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31.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVII

 




Um mês mais tarde, o “casal” tinha adquirido rotinas e viviam aparentemente felizes. Sofia estava empregada numa loja de moda, ia para o emprego e regressava de metro, jantava no restaurante e aguardava pelo marido para regressarem a casa. Passavam os sábados juntos, já que o restaurante encerrava nesse dia, e ela só trabalhava até à uma. Depois do almoço, davam uma volta pela cidade, e às vezes pelos arredores. 

Quim era um homem culto e um excelente guia e ela gostava de o ouvir. Jantavam em casa. E depois do jantar, iam ao cinema, ao teatro, ou simplesmente ficavam em casa, vendo televisão e conversando.
Ao domingo o restaurante estava aberto, ele ia trabalhar. Ela levantava-se cedo, tratava das tarefas da casa, ia à missa, almoçava no restaurante e passava parte da tarde com a tia Délia.

A tia era simpática e  boa conversadora e Sofia tinha-se afeiçoado a ela.
Pena que cada vez se encontrasse mais debilitada.
Jantava com os tios e só descia à hora que o marido costumava sair. E seguiam juntos para casa.

Decorrido esse mês, Sofia estava completamente apaixonada pelo marido. Cada dia o admirava mais, gostava da paciência com que lhe explicava coisas, que ela nunca entendera, como a politica por exemplo. Tinha aprendido mais com ele naquele mês, do que na sua vida inteira. Sentia-se fascinada pela mentalidade do marido, tão diferente da dos homens da sua aldeia. E cada dia era maior o seu desejo de que ele reparasse nela como mulher.

Por essa altura, conheceu a mulher por quem ele se apaixonara. Encontraram-se num sábado, quando passeavam pelas margens do Sena. Ela estava sentada num café quando os vira. Levantou-se e dirigiu-se a eles. Era uma bela mulher, pequena, de aspeto delicado, tez branca e cabelos loiros. A sensação que Sofia teve foi de que se tratava de uma boneca de porcelana, tal a imagem de delicadeza e fragilidade da outra. 

 Sofia soube imediatamente quem ela era, não porque o marido lhe dissesse. A mão de Quim apertou de forma inconsciente, durante uma fração de segundo, o ombro de Sofia, quando a  viu, e isso foi tudo.
-Olá Quim. Não há quem te veja. Disseram-me que te casaste. É claro que não acreditei, - disse ela pestanejando exageradamente. 
- É bom que acredites Joana. Porque é verdade, - respondera-lhe ele aparentemente calmo.

A “boneca” fez um trejeito com os lábios, como se fizesse beicinho e dignou-se olhar para Sofia. Pendurou-se no braço de Quim e perguntou:
-Apresentas-me?
-Não. E se me dás licença, estamos com pressa.
Sem qualquer espécie de decoro, ela esticou-se, deu-lhe um beijo na face, e afastou-se dizendo:
- Telefona-me.





Esta história voltará depois da Páscoa.  Para todos desejo um resto de boa semana e uma Santa Páscoa, tão feliz quanto possível.

31.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXIX


- O que deve fazer uma mulher que ama um homem, para que ele perceba?- Perguntou de súbito Mariana
Maria riu-se.
-O quê? Não me digas que não sabes. Vais dizer-me que nunca tiveste namorado?
-Amigos sim, namorado só o primeiro coleguinha quando fui para a escola.
- Mas tu és linda, tens bom gosto, és simpática. Por onde tens andado?
 -Por aí. Mas não me respondeste.
- Insinua-te. Se ele não for parvo, percebe.
- Insinuar? Como?
-Isso é lá pergunta que uma mulher faça? Mariana, tu não deves estar bem. Deixa cá ver se tens febre, - brincou Maria tentando colocar-lhe a mão na testa.
-Não sejas tonta. E vamos às compras que ainda gostava que me ajudasses a decorar a árvore de Natal.
Na loja Mariana escolheu um par de calças de ganga, e uma camisola de gola alta vermelha,
-Gostas?
-É um conjunto muito bonito.
-Então vai experimentar. É para ti. Prenda de Natal.
- Para mim? Oh! Obrigado. És um anjo, - disse quase arrancando-lhe as peças da mão, esfuziante de alegria.
Quando saíram, Mariana perguntou à amiga:
-E agora? Sapatos ou botas?
- Posso escolher?
Acenou afirmativamente
-Botas.
Entraram na sapataria, e Maria escolheu umas botas de cano alto, sem salto, muito práticas.
Quando regressavam a jovem disse quase chorando.
-Este ano, não esperava ter outra prenda que não a do Luís. Desde que o pai morreu, o dinheiro lá em casa, é muito pouco. Nem quero pensar o que teria sido de nós, se a minha mãe não tivesse vindo trabalhar para a tua casa.
- Não é a minha casa. É do Miguel.
- Mas tu vives lá. Porquê?
- Porque meu pai morreu, e eu estava doente, como sabes.
Calou-se. Maria percebeu que a jovem não queria falar da sua vida, e mudando de conversa disse:
-Tenho tantas saudades do meu pai!
-Também eu Maria ! Também eu!- Repetiu com tristeza.




2.12.17

MARIA - PARTE VI

RE-EDIÇÃO



A reviravolta

Cedo, Maria percebeu que o marido, não era o homem que ela imaginara, antes do casamento. Depois de uma semana, de lua-de-mel em Braga, regressaram para um quarto, na casa dos sogros. Tudo bem que eles se esforçaram e durante essa semana transformaram, o quarto de solteiro do filho, num bonito e confortável quarto de casal. Mas não era a sua casa. Paulo tinha-lhe prometido, que assim que chegassem, ia começar a procurar casa para eles, mas agora parecia não estar ,muito interessado nisso.
-Quando o bebé nascer, juro que trato de alugar casa. Agora é melhor ficarmos aqui, a minha mãe está atenta a qualquer coisa e eu vou trabalhar mais descansado – dizia ele quando Maria o pressionava.
Ela calava-se  mas não era feliz. A sogra era simpática, mas sempre dava um jeito, de lhe fazer ver que a casa era dela.
Em Junho, na véspera de S. João, Maria sofreu um aborto espontâneo e perdeu o bebé.
Foi um grande desgosto. Que se tornou numa dor sem tamanho quando a mãe a visitou e lhe disse:
-Foi melhor agora que mais tarde. Tinha-te avisado. Não vais poder ter filhos. E por teimosia, estragaste o teu futuro.
Nesse momento, Maria sentiu um ódio intenso pela mãe. E não se conteve.
- Pois eu juro-te que vou ter os filhos, que quiser. Porque é que tu foste mãe, e eu não posso ser? Quem julgas tu, que és? Um ser superior? Odeio-te. Põe-te na rua, e esquece que me conheces. Nunca mais te quero ver.
Elisa saiu acabrunhada. Ela era assim, parecia uma mulher seca, nunca a ensinaram a ser de outro jeito. Talvez se o marido tivesse vivido, mais uns anos, quem sabe até mais uns meses, ela seria hoje uma mulher diferente. Mas Alberto, inicialmente só se preocupou, com o ser ar de aldeã. E depois a sua morte prematura, e a necessidade de sobreviver sem ele tornou-a ainda mais seca. Porém ela amava a filha e o que queria era vê-la feliz. Talvez os métodos estivessem errados, mas Elisa não se dava conta disso.
Longe da mãe, e depois do desgosto inicial, Maria decide retomar os estudos. Mas o marido não deixa. Isso, e o facto de continuar a viver com os sogros, que apoiavam o filho e achavam que lugar de mulher casada, era em casa, fez com que a jovem "abrisse os olhos" e começasse a pensar que se tinha visto livre da "tirania" da mãe para cair num lugar onde não tinha liberdade, nem intimidade. Sentia-se enjaulada. E o sonho que tinha alimentado, de um casamento feliz, foi desaparecendo aos poucos, até que o casamento não era mais do que uma enorme desilusão, à qual ela deu fim com o divórcio, logo que fez dezoito anos.
Sozinha, Maria resolveu dar um novo rumo à sua vida. Não queria ir para casa da mãe. Nem ficar a viver na zona, para não se encontrarem. Não lhe perdoava, o não ter tido uma palavra de consolo, quando ela perdeu o bebé.
Empregou-se em Lisboa, alugou um pequeno apartamento com mais duas jovens, voltou a estudar à noite e sentiu-se enfim uma mulher livre e feliz.
Um ano depois, essa felicidade já não era tanta assim. Maria tinha muitas saudades da mãe. Disse-me um dia, em que me procurou para saber dela, que sem a mãe se sentia incompleta. Como se lhe tivessem amputado, uma parte do corpo.
"Não sei explicar, que diabo de sentimento é este. Sinto raiva, amor, saudade. E sinto ódio. Por ela, pelo carinho que nunca lhe senti, e por mim, que nunca fui capaz, de lhe cobrar esse carinho, que sempre vi nela a mulher sem erros, e sempre me senti inferior"


Continua