- O empresário João Teixeira!
- O Ronaldo da informática? Meu Deus, Teresa! E agora? O
que vais fazer?
- Não sei. Desde logo pedir conselho ao teu marido, saber que tipo de proteção posso esperar da justiça. Depois
por certo entrar em contacto com o homem. Não vou ficar à espera de ver o que
faz. Não consigo viver com esta espada pendendo sobre a minha cabeça.
- Mas não pode tirar-te a criança. Se ela tem o seu material
genético, também tem o teu. Foi o teu óvulo que foi fecundado e é no teu útero
que se está a desenvolver. É tão filho dele como teu. Mesmo um juiz terá isso
em conta.
-Não sei, se é assim tão simples. Estou aterrorizada.
Imagina que o homem ficou estéril após a tal doença? Não vai querer ficar sem a única hipótese
de ser pai. Qualquer juiz vai ter isso em conta. E provavelmente atribuir-lhe a
guarda do bebé! Afinal eles não decidem isso quando um casal com filhos se
divorcia? Eles não entregam a criança à guarda daquele que tem mais hipótese de
dar uma melhor vida à criança? Imagina no meu caso.
-Mas tu tens uma excelente situação financeira, podes dar
uma boa vida a duas ou três crianças.
-Uma gota de água comparada com a dele, segundo me disseram. E depois um juiz
pode sempre alegar que eu posso ter outros filhos enquanto a ele lhe roubaram a única hipótese de ser pai. Não sei que faça,
este filho foi tão desejado que não quero sequer pensar na hipótese de
perdê-lo, mas não podemos parti-lo ao meio como na sentença de Salomão.
- Mas um juiz também pode decidir que fiquem com a guarda
partilhada da criança.
- Já pensei nisso. Iria ter que
conviver com uma pessoa, que até agora nunca vi, que não sei como vai influenciar a
educação do bebé, nem se a criança mais tarde, quando tiver discernimento, para compreender a história do seu nascimento, não
vai optar por ficar com o pai. Não é de modo algum a vida que sonhei para nós dois, mas dadas as circunstâncias poderá ser a melhor decisão.
- Não podes angustiar-te assim. Pensa no bebé! Uma grávida precisa estar calma. Se por causa da tua ansiedade abortares, não resolves o problema e
vais ficar toda a viva a culpares-te por isso. Vou fazer-te um chá de valeriana, a
ver se te acalmas.
Levantou-se e Teresa fez o mesmo seguindo-a para a cozinha.
- Queres que telefone ao Gustavo e pergunte se te pode
receber? – perguntou Inês enquanto punha a água ao lume para o chá. - Mas
porque não ficas para almoçar connosco e falas com ele, depois do almoço? Estás
demasiado nervosa agora, para conduzir. E depois o Martim está quase a acordar, vai
ficar muito feliz se vir a madrinha.
- Eu fico. Preciso saber o que a lei diz nestes casos, para
tomar uma decisão. Vou telefonar ao teu pai e pedir-lhe se ele pode continuar à
frente da pastelaria. Com toda esta confusão não sei, quando poderei voltar a
assumir a gerência. Achas que o teu pai estaria interessado em deixar o forno e
assumir o lugar? É claro que teria de contratar outro pasteleiro, mas preferia
isso do que contratar um gerente. Tenho total confiança no teu pai e era menos
uma preocupação.


