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23.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE IX


 

               


A doutora Sandra, a colega com quem fizera amizade, naquelas três semanas, não estava, mas a enfermeira apresentou-lhe o doutor João, que fazia parte da equipa e que era quem naquele dia estava de serviço. 
Ele informou-a, que do ponto de vista físico, o paciente estava curado, mas que continuava sem memória. 

A polícia já tinha sido informada da sua alta naquele dia, e ela teria que assinar um termo de responsabilidade, e deixar a morada, a fim de ser contactada se houvesse alguma evolução nas investigações. 

Ele também já fora visitado pelo psiquiatra, que pensava talvez pudesse ajudar através da hipnoterapia. Mas o doente resistira à hipnose, e o clínico não pudera por em prática a sua teoria, já que como é sabido, em caso de rejeição do subconsciente é impossível conseguir obter o estado hipnótico.

 Terminada a conversa, e assinado o documento, despediu-se do médico e dirigiu-se à sala onde o homem se encontrava.
Ele estava sentado na cadeira, junto da cama. Devia rondar o metro e noventa, era bem constituído, tinha o cabelo negro húmido, como alguém que acabara de tomar banho, a barba escanhoada, e vestia umas calças de ganga pretas, e uma suéter vermelha. 

Ela que só o vira de noite, deitado na estrada, em hora de aflição, e depois nas visitas sempre deitado, não se tinha apercebido da figura imponente do homem, que se levantou e esboçou um sorriso, quando a viu entrar.  
Sentiu que o seu coração disparava, enquanto a cabeça a avisava, de que se estava a meter, numa camisa-de-onze-varas, como costumava dizer a sua mãe.

-Boa tarde,- saudou estendendo-lhe a mão que ele apertou com calor. Pronto para a vida lá fora?
-Boa tarde, doutora. Disseram-me que tinha alta, e que a senhora me vinha buscar. Porquê? Estou tão mal que tenha que ser vigiado?- perguntou com ansiedade.
-De modo nenhum. Apenas faltam poucos dias para o Natal, e como sei que não se lembra de onde mora, pensei convidá-lo a passar o Natal connosco. Apenas isso, mas se não o deseja, vou-me já embora.
- Nada disso doutora. Não me leve a mal. Toda esta situação, é tão nova para mim.
- Então, vamos? Deixei o meu filho numa festinha de anos em casa duns vizinhos, e não me posso demorar. Pelo caminho podemos conversar.
Ele apanhou o casaco, das costas da cadeira, e disse enquanto o vestia.
-A doutora manda.




14.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIX






- Pode ser que seja a maior asneira da minha vida, mas vou confiar em ti, vou cancelar todas as investigações e tentar esquecer o erro cometido pelos médicos, durante o tempo que me pediste. Espero que me dês o teu contacto e me permitas telefonar de vez em quando para saber como estás e que me ligues imediatamente se surgir algum problema. Gostaria que mudasses de médico assistente, não confio nos médicos do Centro, quem erra uma vez pode errar duas. Mas compreendo que isso é uma decisão tua. Estamos no final de Junho, portanto no final de Setembro teremos que decidir o que vamos fazer no futuro em função do nosso filho.
 Disseste que escolheste este método por não estares interessada em nenhuma relação, pelo que suponho não tens namorado, ou amante com quem discutir este assunto, embora me pareça estranho que uma mulher bonita como tu não tenha ninguém na sua vida.
A Teresa pareceu-lhe ver nos seus olhos uma pergunta que não se atrevia a fazer.
- Como te disse, sou filha de mãe solteira, neta de avó divorciada. E quando se cresce com duas mulheres abandonadas, sofredoras e amarguradas, acabamos por nos afastar de toda e qualquer relação com o sexo oposto.
-Sendo assim creio que nos entenderemos. Até porque a minha  decisão está tomada.
 A criança será nosso filho e como pai quero fazer parte da vida dele, antes mesmo do seu nascimento. Isto é, acompanhar-te às consultas, assistir às ecografias, e ao parto. Podemos ser amigos e criar e educar o nosso filho em conjunto. Todavia se depois deste interregno, decidires que a criança é apenas teu filho e me negares o direito de fazer parte da sua vida, podes crer que irei buscar esse direito nos tribunais e que utilizarei todos os meios ao meu alcance para te aniquilar. De acordo?
-Parece-me justo, - disse ela abrindo a carteira e entregando-lhe um cartão. – Na verdade, ambos somos vítimas duma cilada, que a vida nos armou. Cabe-nos lutar para sair dela, com o mínimo de feridas possível. De seguida, levantou-se e ele fez o mesmo aproximando-se dela.
-Posso levar-te a casa? – perguntou
- Obrigado, mas tenho o carro estacionado no parque.
- Então acompanho-te até ele.
Abriu a porta, afastou-se para lhe dar passagem e seguiu-a dizendo ao passar pela secretária da sua assistente.
- Olga, vou lá abaixo acompanhar a senhora, já volto.
- Não era necessário acompanhar-me, - disse Teresa ao entrar no ascensor.
- Sei que não – respondeu, aproveitando o espelho do elevador para a mirar de alto a baixo. Era mais alta do que a maioria das mulheres, bonita e muito elegante. Além disso era inteligente e muito corajosa, ou não teria tomado a iniciativa de o procurar. Quando os seus olhos se encontraram através do espelho, Teresa corou e apressou-se a desviar o olhar, desejando sair rapidamente daquele curto espaço e da proximidade masculina.
Passaram pelo porteiro e pelo segurança e quando à porta ela lhe estendeu a mão para se despedirem, ele disse:
-Acompanho-te ao carro
Ela teria preferido despedir-se dele no escritório. Queria estar sozinha para relembrar a conversa e meditar sobre tudo o que nela disseram.
Pouco depois sim, despediam-se junto ao carro com um simples aperto de mão.
Teresa pôs o carro a trabalhar e arrancou. Ele ficou parado vendo-a afastar-se até que o carro saiu do parque e entrou na estrada. Só então regressou ao escritório.