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14.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE L

                                            Foto do google


A casa do Pinheiro Manso, tinha agora luz eléctrica, pois o anterior morador fizera uma puxada dum poste eléctrico que passava ali ao lado,  e isso deixava o Manuel e a mulher mais descansados com os filhos, do que se ainda fosse como noutros tempos a candeeiros a petróleo ou a velas. Assim depois do jantar, ele ou a mulher acompanhavam os filhos até à casa a uns cinquenta metros da casa da porteira, e depois de verificarem que estava tudo bem, dirigiam-se à casinha da porteira, onde pernoitavam. O barracão junto ao rio, ficou vazio, se exceptuarmos as ferramentas agrícolas que o Manuel necessitava para o quintal. Pois ele continuava a cavar, semear e colher o quintal. Por medo de que sabendo que ali já não havia moradores, os gatunos fossem de noite  assaltar as capoeiras, mudaram-se os animais para umas capoeiras junto à nova casa, que anteriormente tinham sido usadas pelo Bernardino, o caseiro, que residia mesmo em frente da casa da porteira, e até o porquinho veio para um chiqueiro ao lado do chiqueiro do caseiro. A filha mais velha continuava a trabalhar no laboratório, mas vivia agora com os pais, pois o futuro sogro tinha voltado a casar e os filhos não aceitaram uma tão rápida substituição da mãe. Assim o rapaz, mandara à namorada algum dinheiro para que alugasse uma casa na zona, e tratasse dos papéis para o casamento, que ele chegaria em finais de Julho, teria dois meses de licença e queria passa-los já casado, e na sua casa pois não queria ver o pai. Por isso, a rapariga vinha agora todos os dias para casa, a fim de dar andamento às coisas para o casamento que se avizinhava.
No dia 24 de Fevereiro, foi o Festival da Canção, que Simone de Oliveira haveria de vencer com a Desfolhada. Naquele tempo o Festival era muito publicitado, era mesmo considerado o evento do ano e toda a gente queria vê-lo. Os filhos do Manuel foram com o pai, assistir ao festival na TV do "Galitos" na Telha.
 Porém a letra da canção, do saudoso Ary dos Santos, desagradou a muita gente. Era uma letra mais que arrojada para a época. De tal modo que no dia seguinte, não se comentavam fatos nem adereços, nem outros intervenientes,  mas tão-somente a letra da canção vencedora. Na época não era fácil aceitar que alguém cantasse “Quem faz um filho, fá-lo por gosto”

14.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXXI


                         Foto de Luís Miguel Correia


Apesar de todas as vicissitudes da vida,  pouco depois do Ano Novo,  já andava às voltas com o seu fato e máscara de Carnaval.  Ele sempre fora um homem alegre, brincalhão e a época carnavalesca sempre lhe permitia extravasar essa alegria. Sempre fazia máscaras estranhas, deuses ou demónios de um qualquer mundo imaginário, muito parecidas com as máscaras tribais que hoje vemos na televisão. A morte da mãe, e os problemas de saúde da esposa, levaram-no a interromper essa prática, que retomara  nesse ano da graça de 1958
Em Abril, a safra já tinha terminado e o pessoal que ali trabalhava todo o ano, voltara à rotina de reparar tinas, caiar armazéns, reparar arames partidos e cortar o canavial. A 19 desse mês, é lançado à água a nova aquisição da seca, um dos navios mais bonitos da pesca do bacalhau. O Neptuno, o navio-motor em aço, construído nos estaleiros de São Jacinto em Aveiro.
Na seca, um dos cunhados do Manuel continua na tropa, e o outro conseguiu por esses dias empregar-se na CUF, e embora continuasse a viver no barracão, como trabalhava no turno da noite, dormia de dia, e Manuel deixou de contar com a sua ajuda. Os filhos estavam na escola. A mulher cuidava da casa, e  da criação que entretanto fora conseguindo, e por vezes dava uma ajuda na rega. Mas ele não gostava muito de a ver no quintal. Ela continuava com problemas de saúde. Agora de vez em quando tinha uns ataques que ninguém a segurava. Os vizinhos já falavam que ela devia ter algum “encosto”, quem sabe, alguma promessa que decerto a Piedade fizera e não pagara, e agora andava a atormentar a nora.
Manuel não sabia se havia de acreditar ou não. Mas lá que eram uns ataques esquisitos eram. No último esteve largos minutos desacordada e depois de repente, começara a gritar, rasgara a roupa, arranhava-se e mordia-se e ele aflito até mandara as crianças para casa do cunhado, para elas não verem assim a mãe. Depois que recuperou, andou quase uma semana prostrada e sem forças. Agora estava bem mas e até quando?
No terminar das aulas, a filha ficou bem no exame da 4ª classe e Manuel sentiu-se feliz por isso. Pena que o filho não tivesse passado. Mas ele sabia que a culpa não era do miúdo, se ele não conseguia fazer-se entender.

5.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXV

                     Os três filhos do Manuel. Foto minha




Quando a safra termina a meados de Março, o Manuel agora com mais tempo livre, e os dias a crescer tem uma ideia fixa. Tem que abrir um poço. E como a ideia não lhe saia da cabeça, e seguindo o método da vara que aprendera na terra, achou que tinha água mesmo à porta do barracão.
Levantava-se cedo, e começava a cavar. E quando chegava do trabalho e até ao sol-pôr pegava na enxada e o buraco estava cada dia mais fundo, perante a aflição da mulher com medo que o terreno desabasse e o marido ficasse lá sepultado. Pensando nisso o Manuel conseguiu que o gerente lhe desse umas tábuas que não serviam para os botes, e construiu uma espécie de caixa quadrada sem fundo que ficou escorando o buraco. Na verdade conseguiu água a menos de 3 metros de profundidade. Era um pouco salobra, mas potável.
Agora já podia plantar umas couves, tomates, alfaces, cebolas, feijão verde… Era uma grande ajuda.
A 19 de Maio, em Baleizão, no Alentejo, uma ceifeira de 26 anos, chamada Catarina Sabino Eufémia, mãe de três filhos, o mais novo dos quais apenas com oito meses, foi assassinada com tiros à queima-roupa, por um oficial da GNR, o tenente Carrajola, durante uma manifestação que reivindicava um aumento salarial de dois escudos por jorna.
O Manuel soube disso dias depois pelo Varandas. Ele conhecia alguém que sabia de tudo o que se passava, e queria apresentá-lo ao cunhado. Manuel recusou dizendo:
"Quando temos cinco pessoas que dependem de nós para comer, não podemos dar-nos ao luxo de pôr arriscar a nossa vida, porque ela não nos pertence." 
Nesse Verão o casal queria cumprir a promessa dos miúdos irem de anjo na procissão. A menina tinha um vestidinho branco que servia, mas havia que lhe comprar o resto, bem como o fato completo para o rapazinho. E no Verão como sabemos só há um ordenado. O dinheiro não chegou para os sapatos. Em Agosto o tempo está quente, então o Manuel resolveu a situação fazendo para os filhos umas sandálias de cartão e tiras de cetim. Primeiro fez umas palmilhas em cartão que forrou com um pedaço de lençol velho. Depois colou uma fita de cetim de cada lado que cruzava no pé e dava um laço no inicio da perna. E no dia 15 de Agosto lá foram as crianças na procissão, e no fim tiraram uma fotografia  com a irmã para ficar de recordação.

27.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE XVIII


Casas na Telha, hoje quase uma terra fantasma.

No inicio do ano da graça de 1949, o António muda-se com a mulher e os filhos para uma casa na Telha. Mais longe do trabalho, mas mais perto da mercearia, da escola, da padaria.  E melhor que isso, com electricidade e o chafariz à porta. No Barracão ficou um quarto vago que foi ocupado pelos dois filhos do Aires, o morador mais antigo, dos três que ficaram.
Em Abril, nasce a segunda  filha do Varandas. A mulher do Manuel, vai a caminho do oitavo mês e ele continua aguardando o filho tão desejado.
E finalmente chegou o mês de Junho, o mês em que Gravelina daria à luz o segundo filho, acontecimento que se deu no dia 20. E o Manuel sofre nova decepção. A mulher dava à luz outra menina. 

Outra "racha" disse quando a parteira lhe comunicou o facto, e virou costas sem sequer querer ver a filha. Mas se ele tinha o coração ao pé da boca e sempre reagia a quente, esse mesmo coração era do tamanho do mundo, e logo se impunha. Não findou o dia, e ele já estava de novo encantado com a filha mais nova.
No inicio da nova safra, o Carlos, muda-se com a família, para a Seca de Alcochete, e em Outubro, o Manuel descobre que a mulher está de novo prenhe. Mais uma vez, renascem-lhe as esperanças do filho homem, pelo qual suspira. Mas a vida está cada dia mais difícil, quatro bocas para alimentar são demais para o que ganha, e ele leva noites a pensar na maneira de conseguir mais dinheiro. Decidido vai falar com o gerente, e pede-lhe autorização para cultivar o terreno à volta do casarão.
O gerente ri-se. “Se conseguires alguma coisa, que não sejam chorões e silvas, podes ficar com isso. Mas diz-me uma coisa: - Vais regar o terreno com a água salgada do rio, ou com as bilhas de água que a tua mulher vai buscar à Telha?”
Manuel não se importou. Começou por roçar os silvados e os chorões. Depois à volta da casa construiu uma capoeira onde colocou uns quantos pintos, comprados no mercado de Azeitão.

Antes de o ano acabar o Aires muda-se também para uma pequena casa na Telha e o Manuel da Lenha fica sozinho no imenso barracão com a mulher e as filhas.
Em Novembro o Varandas anunciou que a mulher estava outra vez prenhe.

E chegámos à segunda metade do século XX.
Que começa com a morte de Militão Ribeiro na Penitenciária de Lisboa, depois de ter feito uma greve de fome.  No país, cada vez se levantam mais vozes, contra o governo fascista. Porque o povo está cada dia mais pobre. E a repressão vai aumentando.
Em Maio inicia-se o julgamento de Álvaro Cunhal, que acaba sendo condenado à prisão perpétua.
Na Seca, a mulher do Manuel está como no ano anterior prestes a dar à luz. Ele anda sorumbático. Teme a vinda de outra rapariga.  Vai continuar a tentar ter um filho homem, ou vai desistir desse sonho, que na época é o sonho de todos os homens?

MANEL DA LENHA PARTE XVII




No final de Dezembro, o José Varandas era também pai de uma menina. E começava um estranho desafio com o amigo e cunhado Manuel. Ver quem teria primeiro o filho homem, com que ambos sonhavam.
Em Fevereiro, do ano seguinte, o Capitão e  gerente da Seca, chamou o Manel, e disse-lhe que precisava daquela "casa" para a nova porteira. Mas atendendo a que ele tinha sido pai há pouco, se ele quisesse ir viver para o barracão junto ao rio, já lá viviam três casais, mas o barracão era grande, e tinha quatro quartos pelo que um estava livre, podia mudar-se para lá. Mais tarde se veria. Claro que ele aceitou. Não tinha dinheiro para outra opção.
Na mudança, a mulher do Manuel descobre que as poucas roupas que tinham comprado de enxoval antes do casamento se estavam a estragar todas, devido ao salitre entranhado nas tábuas com que o marido fizera a mobília.
O casarão, como ele lhe chamava, era um enorme barracão assente em pilares de cimento, com 1 metro de altura, para que a água passasse por baixo nas tempestades de Inverno, ou nas marés vivas de Agosto, pois ficava bem na margem do rio Coina. Tinha quatro quartos, com portas e chave, e um salão de 11 metros de comprimento por 4 metros de largura. Contrariamente aos quartos, este salão não tinha nenhum forro por baixo do telhado, pelo que não raras vezes pingava lá dentro quando chovia. A meio do salão uma grande mesa comprida, e de cada lado um banco corrido de madeira. A mesa era utilizada pelos quatro casais. A um canto do salão, sobre uma bancada de cimento,  dois tijolos,separados por uma grelha de ferro servia de fogão. A luz era fornecida pelos candeeiros a petróleo, e a água, as mulheres iam buscá-la ao chafariz da Telha, em bilhas de barro, que transportavam à cabeça, sobre uma rodilha de pano, por elas chamada de sogra. Entre o barracão e o chafariz uns quinhentos metros bem medidos. Os casais davam-se bem, eram colegas e amigos, gente da mesma terra em busca de trabalho e uma vida melhor.
A primeira obra do Manuel no casarão, foi a construção de um forno, junto ao fogão, para as mulheres poderem cozer pão.
Se por um lado não havia grande privacidade, pois cada casal dispunha apenas de um quarto para si e para os filhos, por outro havia sempre uma mulher disponível para cuidar dos miúdos, dois rapazes do Aires, um casal do António, mais um rapaz do Carlos, e a menina do Manuel.
 Manuel sempre desejara um filho e tinha-se mentalizado de que assim seria, mas passada essa primeira decepção, encantou-se com a sua menina, e passa todos os momentos livres com ela, ensinando-lhe caretas e gracinhas.
Em Agosto, o Varandas veio com a novidade. A mulher estava outra vez “prenhe”. Desta vez é que vinha um menino.
A filha do Manuel faz 1 ano, em Setembro, e é uma miúda franzina mas saudável.
“Esta sai ao pai” dizia ele com orgulho, já esquecida a desilusão do ano anterior. 
Um mês depois, regressam os bacalhoeiros e recomeça a labuta de cerca de 400 pessoas. É a altura em que regressam os que partiram para a aldeia, e é a festa do reencontro.
E a mulher do Manuel, descobre que vai ser de novo mãe.
Renovam-se-lhe as esperanças do filho homem que tanto anseia.

15.12.15

O DIA EM QUE PERDI A INOCÊNCIA

 foto do presépio da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro


Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa. Naquela época, primeira metade da década de 50 ninguém falava no Pai Natal. Pelo menos onde eu vivia, na Azinheira Velha. Meus pais, e meus avós ,diziam que era o Menino Jesus, quem na noite de Natal, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes.
 Nós vivíamos num barracão de madeira, que em tempos fora habitado por quatro casais e respectivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão, tinha um salão com 11 metros de comprimento, ao fundo do qual tinha um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos, com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão. Pelo Natal, todos os anos, vinham meus avós maternos, que viviam numa aldeia da Beira Alta, e se juntavam lá em casa com alguns dos filhos, – meus tios, e suas famílias. Era a única época do ano, em que víamos os avós, e era sempre uma alegria, além do mais, porque eles sempre traziam, queijo, presunto, e outros miminhos, que em casa nunca havia.
Não havia rádio, nem TV, nem sequer tínhamos luz eléctrica. Mas havia em casa, três candeeiros a petróleo, que na noite de Natal, ficavam acesos até depois da meia-noite. Muito antes do Natal, meu pai, colhia no pinhal perto da nossa casa, algumas pinhas, que secava abria e debulhava. Partiam-se alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos. Ele mesmo fazia uma piorra,ª de quatro lados, com o Rapa Tira Põe e Deixa. Cada um tinha um montinho de pinhões que ia aumentando ou diminuindo, ao sabor da sorte. Ou então jogávamos ao "Pinhas alhas", que era assim. Cada um tinha 50 pinhões para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros do jogo, "pinhas-alhas" e o outros respondiam "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E saía um número de cada um dos jogadores. Se fosse a quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões, ao jogador que acertara. Mas recebíamos de todos os que errassem igual número.  E era o nosso entretém.
Pelas 10 horas, meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama e mandava-nos pôr os tamancos, junto ao fogão para o Menino Jesus deixar os presentes. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança de que nesse ano, o menino Jesus deixasse uns brinquedos, iguais ou parecidos, aos lindos brinquedos, que tinham os filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos. Mas no dia seguinte, era a mesma coisa, ano após ano. Uma tremenda decepção, pois lá só havia, meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, andava eu pelos seis anos, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus, para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada, e a nós que éramos tão pobres, que nada tínhamos, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada e quando ouvi barulho, levantei-me e apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus, não queria saber de nós, e chorei tanto, que a  minha avó para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus não vinha dar prendas a ninguém, que era uma tradição dizerem isso, porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade as prendas eram dadas pelos pais, e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.

Esta é a história verdadeira do meu Natal de 53. Já aqui a contei em 2011. Porém nessa data a maioria de vós não frequentava o blogue.


ª) pequeno pião,  que em vez de ser redondo, era quadrado, em cujas faces se desenhavam as letras. Tinha a ponta em cima, ligeiramente maior, para que o fizéssemos girar com um toque de dedos.

A todos os que durante este ano me acompanharam, eu desejo um Santo Natal. Muita saúde e muito amor à vossa volta