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5.11.19

UMA HISTÓRIA PARA REFLETIR



No Domingo, o Padre da minha paróquia na homilia contou uma história de que muito gostei. Cheguei a casa e escrevi-a
como ele a contou. Como não sabia se a autoria da história, era dele ou de outra pessoa, procurei na Internet e com poucas alterações encontrei-a em vários sites, sempre como sendo de autor desconhecido.  Aqui a deixo tal como ele a contou.




                                                 *************************



Um velho professor foi de férias aos Açores.  Um dia, passeava por um belo jardim, quando um homem jovem aproximou-se dele, cumprimentou-o e perguntou:
- O senhor lembra-se de mim?
O velhote olhou, mas não reconheceu o outro homem.
-Fui seu aluno na primária, lá no continente - diz o homem.  -Também sou professor.
- Olha que bom, - responde o velhote. - E de algum modo eu contribui para que escolhesse essa profissão?
O homem mais jovem pegou-lhe no braço, e disse:
- Venha daí, vamos sentar-nos.
Sentaram-se num banco e o mais novo falou:
-Quando eu andava na segunda classe, um dia um colega chegou à escola com um relógio novo. Era um relógio muito bonito, e eu nem relógio tinha, a minha família era muito pobre, o dinheiro mal chegava para comer. Não sei o que me deu, mas na hora do recreio fui ao vestiário e surripiei o relógio do bolso do casaco do meu colega.
A seguir entrámos na aula e o outro miúdo queixou-se do roubo. O senhor disse que ninguém saía da aula antes do relógio aparecer, e pediu que quem o tirou, o devolvesse. Fiquei apavorado, pensando na vergonha que meus pais iam sentir, na confiança dos colegas que ia perder e não tive coragem de entregar o relógio. Então o senhor mandou que todos nos levantássemos, fizéssemos uma fila indiana e fechássemos os olhos. O senhor ia meter a mão nos bolsos de cada um a fim de encontrar o relógio, mas ninguém podia abrir os olhos sob pena de ser castigado. Fiquei na fila a tremer esperando o momento em que encontrasse o relógio e me denunciasse. Mas o senhor pegou o relógio e continuou até ao fim da fila, e só então disse que podíamos abrir os olhos, já tinha o relógio. Entregou-o ao dono, mas não disse a ninguém quem o tinha. Naquele momento senti que tinha renascido. Eu tinha-me tornado um ladrão, tinha perdido a minha dignidade, e de repente o senhor devolveu a minha dignidade. A sua atitude era uma lição para mim, e naquele mesmo momento jurei a mim mesmo, que ia ser professor. Queria ser como o senhor. 
Calou-se emocionado e por fim perguntou:
-Porque o Senhor nunca me disse nada, nem mesmo quando estávamos sós?
- Meu jovem, - respondeu o velhote com um sorriso. - Até hoje, nunca soube quem tinha tirado o relógio. É que não foram só vocês que ficaram de olhos fechados. Antes de começar a meter as mãos nos vossos bolsos, também eu fechei os meus.




27.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXIII


Paula levou o irmão à escola, cumprimentou o professor e aguardou que o autocarro partisse. De seguida foi a casa, buscar o seu vestido para a festa dessa tarde. Depois seguiu para Sintra. Embora a festa fosse às dezasseis horas, os convidados deveriam começar a chegar uma hora antes, e ela tinha que verificar se não se esquecera de nada. Também colocar as flores que tinha encomendado para adornar todo o espaço. Na véspera, ela e Margarida tinham deixado tudo pronto. Exceto os arranjos florais que só seriam colocados no sítio, umas horas antes da cerimónia a fim de se manterem viçosos.
Introduziu o código que lhe permitia a entrada e estacionou junto à garagem. Saiu do veículo e dirigiu-se à casa. Preparava-se para tocar quando a porta se abriu, e encontrou-se na presença do anfitrião.
-Bom dia, -saudou.
- Bom dia, Paula. Vieste cedo, - disse afastando-se para lhe dar entrada. Não lhe tocou com qualquer cumprimento que não fosse oral.
- Preciso colocar as flores para adornar o espaço e dar uma última olhada para ver se não me esqueci de nada. A propósito, sabes se a florista, já veio trazer as flores?
-Uma carrada delas. Estão na tenda nas traseiras. Já te ajudo a levá-las mas antes quero apresentar-te a minha mãe.
Colocou-lhe a mão no ombro e empurrou-a suavemente para a sala.
A senhora que se encontrava na sala a ler, levantou a cabeça encanecida, e olhou com certa surpresa, ao ver o filho entrar com uma jovem desconhecida. Pôs-se de pé, e a jovem pode observar que era de baixa estatura e magra. O seu rosto, de tez morena, mostrava-se bastante enrugado para a idade que Paula calculava tivesse a mãe do empresário. Notou que a única semelhança com o filho eram os olhos negros. Enquanto a mãe tinha um ar frágil que inspirava simpatia, o filho era a antítese. Alto, forte, tão seguro de si, que roçava a arrogância.
- Mãe; venho apresentar-te uma amiga, Paula Maldonado. É a responsável pela organização da festa de hoje. Paula, esta é a minha mãe, Teresa Ferreira.
Paula adiantou-se para cumprimentar a senhora, e esta abriu os braços para acolhê-la. Abraçou-a com carinho, dizendo:
- É um prazer conhecê-la. Fez um trabalho magnífico. A minha Gabi nunca mais vai esquecer este dia.
-Obrigada. A senhora é muito gentil. Agora se me dá licença, tenho um monte de flores para colocar nas jarras,- disse tentando esconder a emoção, que a calorosa acolhida da senhora despertara nela.
Dirigiu-se à tenda, para tratar das flores. Tinha pedido à florista a elaboração dos ramos, e a quantidade de flores por ramo, e se estivesse tudo certo, era só colocar um ramo em cada recipiente, que já tinha deixado nos lugares onde iam ficar.  Examinou os ramos e sorriu satisfeita. Pegou em alguns de braçada, e voltou-se para deparar com António que chegava naquele momento.
-São para levar para o local de cerimónia?
- Só os ramos, e os três arranjos brancos. Os restantes são para as mesas aqui.
-Está bem. Já tos levo.
Ela afastou-se dando volta à casa, para se dirigir ao jardim, onde estava montado o altar. Aí chegada, foi metendo os ramos nos jarrões colocados no caminho junto às cadeiras dos convidados.
Minutos depois, chegou o empresário com os restantes ramos.
-De que te ris, -perguntou poisando os ramos na beira do lago.
-Parecias uma jarra, com pernas, -respondeu sorrindo ao mesmo tempo que recolhia os ramos e os colocava nas restantes jarras. Levou depois os três pequenos arranjos para a mesa que serviria de altar, virou-se, analisou o local e deu-se por satisfeita.
- Bom, aqui está tudo em ordem, falta o outro lado. Estás muito pensativo, - disse ao chegar perto do anfitrião que continuava perto do lago.
-Entregaste o envelope? - perguntou ele.
-Sim claro. Logo de manhã.


Porque amanhã é domingo, e na Segunda, o Sexta faz anos, esta história continua no dia 30,



20.12.18

O DIA EM QUE FIZ O PAPEL DE MARIA



Quando morávamos à beira-rio, ainda havia invernos a sério: muito frios, com muita neve e cristais de gelo nas janelas.
Quando morávamos à beira-rio, a minha mãe acendia sempre o fogão pela manhã.
Amarrota folhas de jornal e mete-as na portinhola do fogão. Por cima coloca lascas de madeira e depois dois briquetes em brasa retirados da caixa do carvão. Embrulhada na camisa de dormir comprida e branca, ajoelha-se em frente do fogão e sopra com cuidado.
Puxo até ao pescoço o cobertor grosso e observo-a. Faz isto todas as manhãs. Fecho os olhos e ouço a madeira a crepitar.
Quando morávamos à beira-rio, podia ficar na cama até a cozinha estar aquecida. Em seguida, a mãe fazia chocolate quente e colocava à minha frente, sobre a mesa, a chávena cor de rosa com desenhos de nuvens.
Podia ficar o dia inteiro sentada em frente da chávena das nuvens mas não posso, porque a escola começa às oito menos um quarto e a Brigite já está na esquina à minha espera.
A mãe dá três voltas com o cachecol no meu pescoço. Ajuda-me a pôr a pasta às costas e diz-me para não me atrasar. Não gosto de ir à escola. Acabámos de nos mudar, e eu sou a nova e ninguém quer sentar-se à minha beira nem brincar comigo, nem mesmo a Brigite. Só espera por mim porque o professor Alfredo quer. Na verdade, acha que sou uma pateta.
— Pareces um pulgão — disse-me. — E és tão lenta! E… olha só para ti…
A Brigite tem tranças pretas, compridas, e orelhas de abano. Só que elas não se vêem quando faz de Maria, porque solta os cabelos e põe um lenço na cabeça.
Foi o pai do Martim quem construiu o presépio, porque o Martim vai fazer de S. José. O papel é simples, José quase não tem nada para dizer. Só tem se apoiar no cajado e ficar em pé, com um ar de devoção, ao lado de Maria e do Menino. Para o Martim, a devoção é o mais difícil, porque o Óscar, na última fila, passa o tempo a fazer caretas. O Óscar não só abana as orelhas como consegue trocar os olhos de tal maneira, que uma pessoa até pensa que eles vão ficar assim para sempre.
O Professor Alfredo é muito severo e pode encolerizar-se a sério! Sempre que se enfurece, tem uma veia na testa que fica muito grossa. E até se vê o sangue a pulsar. De cada vez que a Filomena Cardoso não está concentrada, vejo o sangue do professor Alfredo a latejar. E isto acontece muitas vezes. De qualquer maneira, eu não tenho nada para fazer porque faço o papel de ovelha e limito-me a ficar junto dos pastores. Todos se riram quando o professor me deu o papel de ovelha.
— Até te fica bem — disse a Brigite com um risinho. — Uma ovelha preta…
Riu-se baixinho, porque também ela tem medo dos ataques de fúria do professor.
A mamã está a coser-me um fato de ovelha. Tinha-mo prometido. E disse que estava contente por eu fazer de ovelha na peça de teatro. Porque as ovelhas são animais pacíficos. Meiguinhas e suaves, que são qualidades boas, diz a mãe.
Mas eu preferia ser um pastor e gostava ainda mais fazer de Maria. Mas nunca hei de sê-lo porque a mamã me cortou o cabelo.
Cabelos curtos são mais práticos, diz ela.
Mas não existem Marias com o cabelo curto.
Os ensaios para a representação do presépio já duram há quatro semanas. O Natal está cada vez mais próximo.
À tarde, à beira-rio, escurece muito cedo. A mamã faz bolachas e eu ajudo-a. A nossa cozinha cheira a Natal. As bolachas prontas vão para uma lata prateada e aí ficam à espera da noite de Natal, diz a mãe.
Eu gostava de também poder esperar pela noite de Natal dentro de uma lata prateada, mas não posso. Todos os dias, pela manhã, tenho de ir para a escola fazer de ovelha.
Do que tenho mais medo é do dia vinte e quatro de dezembro, que é quando vamos representar a nossa peça, na igreja.
O professor Alfredo diz que as pessoas vêm todas assistir só para nos ver. E que por isso devemos dar o nosso melhor.
Mas como é que uma ovelha dá o seu melhor? O que é o melhor de uma ovelha? De qualquer maneira, vou esforçar-me e ficar deitada muito quieta. Espero que ninguém se ria porque isso seria o pior, não para mim, mas para a mamã, que se envergonharia de mim, e isso, eu não quero.
No dia dezanove de dezembro começa a nevar. Estou sentada no meu lugar, na sala de aula, e olho para os flocos de neve que caem do céu como açúcar em pó. De tanto olhar, uma pessoa até se sente cansada.
Felizmente, o professor não repara como estou cansada porque tem de prestar atenção ao Martim e à Filomena. A Brigite belisca-me o braço mas eu não posso gritar, nem sequer dizer “Ai!”, porque senão o professor Alfredo fica furioso.
No intervalo grande, fazem uma batalha de bolas de neve e eu sou o alvo. O professor Alfredo é quem está a vigiar. Encostado ao muro da escola, vai trincando a sua sanduíche e desvia o olhar.
Apesar de tudo, gosto da neve porque, sob o gorro de flocos, tudo tem um aspeto diferente. De certa maneira, mais limpo e mais fofo do que de costume.
Quando era pequena, pensava que, se me lavasse com neve, ficava branca como os outros meninos. Mas a mamã disse que aquilo era uma patetice e que gostava que eu fosse assim, mais escura. Disse escura, porque sou negra. A minha pele é toda preta, exceto nas solas dos pés e nas palmas das mãos.
— Tu és muito especial — disse a mamã.
Mas eu não quero ser especial.
Na minha lista de desejos para o Natal escrevi que queria fazer o papel de Maria. Este é o meu maior desejo, e também o do próximo ano, mas isso, o Menino Jesus já sabe. Fecho o envelope com cola e coloco-o no beiral da janela. A mamã acrescenta uma bolacha da caixa prateada. É para o anjo carteiro. É um longo caminho até ao céu!
Temos de lá estar uma meia hora antes, como disse o professor.
Espero pela Brigite na esquina da rua mas ela não aparece. Espero cinco minutos, espero dez minutos, depois, desato a correr.
A igreja já está cheia. E a veia do professor Alfredo a latejar. Mas não ralha.
— Graças a Deus! — exclama ele, ao ver-me. — Depressa! Veste-te. Tens de fazer de Maria! Sabes o texto?
— Mas… mas… a Brigite… — gaguejo.
— Está doente — responde o professor.
Os sinos começam a tocar e o órgão ressoa.
Todos cantam “Noite Feliz. Noite de Amor.”
Estou de pé junto do Martim e seguro o Menino Jesus nos braços. A Filomena, hoje, tem um olhar muito concentrado.
Quando terminamos, toda a igreja está em silêncio. Depois, as pessoas começam a aplaudir e nunca mais param.



Jutta Richter; Jacky Gleich
Als ich Maria war
München: Karl Hanser Verlag, 2010
Tradução e adaptação
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