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28.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXIX




- Vamos guardar as tuas coisas? - perguntou Nuno estacionando o carro uma hora mais tarde frente a um moderno edifício. 
Pegou na maleta, entraram no átrio e subiram no elevador, até ao primeiro piso. Nuno abriu a porta, e deu passagem à jovem fechando a porta atrás de si.
Encostou a mala à parede, e pegando-lhe na mão, disse:
- Vem conhecer a casa. Aqui temos a sala, é aqui que passo algum do meu tempo livre, ouvindo música ou vendo televisão.  Ali ao canto é a zona de refeições não tenho uma divisão específica para elas, como nunca recebo visitas, acabo sempre por comer na cozinha.
Voltaram ao vestíbulo onde ele apanhou a mala dela e abriu a porta em frente  mostrando um quarto, onde a enorme cama de casal se destacava..
-Aqui é o quarto principal, - disse pousando a mala dela  ao lado da cama - É o único com casa de banho integrada.   Mandei fazer-lhe  algumas adaptações na cabine do duche, para me facilitarem a vida. Agora vem conhecer o resto da casa. No vestíbulo abriu outra porta.
- Aqui, é o escritório e biblioteca. É aqui que tenho os meus livros de medicina, que leio ou estudo, e que comunico com médicos de outros países, sobre as mais recentes descobertas científicas. Tenho mais duas divisões,- disse fechando a porta do escritório. Abriu outra em frente - Este como vês, é um ginásio, com os aparelhos necessários ao tipo de exercícios que preciso, - fechou a porta e abriu a seguinte, - e aqui o quarto de hóspedes  que nunca foi usado, vivo aqui há pouco tempo.  A porta ao lado é uma casa de banho, e a porta mais à frente, é o meu laboratório como verás em seguida. 
- E não tens cozinha? - perguntou Luísa espantada
- Claro que sim, -  disse ele rindo. Chamo-lhe o laboratório porque gosto de me entreter a inventar receitas, nos meus tempos livres.
Abriu a porta e Luísa entrou na cozinha, maravilhada com o seu tamanho e funcionalidade.
- A casa é toda ela muito bonita. Mas  esta cozinha então, é o sonho de qualquer mulher. A minha casa como sabes é muito antiga. Fiz obras e modernizei a cozinha, mas é pequenina como viste.
Voltou-se e ficou presa nos braços dele, que estava mesmo atrás de si. Nuno inclinou a cabeça e os seus lábios aprisionaram a boca feminina, num beijo que se queria doce, mas que a paixão transformou num beijo intenso. A sua língua invadiu a boca feminina, com a mesma paixão de outrora. Ela levantou os braços, acariciando-lhe a nuca. As mãos de Nuno passeavam pelo corpo feminino, ora acariciando-lhe os seios através do fino tecido do camiseiro, ora descendo às ancas. Os seus corpos, procuravam-se como atraídos por um íman. Por fim, Nuno largou-a e voltou-se. Luísa percebeu que tinham voltado os seus receios. Pegou-lhe na mão e disse:
- Se tens algum carinho por mim, se ainda me desejas, vamos para o quarto. Agora. Acabemos de vez com esta agonia, que nos consome. Porém se não me queres, se não me desejas, diz-me e eu vou-me embora agora mesmo.
- Se não te quero? És a única mulher que amei em toda a minha vida. Meu Deus, nunca desejei nada com tanta intensidade na minha vida, como te desejo.
-Então vem.
Entraram no quarto, entre beijos apaixonados, Nuno começou a despi-la, sempre procurando nos olhos femininos algum sinal de medo ou rejeição. Porém Luísa, não sentia medo, sabia que o homem que a acariciava era incapaz de lhe fazer mal.
Completamente nua, deitou-a na cama dizendo:
- Dá-me uns minutos, enquanto vou à casa de banho, retirar a prótese.
Recostada nas almofadas, Luísa viu-o regressar uns minutos mais tarde, apoiado nas duas canadianas, o rosto pálido, os belos olhos escrutinando o rosto feminino, temeroso do que ela pudesse estar a sentir. Ela sorriu-lhe. Um sorriso terno, amoroso, de quem acolhe alguém que ama, e lhe dá as boas-vindas. Mais confiante, ele retribuiu o sorriso. 


8.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XVI

                                             



- Que se passa, Fernando? Dormiste mal, ou lembraste alguma coisa? – perguntou, mal ficaram sozinhos.
- Não se pode dizer que dormi mal. Agradeço-te mais uma vez a atenção que tens comigo. Mas tive um sonho esquisito, que não sei se tem alguma coisa a ver comigo, ou se é apenas um daqueles sonhos estúpidos que por vezes povoam os nossos sonos.
- Queres contar?

Ele recordou em voz alta, todos os pormenores do sonho, enfatizando o facto de o pianista não ter rosto.

- Achas que pode ter a ver alguma coisa comigo?´
- Não sei. Gostas de música?
- Muito. Mas isso não quer dizer que a toque, pois não?
- Claro que não. Mas se fosses profissional da música, decerto eras conhecido, e a polícia já saberia que tinhas desaparecido. A não ser que não fosses profissional, mas a ser assim também não irias atuar num tão grande auditório. Não se encaixa. Ouve, seria um daqueles concursos em que os amadores vão mostrar os seus talentos, na busca de se tornarem conhecidos?

- Não. Lembro-me de ter visto anunciado na entrada, um concerto. E uma sala daquelas, completamente cheia, deveria querer dizer que era alguém conhecido.
- Então não pode ter a ver contigo. A polícia saberia. Deve ser um daqueles sonhos sem nexo que todos temos.
Apetece-te almoçar fora? - perguntou mudando o rumo à conversa.
- Preferia fazê-lo aqui. Deves compreender que não me sinto bem, contigo a pagar todas as contas. Mesmo que digas que se trata de um empréstimo e que te pago quando recuperar a memória. É humilhante.
- Para mim não. Mas se te sentes melhor em pagar o almoço, passamos pelo multibanco e levas dinheiro.

Ele baixou o rosto e escondeu-o entre as mãos. O seu desespero era uma realidade, mas ela estava disposta a ajudá-lo. O porquê, era algo em que não queria pensar de momento.

-Não fiques assim. Quando menos esperares, tudo se resolve. Vamos despachar-nos, para ir às compras. Precisamos comprar duas ou três mudas de roupas para ti, amanhã vamos para casa dos meus pais e não vais andar todos os dias com a mesma roupa.
- Mas doutora, o que vão dizer os teus pais? E que vou dizer-lhes eu, quando me fizerem perguntas?
- Logo se verá.  Cada coisa a seu tempo. Não te preocupes com isso agora.


30.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LII


 

Com todos os cuidados que lhe dispensavam, Teresa sentia-se agora mais confiante, embora como toda a grávida de risco, continuasse com um certo receio que, no entanto, tentava afugentar com a leitura, ou a música.

As enfermeiras, eram simpáticas e muito profissionais. Estavam sempre atentas aos seus mais pequenos gestos, zangavam-se quando não queria comer tudo, e mimavam-na quando acontecia o contrário, fazendo-a recordar os cuidados da mãe quando ela era criança. Por vezes tinha vontade de se insurgir, mas ao lembrar-se dos três bebés que tinha no ventre e das advertências médicas, engolia a revolta e fazia o que lhe mandavam.

Com os comprimidos para o enjoo, as náuseas eram agora mais raras, e assim foi ganhando peso, e a cor voltou ao seu rosto, antes sempre lívido.

Continuava com muito sono, levava grande parte dos dias a dormir e dava graças por isso, porque fazia com que o tempo de imobilidade não lhe parecesse tão longo.

A cozinheira da empresa confecionava os almoços e jantares durante a semana, para o patrão e as enfermeiras, e ao fim de semana, as refeições vinham de um restaurante próximo. As suas continuavam a ser confecionadas pelas enfermeiras que seguiam rigorosamente as indicações da médica. João estabelecera uma certa rotina que consistia em ele comer na hora em que ela o fazia, e passar depois todo o tempo em que as enfermeiras se ausentavam para comer, junto dela.

Interessava-se por saber como se sentia, falava-lhe do seu trabalho, contava-lhe episódios mais ou menos engraçados do seu dia a dia, e Teresa deu por si a desejar essas horas em que estavam os dois sozinhos em ameno convívio.

Olga ia vê-la todas as manhãs e levava sempre um ramo de flores com que lhe alegrava o quarto. Inês também fora vê-la duas vezes e numa delas no último fim de semana, levara Martim, o que muito a alegrara pois adorava o afilhado.

E assim se passaram os dez dias e naquela manhã era dia de voltar ao hospital, para avaliar da sua recuperação.

Pouco antes das onze horas, João parava junto da porta do hospital, onde se faziam as consultas externas, para que Teresa e Sandra saíssem e ia depois estacionar o automóvel. Pouco depois juntava-se-lhes na sala de espera, onde a duas aguardavam pela consulta  que a médica marcara para aquela hora. Vinte minutos mais tarde, Teresa foi chamada.

A médica admirou-se com a diferença operada na jovem, mas antes de a observar mandou-lhe ir fazer uma série de análises. Sempre acompanhada pela enfermeira Sandra, deslocou-se ao laboratório do próprio hospital, fez os exames e regressaram à sala de espera junto ao gabinete para aguardar os resultados.

Então Teresa ligou ao empresário avisando que provavelmente a consulta demoraria, e que talvez ele tivesse trabalho urgente no escritório, elas podiam regressar de táxi, mas ele respondeu-lhe que nada era mais prioritário na sua vida do que ela e as crianças que esperava.

Felizmente as análises não foram muito demoradas, já que meia hora depois, a médica voltava a chamá-la.

- As suas análises estão ótimas. Não há qualquer vestígio de infeção, nem de diabetes e a anemia desapareceu. Vamos pesar?

Recuperou peso, mas ainda está abaixo do normal para uma grávida da sua altura, – disse ao verificar o peso. Como é que estamos de náuseas? Melhorou com os comprimidos?

-Muito, embora os vómitos não tenham parado por completo.

- Os vómitos vão parar em breve. Está com oito semanas, muito raramente eles persistem depois das doze semanas. Vamos deitar e preparar para fazer uma ecografia.

20.12.19

CONTOS DE NATAL - MÚSICA PARA OS MEUS OUVIDOS



Sentei-me em silêncio no banco de trás enquanto regressávamos a casa de uma cerimónia vespertina da igreja, onde tinha ouvido, uma vez mais, a maravilhosa história do nascimento de Jesus. E o meu coração transbordava de alegria enquanto nós os três entoávamos conhecidas canções de Natal vindas do rádio do carro.
Com o nariz achatado contra o vidro do carro, não conseguia tirar os olhos das decorações dos grandes armazéns. À medida que passávamos pelas casas com árvores de Natal iluminadas nas janelas, imaginava as prendas debaixo delas. A alegria própria da quadra estava por todo o lado.
A minha felicidade durou apenas até chegarmos à estrada empedrada que levava à nossa casa. O meu pai virou para o escuro caminho rural onde a casa se erguia há duzentos anos. Não havia luzes de boas-vindas a saudar-nos; não havia árvore de Natal a brilhar na janela. E a tristeza tomou conta do meu coração de menina de nove anos.
Tal como as outras crianças, eu não podia deixar de desejar árvores e prendas. Mas estávamos no ano de 1939, e eu tinha sido ensinada a ser grata pelas roupas que me cobriam e os sapatos que me calçavam, a ser grata por ter alimento e casa — mesmo que muito humilde. Já tinha ouvido, mais que uma vez, os meus familiares dizerem “as árvores de Natal são um desperdício de dinheiro.” E eu supunha que os presentes também deviam ser.

Embora os meus pais tivessem já deixado o carro e entrado em casa, eu mantive-me lá por fora e deixei-me cair sobre os degraus do alpendre — receando perder toda a alegria própria da quadra festiva que tinha sentido na cidade, e desejando que o Natal estivesse também em minha casa. Quando, por fim, o frio da noite trespassou o meu vestido e o casaco de malha, estremeci e coloquei os braços à volta de mim própria, como num abraço. Nem mesmo as lágrimas quentes que me caíam pela face abaixo conseguiam aquecer-me.

E foi então que ouvi. Música. E cânticos.

Ouvi, e olhei para as estrelas que se amontoavam no céu, brilhando mais intensamente que nunca. Os cânticos rodearam-me, animando-me. Algum tempo depois, dirigi-me para dentro de casa para continuar a ouvir o rádio, pois aí estaria mais quente. Mas a sala de estar estava envolta em escuridão e silêncio. Que estranho! Regressei lá fora e ouvi de novo os cânticos. De onde é que aquilo vinha? Talvez do rádio do vizinho? Percorri a pé a estrada comprida, com aquela música maravilhosa a acompanhar-me durante todo o percurso. Mas o carro do vizinho nem se encontrava ali, e a casa deles estava tranquila. Até mesmo a árvore de Natal deles estava às escuras.
A música, contudo, ouvia-se mais alta do que nunca, seguindo-me e ecoando à minha volta. Poderia vir da casa do outro vizinho? Mesmo à distância, eu conseguia ver que também não estava lá ninguém. Ainda assim, percorri os quase trezentos metros que separavam a casa deles da nossa. Mas não havia nada, nem ninguém. No entanto, os cânticos continuavam, cristalinos e puros. Ouvia-os distintamente. E as estrelas, naquela noite, brilhavam com tanto esplendor que eu nem sentia medo de voltar para casa sozinha.
Uma vez chegada a casa, sentei-me de novo nos degraus do alpendre e refleti sobre este milagre. Pois, para mim, era um milagre. Porque eu sentia, no meu coração, que estava a ouvir uma serenata dos anjos.
Já não sentia frio ou tristeza. Agora estava quente e feliz, por dentro e por fora. Enquanto olhava lá para cima, para aquela infinitude, rodeada pelos louvores dos anfitriões celestes, soube que tinha recebido uma linda prenda de Natal – uma prenda vinda diretamente do Alto.

A prenda do amor. A estrela brilhante.

E um Natal eterno.

22.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVIII




-E pronto, agora que já sabes o que se passa o que te parece?
- Tens a certeza que ele desistiu de arruinar o teu pai?
-Quando soube que ele tinha recebido os documentos da “Casa Nova”, pensei que me tinha enganado  e sabes como sou. Procurei-o e disse-lhe que ele não tinha palavra, que não era confiável. E então ele entregou-me todos os documentos que restituem ao meu pai a “Casa Nova” pedindo-me apenas que não lhos entregasse até ao fim do mês.
-Mas então os documentos já estão contigo?
- Não. Eu devolvi-lhos. Entendi que se ele confiava em mim, também devia confiar nele.
- Bom, espero que não te tenhas enganado. Se o homem está a ser sincero e vai mesmo desistir da vingança, só pode estar apaixonado por ti.
- Ou quer fazer de mim o instrumento de vingança, contra o meu pai, por pensar que isso é maior vingança do que arruiná-lo. Mas isso não importa. O importante, é que faça uma festa de sonho para a irmã dele, de modo a que cumpra o nosso contrato, e me entregue os documentos. Depois com um pouco de sorte nunca mais o vejo.
- Não acredito. Mas como não o conheço, não me quero aventurar em palpites. Por isso é melhor dedicar-mo-nos ao trabalho. Enquanto eu analiso as fotos, vai-me dizendo qual a tua ideia.
- Bom, eu pensei fazer a cerimónia de renovação de votos aqui na parte da frente da casa. Ao fundo junto ao muro ficará o altar. Dos dois lados as cadeiras para os convidados. Como estamos a entrar no Verão as temperaturas estão altas, pensei num cenário tropical, com tendas brancas abertas, ladeadas por vasos com palmeiras.
-Quantos convidados?
-Oitenta.  
Durante duas horas as duas amigas mergulharam no trabalho. Enquanto Paula ia expondo a sua ideia, Margarida ia fazendo o plano, tomando nota do que precisavam fazer, do material que iam necessitar e anotando os números do telefone das empresas onde adquiri-los. Depois passaram à parte de trás da casa onde decorreria a festa propriamente dita, com muita música e comida.
 - Aqui temos um bom espaço. Colocamos as mesas perto da casa numa só tenda. O grupo musical pode ficar debaixo do alpendre e a pista de dança ao fundo junto à piscina.
- Eu poria as mesas junto à piscina, protegidos por chapéus de sol, com uma única tenda atrás, onde seriam colocados os menus a serem servidos 
-Boa ideia. Eu tinha pensado deixar os menus na cozinha, mas assim ficariam mais perto. E a música?  
- O ideal seria conseguirmos a colaboração do Inácio Assis. É um músico fantástico, tem uma bela voz, e está na moda. Estaria mais de acordo com o tipo de festa que estamos a pensar do que o grupo musical que costumas contratar, -disse Margarida.
- É verdade, mas nunca trabalhei com ele nem sei se está livre nesse dia, ou mesmo se faz este tipo de trabalho.
-Falo com ele amanhã. É amigo nosso. Se não tiver nada marcado para esse dia, decerto aceita. Convém-lhe conhecer um empresário como o António Ferreira, com tantos restaurantes onde se realizam muitas festas ao longo do ano.
- Depois me dirás, se aceita ou não. Vamos jantar agora e acabamos depois?
-Vamos, -respondeu a decoradora.


8.9.18

FOLHA EM BRANCO PARTE L





Dizem que o tempo voa, mas para Mariana, os dias decorriam numa lentidão exasperante. Miguel passava os dias no estúdio, apenas descia para almoçar, sabendo que Luísa e a filha estavam em casa. À noite, não descia para jantar, e quando vinha dormir era já madrugada. Mariana, passava os dias com a amiga, que devido à época de festas que atravessavam, não tinha aulas. 
Ora saíam, ora se fechavam no quarto, ouvindo música, ou perdendo-se em longas conversas. Não era de estranhar que se tivessem tornado inseparáveis. Para Mariana, a amiga, era a única pessoa, mais ou menos da sua idade, com quem convivia desde há largos meses. Maria, admirava a amiga, pelo que ela sofrera, e pelo carinho com que sempre a tratara.
E assim se chegou ao último dia do ano, um invernoso dia de vento e chuva. Luísa e a filha, saíram a meio da tarde, em dias assim era mais difícil apanhar transportes e elas moravam no outro lado da cidade.
-Deixei o jantar preparado, menina. É só aquecê-lo no Micro-ondas, - disse antes de partir.
- Não se preocupe Luísa. Aproveitem, sair agora, parece que a chuva e o vento amainaram um pouco.
Pouco depois a chuva voltava em força.
Sete e meia da tarde, ouviu-se o primeiro trovão.
“Só cá faltava a trovoada” murmurou contrariada.
Correu os cortinados, apagou a luz e dirigiu-se à sala.
Abriu um livro, mas não conseguiu ler. A trovoada estava cada vez mais próxima, e  ela cada vez mais nervosa.
Miguel descia as escadas, quando um relâmpago, fez da noite dia, e o trovão soou ameaçador por sobre as suas cabeças, ao mesmo tempo que a luz se apagava, mergulhando a casa na escuridão.
Ela gritou assustada, e rapidamente ele estava a seu lado abraçando-lhe o corpo tremente.
Tens medo? – Perguntou baixinho
Contigo não.- Respondeu no mesmo tom.
Novo relâmpago, novo trovão, desta vez ainda mais assustador, como se a tempestade que eles traziam no peito, se tivesse  materializado lá fora, no espaço.

Ela apertou o cerco dos seu braços e pediu num sussurro:
-Beija-me, Miguel!
Ele afastou-a ligeiramente
- Não me tentes, Mariana, não me tentes!





26.7.18

O DIREITO À VERDADE - L




A meio da tarde, os noivos partiram o bolo e pouco depois na pista de dança, Cláudio segredou à sua mulher:
- Quando a música acabar, vamos sair. Estou ansioso por estar a sós contigo.
-E os convidados, não ficarão zangados?
- Os convidados querem é divertir-se. Na verdade ninguém espera que os noivos fiquem até ao fim da festa. Eles também sabem o que é estar apaixonados. E demais os dias são pequenos, daqui a pouco é noite e ainda vamos para Coimbra.  O pai se encarregará de nos desculpar e a festa continuará sem problemas.
Quando os jovens planearam o casamento, impôs-se a escolha do local para a lua-de-mel. Helena disse que gostaria de ir uns dias para Coimbra, não só porque sempre desejou conhecer a cidade, como porque fora lá que se conheceram e se apaixonaram. O pai não achou bem. Afinal Coimbra ficava a dois passos, em qualquer altura podiam lá ir passar um dia, ou até um fim-de-semana. Mas Cláudio apoiou a noiva e assim decidiram que passariam três dias em Coimbra, e os restantes sete no Algarve, afinal estava-se no final de Novembro, com o Inverno à porta, e no sul, a temperatura sempre era mais agradável. Era a vontade da noiva que rejeitou a viagem a Paris, que o tio lhe queria oferecer, dizendo que não se justificava ir para o estrangeiro, quando não se conhecia nada do seu próprio país.
Durante o resto da música, os noivos foram-se encaminhando, subtilmente, em direção da porta e mal a melodia terminou, esgueiraram-se de mãos dadas para o átrio, onde o empregado do hotel, que já tinha sido avisado, lhes entregou as chaves do carro, que já  estava estacionado junto à porta.
Poucos minutos decorridos, o carro entrava na quinta e estacionava frente ao alpendre. Saíram do carro e assim que abriu a porta de casa, Cláudio voltou-se e pegou na noiva ao colo.
- Que fazes?- Perguntou enlaçando-lhe o pescoço.
- É a primeira vez que entras nesta casa como minha esposa. Manda a tradição que o faças nos meus braços e confesso-te que nunca uma tradição foi cumprida com maior prazer, - disse ele encaminhando-se diretamente para o seu quarto, com a  noiva ao colo.
- Mas a minha mala está no meu quarto.
- O teu quarto, agora é o meu, senhora minha,- disse ele pousando-a no chão,
sem deixar de a manter presa nos braços. Procurou a sua boca e beijou-a apaixonadamente, enquanto as mãos ágeis  nas suas costas, procuravam o fecho  do vestido, e começavam a corrê-lo. Continuando a beijá-la começou a despi-la. Notou que a jovem tremia, e lembrando que a mulher que tinha nos braços era virgem, prometeu a si mesmo, controlar a sua paixão, e ser paciente. Teria uma vida pela frente, para dar livre curso ao desejo que o invadia. Aquela era a primeira vez dela, e queria que a recordasse toda a vida como uma coisa muito bonita e prazerosa. Quando o vestido caiu no chão, puxou o édredon para trás, sentou-a na cama e ajoelhando na sua frente, despiu-lhe os colãs, mas conteve o desejo de a ver nua, e não lhe tirou a minúscula cuequinha nem o lindo sutiã de renda branco.  De seguida estendeu-a  sobre a cama, cobrindo-a de seguida. A casa estava fria, a lareira não fora acesa naquele dia, e a mulher doente na lua-de-mel, era tudo o que ele não desejava.
 Sentou-se na cama, descalçou os sapatos e tirou as meias. Desapertou o cinto e tirou as calças e camisa. Levantando o édredon estendeu-se a seu lado Abraçou-a e sussurrou ao seu ouvido.
- Não tenhas medo. Vou fazer com que isto seja especial.
Ela não duvidava de que assim seria. Recordar-se-ia daquele dia, por toda a vida, mesmo quando o seu rosto se enchesse de rugas, e os netos brincassem à sua volta.


E pronto, amanhã chega ao fim esta história.  Entretanto informo que graças aos tratamentos de fisioterapia, tenho menos dores. A cirurgia ao olho será em Novembro, e a consulta de neurologia só consegui para Setembro. 



16.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXII





Acabava o pequeno-almoço, quando a sogra e a irmã chegaram da missa.
- Bons-dias. Passaram bem a noite? – Perguntou Antónia, a mãe de João.
- Que pergunta mulher. Na idade deles só passam mal a noite se estão doentes, - disse a tia Margarida.  E acrescentou de seguida, - vou assar um pedaço de cabrito para o almoço. Vocês só vão depois de almoçar, não é verdade?
- Estávamos a pensar ir antes, tia. Vai estar um dia de calor infernal, é melhor irmos já. Almoçamos pelo caminho, e chegamos com tempo suficiente para descansar um pouco e ir visitar a minha sogra. A Odete está preocupada com a mãe, não é verdade querida?
Não pôde deixar de o olhar, desconcertada. Minutos antes, estava a propor-lhe uma manhã de praia, e agora estava com pressa de regressar?
- É verdade que estou preocupada. Me desculpem, mas a ideia de vir foi do João, eu teria preferido ficar junto dela, mas apesar disso acreditem que gostei muito de conhecer a cidade, e de estar convosco. E prometo-vos que voltarei noutra altura para ficar mais tempo, - disse sem olhar para o marido. Agora se me dão licença, vou arrumar as minhas coisas.
Já no quarto, procurou no armário, lençóis limpos para fazer a cama, levando os outros para a casa de banho, onde se encontrava o recetáculo para a roupa suja.
Depois colocou a maleta em cima da cama e começou a meter nela as suas coisas. Estava desesperada. Devia estar doida quando pensou que conseguia enfrentar o marido com indiferença. Que a raiva que sentia lhe daria forças. E ali estava, sem saber qual o jogo que o marido estava a jogar, e por causa da doença da mãe, completamente nas suas mãos.  E pensar que ela pensara, que ele era a sua alma gémea. Sobressaltou-se com o toque do telemóvel. Atendeu, e durante uns minutos falou com a irmã que lhe telefonava para saber como estava a mãe. Terminava a chamada quando João entrou no quarto. Desligou o telemóvel e guardou-o, sem dar nenhuma explicação ao marido que a olhava com um ar interrogativo. Ele que pensasse o que quisesse.
- Estás pronta?
- Para dançar ao toque da tua música? Sim meu senhor, e meu amo, - disse com ironia
Ele não respondeu. Limitou-se a pegar na maleta e a sair sem olhar para ver se o seguia.



Parece que a maioria já entendeu que a Inês foi a culpada da separação destes dois. Mas será que foi mesmo? Será que os complexos dos dois, a sua insegurança não foi a real culpada?
Que vos parece? Vai acabar bem ou vai acabar num divórcio? 



30.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXIX


                                                                      Foto do google



Pouco antes do seu aniversário, Manuel acabou de pagar a motorizada e resolveu comprar  um rádio a pilhas. Era um rádio grande, com gravação e leitura de cassetes.  Era um bocado caro, mas o dono da loja facilitava o pagamento em prestações, e depois os filhos mereciam ter música em casa. Não era por ele que continuava com a sua velha galena a ouvir o que gostava, quando tinha tempo para isso. Mas as crianças não terem um rádio, numa altura em que já tanta gente tinha TV era uma tristeza.
Nesse Verão, um dos cunhados casa-se e vai viver para Palhais. Entretanto a filha mais velha vai passar um mês ao norte, a casa de familiares pois há quase três meses anda com uma tosse que não passa apesar de todos os xaropes tomados. Dizem-lhe que quando assim é, só mudança de ares. Também nesse mês, morre no hospital em Lisboa a sogra do Manuel de cancro na garganta, e a mulher traz para casa o pai, que no ano anterior sofrera um AVC e ficara afectado mentalmente.  Combina com os irmãos e fica decidido que cada filho, cuidará do pai durante um mês.
 Ainda nesse ano, pouco depois dos anos da filha mais velha, enquanto Manuel pisava a uva com alguns amigos, no lagar do Bernardino, começa a germinar-lhe na cabeça um desejo. Poder no ano seguinte fazer vinho. 
O Bernardino, caseiro de uma das quintas da seca, e amigo de longa data do Manuel, tinha um grande lagar onde todos os anos fazia vinho. Não que na Seca houvessem vinhas. Mas ele comprava a uva na zona de Palmela, que depois vinha numa camioneta até à Seca. Fazia sempre muito mais do que precisava para consumo próprio, pois o pessoal do norte gosta da pinga caseira e mais ninguém na Seca tinha lagar. Assim sempre lhe pediam para fazer com ele o vinho. Uns compravam um barril de 100 litros, outros de 150 ou uma pipa de 200 litros. No ano anterior, também Manuel comprara uma pipa de 100 litros. E este ano ia pelo mesmo.  Mas começa a pensar que talvez quem saiba um ano possa fazer o seu próprio vinho.
Em breve recomeça a safra do bacalhau. O pessoal anda cada vez mais apreensivo. As poucas notícias que lhe chegam sobre  as colónias, são cada dia mais preocupantes, mas a PIDE está cada dia mais activa e ninguém se atreve a pensar em voz alta o que lhes vai na alma, pois nunca se sabe quem  os está a ouvir, e às vezes, até as paredes têm ouvidos. O clima de desconfiança que reinava entre o pessoal, acabara com a alegria de anos antes, e tornava a tarefa mais pesada.
A 22 de Novembro o presidente Kennedy é assassinado.
A América é lá tão longe, mas por estranho que pareça, Manuel e alguns dos seus camaradas na Seca, têm uma admiração especial pelo homem, e ficam quase tão chocados como se lhes matassem um amigo pessoal.

27.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE L.





Dizem que o tempo voa, mas para Mariana, os dias decorriam numa lentidão exasperante. Miguel passava os dias no estúdio, apenas descia para almoçar, sabendo que Luísa e a filha estavam em casa. À noite, não descia para jantar, e quando vinha dormir era já madrugada. Mariana, passava os dias com a amiga, que devido à época de festas que atravessavam, não tinha aulas. 
Ora saíam, ora se fechavam no quarto, ouvindo música, ou perdendo-se em longas conversas. Não era de estranhar que se tivessem tornado inseparáveis. Para Mariana, a amiga, era a única pessoa, mais ou menos da sua idade, com quem convivia desde há largos meses. Maria, admirava a amiga, pelo que ela sofrera, e pelo carinho com que sempre a tratara.
E assim se chegou àquele dia 30 de Dezembro, um invernoso dia de vento e chuva. Luísa e a filha, saíram a meio da tarde, em dias assim era mais difícil apanhar transportes e elas moravam no outro lado da cidade.
-Deixei o jantar preparado, menina. É só aquecê-lo no Micro-ondas, - disse antes de partir.
- Não se preocupe Luísa. Aproveitem,  ir agora, parece que a chuva e o vento amainaram um pouco.
Pouco depois a chuva voltava em força.
Sete e meia da tarde, ouviu-se o primeiro trovão.
“Só cá faltava a trovoada” murmurou contrariada.
Correu os cortinados, apagou a luz e dirigiu-se à sala.
Abriu um livro, mas não conseguiu ler. A trovoada estava cada vez mais próxima, e  ela cada vez mais nervosa.
Miguel descia as escadas, quando um relâmpago, fez da noite dia, e o trovão soou ameaçador por sobre as suas cabeças, ao mesmo tempo que a luz se apagava, mergulhando a casa na escuridão.
Ela gritou assustada, e rapidamente ele estava a seu lado abraçando-lhe o corpo tremente.
Tens medo? – Perguntou baixinho
Contigo não.- Respondeu no mesmo tom.
Novo relâmpago, novo trovão, desta vez ainda mais assustador, como se a tempestade que eles traziam no peito, se tivesse  materializado lá fora, no espaço.

Ela apertou o cerco dos seu braços e pediu num sussurro:
-Beija-me, Miguel!
Ele afastou-a ligeiramente
- Não me tentes, Mariana, não me tentes!




22.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLII


Miguel não conseguia desviar os olhos da jovem. Desde o primeiro dia, sempre a achara muito bonita, mas também sempre a vira como uma adolescente. Nunca assim, tão bela, tão feminina, tão mulher.
Depois do jantar, Mariana tomou a iniciativa. Escolheu um CD de música romântica, e quando se ouviram os primeiros acordes, estendeu-lhe a mão dizendo:
-Vem, apetece-me dançar.
Ele enlaçou-a, e ela passou os braços à volta do pescoço masculino, fechou os olhos e deixou-se levar. Dançaram largo tempo, em silêncio, embalados mais pelas emoções, do que pela música, cada um sentindo no seu, o desejo pelo corpo do outro. Para ela, que cedo descobrira o seu amor por Miguel, e o fora alimentando de sonhos para o futuro, a noite era a concretização de um desses sonhos. Para ele que começou por ter pena da jovem, que se foi afeiçoando a ela, sempre olhando-a como uma miúda, que se sentira um pouco pai da jovem, confundindo sentimentos, o que estava sentindo agora, era como um pesadelo, não fazia sentido, era uma aberração e um sacrilégio. Por isso, quando sentiu os dedos femininos na sua nuca, movendo-se numa suave carícia, empurrou-a com firmeza.
-Basta! Já chega!
Passou a mão pela testa, e deixou-se cair no sofá.
Ela não desistiu. Sentou-se no braço do sofá, e inclinou-se para ele.
Porquê Miguel? Não gostas de dançar? – Perguntou baixinho, provocando,  com aparente ingenuidade.
O perfume dela, envolvia-o, inebriava-o. Tinha vontade de abraçá-la e beijá-la até à exaustão.
Em vez disso cerrou os punhos, apelando a toda a sua força interior.
- Não brinques, comigo.
- Não estou a brincar, Miguel. Não percebes que te amo? Que estar nos teus braços me faz a mulher mais feliz da terra?
Levantou-se de um salto, todos os músculos retraídos.
- Não sabes o que dizes. Não devias ter bebido…
Levantando-se, aproximou-se dele:
-Não é o álcool que me dá a volta à cabeça. São os teus olhos, a tua presença, o teu cheiro. Tu é que me dás a volta à cabeça, me inebrias e me pões tonta. Porque resistes?
Miguel travava uma dura batalha consigo mesmo. Por um lado, as palavras de Mariana, soavam aos seus ouvidos como um canto de sereia, e iam ao encontro dos seus instintos masculinos.  E se o desejo de se deixar ir, de a apertar nos seus braços e mostrar-lhe como ele era capaz de amar, era grande, por  outro, o seu código de honra, o facto de saber que ela não tinha mais ninguém no mundo, e a promessa que a si mesmo fizera de a proteger  impediam-no de tomar outra atitude que não fosse a rejeição.
Esforçando-se por se controlar, disse com voz rouca:
- É muito tarde.Vai dormir. Amanhã  conversamos.
E voltando-lhe as costas, encerrou-se no quarto.