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11.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXII





- Desculpa, estou preocupada. Não estou habituada a fazer este tipo de festas para pessoas que não conheço. Já imaginaste que apesar de todos os nossos esforços, a tua irmã pode não gostar da festa? Teria muito mais sentido eu planear tudo e dar-lhe a conhecer o projeto para que ela aprovasse ou fizesse as alterações que entendesse. Afinal a festa é dela.
- Não te preocupes. O meu cunhado está a par de tudo e ninguém a conhece melhor do que ele.Depois de amanhã, vamos a Faro em negócios e talvez demoremos um ou dois dias. Se conseguires fazer o projeto para amanhã, pudemos reunir-nos e ele te dirá se há algo que deves modificar. De resto, tenho a certeza que farás uma festa maravilhosa, que a vai deixar muito feliz. Confio plenamente em ti.
- És um ser muito estranho. Como podes confiar desse modo em mim se mal me conheces, e ao mesmo tempo odiares o meu pai ao ponto de o quereres arruinar? Não seria mais natural pensares que tomarei o partido do meu pai e te trairei na primeira oportunidade?
-És demasiado integra para traíres alguém, -disse poisando a sua mão no ombro feminino.
Tinham chegado à parte traseira da casa.  Havia um alpendre junto à residência, apoiado em pilares que se estendia junto ao muro do lado direito. Uma vasta área relvada, ao fundo da qual uma piscina, à qual se chegava por um carreiro de seixos. Tudo protegido de olhares estranhos pelo muro.
- O que achas?
-Fantástico. Podemos colocar as mesas junto à piscina, e montar uma tenda na parte de trás, com música ao vivo e uma pista de dança para quem quiser dançar. E ... esta porta dá para onde?
- Para a cozinha.
- Ótimo. Disseste que o “catering” vem de um dos teus restaurantes. Não precisaremos de mesas de apoio, tudo pode ficar na cozinha e ser transportado a partir de aí. Terás que trazer vários empregados. Que te parece?
- Muito bem. Consegues pôr tudo isso no papel para que o Eduardo veja antes de irmos para o Algarve?
-Farei o projeto esta noite, envio-to amanhã. Agora se me dás licença, vou fazer umas fotos daqui e da parte da frente onde decorrerá a cerimónia. Às três horas tenho entrevista marcada com o padre.
-Gostaria que passasses pelos nossos escritórios, amanhã de tarde. Conhecerias o Eduardo e seria mais fácil para ti, que ele te fizesse alguma sugestão se necessário. Além de que ele pode querer algumas dicas sobre o traje adequado à cerimónia. Poderias fazer isso?
- Posso. Se a minha ideia for aprovada, terei que voltar com uma amiga, Margarida Souto, decoradora de interiores e exteriores e alguns jardineiros para fazer toda a decoração necessária, aqui e lá à frente. Na maior parte das vezes eu mesma trato de tudo mas quando o tempo é curto como agora, recorro aos seus serviços.
- Muito bem. Então vamos entrar. O almoço deve estar quase pronto e gostaria de te mostrar a casa. Tirarás as fotos depois do almoço.

30.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE X




- E ela não achou estranho que o namorado da irmã lhe tivesse dado um nome falso? – Perguntou Ricardo quando o empregado se afastou.
- Não. Ela estava nervosa, e ou não pensou nisso, ou terá julgado um pormenor sem importância, uma vez que o homem em causa estava morto.
-Suponho que não lhe disseste que era um teu familiar.
-Claro que não.
-Bom. Confesso que não descortino a razão por que precisas de mim se o assunto está arrumado. Ou não está? – Perguntou o advogado perscrutando o rosto do amigo.
- De facto não. Contratei o Abílio Morais, para investigar a jovem e a família. Segundo o seu relatório, a jovem que morreu era uma moça sossegada que só teve um namorado. O rapaz desapareceu quando soube que ela estava grávida. Isso prova que realmente o bebé é filho do Paulo, e portanto o único membro vivo da minha família, além da sua avó, minha tia, que depois da morte do filho definha dia a dia.
- E…
- E eu pensei que quero aquele bebé comigo, quero proporcionar-lhe uma educação condigna e fazer dele um homem melhor do que foi o seu pai.
A surpresa estampou-se no rosto do advogado, que quase se engasgou com o pedaço de bife que acabava de meter na boca.
- Estás doido? Como pensas conseguir isso? Com que argumentos? Ou será que … pensas comprá-lo? Sabes que isso é crime?
- Não pretendo fazer nada ilegal, até parece que não me conheces. O que pensei é muito simples. Estou a caminhar para os quarenta, sou um homem rico, mas solitário. Pensei propor casamento à tia do menino. Depois de casados adoto o bebé e posso fazer dele meu herdeiro.
Desta vez, a surpresa foi ainda maior.
- Por amor de Deus, Pedro. Vamos acabar a refeição e depois vamos para o meu escritório. Se continuamos esta conversa aqui, vou acabar por morrer engasgado.
-Não tinhas, muito trabalho hoje?
-E achas que vou conseguir fazer alguma coisa depois de teres largado essa bomba?
Pedro não respondeu. O seu rosto não demonstrava nenhuma emoção, apenas os olhos verdes mostravam a determinação que lhe ia na alma.
- Vais querer sobremesa? – Perguntou Ricardo quando o empregado se aproximou para retirar os pratos.
- Só café.
- Dois cafés, e a conta por favor.
Pouco depois, bebido o café e tendo pago a refeição, os dois levantaram-se e seguiram para o escritório do advogado situado a menos de cinquenta metros do restaurante


E estamos a caminho do comentário número 33 000
Muito Obrigada

21.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... Interrompeu-se abruptamente. O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

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Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem viu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho


Esta história chegou ao fim. Gostaria que aqueles que me leram assiduamente, ( e penso que terão sido muito mais do que os que comentaram, a acreditar nas visualizações deste conto, que contava desde o primeiro episódio até ontem com 3215.) me dessem a vossa opinião sobre ele no seu todo.
Uma noite de inverno, será a nova história que vos vou contar de segunda até ao fim do mês. Mais pequena, e muito diferente das duas últimas, mas que espero vos agrade.

BOM FIM DE SEMANA

8.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXXV




Actual Unidade de cuidados intensivos, era no final de 1984, o hospital da Misericórdia do Barreiro, onde a Gravelina esteve internada. O actual centro hospitalar Barreiro- Montijo, seria inaugurado no ano seguinte com o nome de Hospital Nossa Senhor do Rosário do Barreiro 



A filha foi buscar o aparelho e perguntou enquanto lho ajustava:
-Sente-se mal?
-Penso que estou a ter uma trombose, - respondeu ela.
A filha mediu-lhe a tensão arterial, 132-81 Normalíssima. Perguntou:
- Dói-lhe a cabeça, está com tonturas? 
-Não. 
A filha segurou-lhe as mãos, e pediu:
- Aperte as minhas mãos.
Ela apertou. A filha não sentiu nada de anormal, mas ela insistia que lhe estava a dar uma trombose. Voltou a medir-lhe a tensão que se mantinha normal. Pensou que talvez a mãe tivesse tido algum sonho e acordasse impressionada. 
-O Paizinho?
- Foi lá para o quintal, - respondeu a tia
- Não noto nada de anormal. A tia ajude-a a deitar-se. Não a quero fora da cama, o médico disse que ela tinha que estar deitada. Vou ao Barreiro comprar a mobília para o quarto do Pedro. Assim que chegar, volto cá. Ela tomou a medicação?
-Tomou. Tudo certinho, fui eu que lha dei. 
A filha deu um beijo na mãe e saiu. Arrepender-se-ia amargamente mais tarde. Mas como acreditar que uma pessoa vai ter um AVC, só porque ela o diz, quando ao mesmo tempo, não se nota nada de estranho e a pessoa em questão aparentemente está normal?
Quando duas horas mais tarde a filha regressou, encontrou à sua porta um vizinho da mãe que lhe disse para lá ir com urgência. A mãe tinha sofrido uma trombose, ele já fora ao quintal, chamar o Manuel, já telefonara para a ambulância que deveria estar a chegar, mas a mãe chamava pela filha.
Ela correu para casa da mãe, que nesse momento estava a ser metida na ambulância. 
Ainda consciente, a mãe disse-lhe:
-Ainda bem que vieste, filha. Eu não te disse que estava a ter uma trombose?
A filha acompanhou a mãe ao hospital. No trajecto a mãe acabou por ficar inconsciente. 
Observada, foi logo para os cuidados intensivos. A filha recebeu as roupas, e regressou a casa da mãe, onde encontrou o pai em pranto. O Manuel não se conformava. Dias e dias, chorou a companheira, não comia, dizia que se ela se fosse, ele iria com ela. Que sem ela a vida não tinha sentido, nem merecia o nome de vida. 
A Gravelina esteve um pouco mais de um mês em coma. Foram dias muito duros para todos. O Manuel continuava a não reagir. Só com muito esforço comia alguma coisa. Não ouvia rádio, não acendia a TV. Todos ficaram com a certeza que se a mulher partisse, ele segui-la-ia em breve.
Quando recuperou a consciência, a Gravelina parecia uma boneca desengonçada. Todo o lado esquerdo estava paralisado, a boca torta, não falava, o corpo sem força. Chorava o tempo inteiro, sem que a família soubesse se o fazia por ter dores, ou por se ver reduzida aquele estado.
Dois dias antes do Natal, o médico deu-lhe alta. 
À filha, que falou com ele, o médico disse que não acreditava que ela tivesse muito tempo de vida, mas dado que eles já não podiam fazer mais nada por ela, seria melhor que passasse os últimos dias rodeada pelo carinho da família.
Segundo os médicos, o que provocara o AVC à Gravelina, fora a sua teimosia em andar de pé. A explicação médica, foi de que tendo ela muitas varizes, e tendo a perna engessada, ela teria que ter repouso absoluto, deitada e com a perna ligeiramente mais alta a fim de que nunca inchasse e o gesso não comprimisse demasiado as varizes. Ao andar de pé, a pressão sobre s varizes foi tanta que um pequeno trombo se soltou e foi até ao cérebro, onde entrou numa pequena veia que obstruiu, fazendo com que a parte do cérebro irrigado por ela, morresse, deixando-a para sempre deficiente.






Se a Gravelina fosse viva, faria hoje 90 anos.