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6.1.20

6 DE JANEIRO - DIA DE REIS




Então hoje é o dia de Reis. E com esta data, se encerram oficialmente as festas de Natal, a celebração do nascimento do Deus Menino, na figura humana de Jesus Cristo.
Referidos no Evangelho de São Mateus, os três Reis Magos tornaram-se uma figura importante da celebração do Natal, e é deles que herdámos a tradição de oferecer presentes nesta quadra festiva. Não se refere, na Bíblia, quantos foram nem como se chamavam, mas sabe-se que ofereceram três presentes a Jesus - ouro, que se oferecia aos Reis, incenso, conforme se oferecia aos sacerdotes, e mirra, que se ofertava aos profetas - e por essa razão, no século VII a sua história passou a ser contada como sendo os três Reis Magos do Oriente, a quem foram dados nomes e proveniências distintas, para que cada um deles representasse uma das raças conhecidas na altura:
- Belchior, também chamado Melchior ou Melquior - "o meu rei é Luz" - representava a raça branca, europeia, teria cerca de 60 anos, e ofereceu ouro, um metal muito valioso, que simbolizava realeza e virtude. Foi oferecido a Cristo por ele ser Rei de todos os Homens, pois na Antiguidade era um presente que costumava ser dado aos Reis.
- Gaspar - "aquele que vai inspecionar" - seria rei da Índia e teria cerca de 40 anos, representando o povo asiático. Ofereceu incenso, uma resina utilizada para fazer perfumes e em rituais religiosos, que ainda hoje é queimado nas igrejas. Era símbolo de espiritualidade e de oração e representa a missão com que Jesus veio à Terra: espalhar a Fé entre os homens. 
- Baltasar - "Deus manifesta o Rei"- teria cerca de 20 anos, representando a raça africana e tendo oferecido mirra, uma resina muito utilizada na medicina Chinesa para dores reumáticas e problemas de circulação. Na medicina Ocidental é usada em pastas de dentes e desinfetantes da boca. Antigamente valia mais que o seu peso em ouro. Também é utilizada em funerais e cremação. Simboliza o sofrimento de Jesus, que morreu para nos salvar.
Não se sabe exatamente quem eram estes homens, quantos eram, e de onde vinha., pois o Evangelho nada esclarece sobre isso. Sabe-se que o nome de Mago, era dado aos sábios e eruditos. O número de três, apareceu apenas num livro escrito pelo monge carmelita, João de Hildesheim no século XIV. O livro também oficializou os seus nomes que foram retirados de um friso de mosaicos da Igreja de Santo Apolinário em Ravena (Itália). Foi ainda este monge que incorporou a dor da pele de Baltazar, pois em nenhuma das representações anteriores, ele fora pintado assim.
O dia de Reis é celebrado em todo o mundo cristão, com algumas tradições curiosas. Em Portugal, temos o bolo-Rei, até há uns anos confecionado com um brinde e uma fava, que depois foram proibidos pela ASAE. E a tradição mandava, que aquele a quem saía a fatia da fava, teria que pagar o Bolo-Rei do ano seguinte. Também existe a tradição de se cantar de porta em porta As Janeiras, que Zeca Afonso celebrizou. Ainda em Portugal, há a crença de que se deve comer uma romã e guardar numa gaveta a sua coroa juntamente com uma nota para que a fortuna entre em casa.
Em Espanha é costume as crianças deixarem na janela os sapatos com capim, antes de irem dormir, a fim de alimentar os camelos dos Reis para que possam seguir viagem. 
 Na França e em Quebec (no Canadá), come-se o Galette des Rois (Bolo de Reis), que contém um brinde no seu interior.(Parece que o poder da ASAE, não chega lá) O bolo vem acompanhado de uma coroa de papel e quem encontrar o brinde na sua fatia, será coroado e terá de oferecer o bolo no ano seguinte.
Na Hungria as crianças vestem-se de Reis Magos e vão de porta em porta pedindo pelos Reis, Uma espécie do nosso pedido de pão por Deus.
Na Alemanha as crianças também vestidas de Reis, vão escrevendo as iniciais nas portas de cada um. 


6.12.19

CONTOS DE NATAL - CARTA AO MENINO JESUS






O Francisco frequentava o terceiro ano de escolaridade com muito bom aproveitamento. Era um miúdo admirável! Já vivera razoavelmente mas, actualmente, sofria as consequências da quase indigência do pai por, no início daquele ano, ter perdido o emprego. Era um bom trabalhador, mas a oficina fechara.
Andava o miudinho muito triste e amargurado porque a fome, o frio e a tristeza eram o pão-nosso de cada dia naquela casa.
Como habitualmente, ao aproximarem-se as férias do Natal, a professora mandou que os alunos fizessem uma redacção sobre essa quadra festiva.
O Francisco debruça-se sobre o papel e, numa letra mais adulta que infantil, intitula a sua composição de APELO e escreve:
«Menino Jesus: não acredito no que tenho ouvido dizer a teu respeito, ou seja, que só dás a quem já tem, e nada dás a quem nada tem! Explico-te porquê: eu sei que são os pais a darem essas prendas e não tu, que tens mais que fazer; se fosses tu, de certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres.»
Sim, eu tenho certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres. Sim, eu tenho a certeza que seria assim, pois nunca te esqueces que também nasceste pobre e pobre morreste.
«Não venho pedir nada para mim. Quero lembrar-me que o meu pai está há um ano sem trabalho e precisa de ganhar dinheiro para nos sustentar. Por isso, não te esqueças de lhe arranjar um emprego. Eu sei que Natal quer dizer nascimento e, olha, nós também nascemos e, com certeza, não foi para que morrêssemos já, sem dar testemunho sobre a terra. Se assim fosse, como é que poderíamos dar os parabéns pelo teu aniversário?! Já agora podes ficar a saber que eu nasci no mesmo dia: nasci no Natal»
Pouco antes de as férias começarem, a professora chamou o Francisco e disse-lhe que tinha arranjado trabalho para o seu pai e, que já poderia começar a trabalhar no princípio de Janeiro do próximo ano. Foi tal a alegria dele que chorou copiosamente e, então, passou a andar tão contente, que os pais não sabiam que dizer. No entanto ele não disse porque é que andava assim.
Na véspera de Natal todos se deitaram cedo, pois a consoada consistiria em sopa e pão, por o dono da mercearia, atendendo ao dia que era, ter condescendido em acrescentar ao rol do livro da dívidas.
O Francisco não adormeceu logo. Depois de ter verificado que toda a gente estava a dormir, foi colocar o seu sapatinho à porta do quarto dos pais, com um bilhete dentro.
No dia de Natal, a mãe, que era sempre a primeira a levantar-se, ao sair do quarto tropeçou no sapato do filho. Baixou-se, pegou nele, e leu o bilhete: "Pai, a partir de Janeiro vai ter trabalho. Foi a minha professora que lho arranjou, por causa da minha redacção ao Menino Jesus. É a nossa prenda de Natal".
Com as lágrimas nos olhos, de contentamento já se vê, aquele casal entrou, pé ante pé, no quarto do filho. Ao vê-lo profundamente adormecido e a sorrir, ambos disseram: eis aqui o nosso Menino Jesus!


Lucas Hernandes  in "Deixe a folha cair"

26.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XI



“Longe da vista, longe do coração” costuma dizer o povo e neste caso assim aconteceu. Ela cansou-se e trocou-me por um vizinho.
Não sei o que ficou mais ferido. Se o coração, ou o orgulho, mas o certo é que a minha fé nas mulheres que já tinha ficado abalada por causa da minha madrasta, ruiu por completo.
Durante os anos seguintes, tentei esquecer, voltando a dedicar-me de corpo e alma à minha profissão, oferecendo-me como voluntário para tudo quanto era missão no exterior. 
Há quatro anos, de volta a Portugal, fui ao casamento de um amigo, também militar. Na altura, andava meio deprimido, já tinha ultrapassado os trinta anos e era o único do grupo que ainda não tinha formado família.
Durante a festa do casamento, bebi demais, e depois quando a festa acabou, decidi ir acabar a noite num bar. Lembro-me de me ter sentado a beber, junto de uma ruiva muito atraente, mas não me recordo de nada mais, a não ser, de ter acordado no dia seguinte, num quarto de um hotel com a tal ruiva.
Um mês depois, ela procurou-me no quartel. Apresentou-me umas análises e disse-me que a engravidei naquela noite, e queria dinheiro para fazer um aborto. Não deixei que o fizesse. Em vez disso propus-lhe casamento. Mais tarde viria a descobrir, que nunca lhe passou pela cabeça abortar, só o disse para que eu tomasse a atitude que tomei. Parece que um homem embriagado, nas mãos de uma mulher experiente não despe só o corpo, desnuda também a alma. E Marisa tinha experiência de sobra. Foi um casamento rápido. Tão rápido como o nosso, embora muito diferente. Apesar de não amar Marisa, pelo bem-estar do meu filho, estava disposto a fazer tudo para que a união resultasse. Depois disso acabaram-se as missões, queria estar perto dela quando o bebé nascesse. 
 Porém quando Marisa estava no sexto mês, tive que substituir um oficial que fora ferido em serviço no Kosovo. Parti pois, e um mês mais tarde, recebi uma carta anunciando o nascimento do Bernardo. Nascera prematuro aos sete meses. Quase dois anos depois, vim a descobrir que me traía, e que utilizava o meu dinheiro para sustentar o seu amante. Expulsei-a de casa, afirmando que com as provas que tinha ela não só não veria um tostão com o divórcio, como ia requerer a guarda do meu filho. Ela riu-se na minha cara e afirmou que o Bernardo não era meu filho, e que mo tiraria quando quisesse.
Fiquei de rastos. Amo aquele menino mais do que a mim mesmo. Apesar de não ser parecido comigo, Bernardo era muito parecido com a mãe, e há milhares de crianças que se parecem apenas com um dos progenitores. Por isso não quis acreditar que tinha sido enganado, mas um teste de ADN provou que o tinha sido. Mais tarde, o médico dele, respondendo a uma preocupação minha, pelo facto do Bernardo ser prematuro, disse-me que ele, era um bebé normal, nunca fora prematuro. Fui duplamente enganado. Marisa já estava grávida de dois meses naquela noite, no bar. O pai da criança devia tê-la abandonado e ela andava à caça de um papalvo que a sustentasse a ela e ao filho.
No entanto esta descoberta, não beliscou em nada o sentimento que eu tinha pelo menino, e vivi na angústia constante de o perder, até ler no jornal a notícia daquele acidente. 
Segundo a mesma, um grupo de amigos, realizou uma festa num barco. Calcula-se que durante a festa, muito álcool tenha sido ingerido pelos participantes. Perto da meia-noite, foram surpreendidos por uma tempestade. Três participantes caíram à água e apesar de todos os esforços, os seus corpos só foram resgatados três dias depois. Um deles era o de Marisa.


13.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXVI


- Minha filha! Meu Deus! Como é que a tua mãe foi capaz de semelhante maldade? Nunca lhe vou perdoar que me tivesse roubado a alegria do teu nascimento, as tuas gracinhas, o teu crescimento.
- Sem fazermos o exame não podemos ter a certeza.
- Faremos o exame se isso te deixa mais confiante. Por mim, não é necessário. Se nasceste nessa data, não tenho qualquer dúvida. Eu e a tua mãe éramos muito apaixonados, mas ela era muito insegura, achava que não era merecedora do meu amor e tinha uns ciúmes doentios. Disse que eu a traí, pediu o divórcio e foi para casa da irmã em Lisboa. Nunca mais me quis ver, nem ouvir, apesar dos meus esforços. E juro-te que nunca houve tal traição. É verdade que me viu abraçar uma mulher. Era uma prima em segundo grau que estava de partida para o Brasil, sem data de regresso. Não era um abraço de amantes nem beijo nem nada disso. Era uma despedida, duma familiar, que durou até hoje, pois nunca regressou. Tua mãe nunca aceitou sequer as minhas explicações. Mas conhecendo-a como conheci, sabendo do amor que me devotava, tenho a certeza de que nunca me teria traído. Estou em crer que nunca mais quis saber de nenhum homem.
- É verdade, nunca a vi interessada por ninguém.
- E dizes que faleceu há menos de um mês?
-Sim. Quando fui retirar as coisas do seu quarto para dar a uma instituição, encontrei este envelope. Há aqui também as vossas certidões de nascimento e encontrei também isto, - disse estendendo-lhe a caixa com o anel de noivado e a aliança.
Ele abriu a caixa, olhou as joias e voltou a fechá-la. Devolveu-lha
- Eram dela. Agora são tuas. Mas fala-me de ti, filha. Agora que a Natália morreu, com quem vives? E onde? Quero apresentar-te a toda a gente, levar-te lá para casa, mas tens que me dar algum tempo, a minha mulher tem estado doente, tenho que a preparar para esta notícia. Não posso dizer-lho assim de repente, pode sofrer algum choque não sei.
- Não precisa de me apresentar a ninguém. Eu só queria saber quem era o meu pai, já que a minha mãe sempre me disse que eu tinha nascido de uma aventura e que nem ela mesma sabia quem era o meu pai. Gostaria que fizéssemos o teste o mais rápido possível. Depois regresso a Lisboa, não quero atrapalhar a sua vida.
-Como podes pensar assim? Espero que não tenhas herdado a insegurança da tua mãe. A minha casa é a tua casa. Queres fazer o exame, vamos fazê-lo, embora ele seja desnecessário. És minha filha, e tens o direito a participar da minha vida, a conhecer a minha casa e a minha família. Queres fazer o exame na segunda-feira?
-Não tem que ser marcado?
- Não. Sendo particular penso que não. De qualquer modo eu vou agora passar pela clínica e confirmo. Depois telefono-te. Agora tenho de ir. Meu Deus, uma filha. Eu tenho uma filha linda e não sabia.
Pôs-se de pé. Por momentos ficou indeciso. Depois pediu:
-Posso dar-te um abraço?
Sem responder a jovem refugiou-se nos seus braços. As lágrimas rolavam pelas suas faces morenas. Emocionado, Jorge depositou um beijo na testa da jovem.
- Não chores filha. Tudo vai correr bem, vais ver.
Largou-a, e dirigiu-se à porta. A jovem ficou a vê-lo afastar-se.




Gente, vocês querem que eu continue com esta história o fim de semana? Ou querem descansar?

20.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXIII






Entrou em casa, acendeu a luz, despiu o casaco que pendurou no armário de entrada.  Foi à sala, ajeitou as almofadas do sofá e deu uma olhada ao espaço. Tinha ido para Coimbra no sábado não tinha feito limpezas, mas a sala estava apresentável. Fez uma rápida inspeção à cozinha e casa de banho. Satisfeita com o resultado, procurou o telemóvel e ligou para a mãe, a informar que a viagem tinha corrido bem, já estava em casa. Acabara a chamada quando alguém bateu na porta. Espreitou pelo óculo e abriu a porta ao ver que era Salvador.
- A porta da rua estava aberta, - informou – E o restaurante estava encerrado. Passei na churrascaria e trouxe um frango. Espero que não te importes.
- Não te preocupes. Gosto de frango.
Ele pousou o saco em cima do balcão. Enquanto ela punha a mesa.
- Desculpa ter-te pressionado para jantares comigo. Gostava de saber como te sentes com toda esta história. Estou preocupado contigo.
- E com Ana Clara, não?
- Claro que com ela também. Mas ela tem o meu irmão para a apoiar.
- Olha Salvador, vamos esclarecer as coisas. Tu és quase da família, eu estou-te muito grata, porque graças a ti, descobri a verdade sobre o meu nascimento e ganhei uma irmã fantástica. Mas por amor de Deus não penses em tornar-te responsável por mim. Já sou maior de idade, há muito tempo e já tive na minha vida homens protetores de mais. Três irmãos são mais do que qualquer mulher pode suportar, antes de morrer sufocada.
-Três irmãos?
- Se tu queres assumir esse papel sim.
- De modo algum, fica descansada. E amigo? Posso candidatar-me, ou não há vaga? - Perguntou sorrindo.
Ela acabara de por a comida na mesa. Abriu a gaveta dos talheres, agarrou o saca-rolhas e estendeu-lho juntamente com a garrafa de vinho.
- Abres?
Abriu a garrafa e despejou um pouco de vinho em cada copo.
- Não respondeste à minha pergunta - disse ele
- Sou muito exigente com os meus amigos. Não sei se cumpres os requisitos.
- E tens muitos amigos?
- Não. Fogem todos quando conhecem as condições.
Ele deu uma gargalhada, e ela acabou por rir também. Então perdida a tensão anterior, Anete falou de como se sentia, do facto de continuar a amar os pais e os irmãos da mesma maneira, de sentir que a única coisa importante tinha sido o facto de ter ganhado uma nova irmã. E do estranho que era pensar que há um mês atrás não sabia que tinha uma gémea, e agora sentir a irmã como se fosse uma extensão de si mesma. Terminou perguntando:
- Não achas que é uma loucura?
- Tenho ouvido dizer que isso acontece com todos os gémeos idênticos.
Entretanto acabaram de comer.
- Queres café? Só tenho instantâneo, mas posso por a água ao lume, – disse ela ao mesmo tempo que se levantava.
- Não. - Respondeu. E ficou a vê-la recolher a loiça e metê-la na máquina.
Recolheu os dois individuais, sacudiu-os para o lava-loiça, abriu o tambor da máquina da roupa e jogou-os lá dentro.
- Vamos para a sala? – Perguntou, e sem esperar resposta, passou ao lado dele que se levantava nesse momento e dirigiu-se para lá.

7.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XIX




Se Raul ficou de boca aberta, ao abrir-lhes a porta, isso não foi nada comparado com a reação que se apoderou das duas mulheres, quando se viram frente a frente. Apesar de terem sido avisadas da grande semelhança entre elas, nada as preparou para a intensa emoção que sentiam. Tão grande que não resistiram a cair nos braços uma da outra, quando se cumprimentaram.
Apenas a roupa as diferenciava, já que até o cabelo, Ana Clara usava naquela noite, primorosamente entrançado.
Até os filhos do casal, dois miúdos traquinas, de três e cinco anos olhavam uma e outra sem saberem que pensar até que João, o mais velho perguntou:
- Pai, temos duas mães?
- Não filho. É só uma coincidência.
- E o que é uma coincidência? – Perguntou o garoto interessado.
- Mais tarde o pai explica-te. Agora são horas de jantar. Vão lavar as mãos e vamos para a mesa.
Após o jantar, que decorreu de forma agradável, Ana Clara pediu licença para ir deitar as crianças, e Anete ofereceu-se para a ajudar.
Enquanto isso, os homens levantaram a mesa, e meteram a loiça na máquina, enquanto conversavam entre si.
- Não achaste muito estranha a emoção das duas?- Perguntou Raul.
- Não. Estou tão convencido que são gémeas, que confesso esperava qualquer coisa do género.
- Será possível?
Acredito que sim. Embora seja muito estranho que no registo de nascimento da Anete, não haja nenhum averbamento de adoção.
- Como é que sabes?
- Porque a obtive no registo.
Raul ligou a máquina e dirigiram-se para a sala. Logo de seguida as duas jovens entraram.
- Custaram a adormecer. Estavam excitados com a novidade, - disse Ana Clara
- Querem beber alguma coisa? Estamos com uma ideia na cabeça, queríamos conversar convosco.
- Não, - disseram em coro.
- Bom,-  continuou Salvador,- não sei bem como dizer isto sem vos escandalizar, mas acredito que vocês são gémeas. Não sei como aconteceu, pode ter sido um erro no hospital, mas estou certo de que um exame de ADN, pode provar isso.  A questão é: Querem vocês saber a verdade, sabendo que ela pode demonstrar que tudo o que viveram nestes vinte e oito anos, não passou de uma mentira?
- Eu quero, - disse Ana Clara. - Meus pais sempre foram muito carinhosos comigo, mas sempre me senti muito sozinha e triste, por saber que não tinha irmãos. Senti uma emoção tão grande esta noite, que foi como se de repente me sentisse completa e em paz. E tu, Anete?
- Também senti uma grande emoção quando te vi. Nada me daria mais alegria do que saber que somos irmãs. Mas nunca teria coragem para fazer esse exame sem falar primeiro com os meus pais. Fui criada com muito amor, por eles e por meus dois irmãos. Se houve um engano no hospital, esse erro pode matá-los de desgosto. Vamos fazer assim. Gostaria de levar uma fotografia tua, se tiveres uma recente, ou se me deixares usar o telemóvel.
- Claro, podes tirá-la.
Anete tirou a foto, e depois pediu a Salvador que lhes tirasse uma outra com as duas juntas. Guardou o telemóvel e despediu-se:
- Tenho que ir. Amanhã mesmo vou falar com os meus pais. Eles vivem em Coimbra, tenho que ir no comboio da manhã, e voltar à tarde. Vou começar a trabalhar na segunda-feira. Adorei conhecer-vos, - disse pondo-se de pé para se despedir.