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6.12.19

CONTOS DE NATAL - CARTA AO MENINO JESUS






O Francisco frequentava o terceiro ano de escolaridade com muito bom aproveitamento. Era um miúdo admirável! Já vivera razoavelmente mas, actualmente, sofria as consequências da quase indigência do pai por, no início daquele ano, ter perdido o emprego. Era um bom trabalhador, mas a oficina fechara.
Andava o miudinho muito triste e amargurado porque a fome, o frio e a tristeza eram o pão-nosso de cada dia naquela casa.
Como habitualmente, ao aproximarem-se as férias do Natal, a professora mandou que os alunos fizessem uma redacção sobre essa quadra festiva.
O Francisco debruça-se sobre o papel e, numa letra mais adulta que infantil, intitula a sua composição de APELO e escreve:
«Menino Jesus: não acredito no que tenho ouvido dizer a teu respeito, ou seja, que só dás a quem já tem, e nada dás a quem nada tem! Explico-te porquê: eu sei que são os pais a darem essas prendas e não tu, que tens mais que fazer; se fosses tu, de certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres.»
Sim, eu tenho certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres. Sim, eu tenho a certeza que seria assim, pois nunca te esqueces que também nasceste pobre e pobre morreste.
«Não venho pedir nada para mim. Quero lembrar-me que o meu pai está há um ano sem trabalho e precisa de ganhar dinheiro para nos sustentar. Por isso, não te esqueças de lhe arranjar um emprego. Eu sei que Natal quer dizer nascimento e, olha, nós também nascemos e, com certeza, não foi para que morrêssemos já, sem dar testemunho sobre a terra. Se assim fosse, como é que poderíamos dar os parabéns pelo teu aniversário?! Já agora podes ficar a saber que eu nasci no mesmo dia: nasci no Natal»
Pouco antes de as férias começarem, a professora chamou o Francisco e disse-lhe que tinha arranjado trabalho para o seu pai e, que já poderia começar a trabalhar no princípio de Janeiro do próximo ano. Foi tal a alegria dele que chorou copiosamente e, então, passou a andar tão contente, que os pais não sabiam que dizer. No entanto ele não disse porque é que andava assim.
Na véspera de Natal todos se deitaram cedo, pois a consoada consistiria em sopa e pão, por o dono da mercearia, atendendo ao dia que era, ter condescendido em acrescentar ao rol do livro da dívidas.
O Francisco não adormeceu logo. Depois de ter verificado que toda a gente estava a dormir, foi colocar o seu sapatinho à porta do quarto dos pais, com um bilhete dentro.
No dia de Natal, a mãe, que era sempre a primeira a levantar-se, ao sair do quarto tropeçou no sapato do filho. Baixou-se, pegou nele, e leu o bilhete: "Pai, a partir de Janeiro vai ter trabalho. Foi a minha professora que lho arranjou, por causa da minha redacção ao Menino Jesus. É a nossa prenda de Natal".
Com as lágrimas nos olhos, de contentamento já se vê, aquele casal entrou, pé ante pé, no quarto do filho. Ao vê-lo profundamente adormecido e a sorrir, ambos disseram: eis aqui o nosso Menino Jesus!


Lucas Hernandes  in "Deixe a folha cair"

16.12.15

DOCES TENTAÇÕES - RABANADAS

Nesta foto do ano passado. eu tenho rabanadas e fatias douradas. E azevias de grão e de batata doce.



A poucos dias do Natal, hoje vou falar de rabanadas.
Quando eu era menina, no Natal da nossa casa, não havia filhoses, nem coscorões, que minha mãe não sabia fazer e não havia dinheiro para comprar. Mas a minha mãe fazia rabanadas. Com vinho pois claro. Passava o pão pelo vinho com açúcar, punha a escorrer, passava pelo ovo, e fritava.
Minha avó dizia, que rabanada era sempre feita com vinho, com leite, eram fatias douradas e não rabanadas. Dizia ainda que lá na aldeia, noutros tempos, se faziam  fatias paridas . 
Fatias paridas eram feitas como as rabanadas, mas em vez de serem mergulhadas em vinho, ou em leite como as fatias douradas, eram mergulhadas em água simplesmente. Depois eram envoltas no ovo e fritas, por fim eram regadas com mel, e dadas às mulheres que tinham acabado de parir,(era assim mesmo que a avó dizia) para que tivessem bom leite.Hoje lembrei-me disto e andei pesquisando na Internet. E realmente constatei que a maioria chama rabanada à fatia dourada, havendo até sites que dizem  nas suas receitas, rabanada, ou fatia dourada.
Não sei se a Internet está certa, ou se era a minha avó, que tinha razão.
 Diz-se que a rabanada é um doce tipicamente português, mas ela aparece com pequenas variantes em todo o mundo. Na França, chamam-lhe "pain perdu" e na Colômbia, Chile, Equador,  Guatemala e México, chamam-lhe "tostadas francesas" ou "pan francés",
De origem portuguesa, ou francesa, o que importa é que de uma maneira ou de outra, ela vai a muitas mesas nesta época do ano.
 Eu gosto muito de experimentar novos sabores, variar receitas. Por isso, eu vos deixo aqui a receita das minhas rabanadas, que nem são como a minha mãe as fazia, nem como as vejo por aí na Internet.
Começo por comprar um pão cacete dois dias antes para que esteja bem duro. No dia 24, logo pela manhã, ponho ao lume, 1 litro vinho branco, com uma colher de açúcar, 5 cravos da Índia, (cravinhos), um pau de canela, a raspa de um limão, e meia estrela de anis.
Quando o vinho começa a ferver, reduzo o lume para o mínimo, e deixo ferver durante um quarto de hora, tempo necessário para evaporar todo o álcool do vinho, sem que perca o sabor. E também para que ele absorva  o sabor das especiarias. Ao fim desse tempo, apago o lume, e com uma espumadeira, retiro as especiarias, mergulho o  pão no vinho quente, e retiro de seguida para uma rede onde fica a escorrer.
Depois do pão frio, passo por ovo, e frito. Para absorver parte da gordura, eu vou colocando-as sobre  papel absorvente. Acabada a fritura, misturo num prato,açúcar com canela. Coloco as rabanadas numa taça e  com um garfo salpico-as com esta mistura. Nunca as passo directamente na mistura, pois elas absorvem muito açúcar, e como sabem o açúcar é um doce veneno. Garanto-vos que ficam muito boas.Usem e abusem da canela, nesta altura em que se comem mais doces, pois ela faz com que o sangue não absorva parte do açúcar.
Ah! Só mais uma coisinha. Cuidado ao mergulhar o pão no vinho. Mergulham, viram e retiram imediatamente. Como o vinho está bem quente, o pão fica impregnado muito rapidamente, e se estiver tempo demais, desfaz-se.
Então aqui vai a minha receita

1 pão duro, (tipo cacete)
1 litro de vinho branco
6 ovos
açúcar q.b.
1 pau de canela
5 cravinhos
raspa de um limão
meia estrela de anis


Bom Natal.

15.12.15

O DIA EM QUE PERDI A INOCÊNCIA

 foto do presépio da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro


Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa. Naquela época, primeira metade da década de 50 ninguém falava no Pai Natal. Pelo menos onde eu vivia, na Azinheira Velha. Meus pais, e meus avós ,diziam que era o Menino Jesus, quem na noite de Natal, vinha recompensar os meninos bons e trazer presentes.
 Nós vivíamos num barracão de madeira, que em tempos fora habitado por quatro casais e respectivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão, tinha um salão com 11 metros de comprimento, ao fundo do qual tinha um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos, com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão. Pelo Natal, todos os anos, vinham meus avós maternos, que viviam numa aldeia da Beira Alta, e se juntavam lá em casa com alguns dos filhos, – meus tios, e suas famílias. Era a única época do ano, em que víamos os avós, e era sempre uma alegria, além do mais, porque eles sempre traziam, queijo, presunto, e outros miminhos, que em casa nunca havia.
Não havia rádio, nem TV, nem sequer tínhamos luz eléctrica. Mas havia em casa, três candeeiros a petróleo, que na noite de Natal, ficavam acesos até depois da meia-noite. Muito antes do Natal, meu pai, colhia no pinhal perto da nossa casa, algumas pinhas, que secava abria e debulhava. Partiam-se alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos. Ele mesmo fazia uma piorra,ª de quatro lados, com o Rapa Tira Põe e Deixa. Cada um tinha um montinho de pinhões que ia aumentando ou diminuindo, ao sabor da sorte. Ou então jogávamos ao "Pinhas alhas", que era assim. Cada um tinha 50 pinhões para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros do jogo, "pinhas-alhas" e o outros respondiam "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E saía um número de cada um dos jogadores. Se fosse a quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões, ao jogador que acertara. Mas recebíamos de todos os que errassem igual número.  E era o nosso entretém.
Pelas 10 horas, meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama e mandava-nos pôr os tamancos, junto ao fogão para o Menino Jesus deixar os presentes. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança de que nesse ano, o menino Jesus deixasse uns brinquedos, iguais ou parecidos, aos lindos brinquedos, que tinham os filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos. Mas no dia seguinte, era a mesma coisa, ano após ano. Uma tremenda decepção, pois lá só havia, meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, andava eu pelos seis anos, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus, para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada, e a nós que éramos tão pobres, que nada tínhamos, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada e quando ouvi barulho, levantei-me e apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus, não queria saber de nós, e chorei tanto, que a  minha avó para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus não vinha dar prendas a ninguém, que era uma tradição dizerem isso, porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade as prendas eram dadas pelos pais, e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.

Esta é a história verdadeira do meu Natal de 53. Já aqui a contei em 2011. Porém nessa data a maioria de vós não frequentava o blogue.


ª) pequeno pião,  que em vez de ser redondo, era quadrado, em cujas faces se desenhavam as letras. Tinha a ponta em cima, ligeiramente maior, para que o fizéssemos girar com um toque de dedos.

A todos os que durante este ano me acompanharam, eu desejo um Santo Natal. Muita saúde e muito amor à vossa volta


16.12.14

UMA DESCOBERTA DE NATAL


Presépio da S. C. da Misericórdia do Barreiro.  Foto minha.




Quando eu era menina (e já lá vão tantos anos) o Natal era uma festa. Meus pais, e meus avós diziam que na noite de Natal o Menino Jesus vinha recompensar os meninos bons e   trazer presentes. Nós vivíamos num barracão de madeira que em tempos fora habitado por 4 casais e respetivos filhos, mas no qual ficaram apenas os meus pais, quando os outros casais se foram. O barracão tinha um salão com 11 metros ao fundo do qual havia um fogão, constituído por duas fileiras de tijolos com uma grelha em cima, e um forno de tijolo onde minha mãe cozia o pão. Pelo Natal todos os anos vinham meus avós do Norte e se juntavam lá em casa com alguns dos filhos, – meus tios. Era uma ceia de muita gente, de muita alegria, embora as iguarias fossem poucas. Meus avós sempre traziam um pouco de queijo, minha mãe fazia rabanadas, e minha tia Celeste as filhoses. Alguns anos a tia Carolina fazia uma travessa de aletria, que tinha de ser muito bem dividida, para que todos pudessem provar.  Não havia rádio, nem TV, nem sequer luz eléctrica. Mas havia em casa 3 candeeiros a petróleo, que na noite de Natal ficavam acesos até depois da meia-noite. Muito antes do Natal, meu pai colhia no pinhal perto da nossa casa, muitas pinhas, que secava abria e debulhava. Partia alguns pinhões para comermos e os outros eram para jogarmos. Ele mesmo fazia uma piorra com o Rapa, Tira, Põe e Deixa. Ou então jogávamos ao "Pinhas alhas" que era assim. Cada um tinha 50 pinhões para começar o jogo. Pegávamos uns quantos na mão fechada, e dizíamos para os parceiros "Pinhas alhas" e o outro respondia "abre a mão e dá-lhas". "Sobre quantas?" E saía um número. Se fosse a quantidade que tínhamos na mão, tínhamos que dar os nossos pinhões. Mas se errassem, então tinham  que nos dar tantos pinhões quantos tinham nas mãos. E era o nosso entretém.
Pelas 10 horas, tios e primos regressavam às suas casas, e meu pai dizia que tínhamos de ir para a cama. Antes porém tínhamos que pôr os tamancos de madeira que ele mesmo fazia, e que eram o nosso calçado, junto ao fogão para o Menino Jesus deixar os presentes. Sapatos só tínhamos um par, e era para a ida à missa, ou ao médico. E nós lá deixávamos os tamanquitos e íamos para a cama na esperança, de que nesse ano o menino Jesus,deixasse uns brinquedos iguais aos dos filhos do capitão, que geria a Seca do Bacalhau, onde os meus pais trabalhavam e nós vivíamos. Não sei se foi assim convosco, mas eu nunca ouvi falar no Pai Natal, senão no final dos anos 60, em Lourenço Marques, atual Maputo. Talvez pela proximidade com a África do Sul, lá se cultivava muito o mito do Pai Natal. Por cá, na minha infância era o Menino Jesus que em vez de receber prendas no seu aniversário,vinha distribuí-las pelos meninos que se portaram bem durante o ano. Porém todos os anos no dia de Natal, era sempre uma desilusão, pois em vez dos brinquedos esperados, só havia meia dúzia de rebuçados e dois ou três figos secos.
Lembro-me que um ano, talvez por volta dos meus seis anos, uma vez que ainda não andava na escola, decidi esperar acordada a chegada do Menino Jesus para lhe perguntar porque é que deixava lindos brinquedos aos filhos do capitão, que eram meninos ricos, a quem não faltava nada e a nós que éramos tão pobres, que não tínhamos sequer um boneco, só deixava rebuçados. Consegui manter-me acordada e quando ouvi barulho, levantei-me e apanhei a minha mãe a pôr os rebuçados nos tamancos. Fiquei muito revoltada, pensei que o Menino Jesus não queria saber de nós e chorei tanto que a  minha avó que para me acalmar, me explicou que o Menino Jesus não vinha dar prendas a ninguém,  que era uma tradição dizerem isso porque fazia anos que Ele nascera, mas que na verdade as prendas eram dadas pelos pais e os meus não tinham dinheiro que desse para outra coisa que não os rebuçados. Foi um choque e um alívio ao mesmo tempo.





A todos os que durante este ano me acompanharam, eu desejo um Santo Natal. Muita saúde e muito amor à vossa volta.