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27.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIV


Laura conversou com a mãe, que se mostrou radiante por ela ter aceitado a proposta de Fernando e afirmou cuidar do neto, enquanto ela estivesse ausente.

Assim, pouco depois das nove ela chegava à clínica do psiquiatra e apresentava-se à sua assistente, que não se mostrou surpreendida pois um telefonema do chefe logo de manhã, tinha-a avisado.

Diana era uma jovem morena de estatura mediana, de olhos castanhos e sorriso fácil. O cabelo curto, era igualmente castanho, embora mais claro que os seus olhos. O seu enorme ventre, mostrava que devia estar muito perto do final da gravidez e fazia com que a jovem parecesse mais baixa do que realmente era.

Quando sorria, duas covinhas apareciam no seu rosto que parecia iluminar-se.

Laura gostou imediatamente dela.

- Já era tempo de que o doutor se decidisse a arranjar alguém para me substituir – disse. Mais um pouco e eu entraria de baixa e ele ver-se-ia na contingência de ter que ser ele a explicar o serviço. Podes ir buscar uma cadeira à sala de espera, para te sentares aqui ao pé de mim?

- Claro.

Laura fez o indicado e logo que se sentou, disse:

-Não pareces surpreendida por não vir de nenhuma agência temporária.

-Não. O doutor detestava ter de o fazer. Ele gosta de trabalhar com alguém conhecido, sente-se melhor. E eu sabia que ele te queria aqui, desde que o teu irmão lhe contou que querias regressar ao trabalho, mas não tinhas conseguido vaga numa escola aqui na cidade.

-Conheces o meu irmão?

- Como não? Os dois são tão amigos que quando comecei a trabalhar aqui, e o doutor Gonçalo passava quase sempre aqui no fim das consultas, pensei que eram irmãos. Foi há anos, o chefe já tinha a clínica e alguns clientes, embora na altura ainda fizesse serviço no Hospital de S. José.  O teu irmão tinha acabado o curso e estava a estagiar no hospital de Santa Maria. Segundo me disse deveria ter acabado o Curso mais cedo, mas um grave acidente de moto, interrompeu-lhe os estudos.                                  

Quando acabou o estágio, o teu irmão foi para um hospital no Porto, o chefe decidiu encerrar a clínica e foi para Londres, onde esteve dois anos, num hospital. Ele era na altura um homem muito amargo, eu só o sentia mais alegre, quando o teu irmão o visitava. Bom, vamos então começar?

- Claro, foi para isso que vim, - disse Laura embora tivesse gostado que Diana lhe continuasse a falar de Fernando. Na verdade, ela perdera todo o contacto com ele quando casara e viera viver para Lisboa. Na altura, ele já tinha terminado o curso, e embora já estivesse em Lisboa, ela tinha-lhe perdido o rasto.

- Aqui atrás de mim, está o ficheiro onde se guardam todas as fichas dos clientes por ordem alfabética. O chefe não usa estas fichas, ele escreve tudo no computador. Depois que as consultas acabam, tens que transcrever tudo para as fichas do doente. Isto porque pode haver uma falha do sistema, e sem uma ficha atualizada em papel, ele não teria acesso aos dados do doente.

 É a velha história, os computadores são rápidos e eficientes, mas quando o sistema falha o que salva qualquer negócio, são os registos em papel. Quando fazes a inscrição, se for a primeira vez, abres esta gaveta, tiras uma ficha destas e preenches com o nome e idade do doente. Se já é doente é só procurares no ficheiro.

- Não parece difícil.

-Nada. Tenho a certeza que é bem mais difícil preparar uma aula nova todos os dias.

22.1.19

QUEM SABE FAZ A HORA... - PARTE III

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Cecília era uma bela mulher. Alta, morena, corpo curvilíneo, e um rosto onde se destacavam dois belos e expressivos olhos castanhos. Boca pequena e carnuda, ladeada por duas pequenas covinhas sempre que sorria. Tinha acabado de fazer trinta e seis anos, e estava em toda a plenitude da sua beleza.
Há muitos anos atrás era quase uma menina, tinha namorado o João. Na verdade ele fora o primeiro e único amor da sua vida, muito embora outros homens tivessem entrado nela.
- Então amiga, arrependida? - perguntou Sandra.
- Bem sabes que não. Mas estou apreensiva. E se depois de me ver, ele não sentir nada? Tenho medo: - disse baixinho. Tão baixinho que Sandra mais adivinhou que ouviu. E perdeu-se de novo nas suas recordações.
No final dos anos oitenta, muitas empresas abriram falência, muita gente perdeu o emprego. O pai de Cecília fora um dos que se viram de um momento para o outro sem emprego. O irmão, que emigrara há anos para o Brasil, insistia para que ele fosse para lá. Artur resistia, apesar das saudades que tinha do irmão, e dos pais que já tinham ido. Por causa da esposa e da filha que não mostravam vontade em sair de Lisboa. Perdido o emprego, e sem grandes esperanças de conseguir outro que lhe permitisse o mesmo nível de vida, não lhe restou outra coisa que convencer a mulher e a filha a fazer as malas.
No Brasil, Cecília levou muitas noites sem dormir. Chorando de saudades. De Lisboa, dos amigos e principalmente do João. Escreveu longas e inflamadas cartas de amor, que nunca enviou. Com o passar do tempo, as lágrimas foram secando. Um dia quase sem dar por isso viu-se noiva do primo. Influenciada pelos pais, pelos tios, e também pelo devotado amor que Alberto lhe dedicara desde o dia em que a conheceu. Para Cecília, tanto fazia. O seu coração tinha ficado lá longe. Só a avó se preocupava. Que ela não parecia uma noiva feliz. Que ela não demonstrava a alegria de uma noiva. Mas ainda assim Cecília casou num dia de Santo António. Um casamento que durou três anos. Três anos dum casamento, onde havia respeito, amizade, e carinho, mas onde nunca houve pelo menos da sua parte, desejo, ou paixão. E não fora aquele fatídico acidente, que vitimara Alberto, talvez Cecília se tivesse resignado àquela vida. Ou talvez não, quem sabe.

12.1.19

ELISA

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Corria o ano de 1940. Elisa era nessa altura uma encantadora rapariga de dezoito anos. Pequena, bem proporcionada, cabelo escuro como noite sem lua, quase sempre preso numa farta trança.

Os olhos escuros e um rosto moreno, onde um rasgado sorriso fazia aparecerem duas graciosas covinhas. Era uma jovem alegre, com uma bonita voz, que encantava quem a ouvia ao domingo na igreja, ou nos campos enquanto trabalhava. Foi talvez a beleza da sua voz, que atraiu o patrão, naquele fatídico dia de Abril. Elisa mondava o milho numa leira, quando o patrão a surpreendeu e sem lhe dar tempo a defesa, ali mesmo a violou. Naqueles tempos nas remotas aldeias do interior, não raras vezes os patrões "desgraçavam" as jovens empregadas. Naquele dia Elisa foi para casa, com o corpo e a alma em ferida. Não disse aos pais nem aos irmãos o que tinha acontecido. De que teria servido? Só aumentaria a sua dor, e a sua vergonha.
Nunca mais foi a mesma. Não queria que ninguém soubesse o que tinha acontecido, e os pais estranhavam que não quisesse ir trabalhar para aquele patrão. Afinal era o que empregava mais gente, e pagava melhor.
 Uma noite sem que ninguém desse conta, Elisa fugiu de casa. Vagueou por montes e vales, evitando os caminhos principais, roubando frutas para enganar a fome, durante dias a que esqueceu a conta. Um dia, com os pés em ferida e as roupas sujas e rotas avistou uma cidade.
 Foi-se aproximando a medo. Teve sorte. Uma mulher idosa viu-a, e vendo o estado lastimoso em que se encontrava, levou-a até à sua casa. Deu-lhe um alguidar com água, um pedaço de sabão azul e branco, e uma toalha velha e esfarrapada, porém limpa, para ela se lavar. Em seguida trouxe-lhe umas roupas limpas que tinham sido da sua filha que Deus lhe levara havia dois anos.
 Josefa foi-lhe contando isto enquanto aquecia no velho tacho de barro um prato de caldo verde feito na véspera.
 Elisa sentiu-se como alguém que regressa a casa. Na verdade Josefa, embora não a conhecendo, estava a tratá-la como uma filha e Elisa deixou que as lágrimas rolassem pelo rosto emagrecido enquanto contava àquela desconhecida, o que não tivera coragem de contar à mãe.
 Josefa ouviu em silêncio o relato da jovem, e quando esta acabou, estendeu a sua velha mão sobre a cabeça da jovem, e murmurou entre dentes:
 "Um dia, um dia isto vai ter fim. E esses canalhas vão pagar por todos os seus crimes". E logo levantando a voz disse:
 - Ficas aqui enquanto não arranjares trabalho. Eu não tenho muito, mas há-de dar para as duas. Agora uma coisa tens que me prometer. Vais escrever aos teus pais. Diz-lhes que estás em Coimbra, e que arranjaste trabalho. Os teus pais têm que saber de ti. Eu também fui mãe e sei bem a aflição duma mãe quando não sabe dum filho.
 Elisa assim fez. Arranjou trabalho a dias para limpezas e tentava a custo apagar as recordações quando descobriu que isso era impossível porque estava grávida.
Foram tempos muito difíceis em que só no carinho de Josefa conseguiu forças para sobreviver. Aos pais não contou nada. Morria de vergonha. E foi inventando desculpas para não ir visitá-los

Quando o filho tinha três anos Josefa morreu. Morreu serenamente, sem se queixar, tal como tinha vivido.

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1.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE II






O carro rodou pela rua principal, voltou à esquerda e deteve-se uns metros mais à frente, junto de um portão verde que dava acesso a uma casa senhorial, quase se poderia dizer um palacete, rodeado de um pequeno jardim, cercado por um muro pintado de branco. O homem accionou o comando, o portão abriu-se e o automóvel percorreu a meia centena de metros até à entrada da casa. Os ocupantes saíram, com as crianças fazendo algazarra, pois pretendiam ficar no jardim, onde dois baloiços e um escorrega solitário, eram um apelo irresistível à brincadeira. Porém o homem não deixou, dizendo que primeiro tinham que despir aquelas roupas e vestir algo mais confortável para as brincadeiras que se propunham. Então sim poderiam brincar até à hora do almoço. Pouco convencidas, as crianças lá seguiram com os adultos para casa, onde os esperava uma serviçal de meia-idade. 
Lá dentro, a noiva tentou acompanhar as duas mulheres ao quarto dos miúdos,  mas o marido segurando-lhe a mão, reteve-a.
- Vem comigo. A Graça e a empregada cuidam deles.
Entraram num aposento espaçoso, misto de sala e escritório, com uma ampla janela, em frente da qual havia uma secretária. As paredes estavam repletas de livros. Num dos cantos havia um sofá, uma mesa de apoio e um vaso com uma bela planta verde. Formava uma espécie de recanto íntimo, como se alguém gostasse de estar ali, e a mulher pensou, se seria hábito da falecida, estar ali enquanto o homem trabalhava.
- Senta-te. Precisamos conversar, ainda há alguns pontos que não esclarecemos.
Sentou-se. Formavam um casal curioso. Ele alto, moreno, cabelos escuros, já com alguns fios brancos aparecendo indiscretos. Os olhos também escuros encerravam uma grande tristeza. A sua figura tinha uma elegância natural. Estava quase a fazer quarenta anos. Ela de estatura média, morena, cabelos e olhos amendoados. Tinha trinta anos embora parecesse mais jovem, e também não demonstrava a alegria natural de quem tinha acabado de casar. Parecia nervosa, pelo constante retorcer das mãos. Mantinha o olhar fixo nos seus sapatos, como se eles fossem a oitava maravilha do mundo, ou não tivesse coragem de encarar o homem. 


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