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17.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XX

 



Tinham chegado ao restaurante. Fernando estacionou o carro no parque, saiu e dava a volta ao carro, todavia Laura saiu sem esperar que ele se aproximasse para lhe abrir a porta.

- Vamos entrar? - perguntou pegando-lhe no braço pelo cotovelo. Já estão todos à nossa espera.

Não era difícil saber porquê. Afinal ele tomara o caminho mais longo a fim de prolongar o tempo a sós com a jovem.

Durante o jantar, Aníbal, o pai de Laura; e Fernando fizeram as honras da conversa, enquanto a jovem se mantinha atenta ao jantar do pequeno Miguel e  Sara contava à sua avó o quanto tinha gostado de passar aquela semana com a prima e de como Matilde se sentia feliz por ter enfim o pai e a mãe juntos.

- Sabes, avó, eu tenho muitas saudades do meu pai, mas sei que ele foi para o céu, não voltará. Mas eu e a Matilde estivemos a conversar. Ela diz que o tio Fernando gosta da mãe, e que se eles se casassem, podíamos voltar a ser uma família completa.

- E tu não te importavas se a mãe casasse com o tio Fernando? - perguntou a avó

- Claro que não. Eu gosto muito dele. Mas parece que a mãe não.

- Não te preocupes. A tua mãe também gosta dele. Só que ainda se lembra do teu pai. E isso faz com que não se dê conta do que sente pelo tio Fernando.

- Sabes o que eu penso, avó? Os adultos são muito complicados. Não sei se algum dia  vou querer ser adulta.

Perante a risada da avó, todos os olhares se viraram para ela.

-A minha neta acaba de me dizer que não vai querer ser adulta, pois os adultos são muito complicados, - disse Teresa perante os olhares surpresos dos restantes.

 Naquele momento o empregado trouxe as sobremesas.

Pouco depois, pediam os cafés e a conta, entretanto Miguel já cabeceava os olhitos fechados, morto de sono. Laura levantou-se e pegou-lhe ao colo, mas logo Aníbal estendeu os braços e retirou o neto do colo da mãe, dizendo:

-Nós deitamos as crianças não te preocupes. É melhor que vás com o Fernando, amanhã é o teu primeiro dia de trabalho, podem ter alguma coisa a conversar sobre isso.

Laura não disse nada, embora no seu rosto fosse bem visível o quanto as palavras do pai a contrariavam, enquanto Fernando dizia sorrindo.

-Bom, então despedimo-nos aqui, para que vocês também se possam recolher e descansar.

Abraçou o casal com o mesmo carinho com que um filho o faria, deu um beijo no bebé adormecido, e depois baixou-se para ficar ao nível de Sara, e abraçou a menina dizendo:

- Até outro dia, princesa. Dorme bem. Prometo que levo a tua mãe para casa, sã e salva, daqui a pouquinho.

Esperou até que entraram no carro, e só então se dirigiu ao seu automóvel, seguido pela jovem. Não lhe tocou, pois sabia que ela reagiria mal, zangada como estava com os pais.

Ligou o motor mas em vez de pôr o carro a trabalhar, virou-se para ela e disse:

-Vamos, desabafa essa raiva que sentes. Embora não tenha tido culpa nenhuma na situação, eu aguento.

- Parece que sou um traste de quem eles se quem livrar, - disse ela magoada. E tu também tens culpa. Podias dizer que tinhas um compromisso inadiável, e eu teria ido com eles.

- Mas não tinha e não me agradam as mentiras. E tu sabes tão bem como eu, que eles te querem muito, que não lhes agrada a solidão em que vives e se estão sempre a tentar juntar-nos é porque me conhecem de toda a vida, sabem que nunca amei outra mulher que não fosses tu, e que serei um bom pai para os teus filhos. 

Sei que não te sou indiferente, senti o teu coração bater em uníssono com o meu, senti o teu corpo tremer nos meus braços, quando dançámos juntos no casamento do teu irmão e sinto-o sempre que te toco. Se assim não fosse já te tinha deixado em paz, como o fiz quando me mandaste embora, há quase dois anos.

Também sei que ainda não estás preparada para te entregares a um novo amor, mas eu sou paciente.  E quero que saibas que enquanto estiveres na clínica, podes estar descansada, que não terei nenhuma atitude diferente daquela que teria com qualquer outra assistente.

 Pôs o carro em movimento e dirigiu-se para a residência da jovem.

25.10.21

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE IV



Depois ele montou uma pequena oficina nas traseiras, e ela, voltou à costura. Como não tinham filhos, todos os anos faziam uma grande viagem. Passeavam sempre que podiam e lhes apetecia e os anos foram passando, mas se a idade, fez com que as labaredas da paixão, se fossem aos poucos transformando num fogo mais brando, eles estavam cada dia mais unidos, mais companheiros, mais cúmplices.

Mas tudo mudara há uns sete anos. Os primeiros sinais foram tão impercetíveis que quase nem se apercebeu. Uns momentos de ausência que ele até tomou por qualquer preocupação que a mulher tivesse com algum dos seus sobrinhos.
Luís lembrava-se de ouvir muitas vezes enquanto criança, a sua avó dizer; “a quem Deus não dá filhos,  dá o diabo sobrinhos” e os da mulher não eram lá grande coisa. Só apareciam a ver a tia, para pedirem dinheiro.

Depois, pequenas perdas de memória, primeiro raras, depois mais frequentes. A princípio nem o médico de família lhe ligou importância. Eram sintomas normais de envelhecimento. Afinal com a idade, toda a gente vai tendo essas pequenas perdas de memória, disse ele. E aconselhou-a, a passar a fazer uma lista das coisas para não se esquecer.

A determinada altura Alzira, tornou-se agressiva. Ele pensou que ela devia ter consciência de que algo de grave lhe estava a acontecer e estava revoltada. 
Perdeu a sua característica doçura, andava sempre irritada. E chorava com frequência, que ele bem via os seus olhos vermelhos. Uma fase que durou quase três anos. O médico receitou calmantes,  que ela não queria tomar, porque a deixavam meio a dormir o dia todo.

Depois, a agressividade foi trocada pela apatia.  Parecia que nada despertava o seu interesse. Progressivamente era como se aos poucos se fosse desligando do mundo que a rodeava.

E só nessa altura, o médico lhes passou uma credencial para um neurologista. Esperou algum tempo pela consulta no hospital, enquanto os sintomas se iam agravando.
Quando finalmente foi à consulta o diagnóstico não podia ter sido mais terrível para Luís, embora ele tivesse a noção de que Alzira, naquela altura, já não tinha discernimento para saber o que era ter Alzheimer.



12.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXX





Nunca a semana da Páscoa foi vivida de forma tão intensa por Helena e pela sua família. 

Matilde estava nas nuvens por finalmente conhecer o pai e por ele ser um homem tão bonito e simpático. "avó, sabes que conheci o meu pai? E que ele quer casar e viver connosco? Nunca mais me vou sentir inveja das minhas amigas porque elas têm pai e mãe e eu não. É verdade,"- disse ao ver a cara de surpresa da avó, a quem Helena ainda nada tinha contado, pois fora imediatamente ao quarto da filha quando chegara.

-Ainda não contaste aos avós? - perguntou Matilde olhando a progenitora.

- Não, filha. Acabei de chegar. Agora porque não te levantas e vais dar um passeio com os teus primos? Depois temos que ir ao posto médico para ver esse penso. Lembras--te do que o doutor Nuno disse? 

Deu um beijo na filha e saiu do quarto acompanhada pela mãe que parecia ter perdido a fala de tão surpreendida que estava. 

Pouco depois, já na cozinha, Helena punha a mãe a par de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, desde que Matilde tinha ido para o hospital e Gonçalo a vira até ao que ele lhe tinha contado no dia anterior.

- E agora, Helena? Decerto aceitaste o pedido de casamento do rapaz.

- Não. A mãe não compreende, ele não se lembra de mim, nem do que vivemos. Quer casar por uma noção de honra arreigada no seu espírito, relativamente à filha. Mas ele pode reconhecê-la, dar-lhe o seu nome e ser o pai dela sem que seja obrigado a um casamento sem amor. 

- Não entendo Lena. A Matilde viveu quase treze anos sem pai. E agora queres que ela viva essa alegria apenas pela metade, como se fosse filha dum casal divorciado?

-E que outra coisa posso fazer, mãe. Casar com um homem que me conheceu há dois dias, que nada sabe de quem sou, dos meus sonhos e desejos?

- Um homem que amaste ao ponto de te entregares a ele, e que terás continuado a amar estes anos todos apesar de pensares que ele era um cafageste. E não me venhas dizer que o esqueceste, porque se assim fosse terias casado há dez anos quando o Roberto Martins te pediu em casamento. 

O rapaz é jeitoso, tinha um bom emprego no banco, é filho de amigos nossos e até queria perfilhar a Matilde. Foram dois anos de muita insistência. E o que é que nos  dizias quando eu, a Rita e a Sofia te aconselhávamos a aceitares o  rapaz? Não serias capaz de aceitar um casamento sem amor. 

- E é por continuar a pensar assim que não posso aceitar este casamento, a mãe não entende? O que importa que eu continue a amá-lo se ele não me ama? Se para ele sou alguém que conheceu há oito dias?  A história de que alguém ama por dois é muito bonita para ser cantada, mas completamente irreal na vida.

- O que eu sei, é que vocês viveram uma intensa paixão e a tua filha é a maior prova disso.  Se a vida vos afastou na altura, talvez seja porque eram muito novos e talvez esse amor não tivesse futuro com ambos sem saberem bem o que queriam. 

E se o destino vos juntou de novo agora, por alguma razão foi. De resto, tu estás solteira, ele também, ambos já passaram a casa dos trinta, e o tempo não para. Se ele quer casar, casa-te e dá à tua filha a família com que sempre sonhou. É o que qualquer mãe faria.

-Talvez seja. Mas para além de ser mãe, eu sou mulher. E depois do que vivi naquele mês, não posso contentar-me com um casamento por dever.

- Às vezes penso que a minha neta encara a vida com muito mais realismo do que tu. Não sei a quem é que tu sais, nem eu nem o teu pai tivemos algum dia a cabeça cheia de sonhos como tu. E sabes que sempre fomos felizes juntos. Quantas vezes pensas que teu pai me disse que me ama? Cem, duzentas?

 Pois fica sabendo que mo disse uma única vez, antes de casarmos. E eu preciso que ele mo diga? Para quê se eu vejo o amor que me tem cada vez que me olha? E se em tudo o que faz, está patente esse amor? Eu sei que ele me ama de corpo e alma, e ele sabe que é retribuído da mesma forma.

Sabes que mais? Vai ver onde andam as crianças, o almoço está quase pronto, o teu pai não tarda está aí.  E pensa bem no que fazes, para não te arrependeres depois.     



5.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XIII

A avó viu-a entrar. Leu-lhe o desespero no olhar. Uma sombra de tristeza, perpassou-lhe pelos olhos cansados. Conhecia aquele filme. Tinha-o visto dez anos antes. E dessa vez ficou cinco anos sem ver a neta. Se a história se repetia, tinha a certeza de que nunca mais a veria. Esperou um pouco e foi ter com ela ao quarto. Ouviu o choro da jovem. Abriu a porta, e sentando-se na cama, perguntou:

- Que aconteceu, Isabel? Há uma hora atrás, parecia que estava tudo bem.
- Ele lembrou-se de mim, avó.
- Lembrou-se? Como assim?
-Disse que se esqueceu de perguntar-te pela tua neta, que sempre estava por cá nesta altura.
- E isso que tem, Isabel? Eram tão amigos, é natural que se lembre. Filha se não te explicas, não consigo perceber, porque é que isso te faz chorar. Afinal a minha neta, és tu.

- É que ele disse que a amava como uma irmã. Como uma irmã, avó. Entendes? Foi assim que ele me viu há dez anos, foi assim que sempre me amou. Em contrapartida, eu sempre o amei como homem. Desde os doze  anos, antes mesmo de saber que era  amor, aquilo que sentia. Não me consigo imaginar com mais ninguém. E não penses que nestes dez anos, não tentei. Eu pensei que se fosse trabalhar com ele, sem ele saber quem eu era, podia fazer com que se apaixonasse por mim. Todavia ou sou a sua secretária, ou a amiga, com quem gosta de conversar. Nunca mostrou qualquer interesse pela mulher que sou. Acreditas que nunca me tocou?

-Nunca te tocou, como?
- Tu sabes que os invisuais sentem as coisas com a ponta dos dedos. Ele nunca me pediu para tocar o meu rosto. Porquê? Porque na verdade, não lhe interessa se sou bonita ou feia, se tenho a pele lisa, ou cheia de rugas.

-Ele não acabou, já o livro? Então o que tens a fazer, é deixá-lo e seguires com a tua vida. Ainda que agora te pareça impossível, um dia acabarás por esquecê-lo. O tempo é um excelente remédio. Não queiras transformar-te numa heroína da Idade Média. Hoje em dia já ninguém morre por amor. Vamos lá, levanta dessa cama vai lavar a cara e vem ajudar-me com o jantar.

Levantou-se e dirigiu-se para a porta. Embora sentindo-se impotente perante o sofrimento da neta, tinha que ser firme. Gostava do jovem. Conheceu-o de garoto, viu-o crescer e fazer-se homem. Depois os pais morreram, ele ficou sozinho, e de vez em quando, visitavam-se. Confiava tanto nele, que nem se preocupou com a admiração que a neta tinha por ele, nem com os constantes passeios dos dois. Sabia que ele nunca lhe faria mal, nunca lhe passou pela cabeça que o perigo para a neta, viria dos seus próprios sentimentos. Nem mesmo quando mais tarde suspeitou disso, sempre pensou que era uma paixoneta de garota que logo esqueceria. Agora estava assustada com a força daquele sentimento.

3.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XII

Um mês depois, tinha-se estabelecido uma grande amizade entre os dois. O livro estava quase pronto, e era frequente vê-los, passeando, ora até à praia, ora aventurando-se pelos caminhos da serra. 

Para Isabel era como se tivesse voltado dez anos atrás, quando inseparáveis percorriam aqueles mesmos caminhos, em longas conversas.
Raro era o dia, que a avó não lhe chamava a atenção, preocupada que estava com a sua felicidade. Ela, fazia ouvidos de mercador, empenhada em desfrutar ao máximo da companhia dele. 

Tinha pedido férias sem vencimento, no escritório, e pensava todos os dias, que tinha que procurar um espaço para montar o seu escritório, mas arranjava sempre uma desculpa para adiar essa resolução.
Uma tarde, depois de terem estado durante uma hora a rever o último capítulo, ela lendo o que estava escrito, ele corrigindo frases, mudando palavras, deram enfim o livro por terminado.
No dia seguinte sairia para a editora.

Então, ele disse-lhe que ia visitar a idosa, da casa ao lado, e pediu-lhe para o acompanhar. Isabel ficou aflita, não podia avisar a avó, e receava que ela a pudesse denunciar.

Ele cumprimentou carinhosamente a senhora, que o levou para a sala, onde conversaram sobre a sua ausência, e o que tinha feito da vida durante a sua ausência.
Depois a avó disse que ia fazer um chá, e Isabel ofereceu-se para a ajudar, a fim de recomendar à avó, que não a desmascarasse.

A visita foi muito agradável, e acabou por se prolongar. Na volta, ele rompeu o silêncio para dizer.
-É uma senhora muito agradável. Tanto que me esqueci de lhe perguntar pela neta. Antigamente ela estava sempre cá, de férias, nesta altura do ano.

Isabel estremeceu. Ele lembrava-se dela. Com voz tremente, perguntou:
-Eram amigos?
- Amigos? Não. Era muito mais do que uma amiga. Era uma irmã.

Ela deu graças a Deus por ele não a poder ver. Uma irmã. Foi assim que ele sempre a viu. Por isso ficou tão zangado naquele dia. Com raiva, limpou as lágrimas que iam deixando um rasto molhado no rosto pálido. Percorreram em silêncio, o resto do caminho. Depois ele recolheu-se ao quarto, enquanto ela morta de dor, arrumou a secretária, pegou na mala e foi para casa. Ficaria muito surpreendida, se tivesse visto o sorriso enigmático do homem, quando meia hora depois regressou ao escritório.

11.1.21

SONHO AO LUAR -- PARTE II

 




Passou os meses seguintes a sonhar com as férias junto da avó, para voltar a vê-lo. E apesar da diferença de idades, e de ele ter menos tempo por estar empregado, todo o tempo livre que tinha, passava-o com ela.

No ano em que fez quinze anos, não o viu, pois nesse ano, ele tinha viajado, com os pais, e as férias foram uma desilusão para ela. E mais um ano se passou, e de novo, chegaram as férias e desta vez ele estava lá. 
Triste, meio deprimido, com a recente morte dos pais num acidente de automóvel, apoiou-se na amizade e alegria de Isabel, e os dois estiveram mais unidos que nunca, ao ponto de na aldeia se dizer, que um, era a sombra do outro.

Isabel tinha acabado de fazer dezasseis  anos, tinha crescido muito, media  mais de um metro e setenta,  mas contrariamente a outras jovens que nessa idade já têm formas bem femininas, ela era demasiado magra, as suas ancas ainda não se tinham arredondado, os seios eram como dois  botões de rosa por desabrochar. Mas naquele peito quase liso,  batia um coração de mulher, que ansiava, por beijos e afagos do homem que amava. 

Sem qualquer suspeita, do que ela sentia, ele via-a apenas como aquilo que era, uma menina. E como tal a tratava. Continuavam a ser amigos inseparáveis, ria-se com as coisas que ela dizia, por vezes zangava-se e repreendia-a, enfim tratava-a como trataria uma irmã mais nova, se não fosse filho único.

Até à véspera da sua partida, altura em que ela tomara uma atitude, da qual ainda hoje se envergonhava.

Confessara-lhe que o amava, e pedira-lhe com todas as letras que fizesse amor com ela, enquanto despia a blusa, mostrando-lhe os seios pequenos e túrgidos, como pequenos frutos, mal despontando da flor.
Inicialmente, ele ficara espantado. Depois começara a barafustar, apertou-lhe o braço com violência, obrigou-a a vestir a blusa, disse-lhe que nunca mais a queria ver, virou-lhe as costas e afastou-se.

Ela chegou a casa da avó com os olhos vermelhos e o coração dilacerado. Felizmente a avó parecera não dar por nada, e no dia seguinte ela regressou a casa dos pais. Durante cinco anos manteve-se afastada da casa da avó, com a desculpa do muito que precisava estudar durante as férias para entrar cedo na faculdade.

Quando se sentiu com forças para voltar, era já uma mulher muito diferente. Tinha vinte e um anos e o seu corpo tal como um botão de rosa que desabrocha numa flor espetacular, tinha-a transformado numa bela mulher. Mas Hélder não estava por lá, como não estivera nos outros cinco anos que se seguiram.

8.1.21

SONHO AO LUAR -- PARTE I

"Sonho ao luar" foi a escolhida pela maioria dos leitores que votaram  

7  votos em 12 comentários. Curiosamente apenas um dos cavalheiros votou nesta. E apenas uma senhora não votou nela

SERÁ QUE OS HOMENS SÃO MENOS DADOS A SONHOS, DO QUE AS MULHERES?

A praia estava completamente deserta, naquele fim de tarde. Descalça pela borda de água, deixando que as pequenas ondas de espuma branca, lhe viessem beijar os pés, a mulher caminhava de olhos fitos no horizonte, onde o sol mergulhava no mar, despedindo-se com uma explosão de cores. Isabel parou por momentos, extasiando-se com tanta beleza, e depois deu a volta, e dirigiu-se para as dunas, que davam acesso à estrada onde deixara o carro. 

Quase a alcançá-las, sobressaltou-se ao ver um homem  junto ao local por onde iria passar. Pensou desviar-se, mas isso seria dar ao homem, a ideia de que estava com medo, e não o impediria de a alcançar, se fosse essa a sua intenção, pelo que decidiu ir em frente. 

De súbito, empalideceu ao reconhecer o homem que tinha acabado de se sentar na areia e acariciava a cabeça de um cão.
Apesar do dia começar a escurecer e dos óculos escuros que ele usava, reconheceu-o imediatamente.

Parou quase a seu lado e saudou com voz trémula.
-Olá.

Ele soltou uma espécie de grunhido, sem mover o rosto um milímetro sequer.

“Malcriado”- pensou a jovem afastando-se em direção ao local onde deixara o carro.
Hélder Figueiredo, estava de volta a casa depois de dez anos de ausência? Porquê?  E porque não a cumprimentara? Não a reconhecera? Também não era para admirar, há dez anos atrás ela era uma miúda de dezasseis anos, demasiado alta, demasiado magra e demasiado apaixonada, pelo belo vizinho da sua avó, em casa de quem ela estava de férias.

Recordou mais uma vez, o pesadelo que a acompanhava desde então.
Tudo começou quando tinha doze anos. Foi nessa data que conhecera Hélder. Dez anos, mais velho que ela, ele era um homem jovem, tinha acabado de sair da tropa, e preparava-se para entrar no mercado de trabalho. E era muito bonito. Era vizinho da sua avó, e foi muito simpático com ela. Provavelmente achava graça às saídas da miúda, e talvez por isso, tornaram-se inseparáveis. Passearam juntos, tomaram banho na praia, ele emprestou-lhe livros e incutiu-lhe o gosto pela leitura. 

Quando as férias acabaram, e voltou para a casa paterna, fartou-se de chorar. No seu coraçãozinho de menina, tinha nascido um novo sentimento que ela nem sequer sabia como classificar.

13.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE V



Na manhã seguinte, acordou já o sol ia alto no horizonte. Depois do duche, Teresa fez o primeiro teste e o resultado foi positivo. 
Não saltou de alegria, nem correu a telefonar a Inês a dar a notícia. Ficou quieta sentindo o coração bater apressado no peito e um nó na garganta.
Depois de uns minutos, tentando acalmar-se, repetiu o teste e ao ver o resultado, caiu sobre a cama e chorou de alegria. Mais calma, lavou o rosto com água fria, vestiu-se e entrou no quarto que fora da avó, ajoelhou junto do velho oratório e agradeceu à Virgem. Só depois, telefonou a Inês, a sua irmã do coração para lhe dar a notícia.
Inicialmente a amiga, tentara demovê-la daquela ideia. Ela não compreendia porque uma mulher jovem e bonita, não se interessara por nenhum dos homens, que ela e o marido, lhe tinham apresentado. Um dia, com a franqueza que lhe era habitual, perguntara-lhe se  ela  se sentia atraída por mulheres. Teresa rira-se. “Nem por mulheres, nem por homens” respondera-lhe. 
E era verdade. Sentia-se bem sozinha, nunca sentira o desejo de partilhar a sua vida com outro adulto, mas queria muito ser mãe, e tencionava sê-lo em breve pois estava prestes a fazer trinta anos e não queria correr riscos desnecessários por causa da idade.
“E que pensas fazer? Adotar uma criança?” – perguntara Inês?
“Não. Quero ter um filho meu. quero sentir todas as emoções de uma gravidez e parto. Quero sentir a alegria de saber que o meu corpo não é estéril, que um pequeno ser se está desenvolvendo dentro dele. E amá-lo muito antes de poder tê-lo nos meus braços.
- E como pensas engravidar, se não queres saber dos homens? - perguntou Inês
-Recorri a um banco de esperma e estou a cumprir tudo o que me exigiram para a Inseminação”
“Mas isso é uma loucura”, - dissera a amiga
-Loucura ou não, estou decidida e o processo já está em marcha. E não tentes demover-me, porque não te darei ouvidos.
Inês não tentou demovê-la, mas os seus pais, sim. Todavia os seus argumentos esbateram-se contra a firme decisão dela e eles acabaram por aceitar.
- Estou muito feliz por ti, – dizia-lhe Inês ao telefone. Voltas hoje?
- Volto. Sabes que não gosto de me afastar muito tempo da pastelaria.  Apesar de saber que o teu pai cuida dela como se fosse sua, não gosto de abusar da sua confiança, nem das suas forças, começa de madrugada e fica o dia todo quando não estou. Porque queres saber?
-Podias vir cá jantar. Para comemorar.
- Não! Nada de comemorações.  Vou contar ao teu pai, mas vou pedir-lhe que não faça nenhum comentário. Não quero que além de vós, alguém mais saiba antes de terminar o primeiro trimestre.
-Ok. Mas posso contar ao Gustavo?
-Como se eu não soubesse que não tens segredos para ele. Bom, vou-me despachar que quero ir cedo. Telefono-te quando chegar. Até logo.
- Boa viagem. Tem cuidado contigo.
Teresa, preparou o pequeno almoço, comeu, e depois dedicou-se a arrumar a casa, pois pensava que tão cedo não voltaria à aldeia. Talvez depois do bebé nascer ou pelo batizado. Gostaria de batizar o filho na pequena igreja onde ela o fora. Embora tivesse a certeza que o facto de ir ser mãe solteira, ia originar um falatório que duraria meses.
Pelas onze e meia, fechou a porta, entregou uma chave à vizinha, com o mesmo pedido de sempre, entrou no carro e fez-se à estrada. Almoçaria pelo caminho.

                          

6.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE II


- Bom dia! É verdade, embora só por dois dias, vim arejar a casa. E o ti’ Joaquim, já a apanhar as cebolas?
-Tem que ser. É uma pena teres esse terreno aí abandonado. Sabes o que devias fazer? Arranjar um marido, e voltares de vez. Tenho a certeza de que tanto a tua mãe como a tua avó, lá onde se encontram, ficariam muito mais descansadas se te vissem aqui a cuidar daquilo que tanto lhes custou a ganhar.
-Eu gosto disto, mas não sei se me habituaria a viver aqui de forma permanente. Habituei-me a viver na cidade, é lá que tenho a minha vida. Talvez um dia venda o terreno e fique apenas com a casa para passar uns dias quando me sentir mais cansada.
- De certa forma compreendo-vos. A aldeia não evoluiu, e o ser humano nunca está satisfeito com o que tem, então os nossos filhos partiram para a cidade em busca de melhor vida, e os filhos deles, que sempre tiveram muito mais do que os seus pais e avós, emigraram para o estrangeiro, porque a vida na cidade já não lhes chegava. E um dia vão dar-se conta de que lá, também é pouco para eles. E trabalham toda a vida cada vez mais, e nunca estão felizes, porque não sabem que a felicidade está dentro de nós e não nas coisas que nos rodeiam.
- O Ti’ Joaquim é um filósofo – disse Teresa sorrindo.
- Já pareces o meu neto, com essa conversa.
- O Alberto? Não o vejo há mais de cinco anos. O que é feito dele?
- Acabou o curso, casou com uma colega e estão os dois a trabalhar num hospital no Porto. É o único que ficou cá e que vou vendo de vez em quando; os mais velhos foram para a Austrália, nunca mais os vou ver.
- Não perca a esperança, qualquer dia vêm de férias.
- Não. A Austrália, fica muito longe, as viagens saem demasiado caras. Depois partiram sós, lá arranjaram companheira, fizeram os seus ninhos, já têm filhos. Essa, é agora a família deles e aquele o seu país. Do resto não reza a história. Bom tenho que ir levar as cebolas à mulher que daqui a pouco ela pensa que me perdi. Gostei de ver-te. Se pensares em vender o terreno fala comigo. O meu cunhado que está na França está a pensar voltar. Quer comprar um terreno aqui, para construir uma casa, mas ninguém quer vender.
-Fique descansado se pensar em vender, vou ter consigo, - disse a jovem e acrescentou em voz baixa quando o homem virou costas. - Se calhar mais depressa do que aquilo que pensa.
Pouco depois levantou-se e empreendeu o caminho do regresso a casa. Teresa era uma mulher morena, alta e esguia, de cabelos e olhos castanhos.
Na aldeia, conhecia toda a gente, e todos a conheciam já que ali nascera, na casa da avó Rosário, onde também nascera Ana, a sua mãe, vinte e cinco anos antes dela. Teresa, não acreditava no amor, nem nos homens. O seu avô largara a sua avó grávida de cinco meses para se juntar com outra mulher. O seu pai, bom esse, nem sequer chegara a casar com a sua mãe. Quando soube que a tinha engravidado, simplesmente desaparecera.
Desde bem pequenina, Teresa habitou-se a ouvir a mãe e a avó dizerem que os homens não prestavam, não consideravam as mulheres como suas iguais. Serviam-se delas quando delas podiam tirar algum proveito e descartavam-nas quando já não lhes eram úteis. De modo que bem cedo, jurou a si mesma, que nunca ia querer saber de homem algum e assim se manteve até à atualidade.



Gente, alguém me explica uma coisa? O primeiro capitulo desta história na Sexta-feira teve 19 comentários e 14 visualizações. É possível alguém comentar sem ver?

4.1.20

QUANDO OS ALCATRUZES DESCEM AO FUNDO DO POÇO



A minha avó costumava dizer que a vida era como uma nora com os seus alcatruzes. Ora estava cá em cima ora lá no fundo. E que a sabedoria estava em festejar quando se estava nos píncaros e aceitar com alegria quando se estava no fundo porque a partir dali era sempre a subir.
O  alcatruz da minha vida, desceu o ano passado até ao fundo, com o meu problema nos olhos e as três cirurgias que tive de fazer, a tendinite no ombro direito que me impediu de mexer o braço durante algum tempo, os AVC, do meu cunhado em Maio e do meu marido em Julho, a queda da minha sobrinha, que sofre de Esclerose Múltipla e fraturou bacia e colo do fémur, o que a obrigou a internamento e cirurgia, e a morte de quatro amigos que me eram muito queridos. Um ano de muito sofrimento,  que levou os alcatruzes da minha vida até ao fundo do poço. Mas tal como dizia a minha avó eles começaram a subir,  depois do meio do ano. A cirurgia da minha sobrinha correu bem e ela já recuperou a pouca mobilidade que tinha anteriormente, o meu marido, recuperou muito bem, apenas com um mês de internamento, tivemos a alegria do nascimento de mais uma neta; e o meu cunhado também está a recuperar embora esteja longe de conseguir fazer uma vida normal, sem ajuda. Espero e desejo que o transplante de córnea me dê alguma visão no olho esquerdo, até porque tem dias que quase não consigo ler, escrever, ou estar  no pc, porque o olho direito põe-se vermelho, começa a chorar e a arder e só estou bem com os olhos fechados.
Essa é também a razão porque eu não comento como merecem os vossos artigos.
Termino agradecendo a compreensão e apoio que me dedicaram ao longo de todo o ano.
Que Deus vos abençoe.

    

21.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXIX


Iam passar o Natal em casa de Tiago e Luísa. Teresa apresentara-os dois dias antes, quando foram buscar Martim. Claro que Rui conhecia perfeitamente Luísa, uma vez que era a sua secretária, o que não sabia é que ela e o marido, eram os padrinhos do seu filho, e que fora o casal que acolhera Teresa durante toda a gravidez, e nos primeiros anos de vida do seu filho, para que ela pudesse continuar a estudar. Tinham-na amado e protegido como se fosse uma irmã mais nova.
Emocionado, ele agradeceu-lhes, e ofereceu os seus préstimos para tudo o que o casal precisasse. E terminou dizendo:
-Só não vos ofereço a minha amizade, porque não sei se a amizade de um traste como eu, vos interessa.
A resposta foi um forte abraço de Tiago e o convite do casal, para fazer parte da sua ceia de Natal, já que Teresa e o filho, costumavam passá-la com eles todos os anos. Aceitou, com o coração cheio de gratidão.
Depois jantaram em casa de Teresa, com Martim a falar pelos cotovelos, e a fazer inúmeras perguntas ao pai. E ele emocionado, abraçando-o e brincando com ele. Quando foi para a cama, Martim fez questão de ser o pai a ir com ele, e a contar-lhe uma história.
 Para a noite ser perfeita, faltou pernoitar lá em casa, mas compreendia que Teresa precisasse de algum tempo para assimilar a nova vida. Percebeu que se queria reconquistá-la, não podia nem devia forçá-la.
No dia seguinte, foram os três às compras. Presentes de Natal, e não só. Para eles e para Luísa, o marido e o filho. Depois foram para casa de Rui. Tê e o filho conheceram então a grande e luxuosa casa. Na sala de entrada, Rui pegou o filho ao colo e mostrou-lhe o retrato da mulher, que dominava o espaço, dizendo:
- Martim, esta era a tua avó. Uma grande mulher.
A criança olhava tudo com espanto. E com a curiosidade própria da idade, queria ver tudo. Na sala, em cima da mesinha estava o saco preto com os desenhos cinzentos, que guardava os ténis. Rui perguntou:
- Achas que servem ao Martim? Gostaria que ele os usasse se lhe servirem. Se ele os usar, é como se finalmente, eu os pudesse calçar.
- Sim. São muito bonitos, e ele nunca teve nada parecido. Vamos ver se lhe servem.
Serviam. A criança ficou encantada, e não parava quieta, só para ver as luzinhas nos ténis. Rui sorria feliz. Depois, pegando na mão de Teresa, perguntou.
-Gostas da casa? Se gostares, podemos ficar a morar aqui. Claro que poderás mudar a decoração, certamente haverá coisas de que não gostes. E quero que saibas que nunca trouxe nenhuma outra mulher a esta casa, - acrescentou fitando-a muito sério.
- Eu sei. Soube-o quando apresentaste a tua mãe ao Martim. Gosto da casa. Deveríamos mudar os sofás, ou forrá-los de novo. O branco é incompatível com crianças. Também não gosto dos reposteiros, são demasiado pesados. O resto está perfeito. Ah! E temos que fazer umas alterações num dos quartos. Decorá-lo mais de acordo com a idade do Martim.


18.12.18

O NATAL EM QUE PERDI A INOCÊNCIA



Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa.
Meus pais, e meus avós maternos, diziam que na noite de Natal, o Menino Jesus, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes. 
Nós vivíamos num barracão de madeira que em tempos fora habitado por quatro casais e respetivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão tinha um salão com onze metros de comprimento, ao fundo do qual havia um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos, com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão.
 Pelo Natal em alguns anos, vinham meus avós maternos, que viviam em Santa Cruz da Trapa, uma aldeia beirã, no concelho de S. Pedro do Sul, afim de passarem o Natal com os filhos, noras, genros e netos. Juntavam-se todos lá no barracão por ser o único sítio onde cabia toda a gente.
Por essa altura já o meu tio, Zé Varandas, e a minha mãe  tinham três filhos cada. 
Era uma ceia de muita gente, de muita alegria, embora as iguarias fossem poucas. Meus avós sempre traziam um pouco de queijo, coisa que não víamos no resto do ano,  minha mãe fazia rabanadas, e minha tia Celeste as filhoses. As couves e as batatas, eram do quintal que meu pai cultivava à roda da casa, e o bacalhau era comprado na Seca que naquela altura sempre era vendido aos trabalhadores, por um preço especial. Alguns anos, a tia Carolina fazia uma travessa de aletria, que tinha de ser muito bem dividida, para que todos pudessem provar. 
 Não havia rádio, nem televisão, nem sequer luz eléctrica. Mas havia em casa três candeeiros a petróleo, que na noite de Natal ficavam acesos até depois da meia-noite. 
Muito antes do Natal, meu pai colhia no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que secava, abria e debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos, nessa noite em que toda a gente ia para a cama muito tarde. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa, Tira, Põe e Deixa. Ou então jogávamos ao "Pinhas Alhas" que era assim. Sentávamos-nos à roda da mesa e cada um tinha um pequeno monte de cinquenta pinhões, não descascados, para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros  "Pinhas alhas" e os outros respondiam "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E cada um dizia um número. Se alguém acertasse  na quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões. Mas em compensação recebíamos aquela mesma quantidade de cada um que errara. nas mãos. Era o nosso entretém.
Pelas onze horas, tios e primos regressavam às suas casas, e meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama. Antes porém, íamos pôr os tamancos de madeira, que ele mesmo fazia, e que eram o nosso calçado, junto ao fogão, para o Menino Jesus deixar os presentes.
Sapatos só tínhamos um par, e era para a ida à missa, ou ao médico. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança, de que nesse ano, o Menino Jesus, deixasse uns brinquedos, iguais ou parecidos, aos dos filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos.
Não sei se foi assim convosco, mas eu nunca ouvi falar no Pai Natal, senão no final dos anos sessenta, em Lourenço Marques, atual Maputo. Talvez pela proximidade com a África do Sul, lá se cultivava muito o mito do Pai Natal. Por cá, na minha infância era o Menino Jesus, que em vez de receber prendas no seu aniversário,vinha distribuí-las pelos meninos, que se portaram bem durante o ano. Porém todos os anos no dia de Natal, era sempre uma desilusão, pois em vez dos brinquedos esperados, ou até de uma peça de roupa, mais bonita, só havia meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, talvez por volta dos meus seis anos, uma vez, que ainda não andava na escola, e naquela época entravamos aos sete anos, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus, para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada e a nós que éramos tão pobres, que não tínhamos sequer um boneco, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada durante um bom bocado e a certa altura ouvi barulho e saltei da cama, para me confrontar com o Menino Jesus. 
Quando somos crianças, temos tanto de inocência como de atrevimento, de modo que saí decidida do quarto, e  apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus não queria saber de nós, porque éramos pobres e não tínhamos uma casa de pedra. Chorei tanto, que a  minha avó que para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus, não vinha dar prendas a ninguém, que era uma tradição dizerem isso, porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade, as prendas, eram dadas pelos pais e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.

Elvira Carvalho


Nota: Um resumo deste conto foi publicado agora numa coletânea de contos de Natal da Chiado Editora.  Como não pude ir ao lançamento, ainda não tenho o livro, quando tiver publico a foto.
Teve que ser resumido pois eles limitavam os contos a 500 palavras.

6.12.18

O NATAL DA NATALINA




Estamos em dezembro.
Dezembro é o nome do último mês do ano. Os outros meses chamam-se: janeiro   fevereiro março abril maio junho julho agosto setembro outubro novembro.
Ei! Tantos! Quase fiquei cansada. E escrevi-os de seguida, sem me enganar.
Parecem soldadinhos, em fila, todos direitos.
Na minha casa, o mês mais importante é dezembro porque foi quando eu nasci. E como era o tempo do Natal, a minha avó quis que eu me chamasse Natalina. Assim festejamos duas coisas importantes: os meus anos e os do Menino Jesus.
Fazer anos é bom: fica-se mais alto e recebem-se muitas prendas.
O ano passado deram-me uma camisola, seis livros, uma caixa de lápis, grande, um baton e um verniz para as unhas, a fingir, para quando brinco às senhoras crescidas. O vizinho Manuel, da frutaria, deu-me uma laranja. Foi a prenda de que mais gostei. Era tão grande que parecia o sol. Eu nunca tinha visto uma laranja assim: a casca lisa, muito brilhante. Quando já ia descascá-la pareceu-me que alguém me chamava. Olhei na direção do presépio, pois a voz era dali que vinha.
Deitado nas palhinhas, de braços abertos, o Menino Jesus lá estava, com aquela tão poucochinha roupa que fazia frio só de olhar. E esta, hein!, pensei eu de repente, como se me tivessem dado uma pancada dentro do peito. Festas daqui, prendas dali, embrulhos, laços, Natal nas montras, Natal na televisão, Natal, Natal nas pressas de toda a gente e não é que também na minha casa ainda ninguém se lembrou que, além de mim, Natalina, este Jesus, nu, descalço, deitado em palhinhas duras também fez anos e, como todas as crianças, há de gostar duma prenda?!…
Olhei a laranja.
Peguei nela e, devagar, fui colocá-la nas suas mãozitas abertas que pareciam mesmo estar à espera de um sinal de amor.
De repente, que veem os meus olhos?
A laranja começa a encher-se de luz. Tanta luz. Parecia uma laranja de vidro. E na luz e claridade dessa bola mágica, viam-se os rios e os mares; as terras de África e as terras da América; os meninos negros e os meninos índios; os meninos de Moçambique a dizerem “tá-tá” como quem diz adeus e os meninos de Timor a rezarem em português. Também se viam as grandes neves e os grandes desertos e as estrelas a deslocarem-se depressa num céu de muitas cores como nos filmes de ficção científica.
Eu nem queria acreditar no que me estava a acontecer e o meu coração parecia um passarinho com susto.
Quando aquele filme acabou olhei muito séria para Jesus. E Ele sorria. Sorria-me.
O sorriso dele era mais morno que o sol, mais fofinho que a camisola nova.
E foi assim, com este segredo de sumo e luz que eu, Natalina, vi coisas de conto de fadas e ganhei um amigo para sempre.
Depois desse dia, Dezembro ainda ficou mais importante.
E só por causa duma laranja.






Maria Rosa Colaço
In: Boletim Cultural
Fundação Calouste Gulbenkian
VII série, dezembro 1991


11.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVII

Não abriu a porta. Bateu com os nós dos dedos.
-Entre
Entrou e fechou a porta atrás de si, ficando na expectativa.
Afonso deu a volta à secretária e dirigiu-se para ela.
-Senta-te. – Disse indicando-lhe o sofá. Esperou que ela se sentasse e fez o mesmo. Continuou.
-Deves estar cansada, não é fácil cuidar de quatro crianças tão pequenas. Podias ter aceitado a ajuda da minha irmã.
-A Graça vai embora depois de amanhã. Tenho que me habituar. E depois tenho a ajuda de Simão, – respondeu.
-Reparei que ele não é como o irmão. Parece triste.
-Sempre foi uma criança mais comedida nos sentimentos. E soube há poucos dias, que o pai morreu. Tinha-lhes dito que andava em viagem, mas ele ouviu uma conversa da avó com uma vizinha e questionou-me.  Tive que lhe contar a verdade. É muito responsável e acredita que tem de cuidar de mim e do irmão.
- E eu? Sou um intruso que odeia?
-De modo algum. Mas não esperes que seja tão espontâneo como o irmão. Ele é cauteloso. Tem de sentir que o chão onde põe os pés, é firme. Mas se percebe que assim é e se entrega, é um menino amoroso.
- Bom, sendo assim espero ganhar a sua confiança em breve. A Ana e a Marta, aceitaram-te como se estivesses com elas desde que nasceram.
- É natural, eram tão pequenas quando a mãe morreu que nem devem recordar-se dela. O mesmo acontece com João que só conheceu o pai por fotografia. O Simão é mais velho,  lembra-se, amava o pai, e tinha por ele uma grande admiração.  
Falavam nas crianças, chamando-as pelos nomes. Nem um nem outro se atreviam a dizer “nossos filhos” o que pressupunha uma intimidade que não havia entre eles, mas também não diziam, os teus filhos, os meus filhos, para que o outro não pensasse que não cumpriam a sua parte no acordo. Francisca quebrou o silêncio que se instalara.
- A Graça disse que me querias falar. Passa-se alguma coisa?
- Amanhã, é o dia dos meus ex-sogros virem passar o dia com as netas.
Propositadamente não lhes falei de ti nem das minhas intenções de voltar a casar. 


reedição






22.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXIV




Era o dia de folga de Adelaide, pelo que Clara aproveitou-se desse facto para ficar na cozinha, ajudando Antónia na preparação do jantar especial que a empregada, estava a fazer para comemorar a volta de Ricardo.
Ia fazer Bacalhau à Brás, Arroz de Pato, e Torta de Laranja. Três iguarias que ela sabia eram as preferidas, do dono da casa, desde que ainda bem pequeno tinha ido viver com a avó.
Pouco depois chegou Tiago, e Clara voltou a emocionar-se ao ver o carinho com que ele e Ricardo se abraçavam. Apesar do pouco tempo que tinham convivido, ambos tinham criado um laço muito forte de afetividade.
O jantar decorreu animado, entre Ricardo, o cunhado e os filhos.
Clara mantinha-se em silêncio, limitando-se a responder aos comentários do irmão e dos filhos.
Pouco depois de terminado o jantar, Clara disse:
-Meninos está na hora de ir para a cama. Amanhã há escola têm que acordar cedo.
Sem refilar, as crianças beijaram Tiago e dirigiram-se ao pai.
-Vou convosco,- disse ele levantando-se e dando as mãos aos filhos.
-Eu também vou,- disse Tiago, pondo-se de pé. – Tenho teste amanhã preciso rever a matéria.
Subiram juntos a escada. Ao chegar ao piso superior, Tiago seguiu para o seu quarto despedindo-se com um boa-noite a que todos responderam. Depois os quatro entraram no quarto das crianças. Enquanto elas seguiram com o pai para a casa de banho, Clara abriu as camas e preparou os pijamas.
Depois que se deitaram, aconchegou-lhes a roupa, deu-lhes um beijo de boa noite e saiu do quarto deixando-os com o pai e o livro de histórias.
Cinco minutos depois, Ricardo entrou na sala.
-Adormeceram tão rápido que nem deu tempo de ler a história, - disse.
- Estavam cansados, foi muita emoção e brincadeira. Amanhã queres levá-los tu à escola?
- Estava a pensar ir contigo. Podemos dar uma volta pelos standes a fim de escolheres um carro para ti. Tens alguma marca preferida? Ou modelo?
-Não. Gostava de um citadino pequeno. Não gosto de modelos grandes nem muito luxuosos.
-Então fica combinado, - disse estendendo a mão e agarrando a dela.
- Por favor, Ricardo -  suplicou.
- Tem calma, - disse largando-lhe a mão. - Vamos apenas conversar. Mas atenta numa coisa. Vivemos na mesma casa. E sempre que por aqui esteja, será inevitável que te toque. Temos dois filhos. Repara que digo, temos e não tenho, porque sei que os amas como eu. Vejo-o nos teus olhos quando estás com eles. Conheço esse sentimento, foi o que me levou a não abandonar a Soraia no hospital. O que quero dizer é que as crianças são muito intuitivas. Se tu te afastas quando eu estou com elas, ou vice-versa, elas vão perceber que há tensão entre nós, vão pensar que estamos zangados e vão sofrer. Estás de acordo?
- Sim.
- Estou num ponto crucial da minha vida. Levei estes últimos meses a pensar deixar o exército e dedicar-me a um sonho de menino. Escrever um livro. Porém agora penso que talvez seja melhor continuar com a carreira militar. As crianças vão crescendo e acabam habituando-se às minhas ausências. Penso que será melhor para nós os dois, e por consequência para eles também.
- Não Ricardo. O melhor para eles será sempre crescerem com o pai ao lado. E eles devem ser sempre a nossa prioridade. Nós somos adultos saberemos lidar com a situação. Por favor, mais comissões não, – suplicou.
- Mas não percebes que essa convivência diária vai ser um tormento para os dois? Tu olhas-me como se eu fosse a oitava maravilha do mundo, e isso faz com que te deseje mais do que nunca.
- Vou ser muito sincera contigo, Ricardo. Não sei como te olho, mas não posso evitar olhar-te dessa maneira. Porque eu te amo. Amo-te com tanta intensidade, que resistir à tua oferta, me pôs doente. Mas eu não vou entregar-te o meu amor, em troca de umas noites de paixão, que fatalmente acabarão um dia. Nem em troca de uma posição social, nem mesmo pelo amor que tenho às crianças. Sabes de uma coisa? Ia casar-me com o Júlio, completamente enganada. Pensava que ele me amava, e saber o que ele pensava fazer com o Tiago, deu-me a certeza de que verdadeiramente não me amava. Mas hoje eu sei que também não o amava, embora na altura julgasse que sim. Se o amasse metade daquilo que te amo, ter-me-ia sentido destroçada com o fim do noivado.
- Tens noção de que conhecendo os teus sentimentos, eu posso jurar-te amor só para conseguir os meus objetivos?
- És demasiado sincero para isso, Ricardo. Não serias capaz de o fazer, mesmo que o pensasses. E sabes o que é mais caricato? É que eu penso, que independente de todas as tuas desconfianças, o sentimento que tens por mim, não é apenas desejo. Mas é preciso que o reconheças e lhe dês guarida no teu coração. É porque penso assim, que não tive pejo de te confessar o que sinto.
Levantou-se, roçou as costas da mão, pela face masculina numa carícia suave e afastou-se em direção à porta, dizendo:
-Boa noite, Ricardo. Dorme bem.