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26.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XI


Gonçalo acabou de jantar. Levou o prato sujo para o lava loiça, e ligou a máquina de café. Eram oito e meia e ele ainda queria dormir umas duas horas antes de se dirigir ao hospital onde passaria a noite nas urgências. Não conseguia deixar de pensar naquela mulher que segurara nos braços durante alguns segundos nessa manhã e na estranha sensação de que ela era parte de si mesmo. 

Aquilo nunca lhe acontecera antes. Passara o dia em casa da irmã, mas não quisera ficar para o jantar, pois precisava de por os seus pensamentos em ordem, coisa que não conseguia lá em casa, com a natural traquinice dos sobrinhos por um lado e por outro a insistência de Laura em que ele devia arranjar uma companheira.

Fugira do lar paterno por causa da mania casamenteira da mãe. Agora era a irmã. Como se fosse fácil! Desde que há mais de treze anos sofrera aquele terrível acidente, que o deixara cinquenta e cinco dias, em coma no Hospital de Santo António no Porto e mais de seis meses em tratamento, no Serviço de Medicina Física e .de Reabilitação do Hospital de Braga, para onde fora transferido quando recobrara a consciência, que vivia numa constante procura, embora para ser sincero, nem sabia bem de quê.  O acidente fora tão grave, que os médicos chegaram a julga-lo perdido, segundo lhe disseram mais tarde ao assegurarem-lhe que estar vivo, era um verdadeiro milagre.

Todavia as mazelas físicas não foram o pior, apesar de quase o terem matado. O pior fora a amnésia. Uma perda de memória parcial devido, segundo os médicos, à parte do cérebro afetado pela pancada, ou segundo o psicólogo, que o visitou no hospital, a algo ou alguém, em que ia a pensar no momento do acidente e que o seu subconsciente não quer recordar, para não sofrer de novo o choque brutal que quase o matara.

O acidente ocorrera no último dia de Setembro, ia fazer dentro de meses catorze anos. Gonçalo conduzia a sua mota nova, que o pai lhe oferecera pouco tempo antes como prenda de aniversário, de Braga onde fora visitar os pais, para o Porto, quando um carro que seguia em sentido contrário e cujo motorista adormecera ao volante, veio em cima dele. O choque violento, projetou-o para fora da estrada, fazendo-o embater contra o muro de uma quinta.

 Quando acordou no hospital, as vivências dos últimos anos, tinham desaparecido. Com o tempo, o apoio psiquiátrico e psicológico, que o hospital lhe disponibilizara,  a sua memória foi voltando, mas havia um pequeno lapso de tempo que Gonçalo não conseguiu recordar e que o deixava frustrado. Era como se não estivesse inteiro, e isso mesmo o afastara sempre de uma relação séria.

A última recordação que tinha era a de ter ido de férias para o Algarve, com uns amigos, dois meses antes do acidente.  Sabia que se tinha apaixonado por uma jovem nessas férias, pois os amigos brincavam com ele sobre isso, mas não se lembrava dela, nem sequer do seu nome, e não quisera contar aos amigos o que se passava com ele, para não ser motivo de troça ou de pena. Nem mesmo a família sabia, pois lhes fizera crer que tinha recuperado a memória por completo.

Desde essa data que inconscientemente procurava essa mulher em todas as que se cruzavam com ele. Mas como encontrar uma mulher sem nome nem rosto? Convencido de que isso era impossível, acabara por desistir, porém nessa manhã, quando aquela mulher chocara com ele, o seu coração acelerou e o seu corpo reagiu de forma esquisita, como se de alguma forma reconhecesse aquele outro que lhe tinha caído nos braços.

Seria ela, a mulher por quem se apaixonara no passado? Num breve segundo, quando a olhou pareceu-lhe descobrir surpresa no olhar feminino. Tinha de descobrir quem era, e se tivera no passado alguma ligação com ele.

Fosse quem fosse a mulher com quem,  segundo os amigos, vivera uma intensa história de amor naquelas férias, tê-lo-ia esquecido e estaria decerto casada, pelo que não esperava outra coisa que a sua libertação do passado, para poder pôr um ponto final naquela época e encarar enfim a vida, como qualquer homem da sua idade.

Bebeu o café, lavou o prato e a chávena e depois de os guardar foi para o quarto, descalçou os sapatos e deitou-se vestido sobre a colcha. Precisava dormir um pouco as noites no Serviço de Urgências costumavam ser complicadas, mas não sabia se ia conseguir.

 


6.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE II


- Bom dia! É verdade, embora só por dois dias, vim arejar a casa. E o ti’ Joaquim, já a apanhar as cebolas?
-Tem que ser. É uma pena teres esse terreno aí abandonado. Sabes o que devias fazer? Arranjar um marido, e voltares de vez. Tenho a certeza de que tanto a tua mãe como a tua avó, lá onde se encontram, ficariam muito mais descansadas se te vissem aqui a cuidar daquilo que tanto lhes custou a ganhar.
-Eu gosto disto, mas não sei se me habituaria a viver aqui de forma permanente. Habituei-me a viver na cidade, é lá que tenho a minha vida. Talvez um dia venda o terreno e fique apenas com a casa para passar uns dias quando me sentir mais cansada.
- De certa forma compreendo-vos. A aldeia não evoluiu, e o ser humano nunca está satisfeito com o que tem, então os nossos filhos partiram para a cidade em busca de melhor vida, e os filhos deles, que sempre tiveram muito mais do que os seus pais e avós, emigraram para o estrangeiro, porque a vida na cidade já não lhes chegava. E um dia vão dar-se conta de que lá, também é pouco para eles. E trabalham toda a vida cada vez mais, e nunca estão felizes, porque não sabem que a felicidade está dentro de nós e não nas coisas que nos rodeiam.
- O Ti’ Joaquim é um filósofo – disse Teresa sorrindo.
- Já pareces o meu neto, com essa conversa.
- O Alberto? Não o vejo há mais de cinco anos. O que é feito dele?
- Acabou o curso, casou com uma colega e estão os dois a trabalhar num hospital no Porto. É o único que ficou cá e que vou vendo de vez em quando; os mais velhos foram para a Austrália, nunca mais os vou ver.
- Não perca a esperança, qualquer dia vêm de férias.
- Não. A Austrália, fica muito longe, as viagens saem demasiado caras. Depois partiram sós, lá arranjaram companheira, fizeram os seus ninhos, já têm filhos. Essa, é agora a família deles e aquele o seu país. Do resto não reza a história. Bom tenho que ir levar as cebolas à mulher que daqui a pouco ela pensa que me perdi. Gostei de ver-te. Se pensares em vender o terreno fala comigo. O meu cunhado que está na França está a pensar voltar. Quer comprar um terreno aqui, para construir uma casa, mas ninguém quer vender.
-Fique descansado se pensar em vender, vou ter consigo, - disse a jovem e acrescentou em voz baixa quando o homem virou costas. - Se calhar mais depressa do que aquilo que pensa.
Pouco depois levantou-se e empreendeu o caminho do regresso a casa. Teresa era uma mulher morena, alta e esguia, de cabelos e olhos castanhos.
Na aldeia, conhecia toda a gente, e todos a conheciam já que ali nascera, na casa da avó Rosário, onde também nascera Ana, a sua mãe, vinte e cinco anos antes dela. Teresa, não acreditava no amor, nem nos homens. O seu avô largara a sua avó grávida de cinco meses para se juntar com outra mulher. O seu pai, bom esse, nem sequer chegara a casar com a sua mãe. Quando soube que a tinha engravidado, simplesmente desaparecera.
Desde bem pequenina, Teresa habitou-se a ouvir a mãe e a avó dizerem que os homens não prestavam, não consideravam as mulheres como suas iguais. Serviam-se delas quando delas podiam tirar algum proveito e descartavam-nas quando já não lhes eram úteis. De modo que bem cedo, jurou a si mesma, que nunca ia querer saber de homem algum e assim se manteve até à atualidade.



Gente, alguém me explica uma coisa? O primeiro capitulo desta história na Sexta-feira teve 19 comentários e 14 visualizações. É possível alguém comentar sem ver?

5.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXV


As horas decorriam com lentidão e cheias de preocupação em casa do Gil. As empregadas mantinham-se caladas e Inês tentava acalmar Mariana, sem muito sucesso. Era como se a menina se apercebesse do ambiente pesado que se vivia em casa e isso a assustasse.
No fim das consultas, Laura dirigira-se a casa do irmão, disposta a não sair dali, enquanto não soubessem notícias dele. E pouco depois Alcides, o noivo, reuniu-se-lhe. Ambos, tinham tentado vezes sem conta, entrar em contacto com o desaparecido, mas o telemóvel mantinha-se desligado. Quase à hora do jantar, chegaram Marco e a esposa, Isabel, que apresentava um ar cansado, provocado sem dúvida pelo seu avantajado ventre, de grávida de sete meses.
Enquanto jantavam, procuravam tomar decisões sobre o que fazer para tentar encontrar Gil. Interrogavam-se sobre o que lhe teria acontecido, quando Alcides disse:
- Já vos passou pela cabeça, que o Gil pode ter sido raptado?
Os outros pararam de comer e olharam-no incrédulos.
- Não me olhem assim. Por mais que pense só me ocorre essa possibilidade. Vejamos, ele telefonou às dez e meia da noite a dizer que estava na autoestrada a caminho de casa. E que ia chegar tarde. Portanto vinha pela A1. Mesmo que a essa hora ainda estivesse na zona do Porto, e contando que com a tempestade, não poderia conduzir a grande velocidade, chegaria a casa o mais tardar às três da manhã. Mas não chegou. Segundo informação da polícia não há qualquer registo de acidente, e o carro dele não foi encontrado. Vamos supor que ele decidiu sair da autoestrada e pernoitar em qualquer sítio por causa da tempestade. Poderia não telefonar durante a madrugada, mas tê-lo-ia feito logo de manhã. E teria vindo para casa de seguida. O Gil sempre foi um homem muito responsável, e depois do nascimento da Mariana tornou-se ainda mais. Por outro lado, o vosso irmão, que já era dono de uma fortuna considerável, não só por via dos grandes contratos de futebol que teve, como do que recebeu em publicidade, mas também porque tem um excepcional diretor de recursos financeiro, que aplicou uma boa parte do seu dinheiro em negócios que já quadruplicaram o investimento inicial. E com o êxito dos seus livros, e a venda dos direitos para o cinema, será talvez neste momento, o homem mais rico do País e um dos mais ricos da Europa. Não é isso mais que suficiente, para pensarmos num rapto?
- Mas… se assim fosse não deveriam já ter ligado para pedir o valor do resgate?- perguntou Laura.
- Talvez, mas nem sempre os raptores telefonam imediatamente. Devem pensar que quanto mais tempo passar, mais a família fica preocupada e mais fácil é, cederem às suas exigências.
- E o que devemos fazer?- interrogou Marco
Se realmente houve um rapto, não podemos fazer nada a não ser esperar. Entretanto, amanhã vou à polícia e denuncio o seu desaparecimento. Como já terão passado mais de vinte e quatro horas, e dado o seu perfil, é possível que a polícia inicie de imediato as buscas.  Convém que um de vós como família, me acompanhe à esquadra.
- Eu vou contigo, - disse Laura de imediato.
- Amanhã de manhã, tenho uma reunião com um cliente. Mas se achas necessário eu também vou - disse Marco.
- Não será preciso, basta a Laura, a polícia vai querer falar contigo assim que inicie uma investigação, mas isso será mais tarde. 
Fez uma pausa, enrugando a testa como se estivesse a pensar nos passos a seguir, e continuou:
- Depois como seu advogado e procurador, vou ao banco saber se houve algum movimento na sua conta. E pedir que nos avisem de imediato se isso acontecer.  Feito isso, só nos resta esperar.
O resto da refeição decorreu em silêncio. Nenhum  se atrevia a dizer em voz alta o que lhes ia na cabeça, mas todos tinham a certeza de que algo muito grave tinha acontecido.
Pouco depois do jantar, Marco disse que ia regressar a casa, alegando que a esposa estava muito cansada e precisava descansar. Perto da meia noite, também Alcides se despediu, pois Laura decidira ficar a viver em casa do irmão, até que houvessem notícias.




17.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXVII




Desde essa data, tinham-se passado quase doze anos. E em todo esse tempo, Luísa só se ausentara por duas vezes. A primeira, para ir a Lisboa, a segunda ao Porto, aquando das duas exposições de pintura que realizara nessas cidades, ambas com um êxito considerável, se atendesse a que não só vendeu todas as telas em exposição, como recebeu algumas encomendas. Tinha feito obras na casa de modo a torná-la mais moderna e sobretudo mais confortável. Mas nela nunca entrou homem algum a não ser o seu irmão, que ultimamente, desde que se empregara e tornara oficial o noivado, deixara de aparecer. No final do mês, exatamente no último dia do ano, Luísa faria trinta e quatro anos. Uma vida quase de eremita, com exceção do tempo que o irmão passara com ela, e da amizade que fizera com a simpática dona Aurora, a esposa do médico da vila.  Não raras vezes, sentia o peso da solidão, mas que fazer? Nessas alturas, pensava que trocaria, alguns anos da sua vida, pela sensação de se sentir amada de verdade, e pelo sonho de ser mãe. Era uma mulher jovem saudável, e o seu corpo sentia desejo, quando ia à vila e os seus olhos poisavam num atraente corpo masculino, mas isso era normal, ou pelo menos ela pensava que era normal em qualquer mulher.  
Todavia ela não era capaz de procurar satisfazer esse desejo numa sessão de sexo pelo sexo, sem quaisquer outros sentimentos e Jorge tinha destruído a sua confiança nos homens, matando a sua capacidade de amar. 
Tentara-o uma vez, há cinco anos com o seu agente. Ele estava apaixonado, era muito carinhoso e ela sentia-se só. Pensou que podia dar certo, mas na hora da verdade, ela recuou. Não era capaz de se casar e muito menos de se deitar, com um homem, que ela considerava um amigo, quase um irmão.
Ele ficara muito magoado, afastara-se durante uns tempos, mas acabara por entender, e também por encontrar outro amor.  Sacudiu a cabeça, como se quisesse afastar aqueles pensamentos e dirigiu-se à cozinha. Tirou a roupa do desconhecido da máquina de lavar e secar, onde a tinha deixado antes de ir dormir, e examinou-a. A camisa de seda azul,e o colete cinzento,da mesma cor do fato, apenas precisavam ser passados. As calças apresentavam um rasgão quase junto à bainha de uma das pernas. Dobrou os boxers e as meias, e colocou-os de lado em cima de uma cadeira.  Por fim examinou o casaco que embora bem amassado, não apresentava qualquer rasgão.  E felizmente a roupa parecia não tinha encolhido. Procurou na caixa de costura uma tira de tecido autocolante e ligou o ferro de engomar. Com as calças do avesso e o ferro quente colou o tecido ao rasgão. Teria que ficar assim, a costura não era uma das suas habilidades e nunca aprendera a passajar. Depois passou-as a ferro, passou as restantes peças, pendurou o fato num cabide e levou-o para a casa de banho.
Bom, quando o homem se levantasse, podia vestir-se e seguir o seu caminho. Ah! E os sapatos? Bom ainda estavam molhados e enlameados. Com um pano húmido limpou-os e com o secador de cabelo secou-os o melhor que pôde.
Finalmente foi para a cozinha, fez duas torradas e café e sentou-se a tomar o pequeno almoço.
A chuva continuava a cair, embora não tão intensamente como durante a noite, mas em compensação o vento e a trovoada tinham regressado. Acabou de comer, e foi para a sala, acendeu a lareira e sentou-se no cadeirão a ler. Que outra coisa podia fazer com semelhante dia? A luminosidade não dava para pintar no pequeno estúdio que tinha nas traseiras.  Oxalá o tempo melhorasse. Não lhe agradava ter um desconhecido em casa, mas não se sentia com coragem para o mandar embora com semelhante tempo. Continuava intrigada com a razão que o faria andar por aqueles sítios em noite de tal tempestade.
Teria tido algum acidente? Mas se assim fosse não deveria ter ficado no carro, enquanto aguardava por socorro?
Acabou por largar o livro em cuja leitura não conseguia concentrar-se. Ajeitou as achas na lareira e recostou-se no cadeirão fechando os olhos. Acabou por adormecer.



17.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVII



- Boa tarde Irene. Por favor liga à Margarida Souto, e pergunta-lhe se ela pode ir jantar comigo esta noite. Preciso da sua ajuda para a festa do António Ferreira, - disse Paula mal entrou na sua empresa.
Sem esperar resposta da secretária dirigiu-se ao seu gabinete, ligou o computador e passou as fotos do jardim da casa em Sintra para o mesmo.
Estudava as imagens quando Irene a interrompeu.
- Tenho a Margarida na linha. Ela quer falar contigo.
- Obrigada. Passa a chamada, - disse.
- Guida? Boa tarde.
-Boa tarde, Paula. A Irene diz que precisas de mim com urgência. Onde é o incêndio?
- Em Sintra no fim do mês. Uma boda de estanho, que deve ser de sonho, mas o tempo é muito curto. Só para teres uma ideia, só hoje conheci o espaço e tenho que ter o plano pronto amanhã para que o cliente aprove ou não, porque depois de amanhã ele vai viajar. Se puderes vir jantar comigo esta noite, vemos as fotos, e trocamos ideias. Pode ser?
- O Gustavo está no Porto, pelo que não tenho nenhum programa combinado. Conta comigo. Queres que vá agora já para aí, ou encontra-mo-nos mais tarde em tua casa?
- Podes vir já? A sério? Isso seria o ideal.
-Ok. Dentro de meia hora o mais tardar estou aí.
- Obrigada. Fico à espera.
Desligou a chamada e voltou a estudar as fotos. Vinte e cinco minutos mais tarde, a sua secretária introduzia no gabinete a decoradora.
Margarida era uma mulher de pouco mais de trinta anos. Possuía um rosto agradável, era de baixa estatura, e um corpo mais roliço do que os códigos da moda ditavam. O seu maior encanto era a simpatia que irradiava como uma auréola de toda a sua figura. Paula conhecera-a dez anos atrás, na Universidade, quando Margarida começara a namorar Gustavo, seu amigo e vizinho. A empatia entre as duas foi instantânea e em breve eram grandes amigas, apesar de não frequentarem o mesmo curso. Mais tarde quando a jovem casara com Gustavo, ela fora convidada para madrinha e desde aí os laços de amizade entre os três, estreitaram-se ainda mais.
Margarida fora sua confidente, quando se apaixonara por Adolfo com quem curiosamente a amiga nunca simpatizara. Costumava dizer que não vislumbrava sinceridade nos seus olhos. Quatro anos mais tarde, Paula viria a dar-lhe razão.
-Bom, aqui tens o bombeiro de serviço, - disse com um rasgado sorriso, depois de beijar a amiga.
-Vem ver estas fotos. São de um local onde tenho que realizar uma boda de estanho no final do mês.
- É uma bela casa. É de alguém que conheço?
- Talvez. Conheces o empresário António Ferreira?
- O “rei da Cozinha Portuguesa”?- perguntou a decoradora, que lançou um assobio de admiração perante o sinal de assentimento da amiga. - Mas o homem é casado? Nunca o vi acompanhado.
- A festa é para a irmã dele. Mas senta-te que conto-te tudo. Além da tua ajuda, preciso desabafar.

Esta história volta Segunda-feira. Uma Santa e Feliz Páscoa para todos 


27.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE VII



Quinze dias depois, Pedro acabara de chegar do Algarve, onde tinha formalizado a compra do Hotel Rio Azul em Albufeira. Não era uma grande unidade hoteleira, mas por algum lado se começa e de momento era o que estava disponível no mercado. cinquenta quartos, distribuídos por três pisos.
Tirou o casaco que pôs nas costas da cadeira, afrouxou o nó da gravata, tirou-a e meteu-a na gaveta, procurando ficar o mais confortável possível, para encarar um dia de trabalho intenso. Há três dias que estava fora, e no dia seguinte viajaria para o Porto para supervisionar as obras de ampliação do restaurante na cidade.  Em cima da secretária, tinha o envelope que no dia anterior Abílio Morais, o investigador a que sempre recorria, quando era necessário, entregara.
Abriu-o e leu atentamente todas as informações. Surpreendeu-se ao descobrir que a jovem Joana, tinha vinte e nove anos. Parecera-lhe muito mais nova e imaginou que fosse a irmã mais nova, de Catarina quando afinal era o contrário. Mas a sua surpresa foi muito maior ao descobrir que Joana tinha estudado restauração e hotelaria, e tinha formação em cozinha e pastelaria. Fora a responsável pela pastelaria, “Sonho de verão”,  no Príncipe Real, até há oito meses, altura em que teve de se despedir para cuidar da irmã  grávida e da mãe que na altura lutava contra um cancro na mama. Depois que a irmã morreu, dedicou-se ao fabrico de bolos e organização de festas de aniversário infantil. Criara uma firma na Internet e trabalhava por encomendas através dela. 
Segundo as informações recolhidas por Abílio, as duas irmãs eram muito unidas, e duas raparigas sossegadas. A mais nova apaixonara-se por um jovem bem-parecido e adiantara-se ao casamento. Quando o namorado soube que estava grávida, desapareceu e nunca mais souberam dele. A rapariga sofrera um grande desgosto, perdera a alegria e a vontade de viver, apesar de todos os esforços da irmã e da mãe, que sempre a apoiaram e animaram. Conseguira levar a gravidez até ao fim, mas dera o último suspiro, mal o filho nascera.
Pôs de lado o relatório e ficou pensativo. As informações coincidiam com o que Joana lhe havia contado naquele dia. Tinha que pensar no que ia fazer, mas ele queria aquele menino. Era da sua família, tinha direito a uma vida melhor do que aquela, que as duas mulheres lhe pudessem dar. Por outro lado, ele não tinha o direito de tirar-lhes a criança. Era tudo o que lhes restava, da filha e irmã que elas amaram. Ouviu-se um toque na porta e Rita entrou, trazendo alguns documentos para assinar.
- Aconteceu alguma coisa digna de registo enquanto estive fora? – Perguntou enquanto assinava o documento que tinha na sua frente.
- Nada a não ser os telefonemas da menina Cristina Barbosa, a perguntar se o senhor já tinha regressado. A propósito se ela telefonar hoje, o que faço?
- Passa-me a chamada. Faça com que este documento siga imediatamente para o seu destino. Depois localize o doutor Araújo e passe-me a chamada. É urgente.
- Mais alguma coisa doutor?
- De momento não, Rita.
A secretária pegou no documento e saiu, deixando-o entregue aos seus pensamentos.