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13.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XVIII

 




Os dias na aldeia passavam rapidamente. Os pais de Helena simpatizaram com Fernando, que também parecia à-vontade com eles. Os dois homens, e o menino,  tinham enfeitado a casa, enquanto ela e a mãe se dedicavam a juntar todos os ingredientes para uma ceia de Natal, repleta de boas iguarias.

E chegou enfim a noite santa. A família ia cear mais ou menos na hora do costume, queriam estar despachados quando chegasse a hora de irem à missa do galo. Depois da missa abririam os presentes.

António, o pai de Helena, tinha ligado a televisão a fim de ver o telejornal. De súbito, uma notícia, chamou-lhes a atenção. A Orquestra Nova do Porto, que se encontrava em digressão pelos Estados Unidos, apresentara às autoridades de Nova Iorque uma denúncia por desaparecimento do seu pianista, o jovem Fernando Corte-Real, que ali faria a sua estreia como solista, na primeira parte de um concerto. 

O jovem que por motivos pessoais, não viajara com os restantes membros da orquestra, fizera-o no dia seguinte.
Havia o registo da chegada dele, ao hotel em Los Angeles, cidade onde a orquestra deu o seu primeiro concerto, no passado dia quinze, mas ele não foi visto depois do registo, nem apareceu nos ensaios nem na hora da atuação.

E  também não apareceu para o concerto em Nova Iorque que se realizara nas vésperas. O pianista que é tido pelos colegas como um homem muito talentoso e responsável, não aparece nem dá notícias, desde o seu registo no hotel de Los Angeles, no passado dia cinco de Dezembro.
 No fim da notícia, a foto do pianista, tirou todas as dúvidas aos dois jovens.

-Meu Deus – disse Helena apertando a mão de Fernando cujo rosto estava extremamente pálido. Como é possível, teres feito o registo no hotel em Los Angeles, se nessa data estavas hospitalizado em Lisboa?
Felizmente os pais dela, estavam distraídos com as gracinhas do neto e não se aperceberam de nada.
- Desculpem-nos, - disse Helena. O Fernando não está bem, tenho que lhe dar um analgésico. Sequelas do acidente que teve no princípio do mês.

- Mas não comeram quase nada!- protestou a mãe dela.
- Já comemos quando voltarmos. Ou depois mais tarde. Não se preocupem. Porta-te bem com os avós, Diogo.
Ele dirigiu-se ao quarto que lhe tinham destinado, e ela seguiu-o




Nota:

Amigos, os pais da Margarida vão entrar de férias, e nós vamos aproveitar para tentar espairecer e recarregar baterias. Os recentes problemas de saúde, meus e do marido, aliado aos meus problemas de visão e ao resultado da biopsia do marido que nunca mais chega, têm-nos deixado de rastos. E depois há esta princesinha que adoramos, mas que como é normal está cada dia mais traquina e cansa mais. Como sabem tentamos ir de férias quando os pais tiveram  os primeiros quinze dias de férias em Agosto, mas problemas de saúde obrigaram-nos a regressar. Esperamos melhor sorte desta vez. Os posts estão programados até ao fim do mês, porque lá não tenho internet.



17.12.19

CONTOS DE NATAL - NÃO SOU AVARENTA ... ESTOU APENAS FALIDA




Dizem que não é possível ter muitos amigos. Contudo, com o Natal a uma semana de distância, ainda faltavam cinco pessoas da minha lista de presentes e só tinha três dólares. Como dizer à nossa mãe, irmão e três amigas que só podemos gastar sessenta cêntimos com cada um deles?


— Vamos estabelecer um limite de preço para as nossas prendas este ano — sugeri à minha melhor amiga, Joanie.
— É uma boa ideia — concordou a Joanie. — Que tal nada acima de cinco dólares?
— E que tal nada acima de sessenta cêntimos? — sugeri, sentindo-me a pessoa mais avarenta do mundo.
— Aposto que é aqui que eu devo dizer que não é a prenda, mas sim a intenção que conta — sorriu a Joanie, logo acrescentando:
— Mas depois não te queixes se só receberes uma barra de pastilha elástica!

É quase impossível comprar alguma coisa por menos de sessenta cêntimos, portanto iriam ter mesmo que ser prendinhas muito pequenas com intenções muito grandes. Nunca, na vida, tinha gasto tanto tempo ou esforço tentando arranjar a prenda certa para a pessoa certa.

Finalmente o dia de Natal chegou, e eu continuava preocupada com o que as pessoas iriam sentir ao receber as minhas prendas “baratuchas”.
Dei à minha mãe uma vela aromática com um cartãozinho que dizia, “És a luz mais brilhante da minha vida.” Ela quase chorou ao ler o cartão.

Dei ao meu irmão uma régua de madeira, na qual tinha pintado, “Nenhum outro irmão no mundo pode medir-se contigo.” Ele deu-me um pacote de açúcar onde tinha escrito, “És doce.” Nunca antes me tinha dito algo semelhante.

Para a Joanie, pintei um velho par de sapatos de dourado e meti-lhes dentro flores secas com um cartão que dizia, “Ninguém chega aos teus calcanhares.” Ela deu-me uma pena e um penso para curativos. Explicou que eu estava sempre a fazê-la rir até lhe doer a barriga, como se estivesse com um ataque de cócegas.
Quanto às minhas duas outras amigas, a uma dei um leque de papel e escrevi nele, “Sou a fã número um do teu leque de amigos” e à outra dei uma calculadora que custou um dólar. Na parte de trás da calculadora, pintei “Podes sempre contar comigo.” Elas deram-me uma ferradura enferrujada para me dar sorte e um molho de paus unidos por uma fita vermelha, porque “Os amigos mantêm-se unidos.”
Não me lembro dos outros presentes que recebi no Natal passado, mas lembro-me de cada um dos presentes “baratinhos”.

O meu irmão pensa que sou doce. A minha mãe sabe que é a pessoa mais importante da minha vida. A Joanie pensa que sou divertida e faço-a rir. O que é importante, porque o pai dela saiu de casa no ano passado e ela tem saudades dele, e por vezes fica triste.

Estava preocupada por não ter dinheiro suficiente para os presentes de Natal, mas dei prendas a cinco pessoas e ainda me tinham sobrado dez cêntimos. Ainda agora falamos nas nossas prendas “baratinhas” e de como foi divertido aparecer com presentes que custaram alguns cêntimos, mas diziam às pessoas o que realmente sentíamos por elas. Na minha estante, ainda conservo o pacote de açúcar, uma pena, uma ferradura e um molhinho de paus… e eles têm um valor incalculável.

Storm Stafford


5.12.19

CONTOS DE NATAL - O MENSAGEIRO



-O Pai Natal desapareceu!O Pai Natal desapareceu!- alertou, Jeremias, o chefe dos duendes.
Todos os duendes ficaram muito assustados com a notícia.
Era véspera de Natal e os presentes estavam quase todos prontos para serem distribuídos, mas... faltava o Pai Natal!
- Que vamos fazer? - perguntou um duende.
-Temos que o procurar.
-Sim! - disse o chefe - Germano pega num trenó e vai, com o Rudolfo, ver se encontras o Pai Natal.
- Mas, já são 9 horas da noite. E se não o encontrar?
- Nesse caso tenho que usar o segredo.
Esperaram que o Germano e o Rudolfo voltassem com notícias.
- Não encontrei o Pai Natal - disse o Germano muito triste.
- Bom! Nesse caso tenho mesmo que usar o tal segredo! - concluiu o Jeremias.
O Pai Natal estava muito preocupado porque já era quase meia-noite. Também estava muito cansado e com muito frio e, estava amarrado a uma cadeira numa casa de madeira.
No canto da casa estava um adulto sentado e falava com ele:
- Pois é Pai Natal! Agora como é que vais fazer para distribuíres os teus presentes? Este ano não...
O Pai Natal olhou para ele. Estava de boca aberta, pronto para dizer a próxima palavra, mas imóvel. O Pai Natal sorriu, olhou para o relógio que estava em cima da mesa, fechou os olhos, contou até dez e voltou a olhar para o relógio. Percebeu o que tinha acontecido e esperou.
Uma luz apareceu e, como por magia, desamarrou-o
- Pai Natal! O que lhe aconteceu? - perguntou o chefe dos duendes.
- Vamos ao meu gabinete e eu conto-lhe tudo - murmurou o Pai Natal.
No gabinete o Pai Natal revelou-lhe que tinha sido raptado.
-Raptado!? Mas porquê?
-Foi alguém que não gosta do Natal porque não tem família.
-Coitada dessa pessoa! Tenho pena dela!
-Mas isso vai ficar resolvido.
- Como, Pai Natal?
- Trouxe-a para trabalhar connosco.
- Foi uma boa ideia. Pai Natal, tenho uma coisa para lhe dizer.
- Diz!
- O senhor estava desaparecido e eu usei aquela coisa que só deve ser usada em caso de emergência. Peço desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Fizeste bem! Eu percebi que a tinhas usado.
- Mas pode ficar descansado, Pai Natal. Eu usei-a, sozinho, no meu gabinete. Ninguém ficou a saber que temos pó mágico capaz de parar o tempo! Graças a isso ainda vamos a tempo.
- Pois, ninguém dará por nada. Mas há uma coisa que todos deviam saber.
- O quê, Pai Natal?
- Que sou um mensageiro do Menino Jesus! Foi ele que enviou uma estrela para me salvar! Eu apenas distribuo os seus presentes.  É a ele que todas as crianças devem agradecer!


DANIELA DO CARMO    in Chiado Editora " Natal em Palavras" (Colectânea de Contos de Natal) 

22.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXX


 Epilogo

E tinha chegado a noite de Natal.
Agora ali estavam na acolhedora sala dos amigos, depois de partilharem, de uma ceia de Natal, plena de alegria e amor.
As crianças brincavam juntas, encantadas com os presentes que o Pai Natal deixara debaixo da árvore, enquanto jantavam
Os adultos conversavam dos mais diversos temas. Rui continha, a vontade de chorar, mas os olhos brilhantes denunciavam a sua emoção. Nunca tivera uma noite de Natal assim. Às noites de sofrimento em criança, sucederam-se as noites de lobo solitário. E  aquelas pessoas aceitaram-no sem reservas e tratavam-no como se tivessem sido amigos, toda a vida. Nunca ninguém tinha sido tão generoso com ele.
A certa altura, André foi junto do pai e perguntou:
- Pai, o Martim pode ficar cá a dormir esta noite?
Os quatro olharam-se perplexos. Rui procurou o olhar de Teresa e o que viu encheu o seu coração de alegria.
- Por mim pode - respondeu Tiago. - Mas não sou eu quem decide, filho. São os pais do Martim, que têm que autorizar.
O garoto voltou-se para Rui.
- Claro que sim, - disse, ante o olhar suplicante do menino.
Já passava da meia-noite quando os dois se despediram, prometendo voltar no dia seguinte, para o almoço.
Já no carro, Rui perguntou:
- E agora?
- Agora, vamos para a nossa casa.
Emocionado, pôs o carro a trabalhar.
E aquela noite de Natal, foi de facto uma noite mágica.
 Uma noite de reencontro de dois corpos que se conheciam, se desejavam e saboreavam numa entrega total, só possível em duas almas gémeas. Reconheciam-se em cada toque, em cada olhar em cada gemido. E quando assim é, o sexo perde identidade, atravessa a alma e explode numa benção divina, a que se  chama amor.


………………………………………………………………………………
Casaram numa manhã fria de final de Janeiro. Faz hoje precisamente cinco anos. Agora, a “Tudilar” é a maior empresa do género em toda a Península Ibérica. Exporta mais de oitenta por cento da sua produção. Nestes cinco anos, Rui vendeu todos os seus negócios em Inglaterra, e decidiu investir no seu país. Fez sociedade com Tiago, e os dois fizeram parceria com uma conhecida marca de automóveis. E hoje, além da oficina de reparações e de um stand de vendas, têm uma fábrica de componentes para automóveis. É um homem feliz, e de bem com a vida. O filho Martim é já um garoto espigado  na pré adolescência. A filha, Sara, uma linda bonequita de cabelos encaracolados e cara de anjo, que com os seus três anos traz todos enfeitiçados. Naquele momento,  Rui pensava na longa travessia que foi a sua vida, até encontrar enfim, a porta de acesso à felicidade presente, quando Teresa se aproximou pela retaguarda, segurou-lhe o rosto entre as mãos e aproximando a boca do ouvido do marido perguntou:
- Gostas do número cinco?
- Porquê? – Perguntou pensando que se referia ao aniversário de casamento
- Porque dentro de alguns meses seremos cinco, - disse sorrindo.
Voltando-se Rui enlaçou-a e beijou-a apaixonadamente, demonstrando-lhe assim o quanto gostava do número... e dela!



Fim


Elvira Carvalho


21.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXIX


Iam passar o Natal em casa de Tiago e Luísa. Teresa apresentara-os dois dias antes, quando foram buscar Martim. Claro que Rui conhecia perfeitamente Luísa, uma vez que era a sua secretária, o que não sabia é que ela e o marido, eram os padrinhos do seu filho, e que fora o casal que acolhera Teresa durante toda a gravidez, e nos primeiros anos de vida do seu filho, para que ela pudesse continuar a estudar. Tinham-na amado e protegido como se fosse uma irmã mais nova.
Emocionado, ele agradeceu-lhes, e ofereceu os seus préstimos para tudo o que o casal precisasse. E terminou dizendo:
-Só não vos ofereço a minha amizade, porque não sei se a amizade de um traste como eu, vos interessa.
A resposta foi um forte abraço de Tiago e o convite do casal, para fazer parte da sua ceia de Natal, já que Teresa e o filho, costumavam passá-la com eles todos os anos. Aceitou, com o coração cheio de gratidão.
Depois jantaram em casa de Teresa, com Martim a falar pelos cotovelos, e a fazer inúmeras perguntas ao pai. E ele emocionado, abraçando-o e brincando com ele. Quando foi para a cama, Martim fez questão de ser o pai a ir com ele, e a contar-lhe uma história.
 Para a noite ser perfeita, faltou pernoitar lá em casa, mas compreendia que Teresa precisasse de algum tempo para assimilar a nova vida. Percebeu que se queria reconquistá-la, não podia nem devia forçá-la.
No dia seguinte, foram os três às compras. Presentes de Natal, e não só. Para eles e para Luísa, o marido e o filho. Depois foram para casa de Rui. Tê e o filho conheceram então a grande e luxuosa casa. Na sala de entrada, Rui pegou o filho ao colo e mostrou-lhe o retrato da mulher, que dominava o espaço, dizendo:
- Martim, esta era a tua avó. Uma grande mulher.
A criança olhava tudo com espanto. E com a curiosidade própria da idade, queria ver tudo. Na sala, em cima da mesinha estava o saco preto com os desenhos cinzentos, que guardava os ténis. Rui perguntou:
- Achas que servem ao Martim? Gostaria que ele os usasse se lhe servirem. Se ele os usar, é como se finalmente, eu os pudesse calçar.
- Sim. São muito bonitos, e ele nunca teve nada parecido. Vamos ver se lhe servem.
Serviam. A criança ficou encantada, e não parava quieta, só para ver as luzinhas nos ténis. Rui sorria feliz. Depois, pegando na mão de Teresa, perguntou.
-Gostas da casa? Se gostares, podemos ficar a morar aqui. Claro que poderás mudar a decoração, certamente haverá coisas de que não gostes. E quero que saibas que nunca trouxe nenhuma outra mulher a esta casa, - acrescentou fitando-a muito sério.
- Eu sei. Soube-o quando apresentaste a tua mãe ao Martim. Gosto da casa. Deveríamos mudar os sofás, ou forrá-los de novo. O branco é incompatível com crianças. Também não gosto dos reposteiros, são demasiado pesados. O resto está perfeito. Ah! E temos que fazer umas alterações num dos quartos. Decorá-lo mais de acordo com a idade do Martim.


27.12.18

UMA ÁRVORE DE NATAL ESPECIAL






Estar aborrecido com o que não tens é desperdiçar o que tens.
Ken S. Keyes





Era um dia frio, depressivo em vários sentidos. O Natal estava a aproximar-se e, como mãe solteira de três crianças a viver de apoios financeiros esporádicos, eu tentava fazer com que o pouco dinheiro que tinha esticasse em várias e diferentes direções. A minha mãe e o meu pai, juntamente com outros parentes bondosos, fariam com que os rapazes tivessem presentes, e a grande festa de Natal seria em casa do meu irmão. Por isso, eles cuidariam que o essencial não faltasse.
A festa de Natal anual feita na escola pouco contribuiu para me animar e, no caminho para casa, o vento cinzento e tempestuoso, arrastando a minha velha e pequena pick-up na estrada, apenas tornava as coisas pior.
Naquela noite, a questão seria colocada, como era todas as noites, por um ou por todos os rapazes: quando faremos a nossa árvore de Natal? E disseram-me de forma inequívoca que o Pai Natal não teria onde colocar os presentes se não tivéssemos uma árvore de Natal… Infelizmente, descobri que mesmo as árvores mais pequenas para venda nos Escuteiros estavam muito para além do meu orçamento.
Pequenos e grandes ramos agitavam-se em todas as direções, tornando a condução ainda mais desafiadora. Pareciam empurrar-se uns aos outros para fora do caminho, como se estivessem a fazer uma corrida para ver qual deles poderia saltar para a minha frente em primeiro lugar.
Muitos eram compactos, vacilando de um lado para o outro, como que a decidir o caminho a seguir. Alguns deles até se pareciam um pouco com uma árvore de Natal… De repente, fui arrastada para a berma da estrada, saí do carro e aguardei que um deles viesse ter comigo. O primeiro que vi era de tamanho médio, de cerca de sessenta centímetros de altura e noventa centímetros de largura. Amarrei-o na parte de trás do camião, e comecei a andar pelo campo, à procura de ramos ainda mais pequenos e com uma forma mais adequada. Não sabia muito bem o que ia fazer com eles, mas cheguei a casa com quatro e levei-os para a sala de estar. Quando as crianças chegaram, questionaram-me sobre a pilha de ramos a formarem um tufo denso e castanho…

— Esta vai ser a nossa árvore de Natal — disse eu, sabendo que seria realmente difícil convencê-los. — Será uma árvore como nenhuma outra e nenhum dos nossos amigos vai ter uma igual! E até ficaria muito surpreendida se nenhum fotógrafo viesse cá para lhe tirar uma foto…
Os meus filhos ouviram com educação, olhando fixamente o tempo todo para as quatro manchas de densa folhagem. O olhar de descrença no rosto deles era o mesmo que exibiram quando lhes disse que as cenouras eram boas para os olhos e que os espinafres iriam torná-los fortes…
No dia seguinte, tinha de pensar em algo antes que eles chegassem a casa da escola. Andei em torno das ramagens várias vezes, estudando a sua forma e tamanho individuais. A mais pequena era pontiaguda, e com uma fina corda branca pendurei-a no teto em frente da janela da sala de jantar, com o fundo arredondado virado para o chão. As três mais redondas foram penduradas à volta, dando a ilusão de árvores suspensas, com muito espaço em baixo para os presentes do Pai Natal.
Mas ainda não estava parecida com uma árvore de Natal!
Encontrei então uma lata de spray de tinta branca e alguns brilhantes multicoloridos que sobraram de um projeto da escola. Pendurei um lençol sobre a janela para protegê-la da tinta, pulverizei a “árvore” e, então, cuidadosamente, polvilhei-a com os brilhantes. Os arbustos eram demasiado frágeis para luzes tão pesadas. Então, cautelosamente, enfiei pequenas luzes brancas em volta do perímetro de cada um deles. O enfeite refletia as luzes, dando um efeito cintilante. Adicionei apenas os ornamentos mais pequenos, e o nosso anjo tradicional, que já vira melhores dias, encaixou-se perfeitamente no ponto mais alto do arbusto pontiagudo. Ficou maravilhoso!
As crianças olharam pela janela antes de entraram em casa, e correram para ver a minha criação.
— Parece um sonho bom! — disse o mais novo, aprovando.
Todas as crianças do bairro vieram naquela noite e ouviram-se ooohed! e aaahed! em torno da nossa árvore de Natal.
Felizmente, este seria o último ano em que teríamos um orçamento tão apertado. A nossa situação familiar mudou, e começou a haver dinheiro para uma grande árvore de Natal na nossa nova casa grande. Ficámos gratos por isso. Mas tempos difíceis tinham exigido criatividade, e não teríamos descoberto isso se tal não tivesse acontecido.
Os meus filhos são agora homens e têm as suas próprias famílias. Mas todos os anos, pelo Natal, alguém conta a história da nossa peculiar árvore de Natal. Como a mãe queria algo diferente, procurou arbustos ao longo de quilómetros pelos campos abertos, debaixo de uma enorme ventania, tentando apanhar os mais perfeitos. Estava cansada das mesmas árvores de sempre…
Sorrimos todos, e até hoje concordamos que aquela foi a árvore de Natal mais bonita de sempre!



Jackie Fleming


23.12.18

FELIZ NATAL


Todos os anos era a mesma coisa: eu e minha irmã, que já estávamos dormindo, sendo acordados pelos nossos pais para irmos à Missa do Galo , onde sempre , logo no início da celebração, meu pai se lembrava de que havia esquecido alguma coisa em casa e que precisava voltar lá para apanhá-la …
ele ia e, sempre, só voltava já no final da missa …
E logo que acabava a solenidade, lá íamos nós de volta p#ra casa, cambaleando e cheios de sono … e quando chegávamos, sempre todas as luzes da casa estavam acesas e o meu pai corria na nossa frente e dizia para que nós esperássemos um pouco no portão, porque pode- ria ser algum ladrão …Mas logo depois Ele voltava , chegava na porta e dizia:
– #Papai Noel esteve aqui ! …Só pode ter sido enquanto eu fui apanhar vocês na igreja!…E olha só isso: ele deixou uma porção de presentes no fogão!…#.
E então nós corríamos e sempre encontrávamos o fogão todo enfeitado e cheio de presentes : uma bicicleta que minha irmã havia pedido na sua #cartinha# e o chão todo sujo de cocô de um pato #de verdade# que eu havia pedido ao Papai Noel e que estava lá, amarrado num dos pés do velho fogão …Sempre também tinham outros presentes que, geralmente, eram roupas e sapatos que o Papai Noel, com todos os seus conhecimentos sobrenaturais , bem sabia que nós estávamos precisando …
Êle também sempre deixava #pegadas# da sua bota no chão da cozinha, as quais iam do fogão até a janela…e elas eram brancas #como talco#, mas os nossos pais nos diziam que o trenó do Papai Noel era todo forrado com talco, para que os presentes ficassem bem cheirosos … e nós acreditávamos!
A mesa da sala também sempre estava enfeitada para a ceia, que tinha bolo , castanhas, rabanadas , passas … e também refresco de vinho-tinto com água …
Mas quase sempre a ceia só era apreciada mesmo no café da manhã do dia seguinte, porque no resto da noite de Natal nós ficávamos era brincando com os presentes …
Das melhores coisas da minha infância, ficaram na minha lembrança esses antigos natais …
Marcelo Cardoso


22.12.18

NADA DEBAIXO DA ÁRVORE





As melhores coisas na vida chegam inesperadamente
— precisamente por não haver expectativas.
Eli Khamarov, “Surviving on Planet Reebok”





— Não me deem nada no Natal! — a voz do meu marido irrompeu entre os meus pensamentos, sobrelotados com todos os preparativos natalícios que tinha planeado completar nas próximas semanas. Olhei para ele e acenei que sim.
— Dizes isso todos os anos.
— Este ano é mesmo a sério. Não haverá nada para ti debaixo da árvore ou na tua meia, pelo menos da minha parte. Portanto, também não me venhas com presentes. Usa o dinheiro que sobrar para dar mais coisas aos miúdos — repetia ele.
Nem me preocupei em ripostar. Todos os anos passávamos por isto. A maior parte das vezes eu ouvia e arranjava-lhe umas pequenas lembranças para que as crianças pudessem desfrutar do momento em que ele tirava o que estava dentro da sua meia. Todos os anos ele tinha debaixo da árvore um presente para mim e a minha meia tinha dentro imensas surpresas, por vezes até surpresas caras. Todos os anos eu desejava não ter ouvido as suas instruções. Mas este ano não.
Os dias passaram num turbilhão de atividades que incluíam cozinhar, fazer compras, decorações, e enviar postais e cartas de Natal. O meu marido repetia a sua mensagem frequentemente. De cada vez, eu olhava bem fundo dentro dos seus olhos, em busca daquele brilhozinho malandro que eu tinha a certeza que estava lá, no entanto ele parecia-me mais sério do que no passado.
Por fim, os presentes estavam todos embrulhados e debaixo da árvore, as coisas para pôr nas meias bem escondidas de olhos curiosos, e as atividades infantis próprias do Natal todas prontas. A véspera de Natal tinha chegado. Meti as crianças na cama. O sono chegaria atrasado por causa de toda a sua excitação, portanto enrosquei-me no sofá e preparei-me para uma longa espera.
— Sabes que não vais ter prenda debaixo da árvore, não sabes? — perguntou o meu marido.
— Sim! Já verifiquei.
— Também não vais ter nada na meia. Portanto não fiques desapontada. Eu avisei-te. Tu ouviste e também não compraste nada para mim, certo? — disse ele.
Olhei para ele e sorri. Ia esperar para ver. Talvez este ano ele tivesse escutado as suas próprias regras e eu estivesse com uma pequena vantagem. Depois tentei expulsar aqueles pensamentos da minha cabeça. Desde quando é que dar presentes se tinha tornado uma competição? Isso não deveria ter nada a ver com o espírito de Natal. Senti-me como se tivesse acabado de deitar a cabeça na almofada quando ouvi as vozes das crianças tentando penetrar no meu cérebro tonto pelo sono.
— Levanta–te. É Natal! Levanta-te!
Eles puxaram-nos pelos braços, obrigando-nos a apressar-nos. Precisavam de ver o que o Pai Natal tinha posto nas suas meias. Enfiei o meu roupão e segui-os até à sala de estar, onde os observei ansiosamente a esvaziar as meias de todos os seus tesouros. Adorei ver as suas caras sorridentes. Depois virei-me para ver o Brian esvaziando a sua meia. Ele inclinou-se e sussurrou para os meus ouvidos apenas:
— Não era suposto eu receber coisa nenhuma.
Retirei alguns bombons de chocolate e uma laranja da minha meia. Ele estava a falar a sério. Não havia qualquer presente debaixo da árvore e nada na minha meia. Tentei esconder o meu desapontamento.
Mais tarde, nessa mesma manhã, dirigimo-nos através de alguns quarteirões até à casa dos meus pais, para celebrar com o resto da família. Quando entrámos na casa, o aroma fragrante do peru assado e das tartes penetrou nas nossas narinas.
O almoço de Natal apresentava sempre uma abundante oferta de comida deliciosa. Rapidamente me juntei aos outros para ajudar a pôr a comida na mesa, enquanto as crianças foram a correr brincar com os primos.
A seguir à refeição, as crianças reclamaram a troca de presentes mas, primeiro, todas nós, mulheres, tomámos a cargo a mundana tarefa de arrumar a cozinha, enquanto os homens saíam para espreitar os camiões e os armazéns. Com um apurado e certeiro sentido da hora, eles regressaram exatamente quando estávamos a acabar o último prato e eu esperava ansiosa por uma tarde relaxante recebendo visitas. Brian olhou para mim e disse:
— Antes de abrirmos os presentes, porque é que não levas algumas destas sobras para o nosso frigorífico e trazes para aqui alguns jogos para mais tarde?
— Parece-me bem, mas porque não vais tu? — respondi.
— Não, eu fico aqui. Vai tu. Não demores a voltar — contrapôs ele.
Olhei em volta mas ninguém me apoiou. A frustração começou a tomar conta de mim quando lhe pedi de novo para fazer aquele recado e ele voltou a recusar. Não consegui arranjar um argumento mais forte, portanto, em vez de criar uma cena desagradável, agarrei no meu casaco e enfiei lá dentro os braços. Calcei as botas, peguei em algumas caixas com sobras de casa da minha mãe e dirigi-me à porta, refreando a custo a vontade de bater com ela ao sair. Resmunguei e rosnei comigo mesma durante todo o percurso até casa, e quando cheguei à minha cozinha a frustração tinha-se já transformado em raiva pura.
Abri com um puxão a porta do frigorífico, atirei lá para dentro as caixas e bati com a porta ao fechá-la. Virei-me, quase colidindo com uma enorme máquina de lavar louça que estava no meio da cozinha.
— Uma máquina de lavar louça? Eu não tenho uma máquina de lavar louça! — gritei para o compartimento vazio. A minha raiva desvaneceu-se gradualmente à medida que as lágrimas começaram a correr-me cara abaixo. Estendi as mãos para aquele aparelho novinho em folha. A minha prenda não cabia debaixo da árvore ou na minha meia. Tinham-me mandado ir a casa precisamente para a encontrar. Ir verificar o armazém tinha sido uma desculpa para entrar sorrateiramente com a máquina da louça. Limpei as lágrimas antes de sair de novo para o frio. A minha raiva dissipara-se, dando lugar a vergonha pela minha atitude. Caminhei devagar até à casa da minha família e encarei-os timidamente. Os seus rostos estavam emoldurados por sorrisos, enquanto esperavam ansiosamente a minha reação.
Dirigi os comentários ao meu marido:
— Não cumpriste a tua palavra. Deste-me um presente!
— Que presente? — disse ele, enquanto tentava manter uma cara séria. O brilho nos seus olhos traía a batalha perdida que tinha travado.
— A máquina de lavar louça na nossa cozinha! — respondi.
Risos encheram a sala e toda a gente se pôs a falar ao mesmo tempo.
O riso levou-me os últimos vestígios de frustração, raiva e vergonha. Naquele Natal aprendi uma ou duas lições. Primeiro, as coisas nem sempre são o que parecem. Segundo, a frustração e a raiva não deveriam levar a melhor na minha vida em altura alguma, especialmente no Natal.



Carol Harrison


7.12.18

A ÁRVORE DE NATAL DE SEXTA-FEIRA



Enquanto vestia o pijama, Brian perguntou:
— Mamã, os outros meninos dizem que vamos ter uma árvore de Natal cá em casa. O que é uma árvore de Natal?
Aconchegados no pequeno quarto da casa de abrigo cristã para mulheres e crianças, Jenny Henderson abraçou os filhos, Brian e Daniel, de seis e três anos, respetivamente.
— É uma árvore bonita que ajuda as pessoas a sentirem-se felizes com o nascimento de Jesus. As pessoas costumam decorá-la no Natal e colocar, debaixo dela, presentes que compram umas para as outras.
Daniel enrugou o nariz:
— O que é “decorar”? E o que é o “Natal”?
A mãe suspirou. Durante todos os anos que vivera com o pai dos miúdos, ele sempre recusara celebrar fosse o que fosse e por muito que ela lhe pedisse. Não se celebravam aniversários, feriados, e muito menos o Natal. Daí que os rapazes nunca tivessem soprado velas de anos, visto televisão, decorado uma árvore de Natal, pendurado meias, comido um bom jantar de Natal, ou aberto quaisquer presentes.
 Quando a casa dos Henderson se tornou demasiado triste por causa das discussões e das atitudes de controlo e de dominação, Jenny foi viver com os filhos para uma casa de abrigo. Agora, podiam celebrar tudo o que quisessem, incluindo o Natal, juntamente com as outras mães e crianças que lá viviam. Jenny abraçou Daniel:
— Vou aconchegar-vos bem debaixo dos cobertores e contar-vos uma história maravilhosa sobre Jesus e o Natal.
 E contou-lhes, com todos os detalhes, a história da primeira noite de Natal. Depois, falou-lhes da decoração da árvore, da troca de presentes, e da gratidão que devemos a Deus pelo nascimento do Menino Jesus.
— Também quero amar o menino Jesus! — exclamou Brian. — E decorar uma árvore de Natal!
— Eu também quero! — pediu Daniel. — Diz que sim, mamã!
Jenny riu e disse:
— A Sra. Naples, a diretora da casa, disse que, neste sábado, vamos todos fazer uma festa para decorar a árvore de Natal, e que todas as crianças, incluindo vocês os dois, vão poder ajudar.
 Brian e Daniel ficaram tão excitados que tiveram imensa dificuldade em adormecer. E a primeira pergunta que Daniel fez, quando acordou na manhã seguinte, foi:
— Já é sábado? Já podemos decorar a árvore?
Quando chegou a sexta-feira, ouviu-se uma exclamação:
— A árvore já está aqui!
Todas as crianças se precipitaram pelas escadas abaixo e viram três homens a carregar a árvore mais bonita que alguma vez tinham visto. Era tão grande que ia ficando presa na porta. Os homens colocaram-na num pequeno pedestal e todos se juntaram em torno dela. Quase chegava ao teto!
— Podemos decorá-la já? — perguntou Daniel.
A Sra. Naples riu:
— Lembra-te de que ainda é só sexta-feira, Daniel. Vamos decorá-la só amanhã.
Nesse momento, o telefone tocou e a diretora foi atender. Era o pai dos rapazes. Uma vez que nunca tinha sido violento com os filhos, o Sr. Henderson tinha autorização para vir à casa de abrigo buscá-los, para irem fazer visitas em conjunto. Ficou combinado que viria no dia seguinte, justamente à hora em que a árvore ia ser decorada.
É óbvio que os rapazes gostavam do pai. Contudo, o seu desejo de decorar a sua primeira árvore de Natal era tão grande que perguntaram à Sra. Naples se podiam colocar um só ornamento que fosse na sexta-feira. A diretora olhou primeiro para a belíssima árvore e, em seguida, para os dois irmãos e para as outras crianças.
— O que acham, meninos? Acham que este pedido é justo? E se votássemos?
— Vamos votar! — pediram todos.
Pouco depois, todos ajudavam a carregar caixas inteiras de ornamentos, que colocaram em torno da árvore despida. Virando-se para os dois irmãos, a Sra. Naples disse:
— Rapazes, têm uma hora para decorar a árvore como quiserem. Podem tirar o que quiserem das caixas, sem a nossa ajuda. Amanhã, quando estiverem fora, tiramos os ornamentos para que as outras crianças possam ser elas mesmas a colocá-los. Mas hoje é a vossa noite.
A diretora mandou embora as outras crianças e deixou os dois irmãos sozinhos.
Brian e Daniel nunca se tinham sentido tão felizes na vida. Pegaram em cada bola brilhante, em cada grinalda cintilante, em cada conjunto de sincelos tão cuidadosamente, como se fossem feitos de diamantes, e colocaram-nos na árvore com todo o carinho. Algum tempo depois, a Sra. Naples passou pelo átrio para ver como os irmãos se estavam a sair. Em torno dos ramos mais baixos, e tão alto quanto os bracinhos lhes permitiam, Brian e Daniel tinham colocado ornamentos alegres em azul, vermelho, verde, dourado e prateado, aos quais juntaram fiadas de grinaldas e muitos conjuntos de sincelos.
Contudo, em vez de estarem a admirar o seu trabalho, tinham-se ajoelhado e rezavam, de olhos fechados. Brian dizia: “Muito obrigado, querido Jesus, por teres nascido no Natal. E por nos teres deixado decorar a árvore. É o melhor presente de Natal que alguma vez tive.” Daniel acrescentou: “Jesus, quando o nosso pai vier amanhã e vir a nossa bela árvore, faz com que ele goste dela e que não se zangue. Faz com que ele queira gostar de ti.”
Brian pensou por um momento e disse: “Tens razão. Esse é que seria o melhor presente de Natal”.


Bonnie Compton Hanson
Jack Canfield & Mark Victor Hansen
Chicken Soup for the Soul – Christmas Cheer
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2008
(Tradução e adaptação)


18.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXX




Aquele Natal seria memorável para todos, naquela casa, onde para além dos moradores, se encontravam os pais de Francisca. E esperavam a qualquer momento a chegada de Graça e do marido. A felicidade do casal, era por demais evidente. Tão evidente que os pais de Francisca acreditaram finalmente no grande amor que a filha lhes descrevera como razão para um casamento tão rápido. 
Afonso tinha encomendado o serviço do mesmo restaurante que os tinha servido no dia do casamento e esperava-se a sua chegada com o jantar. Mais tarde viria o Pai Natal com os presentes para as crianças, que estavam excitadíssimas com a festa.
Pouco antes das oito Graça chegou. E protagonizou a maior surpresa da noite, ao trazer com ela duas meninas de seis anos, que apresentou como suas filhas. Eram-no legalmente desde o início do mês.
Perante o espanto da família, Eduardo contou que devido a uma anomalia  genética, ele não podia ter filhos. Sabendo como a mulher adorava crianças, e de como se sentia frustrada, nos seus anseios maternos, tinha-se decidido pela adoção. As duas meninas eram gémeas, estavam há muito tempo na instituição, porque ninguém se atrevia a adoptar as duas de uma só vez, e era cruel demais separá-las. Para eles não era problema, e foi por isso mais rápida a adoção,não precisaram ficar em lista de espera. Tinham guardado segredo, pois tinham receio de que alguma coisa não corresse bem, durante o processo. Elas eram amorosas e eles nunca estiveram tão felizes.
- Deviam ter-nos contado. Elas vão sentir-se excluídas, quando o Pai Natal chegar com os presentes.
- E porque é que pensas que te pedi o nome da empresa que contrataste? - Disse Graça. - Entrei em contacto com eles, e no dia em que aqui estive, fiz as compras e fui lá entregá-las.
- Pensaram em tudo. Mas que surpresa!
Entretanto as crianças já brincavam juntas. A princípio as meninas pareciam pouco à vontade, mas logo Marta, com a sua natural espontaneidade  tratou de fazer com que se integrassem na brincadeira.
Jantaram às nove, primeiro porque os mais pequenos tinham que jantar cedo, depois porque o serviço de restaurante por ser noite de Natal, encerrava às dez e meia, e os empregados teriam que sair a essa hora.
Pouco passava das dez, quando o Pai Natal chegou, carregado de presentes para alegria dos miúdos.
No meio da confusão, Afonso notou que Simão estava pensativo. Ele tinha recebido uma mala de pintor, um cavalete, tintas acrílicas e três telas. Adorava pintar e na sua carta ao Pai Natal, apenas pedira, material de pintura.



Pensavam que tinha acabado? Pois ainda não.  

reedição




4.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XVII






Pedro sentiu um nó na garganta, no momento em que Joana entrou na sala, com um lindo e longo vestido de seda em tom de pérola, com um simples encaixe de renda, na parte superior do peito e ombros como adorno. O cabelo caindo sobre os ombros, preso sobre a orelha direita por uma rosa de seda,  igual ao vestido.
Entrou pelo braço do padrinho, o marido da vizinha e amiga da mãe, que estava sempre presente para as ajudar. Nas mãos um ramo de frescas flores silvestres.
O noivo que sempre se julgara um homem frio, sentiu uma emoção nova, algo que nunca experimentara, algo que ele não sabia se o deixava feliz, ou desagradado, pois temia que essa emoção o fragilizasse.
A voz da Conservadora que ia celebrar a cerimónia, fez-se ouvir:
- Estamos aqui hoje reunidos para celebrar o casamento de Pedro Mesquita e Joana Teixeira.
A cerimónia continuou com a celebrante falando sobre os trâmites legais do casamento, até ao momento da habitual advertência
Se alguém conhecer algum impedimento a este matrimónio que se manifeste agora…
Depois de um curto silêncio a celebrante continuou:
-Pedro Mesquita é de sua livre vontade que aceita Joana Teixeira como sua esposa?
- Sim. É de minha livre vontade casar com Joana Teixeira.
- Joana Teixeira, é de sua livre vontade que aceita Pedro Mesquita como seu esposo?
-Sim. É de minha livre vontade casar com Pedro Mesquita
Na hora da resposta, a voz do noivo soou forte e firme. Pelo contrário a da noiva saiu fraca, após uma hesitação que durou apenas uma fração de segundo, mas que não escapou ao noivo, que lhe apertou a mão, em sinal de confiança. Trocaram então as alianças, e a cerimónia continuou com as palavras da celebrante:
- Em nome da Lei e da República Portuguesa, declaro Pedro Mesquita e Joana Teixeira unidos pelo casamento. Pode beijar a noiva.
O beijo foi longo. Não era a primeira vez que se beijavam, tinham-no feito várias vezes ao longo daquele mês, mas agora era diferente. Era o seu primeiro beijo como mulher casada e Joana sentiu que as pernas lhe fraquejavam.
Seguiram-se as assinaturas, e logo depois os noivos foram felicitados por familiares e convidados. Joana não conhecia nenhum dos presentes, mas simpatizou com Helena, a esposa do advogado, que lhe segredou ao ouvido, enquanto a abraçava. “A nova vida assusta, mas confia na felicidade. O Pedro, apesar do seu ar durão é um excelente homem.”. Também gostou da tia do noivo. A senhora  tinha um ar tão triste que a impressionou
Mais tarde, enquanto dançavam, o noivo perguntou:
-Sentes-te bem?
Ela respondeu com outra pergunta.
-Porquê?
Tens as mãos frias, apesar do calor que está. Hesitaste antes do sim e a tua voz soou trémula. Tive a sensação de que estiveste prestes a desistir. Estou enganado?
- Não.
- Agrada-me a tua sinceridade. Poderia perdoar se tivesses desistido ontem.Não te perdoaria se me fizesses passar por isso, hoje, aqui perante toda esta gente.
- Nunca o faria, mesmo que morresse de vontade. Somos sócios no mesmo negócio e eu respeito os meus compromissos. Acontece que os sentimentos, não reconhecem regras, nem se negoceiam.
-Conversaremos mais logo. Está na hora de abandonarmos a festa.



Este é o momento chave da história. A partir daqui pode nascer uma história de amor. Ou não. O que vocês desejam?