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16.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE II





Atravessou o átrio do hospital, seguido pelo olhar de enfermeiras e auxiliares. Não era por acaso que Gil Gaspar tinha uma figura tão impressionante. Ele fora nos últimos anos do século passado e nos primeiros deste século, um futebolista famoso, um dos melhores do mundo, pago a peso de ouro. E como tal conhecera bem os efeitos que a fama causava nas mulheres. Elas andavam à sua volta, como abelhas em volta de flores. E ele descobrira, que a fama consegue ser mais afrodisíaca que o dinheiro. E divertia-se com elas, aceitava o que lhe davam, mas não fazia promessas nem prendia o coração a nenhuma. Até que conheceu Sara. Ela parecera-lhe totalmente diferente das outras mulheres com quem se relacionara até à data, com o seu ar tímido e meio envergonhado. E ele ficara tão encantado que em menos de seis meses estavam casados. Fora um casamento feliz durante os primeiros anos. O casal frequentava a alta sociedade, era convidado para tudo quanto era festa, pois todos queriam contar com aquele que há três anos consecutivos, ganhava o titulo, de o melhor jogador do mundo, embora ele não se fizesse presente na maioria desses eventos, porque a vida de um atleta do seu nível, exige uma vida regrada e muita concentração durante grande parte do ano, coisa que não era compatível com uma vida de festas, como era desejo da mulher.
 Gil era perfecionista, muito rigoroso com a sua preparação física e mental, e começara uma nova época de sucesso, quando teve a primeira lesão grave, que o manteve afastado dos relvados durante mais de três meses. Fora operado ao joelho e durante o resto do tempo passara horas e horas no ginásio em exercícios de recuperação e quando chegava a casa só queria atirar-se na cama e descansar. 
Seria normal que uma mulher apaixonada, entendesse o sofrimento do marido e o apoiasse. Todavia a fama tinha dado volta à cabeça da sua mulher. Sara, preocupava-se mais com o facto de que ele não pudesse voltar a ser o mesmo jogador famoso, do que com o seu sofrimento real, embora nessa altura, ele ainda não se tivesse apercebido disso. "O amor é cego", dizem, e nessa época ele estava muito apaixonado. Felizmente todo o seu esforço foi recompensado e Gil voltou aos relvados e voltou a encantar público e críticos com a magia do seu talento, terminando a época de novo em grande. Todavia menos de seis meses depois, Gil voltou a lesionar o mesmo joelho, e o cirurgião que o operara, dissera-lhe que ele jamais seria o mesmo génio com a bola, depois daquela lesão. Poderia recuperar, podia mesmo voltar aos relvados, mas nunca mais conseguiria alcançar o mesmo nível, que tivera até aí. Consciente disso, depois da recuperação, Gil decidiu abandonar o futebol. Queria que, quando se lembrassem dele, se recordassem do extraordinário jogador que fora, e não acabar a carreira arrastando-se pelos relvados, em exibições medíocres como já vira acontecer com outros atletas. 
Sara não aceitou bem a sua decisão. Ela gostava da sensação de se sentir invejada, quando aparecia em público, e era fotografada para tudo quanto era revista, como a mulher do famoso Gil Gaspar, e receava que depois do seu abandono, a vida já não tivesse o mesmo brilho que até aí.  Ele, porém, estava decidido e nada nem ninguém o podia demover. Felizmente estava a poucos meses de terminar o contrato, e, ainda em tratamento de recuperação, informou o seu agente que se ia retirar logo que terminasse o contrato.
Com o futuro não se preocupava, pois acumulara uma boa fortuna, não só como jogador, mas também dando a cara em campanhas publicitárias que lhe renderam muito dinheiro.



1.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XIII





- Supondo que aceito a tua proposta. Que espécie de casamento seria? Quero dizer seria um casamento branco, ou completo?
- Queres saber se teria sexo? Pois sim, tendo em conta que não sou gay, nem impotente, e que sou um homem sério que uma vez casado respeitará a esposa, é lógico que o sexo fará parte do casamento.
- Devo dizer-te que a tal vida de princesa não me seduz em absoluto e que nunca me venderia por tal motivo.  Mas tens razão numa coisa. Com o teu dinheiro, a minha mãe poderia iniciar um novo tratamento que até agora não fez por só estar disponível num hospital privado, e não dispormos de recursos para isso. E o Pedro poderá ter acesso a uma vida que eu não lhe poderei dar.  Então, se eu aceitar será só por eles. E uma vez que encaras o assunto como um negócio, quero saber que garantias vou ter de que cumpres essas promessas, se me decidir a aceitar.
- Vejamos, o meu advogado redigirá um contrato em que fique estipulado o que acabei de te propor, bem como algo mais que entendas e seja razoável. Não sei como está a situação do menino, se entraste com o pedido de adoção, ou simplesmente tens a guarda por seres o parente mais próximo.
- Tenho a guarda, mas já entrei com o pedido de adoção. Porquê?
- Penso que já te disse que pretendo adotá-lo. Suponho que estando casados não te importes que o faça. Só assim será legalmente nosso filho.
Pela segunda vez a jovem corou. Lutava consigo mesma para manter o controlo na frente dele, mas estava a ser um esforço demasiado grande. O homem que estava na sua frente, era demasiado interessante, e ela tinha tão pouca experiência com o sexo oposto. Por outro lado, parecia-lhe que nada daquilo era real. Que tudo não passava de um sonho absurdo do qual ia acordar a qualquer momento. Pôs-se de pé.
- Tenho que ir. O Pedro já deve ter acordado.
- Tenho a certeza que a avó cuidará dele com todo o carinho. E ainda não me deste uma resposta.
- Nem vou dar. Não se toma uma decisão que vai alterar toda a nossa vida, assim à toa. Falaremos outro dia, se até lá não mudares de ideia.
- Dois dias, Joana. Dois dias é o tempo que te dou para que me digas que sim.
- És muito arrogante. Não te passa pela cabeça que não aceite, pois não?
- Não se trata de arrogância, mas do meu conhecimento do ser humano. Amas demasiado a tua mãe e o menino, para que não penses no quanto vão beneficiar com este casamento.
- Devias aprender também, que ninguém ama demasiado. Não há medida para o amor. Ama-se ou não se ama.  
E sem mais uma palavra ou gesto virou-lhe as costas e preparou-se para sair.
-Não te esqueças. Espero a tua resposta depois de amanhã à mesma hora,- disse antes que ela fechasse a porta atrás de si.
Pedro levou uns segundos, o olhar a porta fechada por onde ela acabara de sair. E então voltou a sua atenção para o projeto de remodelação do hotel, que o arquiteto lhe enviara.


Gente, passar 24 horas seguidas na cama, é uma tortura. 48 endoidece qualquer um. Não aguento mais. Uma coisa é por o que esta feito ao lado do que está por fazer e ficar quietinha. Outra é estar deitada a olhar para o teto. Não consigo ler deitada, já que a posição dos braços a segurar o livro me agrava as dores. Já me levantei. As suspeitas do médico apontam para uma hérnia discal. E isso toda a gente sabe que é doloroso, mas não mata ninguém. O essencial é não fazer esforços, que provoquem crises. 
  Bom fim de semana para todos. 

3.12.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES - PARTE IX


-E é tudo o que sei.
Tanto que a pobrezinha sofreu por amor do Chico. Quando percebeu quão falsas tinham sido as suas promessas desinteressou-se da vida. Era costureira. Deixou a costura. E olhe que tinha muita freguesia. E foi para o Terreiro do Paço vender cartas. Penso que junto ao mar, tinha a ilusão de estar mais perto dele. E de tanto olhar o mar,  os seus olhos foram perdendo a cor, e ficando assim. É como se o próprio mar se instalasse dentro dela, e lhe assomasse aos olhos. Ou como se eles quisessem manter viva a esperança, que o seu coração já sepultara.
Escutava a voz de Rita,  enquanto velávamos o cadáver da infeliz Esperança. Desde aquele dia em que a vira doente, e aproveitando as minhas férias, tinha ido todos os dias visitá-la, e fizera amizade com a Rita, a vizinha , que era talvez a sua única amiga.
Mas só hoje, depois da sua morte, e ali na presença do seu corpo, Rita me contara a história da pobre mulher.
Não pude evitar as lágrimas. E pensei que se há amores que são a nossa razão de viver, outros pelo contrário tiram-nos a vida….

           **************************************************

Depois de muito procurar o Chico conseguira finalmente saber onde vivia agora a Esperança, e ansioso seguiu num táxi a caminho de sua casa. Estava nervoso, e emocionado. Ia finalmente rever a “sua” Esperança, depois de quase trinta anos. Dava-se conta que apesar do seu casamento, do abandono a que a votara, ele sempre sentira a doce rapariga como algo seu. Durante todos os anos em que remoeu o seu remorso, sempre o fez convicto de que ela estava à sua espera. Se passava pela sua cabeça, que a jovem podia ter casado, ter filhos, uma família enfim, logo afastava esse pensamento, como quem tira um obstáculo do seu caminho.
O carro acabara de parar junto a uma modesta habitação. Pagou a corrida, e bateu à porta. Depois reparou que estava só encostada, e como ninguém vinha abrir, empurrou-a e entrou. Quedou-se na ombreira, paralisado pela surpresa, o rosto lívido.