27.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XVIII


Casas na Telha, hoje quase uma terra fantasma.

No inicio do ano da graça de 1949, o António muda-se com a mulher e os filhos para uma casa na Telha. Mais longe do trabalho, mas mais perto da mercearia, da escola, da padaria.  E melhor que isso, com electricidade e o chafariz à porta. No Barracão ficou um quarto vago que foi ocupado pelos dois filhos do Aires, o morador mais antigo, dos três que ficaram.
Em Abril, nasce a segunda  filha do Varandas. A mulher do Manuel, vai a caminho do oitavo mês e ele continua aguardando o filho tão desejado.
E finalmente chegou o mês de Junho, o mês em que Gravelina daria à luz o segundo filho, acontecimento que se deu no dia 20. E o Manuel sofre nova decepção. A mulher dava à luz outra menina. 

Outra "racha" disse quando a parteira lhe comunicou o facto, e virou costas sem sequer querer ver a filha. Mas se ele tinha o coração ao pé da boca e sempre reagia a quente, esse mesmo coração era do tamanho do mundo, e logo se impunha. Não findou o dia, e ele já estava de novo encantado com a filha mais nova.
No inicio da nova safra, o Carlos, muda-se com a família, para a Seca de Alcochete, e em Outubro, o Manuel descobre que a mulher está de novo prenhe. Mais uma vez, renascem-lhe as esperanças do filho homem, pelo qual suspira. Mas a vida está cada dia mais difícil, quatro bocas para alimentar são demais para o que ganha, e ele leva noites a pensar na maneira de conseguir mais dinheiro. Decidido vai falar com o gerente, e pede-lhe autorização para cultivar o terreno à volta do casarão.
O gerente ri-se. “Se conseguires alguma coisa, que não sejam chorões e silvas, podes ficar com isso. Mas diz-me uma coisa: - Vais regar o terreno com a água salgada do rio, ou com as bilhas de água que a tua mulher vai buscar à Telha?”
Manuel não se importou. Começou por roçar os silvados e os chorões. Depois à volta da casa construiu uma capoeira onde colocou uns quantos pintos, comprados no mercado de Azeitão.

Antes de o ano acabar o Aires muda-se também para uma pequena casa na Telha e o Manuel da Lenha fica sozinho no imenso barracão com a mulher e as filhas.
Em Novembro o Varandas anunciou que a mulher estava outra vez prenhe.

E chegámos à segunda metade do século XX.
Que começa com a morte de Militão Ribeiro na Penitenciária de Lisboa, depois de ter feito uma greve de fome.  No país, cada vez se levantam mais vozes, contra o governo fascista. Porque o povo está cada dia mais pobre. E a repressão vai aumentando.
Em Maio inicia-se o julgamento de Álvaro Cunhal, que acaba sendo condenado à prisão perpétua.
Na Seca, a mulher do Manuel está como no ano anterior prestes a dar à luz. Ele anda sorumbático. Teme a vinda de outra rapariga.  Vai continuar a tentar ter um filho homem, ou vai desistir desse sonho, que na época é o sonho de todos os homens?

20 comentários:

Laura Santos disse...

Gostei das referências ao Militão Ribeiro e ao Álvaro Cunhal, situando muito bem a história no tempo.
Quanto ao Manel, seria realmente bonito que o próximo filho fosse rapaz.
xx

XicoAlmeida disse...

Tambem gostei..
O sonho comanda a vida!

Blog da Gigi disse...

Lindo domingo!!!!! Beijos

✿ chica disse...

Gostando muito ,mas esse Manoel tem que parar de fazer filho ou que apareça logo o menino, senão!!! bjs, chica

Portuguesinha disse...

Que venha uma rapariga. Só para entender que filho é bom de qualquer género :D :D

José Lopes disse...

O Manuel lá se vai desenrascando e sobrevivendo, e em redor a vida toma o seu rumo a caminho da Liberdade.
Cumps

Luis Coelho disse...

Vidas duras, tão duras que nem se dão conta da sua pobreza.
Sei como era por aqui na aldeia. Descalços, doentes, entregues à própria sorte. A política nada se sabia. Cá em casa os rádios vieram na década de 70.

Edumanes disse...

Não há duas sem três,
lá diz o ditado,
que seja menino desta vez
pelo Manel, tão desejado!

Boa noite e bom dia de domingo,
desejo para você, amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

Vieira Calado disse...

Olá, amiga, como tem passado?
Espero que, bem!
Passei para ler a sequência e desejar.lhe um bom resto de fim de semana!
Beijinhos!

Elisa Bernardo disse...

Um grande beijinho Elvira
elisaumarapariganormal.blogspot.pt

Isa Sá disse...

A acompanhar...bom domingo!

Isabel Sá
http://brilhos-da-moda.blogspot.pt

AC disse...

E prossegue a saga da família, devidamente situada no tempo...
É uma narrativa muito afectiva, Elvira. Sente-se.
Os meus parabéns!

aluap Al disse...

De facto na época os homens desejavam ter um filho homem.
Tive um tio que só desistiu depois de ter 5 filhas!
Um abraço amigo e um bom domingo.

Renata Maria disse...

Será o menino-homem tão desejado?
Beijo*

Mariangela do Lago Vieira disse...

Xiii Elvira, se for igual com os meus pais, que o varão só foi aparecer depois de quatro meninas!
Mas o Manuel também não desistirá!
Abração amiga, boa semana!
Mariangela

Crocheteando...momentos! disse...

Por certo não desistirá...bj

Rosemildo Sales Furtado disse...

É, tudo indica que a única diversão do Manel e da esposa era fazer filho.

Abraços,

Furtado.

Gaja Maria disse...

Será que é desta que vem o rapaz? :)

Zilani Célia disse...

CONTINUANDO

http://zilanicelia.blogspot.com.br/

Dorli Ramos disse...

Oi querida,
Gostei
Beijos
Minicontista2