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19.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XII



A mesa já estava posta, quando entrou na cozinha. André tinha tirado o avental, e tal como no dia anterior, apressou-se a puxar-lhe a cadeira para que ela se sentasse. Eva pensou que tinha que se acautelar. Aquele homem, com a sua gentileza, o ar travesso, o seu sorriso, era um perigo para o seu coração tão fragilizado. Mentalmente pediu a Deus que a ajudasse. Não se podia apaixonar por ele. Era um aventureiro, uma ave de arribação, que não tardaria a levantar voo.
- Que se passa, Eva? Não gostas do meu  “Spaghetti alla Carbonara”?
Não se atreveu a olhá-lo, como se ele fosse capaz de adivinhar os seus pensamentos.
- Desculpa. Estava distraída.
Saboreou um pouco de comida, e olhou-o surpreendida.
-Está delicioso. 
- Aprendi com a minha “nonna”. Já te disse, ninguém cozinha um "Spaghetti" como ela.
- Disseste que eras meio português. Não tens família cá?
- Tenho. Os meus avós maternos e uns tios. Em Braga, terra da minha mãe. Quando éramos crianças, vínhamos todos os anos, passar o verão em casa dos meus avós. Ainda não fui vê-los desde que cheguei. Quem sabe um fim de semana, queiras ir comigo.
- Eu? – Admirou-se. O que é que eu ia fazer contigo? Não conheço os teus avós. E tentando mudar o rumo à conversa, - disseste “éramos crianças”. Tens irmãos?
- Somos três. Pietro, o mais velho, eu e Giovanna a mais nova. Ambos casados. Entre os dois brindaram-me com cinco sobrinhos.
- E tu? És casado?
- Achas, que tenho perfil de homem casado? As mulheres não gostam de aventureiros como eu. Querem segurança, e eu não me dou com amarras. Ou talvez quem sabe, ainda não tenha encontrado a minha alma gémea.
“Toma juízo, Eva. Avisa o teu coração, que não se deixe enredar”, -pensou ela.
Estavam a terminar a refeição. Eva levantou-se para levantar os pratos e por na mesa a fruta.  Disse:
- Quando estava no orfanato, sonhava com o dia em que tivesse a minha família. Casar, ter filhos, sentir o calor de um lar. Não é que lá, tivesse razões de queixa. As freiras não eram más. Severas na educação, mas também amigas. Especialmente a Irmã Madalena. Mas é triste não saberes de onde vens, se teu pai era um homem bom ou um bandido, se tua mãe, era uma  senhora, ou uma prostituta. Se estão vivos ou mortos. Se tens irmãos. Não tens nada para trás, nem recordações, nem história. Consegues entender isto? É como se fosses a primeira pessoa da história da humanidade. És tu a base da história futura, da tua geração. Quando conheci o Alfredo, pensei que tinha encontrado a minha outra metade. Que juntos, íamos iniciar uma família, ter um lugar na história da vida de que todos fazemos parte. Como pude enganar-me tanto?

  

E porque hoje é o dia do Pai, para todos os que o são, e por aqui passem, o meu desejo de que tenham um dia o melhor possível e que S. José os proteja.

8.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXI







Se Ricardo reparou nos sorrisinhos trocados pelos filhos e no seu ar de conspiração durante o jantar, não o deixou transparecer. Na verdade o dia tinha sido complicado, estava cansado, E verificar que os filhos pareciam felizes no primeiro dia em que regressara ao trabalho depois daquelas férias, era menos uma preocupação.
Na véspera, aproveitara um momento em que todos estavam no jardim, para falar com Antónia. Pensara pedir-lhe para entrar imediatamente em contacto com Francisco se observasse algum comportamento menos correto da parte de Clara para com as crianças durante a sua ausência.
No entanto, por alguma intrínseca razão do seu subconsciente  não o fez. E acabou apenas por lhe pedir que ajudasse a senhora, como toda a vida o ajudara a ele.
-Não se apoquente. Cuide de si, que é quem vai estar em perigo – respondera-lhe ela. – Não consigo entender, acabaram com a guerra nas colónias, e agora andam por países estrangeiros, metidos em guerras alheias. Ainda um dia gostava que me explicassem a lógica disso.  
Ricardo poderia explicar-lhe que Portugal era parte integrante da NATO,e que por isso as suas forças militares poderiam ir para qualquer parte do mundo,  poderia recitar-lhe o hino pelo qual se regiam e que tinha sempre na memória.

Iremos até onde a Pátria for
E seja em paz
Ou na guerra
Que este clamor
Vibre imortal.
De mar em mar,
De serra em serra:
Portugal! Portugal! Portugal!

Mas será que ela ia entender? 
Alheia aos seus pensamentos, Antónia continuou:
-Mas enfim, vá descansado que por aqui, vai correr tudo bem. O senhor não podia ter encontrado ninguém melhor para cuidar dos meninos. A senhora tem no peito, um coração amoroso, e a alma nos olhos. E os seus olhos dizem que ela os ama. Não tem com que se preocupar.
Mas era evidente que ele se preocupava. Já fizera um novo testamento. Porque quando se vai para uma missão, sabe-se como e quando se vai, não se sabe como se volta. Nem sequer se há volta. O que Clara lhe dissera naquele dia, calara fundo no seu peito. E fizera-o repensar toda a sua vida.
De tal maneira, que estava a pensar seriamente pedir a passagem à reserva no fim daquela missão.
Recordou-se do juramento que fizera, quando ingressara no exército

 «Juro, como português e como militar, guardar e fazer guardar a Constituição e as leis da República, servir as Forças Armadas e cumprir os deveres militares. Juro defender a minha Pátria e estar sempre pronto a lutar pela sua liberdade e independência, mesmo com o sacrifício da própria vida.»

Ele interiorizara-o e em todos aqueles anos cumprira-o com orgulho. Mas agora outros valores se levantavam. A sua obrigação já não era apenas com a Pátria, mas também com os filhos.
Sempre gostara muito de escrever. E ao longo dos anos fora enchendo blocos e blocos com as suas vivências, com as coisas que fora observando ao longo da vida, não só em Portugal, como nos países por onde andara. Quem sabe ele tinha material para um grande romance, e podia enfim cumprir o seu sonho de menino?
Na quarta-feira, o ambiente na casa estava pesado. Todos sabiam que Ricardo partiria no dia seguinte. Antónia fungava pelos cantos escondendo as lágrimas, para não afligir mais as crianças, já de si tristes com a eminente partida do pai. Alfredo ocultava no trabalho a preocupação. De um modo ou de outro, todos amavam Ricardo, e se sentiam tristes e preocupados com a sua eminente partida. Até Tiago, com a desculpa de ter que rever a matéria, que o ano escolar estava a começar, se fechara no seu quarto.
E Clara? Que sentia a jovem, que tinha aceitado um casamento que ela mesma rotulara de maluco, com um perfeito desconhecido? Que sentimento albergava agora, depois daquela semana e meia de convivência, pelo seu "marido"?



28.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XIV



Deixou-se cair na cadeira, e ocultou o rosto nas mãos. As palavras de Clara foram como um punhal que se lhe cravara no peito. Doera-lhe. É claro que ele amava os filhos. Não em demasia, ninguém ama demais, simplesmente porque não existe medida para o amor. Ou se existia, ele desconhecia. Mas que importava isso? Ele nunca soubera muito de amor, o que sabia, era que daria a sua vida por qualquer um deles, se necessário. Apesar disso, tinha a noção, de que só o seu amor não lhes bastaria. Ele sabia que decisão tomar, para salvar a vida dos seus homens, em caso de perigo eminente, mas não sabia como cuidar de uma criança no dia-a-dia. Ele seria capaz de prestar os primeiros socorros a um dos seus homens que fosse ferido, mas ficava sem ação, quando um dos seus filhos caía e se feria.  No quartel, diziam que ele era um homem frio, a quem nada nem ninguém fazia perder o controlo. Não era verdade. Quantas vezes, apertou os punhos, e cerrou os dentes para não gritar, o que lhe ia na alma?
Aprendera de menino a amordaçar a dor, cada vez que a madrasta mandava para o lixo um brinquedo, só porque reparara que ele gostava muito dele, cada vez que o pai se ausentava do país, e ela o atormentava. Ele aprendera a odiar, numa idade em que as crianças não devem conhecer outro sentimento, que não o amor. A ida para casa da avó materna, fora um alívio, mas também nela não encontrou o amor que o fizesse esquecer o que ficava para trás. A avó perdera o marido e a filha, no curto espaço de um ano, e desde aí fechara-se no seu mundo de sofrimento, recordações e saudade, alheando-se de tudo o que se passava à sua volta. Ricardo crescera assim num mundo inóspito, onde o único oásis era Antónia, a empregada da avó. Ela fora o único ser, que gostara verdadeiramente dele. Ela e o Farrusco, um S. Bernardo escanzelado, que aparecera um dia na quinta e que por lá ficara. Mais tarde, quando ingressara no Colégio Militar, regressara à casa paterna, mas Ricardo nunca tivera coragem de contar ao pai, o que a sua mulher lhe fazia, quando ele não estava por perto. Nem mesmo depois da morte dela, quando ele já tinha vinte anos. Para quê atormentar mais o pai, se o mal já estava feito e era irremediável?
Tendo compreendido o ciúme doentio da madrasta, Ricardo afastara-se gradualmente do pai. Deixou de procurar a sua companhia quando ambos estavam em casa, e procurou estar nela o menos tempo possível. Quando Irene morreu, ele e o pai eram pouco mais que dois conhecidos de ocasião. Talvez por isso, o pai não lhe tivesse contado, quando descobriu que era portador de um cancro no Pâncreas. E como ele se sentia melhor no quartel que em casa, só se apercebeu quando era demasiado tarde. O pai já tinha morrido há onze anos e ele ainda se culpava, por não ter estado presente quando o pai mais precisara dele.
Clara tinha razão. Ele tinha que repensar toda a sua vida. Afinal, acabara por fazer o mesmo que o seu pai. Pusera a vida e o futuro dos seus filhos nas mãos de uma desconhecida, querendo que ela os tratasse e cuidasse como filhos. E se ela fizesse com eles o que Irene, fizera com ele? É certo que o relatório do investigador, dizia que era pessoa estimada por todos e que cuidara do irmão como todo o desvelo, e fora isso que o levara a contratá-la. Mas o irmão era do seu sangue, os seus filhos não lhe eram nada.
Não, Clara não era como Irene. Se o fosse não lhe tinha dito tudo o que lhe dissera minutos antes. Ou diria? Ricardo nunca se sentira tão inseguro.
Sossegou-se ao pensar que Antónia lhe diria se alguma coisa corresse mal. Ela estava com ele, desde que a avó morrera e Ricardo herdara aquela quinta. Na altura, Alfredo o marido dela, trabalhava numa herdade vizinha, e a pequena quinta estava abandonada. Ricardo mandara construir uma casa mais pequena, um pouco afastada da principal, contratara Alfredo como caseiro, e os dois ficaram a viver ali.
Antónia tivera um filho que morreu de meningite com dois anos de idade. Depois disso, ou por impossibilidade, ou por vontade própria, não voltara a ser mãe. Mas o seu instinto maternal era muito forte. Fora o mais parecido com uma mãe que ele tivera.
Ela adorava os seus filhos e tinha a certeza de que lhe diria imediatamente se notasse algum comportamento impróprio de Clara.
Essa certeza, fazia com que partisse mais descansado. Antónia, era a única mulher no mundo em quem ele confiava.


Esta história volta Segunda-feira. E ontem foi dia de novos exames médicos. Resultados só  a 7 de Outubro. Bom fim-de-semana

13.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE XLIX

                                                
                  Imagem actual do velhinho  Galitos  F. Clube
                                           foto do google



No final de Outubro, o sobrinho é operado no hospital Militar da Estrela. É-lhe retirada a bala, mas até voltar a andar, tem pela frente muita fisioterapia. Felizmente está livre de perigo e de voltar para a guerra. Mas o pior são os estragos psicológicos.
E assim se chega ao ano de 1969. Para o Manuel este ano foi cheio de emoções.
Logo no dia 1 de Janeiro, considerado o dia Mundial da Paz, um grupo de católicos, realiza uma velada da paz, na Igreja de S. Domingos, em Lisboa, a que aderiram alguns sacerdotes da capital e vários leigos.
Pela primeira vez, ouve-se a Cantata da Paz, “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” Dizem que a Comunidade Cristã Portuguesa, não pode celebrar um dia da paz, desconhecendo, camuflando ou silenciando a guerra que grassa nos territórios africanos. Nesse mesmo dia são distribuídos nas igrejas do Porto um documento de reflexão, com o título, “Porquê o Dia Mundial da Paz”. Por todo o país, o povo fortemente religioso, é confrontado com a obrigação de uma tomada de posição.
Oito dias depois, a RTP transmite a primeira conversa em família de Marcelo Caetano.
Na Seca só o Gerente tinha televisão, mas na Telha, na zona hoje denominada Santo André, havia uma sociedade fundada há vários anos por pescadores, o "Galitos Futebol Clube", que tinha um televisor no seu salão, onde em dias de festa, se realizava um bailarico, geralmente abrilhantado por um anónimo tocador de concertina.
Nessa noite, os homens da Seca vieram todos ver e ouvir o novo Presidente.
Entretanto a barraca do Pinheiro Manso, onde o Manuel vivera quando casara, e onde nascera a filha mais velha, fica vaga. O gerente diz então ao Manuel, que se ele quiser, pode mudar as coisas para essa casa, já que é bem próxima da casa da porteira, e levar para lá os filhos. Assim a Gravelina escusa de andar acima e abaixo todos os dias.
Manuel pergunta se pode continuar a tratar do quintal mudando de casa e o gerente diz-lhe que sim.
Mudam-se no final de Janeiro desse mesmo ano de 69.