lhe dava qualquer prazer a intimidade, ela fizera com que ele fosse dormir para o sofá da sala. E já quase não se viam. Ele levantava-se cedo para ir trabalhar, almoçava com o pai, e no fim do dia quando ia a casa tomar banho e mudar de roupa para ir para as aulas, ela já não estava em casa. Por vezes sentia tanta raiva que lhe apetecia partir tudo. Outras ficava completamente indiferente. Às vezes surgia-lhe a ideia peregrina, de que tudo aquilo eram humores de grávida e que a situação mudaria quando o bebé nascesse e ele terminasse o curso. Teriam mais tempo um para o outro e a chama voltaria a acender-se. Por essa altura o casamento já tinha acabado há muito, só a sua ingenuidade ainda lhe dava esperanças.
Até que numa noite, ao ir deitar-se encontrou no sofá uma carta de Ivone. Nela lhe informava que ia partir com o homem da sua vida, o pai do seu filho. Dizia-lhe que nunca o amara, mas estivera três meses sem notícias do namorado, que se tinha ausentado do país. Ela pensara que ele a tinha abandonado. Como estava grávida, precisava de um pai para o seu filho, e dada a sua ingenuidade, não tinha sido difícil convencê-lo que o filho era dele.



E aqui temos o primeiro bocadinho da minha recente visita ao Algarve.  Se estiverem interessados em saber o que andei a fazer, vão até lá

6.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE VI


João caiu no desespero. Nem ele próprio, se tinha dado conta, da intensidade do amor que tinha pela mulher. Mandou a sua assistente desmarcar todas as consultas, que tinha agendadas e fechou o consultório. Sentia vontade de largar tudo e desaparecer. E se não o fez, foi porque o sentido do dever para com os seus doentes, impunha-se mesmo ao seu desgosto. Não pediu o divórcio, se ela queria ser livre, que o pedisse. Durante meses, esperou todos os dias por isso, mas ela nunca o pediu, e ele também não. Como se adivinhasse o que se tinha passado, Inês que há algum tempo tinha regressado à cidade, divorciada, e já tinha tentado reatar a relação, sem qualquer sucesso, intensificou os seus esforços,  tentando cercá-lo numa teia de sedução, e recuperar o seu amor. Ele não lhe deu qualquer esperança. Para ele, ela morrera no dia em que descobrira a sua traição.
Durante quase um ano, sentiu-se no inferno, e só não caiu na depressão, graças à ajuda ao seu amigo Manuel, um excelente psicólogo, e a única pessoa a saber que a esposa o abandonara. Quando conseguiu enfim dominar o desgosto, reabriu o consultório, mas agora apenas duas vezes por semana. Os anos foram passando, e já lá iam quase quatro desde aquele dia em que Odete partira. João tinha agora, trinta e nove anos. Os cabelos apresentavam-se grisalhos e as rugas à volta dos olhos tinham-se acentuado. Profissionalmente tinha recuperado o prestígio de outrora. Mais. Era agora o diretor do hospital onde sempre trabalhara. No seu consultório, a sua assistente estava a marcar consultas, com três meses de espera. Ele não se importava. Quem tivesse urgência, procurasse outro cardiologista. Ele não voltaria a entrar naquela espiral de excesso de trabalho. Afinal para quê? Tinha mais dinheiro do que aquele que precisava para ter uma vida de qualidade. Não tinha filhos e já tinha perdido as esperanças de os vir a ter.  O facto de Odete não ter pedido o divórcio, criou no seu coração a secreta ilusão de que um dia ela voltaria.  E essa ilusão, dava-lhe forças para se manter vivo.
Abriu os olhos e endireitou-se. Pegou a garrafa de cerveja, e levou-a à boca. Bebeu um pouco e cuspiu de imediato para a garrafa. Estava quente e choca. Levantou-se e foi à cozinha, despejou a cerveja na lava loiça e pôs a vasilha no receptáculo da reciclagem. Introduziu uma cápsula na máquina e tirou um café. Precisava espantar o cansaço. Tinha que entrar em contacto com um colega espanhol por causa de uma técnica inovadora que ele usara no tratamento de um doente, e precisava estar bem desperto. Eram quase oito horas, a hora combinada para falaram. Foi ao quarto vestiu uma camisa, penteou os cabelos e dirigiu-se ao escritório onde abriu o computador.


4.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE III


O jovem médico, parecia não reparar nela e isso acicatou o desejo de o conquistar. Foi muito fácil para Inês, fazer com que João se apaixonasse por ela. O que ele estudava e conhecia nos corações, eram doenças, não sentimentos. Nunca tinha namorado, apenas saíra algumas vezes com colegas, mas apenas nesse plano de amizade. Inexperiente nas técnicas de sedução femininas, João apaixonou-se loucamente por ela. Inês era como uma criança que faz uma birra para obter um determinado brinquedo, e quando o consegue desinteressa-se e procura outro. E assim enquanto ele sonhava com o casamento, ela sem ter terminado o namoro com ele, iniciava um novo romance com um jovem da sua classe social,  filho de um rico empresário. Durante um tempo foi-se divertindo com os dois até que João descobriu e terminou tudo.
Para a sua mãe, foi uma alegria. Ela não gostara de Inês, quando a jovem lhe fora apresentada. Achara-a vaidosa, e pretensiosa, percebera o ar superior e o olhar de desprezo que ela lhe lançara.
“Não vale a pena sofreres por ela. Era um sapato demasiado fino para o teu pé, filho. Ia tentar fazer-te sentir que eras inferior a  ela  a vida inteira. Um dia destes encontras uma boa rapariga, capaz de te amar como mereces” – dissera-lhe a mãe.
Mas não é fácil para ninguém, por todo o seu amor, todos os seus sonhos de futuro numa pessoa, e ser atraiçoado daquela forma. Magoado, jurou a si mesmo que dali para a frente, relações com mulheres, só com aquelas que não tivessem nada mais em mente que uma boa diversão, um bocado bem passado na cama. Estudava que nem um doido, assistia a todos os congressos médicos, e tornava-se a cada dia um nome mais respeitado e admirado na cardiologia. Trabalhava no hospital, tinha um consultório particular, e recebia constantemente propostas para clinicas e hospitais privados. 
Foi nessa altura que conheceu Odete. Ela não se parecia em nada com Inês. Tinha vinte e dois anos, era morena, de cabelos castanhos-escuros e olhos castanhos-claros, quase da cor do mel.

4.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XVI







Bateu à porta e entrou de seguida
-Bom dia.
Cumprimentou-o com um gesto e continuou a ouvir o que lhe diziam pelo telefone.
Ele aproximou-se da janela e ficou contemplando a rua.
-Segunda-feira? Sim, está bem, mas por favor não esqueça. Preciso desse material com urgência. As condições são as habituais. Obrigado.
Ele voltou-se quando ela desligou o telefone.
- Tens o “stock” à beira da rotura?
- Não. Peço sempre atempadamente. Porém se lhes fizer crer que estou com urgência, não corro o risco de que me deixem para trás e surja algum problema.
Ela levantou-se
-Vou agora à fábrica ver como decorrem os trabalhos. Vens?
- Vou.
Caminharam lado a lado, verificando o andamento do trabalho. De súbito ele perguntou:
-Quem é ele?
-Quem? – Inquiriu ela julgando tratar-se de algum trabalhador.
- O tipo alto e louro que te falou no jantar de quarta-feira.
Ela parou. Espantada, primeiro. Irritada depois.
-Mandaste seguir-me?
- Jantava no restaurante quando o vosso grupo entrou. Vi que te perturbou. Quem é?
- O meu ex-marido.
Fizeram o resto do percurso em silêncio. Como se ambos estivessem ensimesmados nos mesmos pensamentos. De volta ao gabinete, Daniela, deu-lhe conta das novas encomendas que tinha recebido e dos prazos que programara para entrega.
- Foi há muito tempo? – Perguntou com voz rouca.
Ela pensou que não devia responder. Era a sua vida, não tinha que lhe dar satisfações. Mas em vez disso, ouviu-se a dizer:
-Há três anos.
- Bem me pareceu que o tipo é um cretino. Ainda o amas?
-Não. 
- Então porque te perturba?
Irritou-se.
-Nem sei porque te respondi. Não tens nada a ver com a minha vida. Porque não tomas atenção aos negócios, em vez de te estares a meter onde não és chamado?
- Se o fizer, jantas comigo esta noite? – Perguntou com um sorriso que a desarmou
- És mesmo doido! Vai-te embora e deixa-me trabalhar. Mas antes assina estes cheques, disse estendendo-lhe o livro, e três faturas.
Ele verificou as faturas, assinou os cheques e devolveu-lhos.
- Onde e a que horas te vou buscar? - Perguntou
- Não se pode negar que és persistente. O que queres? Adquirir as minhas ações, pela sedução?
- Não me dês ideias! – Respondeu com um sorriso. - Vá lá, é só um jantar de amigos.
-Está bem! – Escreveu a morada num papel, e estendeu-lho.- Às oito. E não faças com que me arrependa.
Sem deixar de olha-la, levou o papel ao peito num gesto simbólico, como se o fosse meter no coração, esboçou um sorriso travesso, e inclinando a cabeça, deu meia volta e saiu.