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29.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XII





- O empresário João Teixeira!
- O Ronaldo da informática? Meu Deus, Teresa! E agora? O que vais fazer?
- Não sei. Desde logo pedir conselho ao teu marido, saber que tipo de proteção posso esperar da justiça. Depois por certo entrar em contacto com o homem. Não vou ficar à espera de ver o que faz. Não consigo viver com esta espada pendendo sobre a minha cabeça.
- Mas não pode tirar-te a criança. Se ela tem o seu material genético, também tem o teu. Foi o teu óvulo que foi fecundado e é no teu útero que se está a desenvolver. É tão filho dele como teu. Mesmo um juiz terá isso em conta.
-Não sei, se é assim tão simples. Estou aterrorizada. Imagina que o homem ficou estéril após a tal doença? Não vai querer ficar sem a única hipótese de ser pai. Qualquer juiz vai ter isso em conta. E provavelmente atribuir-lhe a guarda do bebé! Afinal eles não decidem isso quando um casal com filhos se divorcia? Eles não entregam a criança à guarda daquele que tem mais hipótese de dar uma melhor vida à criança? Imagina no meu caso.
-Mas tu tens uma excelente situação financeira, podes dar uma boa vida a duas ou três crianças.
-Uma gota de água comparada com a dele, segundo me disseram. E depois um juiz pode sempre alegar que eu posso ter outros filhos enquanto a ele lhe roubaram a única hipótese de ser pai. Não sei que faça, este filho foi tão desejado que não quero sequer pensar na hipótese de perdê-lo, mas não podemos parti-lo ao meio como na sentença de Salomão.
- Mas um juiz também pode decidir que fiquem com a guarda partilhada da criança.
- Já pensei nisso. Iria ter que conviver com uma pessoa, que até agora nunca vi, que não sei como vai influenciar a educação do bebé, nem se a criança mais tarde, quando tiver discernimento, para compreender a história do seu nascimento, não vai optar por ficar com o pai. Não é de modo algum a vida que sonhei para nós dois, mas dadas as circunstâncias poderá ser a melhor decisão.  
- Não podes angustiar-te assim. Pensa no bebé! Uma grávida precisa estar calma. Se por causa da tua ansiedade abortares, não resolves o problema e vais ficar toda a viva a culpares-te por isso. Vou fazer-te um chá de valeriana, a ver se te acalmas.
Levantou-se e Teresa fez o mesmo seguindo-a para a cozinha.   
- Queres que telefone ao Gustavo e pergunte se te pode receber? – perguntou Inês enquanto punha a água ao lume para o chá. - Mas porque não ficas para almoçar connosco e falas com ele, depois do almoço? Estás demasiado nervosa agora, para conduzir. E depois o Martim está quase a acordar, vai ficar muito feliz se vir a madrinha.
- Eu fico. Preciso saber o que a lei diz nestes casos, para tomar uma decisão. Vou telefonar ao teu pai e pedir-lhe se ele pode continuar à frente da pastelaria. Com toda esta confusão não sei, quando poderei voltar a assumir a gerência. Achas que o teu pai estaria interessado em deixar o forno e assumir o lugar? É claro que teria de contratar outro pasteleiro, mas preferia isso do que contratar um gerente. Tenho total confiança no teu pai e era menos uma preocupação.


14.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXIII



-O que a Natália pensa disto? – perguntou Isabel no dia seguinte à vizinha e amiga depois de lhe ter contado a conversa tida com Ricardo, no dia anterior
-É uma situação complicada, minha filha. Mas tem mesmo a certeza de que ele não é o pai da Matilde?
-Ele sempre o negou e o teste de ADN confirma as suas palavras. Na prática ambos somos tios dela, mas por causa do registo de nascimento, oficialmente ele é o pai da Matilde. Se ele quiser a menina, e for para tribunal, não tenho meios para contratar um bom advogado, e provavelmente ficarei sem ela, pois entre um pai com condições para lhe dar uma boa vida e educação, e uma tia que vive de um ordenado, não vejo que juiz decidiria a meu favor. Se casar com ele está tudo resolvido, mas como posso casar com um homem que mal conheço?
-Às vezes, Deus escreve direito por linhas tortas. A Isabel fez trinta e três anos em Janeiro. O único namorado que lhe conheci durou três meses. Segundo me disse, quando a sua mãe morreu, ele queria que entregasse a sua irmã à Segurança Social, porque não ia avançar para uma relação séria com a responsabilidade de ter de a criar. Depois disso teve dois pretendentes, que fugiram quando foram confrontados com o problema. Não preciso de lhe repetir que gosto de si como de uma filha. E é como tal que lhe digo, que talvez seja a única hipótese que a Isabel tem, de viver as emoções de uma vida a dois. Claro pode sempre arranjar um amante e viver a sua vida de liberdade, mas como a conheço bem, sei que isso está fora de questão. O homem é atraente, educado, (pelo menos foi o que me pareceu quando falei com ele). O amor pode acontecer com o tempo e a convivência.
- E se não acontecer? Como vou dormir com um homem sem amor?
- Para dormir com um homem não é preciso amor. Quase sempre o que leva um casal para a cama é a atração física, o desejo, ou como os jovens dizem agora, a química. Isso é que nos põe o sangue em ebulição, e faz o nosso corpo desejar experimentar novas emoções. E contrariamente ao que nós sonhamos, essa sensação, nem sempre está associado ao amor. Se a atração física é muito forte, pode nascer um grande amor. Mas não há amor que resista à falta de desejo, ao desinteresse pelo corpo do outro, pelas suas carícias. Não sei se me estou a fazer entender, já estou quase a fazer sessenta anos, e a juventude agora tem outras formas de se expressar que não havia no meu tempo.
A Isabel tem que pensar bem, nos prós e contras daquilo que vai decidir. O que acabo de lhe dizer não deve influenciá-la de modo algum. Limitei-me a dizer-lhe o que eu penso do assunto, porque me pediu a opinião. Pense bem, consulte o seu coração, e tenha a certeza, que seja qual for a sua decisão, eu vou estar aqui para a apoiar, moral ou financeiramente, como faria se fosse minha filha.
-Agradeço-lhe de todo o coração, mas como já lhe disse em outras ocasiões, não quero que gaste o seu dinheiro comigo. Nunca se sabe o dia de amanhã, minha amiga.
- Mãim!!
Isabel levantou-se de um salto e encaminhou-se para o quarto, seguida pela amiga.
- Pronto, meu amor, a mãe já aqui está – disse dirigindo-se à janela e levantando a persiana.


10.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXV






No seu escritório, Pedro não conseguia concentrar-se no trabalho. O seu corpo estava ali, mas o pensamento estava com Joana, e com a sua vida pessoal. Há mais de ano e meio que se casara. E nunca em toda a vida, pensara que a vida matrimonial, lhe desse tanto prazer, e o fizesse tão feliz. Quase esqueceu aquela maldita cláusula  de que o casamento teria que durar no mínimo dois anos. Habituado a lidar com os negócios, não teve em conta sentimentos. Apenas pensou no filho, e esse era o tempo que ele pensava necessário para conquistar o menino e estabelecer, um laço afetivo que levasse a que qualquer juiz lhe entregasse a guarda dele, se houvesse divórcio. Toda a vida lidara com mulheres interesseiras, por isso apesar de Joana ter dito que não queria o seu dinheiro, ele fez questão de se acautelar e de estipular no documento a verba a que ela teria direito no fim dos dois anos em caso de separação. 
Mas Joana não se parecia em nada com as mulheres com quem lidara antes. Ela nunca teria aceitado aquele negócio se não fora a doença da mãe. Era boa filha, uma excelente mãe, e uma lutadora, que durante o ano e meio que durava o casamento, nunca aceitara a vida que ele lhe podia proporcionar, e lutara sempre pela sua independência económica. E a verdade é que cada dia tinha mais trabalho, e não raro tinha de recorrer a  uma agência de trabalhos temporários para contratar pessoal que serviam, as suas iguarias nas festas mais importantes.
Porém ultimamente ela estava diferente. Andava pensativa, tinha perdido o brilho no olhar, e até o seu sorriso parecia forçado.
Ele tinha vontade de lhe perguntar o que se passava. Mas o medo de que ela lhe dissesse que estava cansada, farta dele, e queria o divórcio era maior do que tudo o resto. Nunca acreditara no amor, e nem sabia se aquilo que sentia era amor, só sabia que ela se tornara numa necessidade tão importante para ele como o ar que respirava. Não queria que o casamento acabasse, sentia que a vida deixaria de ter sentido se ela partisse.
Lembrou-se da conversa que tinha tido na véspera com Ricardo. O amigo estranhara o seu humor e dissera.
- Deixa-me adivinhar, estás assim por causa da Joana e do casamento maluco que inventaste.
- Estou apreensivo, sim. Até há pouco tempo, tudo parecia estar bem, eu diria que ela era feliz. Depois, começou a ficar pensativa, preocupada, às vezes dá-me a sensação de que está ausente. Faltam menos de seis meses para os dois anos da cláusula. Receio que se tenha cansado e esteja a pensar pedir o divórcio, mal terminem os dois anos.
-E isso importa-te? Não tens já o teu filho? E não me disseste que só ele te interessava.
- Tens razão. Mas agora penso na minha infância e não quero isso para o meu filho. Ele deve crescer com o pai e a mãe a seu lado.
-O divórcio, não impede que isso aconteça desde que tenham a guarda partilhada.
-Não é a mesma coisa.
- E tu não me enganas. Apaixonaste-te pela tua mulher. Já não é o menino que te importa, mas ela.
- Não sejas tonto. A Joana é uma excelente companheira, e uma ótima mãe. Seria muito bom para o desenvolvimento do Pedro, tê-la a seu lado.
- Sei. E eu acredito que o Pai Natal existe,- disse o amigo em tom jocoso. Se não queres admitir que amas a tua mulher não o faças, mas depois não te queixes, se ela realmente pedir o divórcio.
E agora ele interrogava-se. Será que o amigo tinha razão? Será que aquela angústia que o invadia, aquele medo de a perder era realmente amor?

O 10 de Junho comemora-se AQUI
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