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29.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXII




Meia hora depois, voltou ao quarto. O homem dormia embora se movesse agitado. Luísa voltou para a cozinha, a cabeça mergulhada num oceano de interrogações. Porque mostrara ele uma tão grande aversão pelo hospital? Teria algum trauma de infância? E quem seria?  Ele dizia que não se lembrava de nada. Mas seria verdade? Ou esconderia a sua identidade por motivos que só Deus saberia? E o que fazia, perdido numa noite de tão grande tempestade? Ter-se-ia evadido de alguma cadeia? "Que estupidez, mulher. Os prisioneiros não têm fatos daqueles nem camisas de seda", - murmurou. 
Mas porque não tinha com ele quaisquer documentos? Teria tido algum acidente? Mas se assim fosse não ficaria na estrada à espera de socorro? A sua casa não ficava propriamente perto da autoestrada, e a estrada que dava acesso até à sua porta, estava assinalada como troço sem saída. O melhor mesmo era telefonar ao doutor Fonseca, e se o médico entendesse que devia ir para o hospital chamava a ambulância e pronto. Por muito que o homem não quisesse ir, ela não ia arriscar. Vamos que ele lhe morria em casa? Ia ver-se metida numa série de problemas.
Pegou no telemóvel e procurou nos seus contactos o nome do clínico. Foi atendida pela sua assistente
-O doutor Fonseca está com uma doente, e não gosta de ser interrompido. Pode deixar-me o seu contacto que o doutor liga-lhe depois.
Luísa deu-lho. Ela conhecia o médico, quase desde que tinha ido viver para aquela casa. Um dia, estava a pintar junto ao rio, quando a dona Aurora, esposa do médico, a encontrara numa das caminhadas que fazia diariamente por ali. Era uma senhora muito simpática. Parara a ver a evolução da tela que  pintava e depois elogiara o seu traço, as cores, enfim, o seu trabalho. A partir dali encontraram-se muitas vezes e Aurora sempre parava junto dela para dois dedos de conversa. Até que um dia a convidou para lanchar em sua casa, e Luísa que não conhecia ninguém na zona, aceitou agradecida. 
Trocaram confidências. Aurora sentia-se muito só. Ser mulher de um médico, fora de uma cidade grande, ou mesmo de uma vila importante, não era fácil. Fonseca era o único médico num raio de vários quilómetros para norte, e para sul até Penacova. A qualquer hora do dia ou da noite era chamado e há anos que não tinham férias.  “Como Deus não quis que tivesse filhos, só posso esperar que o meu António, se resolva a reformar-se, para não ter que viver os meus últimos dias tão só como sempre vivi” confessara-lhe uma vez. Um dia apresentara-lhe o marido. Era um homem de média estatura, meio careca, de sorriso fácil e ar bonacheirão que inspirava simpatia e confiança. Tinha a certeza que o médico lhe ligaria, logo que possível e isso deixou-a um pouco mais tranquila.
Meia hora mais tarde o médico retornou a chamada.
-Bom dia, Luísa. Aconteceu alguma coisa? Viu a minha mulher?
- Bom dia doutor. Não vi a sua esposa. Deveria tê-la visto?
-Esta manhã ela estava muito preocupada consigo por causa da tempestade, e disse-me que se o tempo melhorasse, ia até aí ver se estava bem.
- Não veio, e nem é aconselhável que venha com este tempo. Já lhe telefono, para que fique descansada. Doutor tenho aqui um doente a arder em febre. Seria possível o doutor vir examiná-lo.
-Claro que sim. Tenho ainda um paciente para consulta, mas logo que termine vou para aí.
Muito obrigado, doutor. Então até logo.




No  ultimo capítulo vocês perguntavam porque o Gil não queria ir para o hospital se não se lembrava de quem é.
Talvez que no seu subconsciente as memórias das cirurgias que sofreu em tempos, ou do tempo em que a sua esposa morta, esteve ligada às máquinas para salvar a vida da filha que tinha no ventre, se imponham apesar de conscientemente não ter recordações. A mente humana é muito complexa.





18.12.19

CONTOS DE NATAL - UMA BONECA DO PAI NATAL







A mãe de Alice morreu quando ela tinha cinco anos de idade. Apesar de os seus nove irmãos e irmãs serem muito carinhosos, não conseguiram, obviamente, substituir o amor de uma mãe. Alice, que é hoje minha mãe, contou-nos que em 1925 a vida era muito difícil e que a sua família era tão pobre que nem sequer podia dar-lhe uma boneca pelo Natal.
Alice transformou o cuidado dos outros no objetivo da sua vida e foi sucessivamente tomando conta do pai, do marido, dos filhos e dos netos. A minha mãe acreditava que poderia compensar a sua infância triste através da dedicação à própria família. Contudo, continuou a sentir que havia na sua vida um vazio por preencher.
Em Dezembro de 1982, eu trabalhava num banco local. Uma tarde, quando estávamos a decorar a árvore de Natal e a cantar canções natalícias, uma das nossas clientes aproximou-se de mim com algumas bonecas que fazia à mão. Decidi encomendar uma para a minha filha, Katie, que tinha quase cinco anos de idade, e perguntei à minha cliente se poderia fazer uma boneca especial para a minha mãe – uma boneca com cabelos grisalhos e óculos: uma boneca-avó. O meu desafio criativo foi logo aceite.
Quando um amigo me disse que o pai – que costumava fazer de Pai Natal em vários eventos de caridade – pretendia visitar-nos na manhã de Natal para entregar a Katie os seus presentes, pensei logo que esse poderia vir a ser um dos dias mais memoráveis da vida da minha mãe.
O dia de Natal chegou e, na hora combinada, também chegou o Pai Natal, que trazia o saco que eu lhe tinha previamente feito chegar. Katie ficou surpreendida e feliz com a visita e a minha mãe estava a apreciar a reação da neta. Foi então, que, antes de sair, o Pai Natal olhou de novo para dentro do saco e retirou mais um presente. Quando perguntou quem era a Alice, a minha mãe foi totalmente apanhada de surpresa. O Pai Natal entregou-lhe o presente, que estava acompanhado de uma carta que ele leu em voz alta:

Querida Alice,

Antes do início da viagem deste ano, enquanto quando arrumava o meu trenó, encontrei este embrulho que devia ter sido entregue no dia 25 de Dezembro de 1925. O presente que está dentro envelheceu, mas achei que gostaria na mesma de o receber. Peço-lhe desculpa pelo atraso na entrega.

Um beijo,

Pai Natal.

A reação da minha mãe foi uma das cenas mais emotivas a que assisti na vida. Sem conseguir falar, apertou contra o peito a boneca que tinha esperado 57 anos para receber, enquanto lágrimas de alegria lhe rolavam pelas faces. Aquela boneca, oferecida pelo Pai Natal, fez da minha mãe a mais feliz das “crianças”.

Alice Ferguson




Estou de saída para o Algarve, onde espero passar o Natal se entretanto não receber nenhuma chamada do hospital. Se tem sido difícil visitar-vos com o problema dos olhos, agora vai ser mais difícil porque lá não tenho computador.
Os contos de Natal continuarão a sair todas as noites pois foram programados há muito para saírem neste mês. Tentarei sempre que possível passar pelos vossos blogues, embora como todos saibam apenas com o telemóvel é difícil.


23.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLIV



Chegaram à quinta, quando o sol, acabava de desaparecer no horizonte mas a noite ainda não se fazia presente. Eram dezanove horas do dia quatro de Outubro do ano da Graça de dois mil e quinze. Durante a viagem, Helena falou de si, da faculdade que se vira obrigada a abandonar com a doença e morte da sua progenitora, Falou da sua infância, de como lhe custou o facto de não ter o pai a seu lado quando era menina, da surpresa que foi achar aqueles documentos no armário da mãe. E do seu amor por ela, por todos os sacrifícios que fizera para a criar e educar. Apesar da desilusão que teve ao  descobrir o que a mãe fizera, nada apagava os anos de amor incondicional que a mãe lhe devotara. Abriu o coração para ele, como ele fizera com ela quando chegou.
Com a aproximação da quinta, fora ficando cada vez mais nervosa. Apesar de Cláudio lhe garantir que a mãe, era uma excelente pessoa, e que mesmo sem a conhecer já gostava dela, por saber que era a mulher que ele escolhera, ela estava receosa. Sempre ouvira dizer que sogras e noras não se amam, porque ambas competem pelo amor do mesmo homem, A mãe sempre teme que a nora afaste o filho dela, e a nora receia que o marido faça comparações, entre as duas, com desprimor para ela. Acresce que no caso, ela era também filha do marido da futura sogra. E para uma mulher que não pôde dar ao homem que amava, um filho, de repente, ele aparecer com uma filha, de outra mulher, devia ser doloroso. Helena vinha pensando nisso, e cada vez estava mais nervosa.
Cláudio estacionou o carro em frente da casa. Saiu do veículo ao mesmo tempo que a jovem. Jorge e a esposa, que estavam sentados no alpendre, levantaram-se para os receber.
Cláudio pegou na mão da jovem e apertou-a carinhosamente, enquanto dizia baixinho.
-Tem calma. Vai correr tudo  bem.
-Boa noite, -disse saudando os pais. Depois falando apenas para a mãe acrescentou:
-Mãe aqui tens Helena, a mulher que eu amo.
As duas, cumprimentaram-se beijando-se, enquanto Jorge perguntava ao filho:
- Foi difícil de convencer?
Ele respondeu sorrindo.
- Achas? Com todo o meu charme?
Todos riram e aquela pequena brincadeira contribuiu para quebrar a tensão de um primeiro encontro. Depois, Jorge beijou a filha e disse:
- Vocês devem estar cansados e talvez queiram tomar banho antes do jantar. Os dias continuam muito quentes. Cláudio, mostra a casa à Lena e diz-lhe onde é o seu quarto. Esperamos que estejam prontos para começarmos a jantar.
O jovem assim fez. Começou pela cozinha, a sala, os dois quartos de hóspedes, o quarto dos pais e por fim o seu.
Helena, não conseguiu reprimir a surpresa, ao ver o quarto de Cláudio, a grande cama de ferro pintada de preto, o armário, a posição da janela, tudo. Como era possível, que sem nunca ali ter entrado, se visse naquele quarto nos seus loucos sonhos?



Gente, agora até acabar vão ter dois episódios por dia.  Para acabar Sexta-feira. Pode ser?


12.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXVIII


Ele engoliu em seco. Naquele preciso momento deu-se conta de que não queria aquele negócio. Queria a mulher que estava a seu lado, queria o seu amor. Ricardo tinha razão. Tinha que remediar o mal que tinha feito. Tinha que lhe abrir o coração e contar toda a verdade. Só então poderia aspirar ao amor da esposa.Ergueu a mão e acariciou suavemente o rosto feminino. Decidido retomou a palavra. - Penso que temos que ter uma conversa séria. Espero que tenhas paciência para me ouvir, porque mesmo correndo o risco de te perder, acho que chegou o momento de te abrir o coração,- disse ele abraçando o corpo feminino.
 Impressionada com o tom de seriedade que ele usou, Joana limpou as lágrimas no dorso da mão, e aninhou a cabeça no seu ombro, num gesto que ele interpretou como sendo de confiança.
- A minha infância não foi fácil. Cresci com o meu pai, um homem cheio de amargura, porque a mulher que ele amava, fugiu com outro homem, deixando-o para trás com o filho de ambos para criar. Meu pai deu-me tudo o que o dinheiro podia comprar, boas roupas, bons colégios um curso superior. Também me ensinou tudo o que sabia, só não me ensinou a amar porque o seu coração estava morto para o amor.
 Eu era muito pequeno, não tenho nenhuma memória da minha mãe. A única lembrança de um afago feminino, é da minha tia quando nos visitava. Cresci a pensar que as mulheres não prestavam e jurei a mim mesmo, que nunca ia sofrer por causa de nenhuma. Por isso quando o meu pai morreu, eu dediquei-me por completo aos negócios e a ser cada dia mais rico. Nunca levei as mulheres a sério, eram capazes de tudo por dinheiro, e eu tinha muito. De modo que sempre tive as que quis, quando quis. Sei que devo parecer-te muito cínico, mas eu prometi ser sincero e posso ser desagradável, desprezível até, mas não vou retocar o retrato mentindo. Há cerca de dois anos, comecei a pensar que me tinha matado a trabalhar e não tinha um herdeiro a quem deixar o fruto do meu trabalho. Pensei arranjar uma mulher que estivesse disposta a casar comigo, e dar-me um filho, a troco de uma vida de luxo. Conheci uma jovem cujos pais tinham mais pose que dinheiro e pensei que tinha encontrado a mulher ideal, mas ela era muito frívola, e a única coisa que lhe interessava era andar de festa em festa, exibindo-me como se eu fosse um troféu. Cansado, tinha decidido acabar com aquela espécie de relação, quando tu apareceste no escritório, com o nosso filho. Quando vi a foto da tua irmã com o namorado, descobri que o menino era filho do meu primo Paulo Amado, o único filho da minha tia Conceição. Desde pequeno,  quando queria fazer alguma coisa que sabia não ser correta, ele usava o meu nome. Não tens noção das vezes que paguei, por asneiras dele. Por favor, deixa-me continuar, - disse ao ver que ela se mexia inquieta.  
-Sim a tia São, é tão avó do Pedro como a tua mãe. Quando o descobri, pensei que tinha achado a solução para o meu problema. Casando contigo, e adotando o Pedro, eu teria um herdeiro do meu sangue. Por outro lado, tinha a certeza de que ele seria a salvação da minha tia que definhava dia a dia. O Paulo, nunca foi flor que se cheirasse, mas era o seu único filho e ela amava-o muito. 
- Então ela sabia que o menino era seu neto, quando vinha sempre visitá-lo?
-Sabia. E ambos esperávamos que tu a convidasses a vir viver com a tua mãe. O que tu fizeste sem que nenhum de nós tenha tentado influenciar-te.
-E porque tinhas tanta certeza de que o faria?
-Porque tens um coração do tamanho do mundo. E sabendo como a tua mãe sofre pela morte da tua irmã, ias apiedar-te da minha tia. A solução era boa para as duas, e tu além de teres bom coração, és uma mulher inteligente.


12.4.18

RENASCER - IX





Dois meses depois, Carlos continuava na psiquiatria do hospital sem saber mais de si do que aquilo que lhe contavam os demais. Pais, irmãs, cunhados, amigos de infância, muita gente se deslocara da Régua até Lisboa para verem o homem que voltara à vida quase sete meses depois de ter sido dado como morto em combate. Não reconheceu ninguém à exceção de Cacilda, a mais nova das irmãs. Porque a reconheceu imediatamente e não reconheceu Amália a irmã mais velha era mais um mistério da sua cabeça que ele não sabia decifrar, e que intrigou o psiquiatra. Este, fez-lhe a seguinte proposta. Gostaria de iniciar um novo tratamento com base na hipnose clínica. Porém aproximava-se o Natal e ele ia-lhe dar alta para a quadra natalícia. Queria que ele fosse a casa, convivesse com família e amigos, andasse pelos lugares da sua infância e juventude. Acreditava que nesse contexto ele poderia recuperar a memória. Se tal não acontecesse, quando regressasse ao hospital, se ele estivesse de acordo, começariam então as sessões de hipnose.
Proposta que ele aceitou imediatamente, receava endoidecer com tanta luta para se recordar de qualquer coisa, um pequeno acontecimento que fosse, e sentir-se completamente vazio. Às vezes pensava que estava num pesadelo, que ia acordar a qualquer hora, e então beliscava-se a si próprio mas nada mudava. Duas vezes por semana, Luísa ia vê-lo, e ele agarra-se aquelas visitas como náufrago, à bóia que o vai salvar. Os dois tornaram-se amigos. Ambos viveram uma tragédia, e talvez por isso, um buscasse no outro, a força que os havia de fazer esquecer. Naquele dia, mais uma vez, Luísa foi visitá-lo.
- Boa tarde Carlos. Como se sente hoje.
- Na mesma. Um pouco mais animado porque o médico me vai dar alta para passar o Natal na terra com a família. Pensa que isso me pode trazer de volta a memória, e me propôs se eu voltar na mesma, no regresso, ser hipnotizado para ver se revivendo o que se passou, quebro o bloqueio que me faz estar assim.
- E isso não é perigoso?
- O médico diz que não. Ele pensa que se isso não resultar, poderei levar anos até que um qualquer facto me faça recuperar a memória. Eu nem quero pensar nisso. Mais me valera ter morrido naquele dia.
- Não diga isso, meu amigo, está vivo, é jovem, teoricamente tem muitos anos pela frente, mesmo que durante algum tempo não se lembre, virá o dia em que recupere a memória. Para os mortos não há retorno nem esperança.
- A Luísa não sabe o que é não saber nada, não ter recordações, nem amigos, nem familiares.
- Mas o Carlos tem. Já o visitaram.
- É verdade. Mas se exceptuarmos o meu pai que reconheci porque foi como se me estivesse a ver ao espelho, embora mais velho, e a minha irmã Cacilda, acreditaria no que me dizem, apenas porque o desejo com toda a minha alma. Como acreditei que aquela carteira era minha, só porque ma deram e disseram que era.
- Entendo. Deus queira que a hipnose resulte.


26.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XLI


Sentado à mesa na cozinha, Salvador observava a graciosidade e desenvoltura com que Anete se movimentava na preparação do jantar.
- Tens a certeza de que eu não posso ajudar-te? – Perguntou
- Sabes cozinhar?
- Pouca coisa. Mas posso por a mesa.
-Isso é uma boa ideia. Naquela gaveta, tens os talheres, e na outra ao lado, há toalhas e individuais. Escolhe o que mais te agradar. E na dispensa, deve haver uma garrafa de vinho. Podes abri-la.  
Ele levantou-se e começou a por a mesa.
-Tens falado com os teus pais?
- Quase todos os dias.
- Tens uma família muito bonita. São todos muito simpáticos.
- Espera até os meus irmãos saberem que vens cá a casa jantar, e vais ver como se acaba logo a simpatia, - disse rindo.
-Sei. Foram sempre assim tão protetores?
- Sempre, -disse colocando na mesa a travessa dos bifes, com o arroz branco.
Sentou-se e iniciaram a refeição. Só depois continuou
– Desde que fui para o infantário. Os três não me largavam.
- Os três?
- Os dois e Afonso, o meu ex-marido!
“ Quer dizer que o teu ex-marido, é um amiguinho de infância. Vamos ver se contas mais alguma coisa”
- Já estou a ver três rapazes a assaltarem o castelo para brincar com a princesa, e as suas bonecas, - disse rindo.
- Era mais assim. Três rapazes a arrastarem a princesa para ir jogar à bola, subir às árvores, ou pescar.  Fui crescendo sempre com três sombras. No recreio da escola, nas festas, nas saídas. Era tão frustrante que às vezes chegava a odiá-los. Os dois só me deixaram em paz quando fiquei noiva do Afonso.
- Um noivado com ódio ao noivo? – Perguntou franzindo as sobrancelhas.
- Ó não. Aquele ódio era só raiva de momento, por exemplo quando queria ir à discoteca com as minhas amigas, e só podia ir com os três guarda-costas.
- Então amáva-lo…
-Não. Os pais do Afonso viviam, e a mãe ainda vive, na vivenda ao lado da nossa. Os nossos pais eram amigos, e como andávamos sempre juntos eles começaram a falar em casamento, e nós deixá-mo-nos embalar pela ideia. Quando acordámos estávamos casados.
 Tinham acabado a refeição. Anete levantou-se
- Queres café? Como sabes, é do instantâneo.
- Sim. – Levantou-se para retirar a loiça da mesa, enquanto ela punha a chaleira ao lume e retirava do armário as chávenas e o frasco do café. E voltou à conversa:
- Divorciaram-se em seguida. De comum acordo?
- Não e sim. Não nos divorciámos em seguida, Porque o pai do Afonso ficou doente, e depois da sua morte, a mãe dele teve uma depressão, precisava de todo o nosso apoio e carinho, não era hora de pensar em nós. Mas sim foi de comum acordo e continuamos amigos.
Pôs a água fervente na mesa, e continuou enquanto preparava os cafés.
- Tão amigos, que me veio visitar anteontem, para me contar que está apaixonado, que pensa casar e queria que fosse a primeira a saber disso.
Escureceram os olhos masculinos.
- Tens a certeza, que foi por amizade? Não teria sido mais por retaliação, pelo divórcio?
-Não conheces, o Afonso. Se o conhecesses nem te passava pela cabeça semelhante coisa, - disse colocando a loiça na máquina.
"Que defesa tão acalorada," - surpreendeu-se. "Será que ainda gosta dele"?
Foram para a sala. A chuva continuava a cair fustigando os vidros da janela. A jovem foi até ela e desceu a persiana.
-Agora é a tua vez, - disse ao voltar-se. Nunca te casaste?
- Não.
- Mas decerto já te apaixonaste.
 -Não sei se o teu conceito de apaixonar-se é o mesmo que o meu. Se te referes ao amor, pois sim. Há uns anos, conheci uma mulher que julgava, única, especial. Amei-a tanto que estava a pensar pedi-la em casamento.




3.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XIII






 Algumas horas mais tarde, Salvador, preparava-se para alinhar todos os passos a seguir. Aquele jantar, tinha sido muito proveitoso. Anete era uma jovem encantadora, mas demasiado inocente, para um advogado tão experiente como ele, habituado a descobrir até o que lhe queriam esconder.  Ele não acreditava em coincidências, e a jovem dera-lhe a pista, quando lhe dissera, que era a única pessoa morena na família.  A sua intuição dizia-lhe que a história de vida, da jovem, estava ligada à da sua cunhada. Como a data de nascimento era a mesma, e o local também, só havia duas hipóteses. Prima, o que tinha ficado descartado, quando a jovem lhe contou que seus pais eram filhos únicos, ou irmã gémea. E nesse caso, como é a jovem não sabia que era adotada? Ele sabia que certos pais, escondiam dos filhos esse facto, para que não se sentissem inferiores aos filhos biológicos. Seria esse o caso? E como é que a instituição tinha separado duas gémeas idênticas?
Durante o jantar ele ficara a saber quase tudo sobre a jovem. O que ela não lhe contou, ele adivinhou nas entrelinhas. Tinha tido uma infância feliz, mimada e protegida por pais e irmãos. Casara com um vizinho, mas o casamento não dera certo, segundo ela por excesso de amizade e falta de amor. Sobre esse ponto não conseguira arrancar-lhe mais nada, mas ficou claro que não aparentava estar a sofrer por causa disso.
Usando discretamente o telemóvel, como se fora atender uma chamada, conseguira fotografá-la, quando no fim de jantar, se levantou para ir à casa de banho.
Sentado na cama, observava a fotografia pensativo. Com exceção de quando pensou que a cunhada tinha um amante, nunca na sua vida se tinha sentido tão indeciso. Teria ele, direito a mexer naquela história, correndo o risco de desestruturar duas famílias?  Decerto que não. Mas por outro lado teria o direito de deixar que as irmãs, continuassem na ignorância da sua própria história? 
E se tudo não passasse de uma incrível coincidência?  Passou a mão pela testa, como se com isso afastasse aquele pensamento. Não. Ainda se as jovens tivessem nascido em cidades diferentes, poderia pensar em coincidência. Mas no mesmo dia, e na mesma cidade? Impossível.
O passo a seguir, era mostrar a fotografia ao irmão, e juntos decidirem o que fazer.  Talvez Raul conseguisse alguma informação junto dos sogros.  E pedir uma cópia do registo e nascimento da jovem. As adoções costumam ser averbados ao registo de nascimento. Olhou o relógio. Quase duas da manhã. Pousou o telemóvel na mesa-de-cabeceira, levantou-se e dirigiu-se à casa de banho. Precisava tomar um duche a fim de relaxar, e enfim dormir.                                                                                          

12.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXIX




-Tonta. Como foi possível pensares que eu te ia deixar por causa disso? - Perguntou, sem deixar de olhá-la com imensa ternura.
-Dizes isso agora, mas quando os anos passarem, vais recriminar-me. E não vou aguentar. Morro de desgosto.
- Escutei-te. Escuta-me tu agora. Nasci numa aldeia do norte. Minha mãe morreu de parto, e fui criado pelo meu pai e por uma sua irmã, viúva, que vivia lá em casa. Não me lembro de um único afago do meu pai. Creio que ele me culpava pela morte da minha mãe. A minha tia, também não era muito carinhosa, pelo que as minhas recordações de infância, não são como deves calcular muito boas. Fui crescendo com mais sonhos, que dinheiro para concretizá-los, pois lá em casa ele rareava. Aos catorze anos, farto daquela vida, fugi para a cidade. Mas na cidade, ninguém ligava a um miúdo, ninguém lhe dava trabalho. Vagueei pelas ruas durante vários dias. Cheio de fome, entrei numa igreja, disposto a roubar a caixa das esmolas para comer. Faltou-me a coragem e sentei-me num banco a chorar. Depois de algum tempo senti que uma mão me afagava a cabeça, e vi que era o padre. Tentei fugir, mas ele segurou-me o pulso com força, falou-me com tal suavidade, que quase sem dar por isso, acabei por lhe falar da minha vida, dos meus sonhos, da fuga, enfim uma verdadeira confissão. Então ele levou-me a um pequeno café que havia perto da igreja, e pagou-me uma refeição. Depois disse que ia tomar conta de mim, que me ia ajudar a realizar os meus sonhos.  Pediu a morada do meu pai e escreveu-lhe a dizer que eu estava bem e que ia estudar. Depois levou-me para casa de uma irmã que tinha dois filhos, um da minha idade, e outro um pouco mais velho. Eles acolheram-me muito bem, partilharam comigo, roupa, alimentação, e carinho. O padre Miguel, e algumas senhoras da catequese, pagaram-me os estudos e obrigaram-me a estudar. Graças a eles, não sou hoje um vadio. Era aplicado e cheguei a fazer dois anos num. Depois fui para a faculdade. Na primeira semana na faculdade, o padre Miguel, trouxe-me um bilhete de comboio e informou-me que meu pai tinha morrido. Voltei à terra para o funeral, cheio de pena, de não ter conseguido ganhar o seu amor. Depois regressei para a minha verdadeira família. O padre Miguel e os seus. E para a faculdade.  Queria ajudar nas despesas, mas eles não me deixavam trabalhar. Eu tinha um incrível jeito para o desenho e comecei a vender alguns desenhos, aos amigos, e a fazer ilustrações para editoras, e jornais. O que ganhava, não era muito, mas dava tudo ao padre Miguel, para ajudar nas despesas.