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12.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVIII



- Mas também não pudemos disputar a criança como se ela fosse um objeto.
- E tu - disse ele tuteando-a pela primeira vez - deves ter já tomado uma decisão para me vires procurar. Posso saber qual a tua ideia?
- Deixa-me em paz durante os próximos três meses, - ela respondeu usando a mesma forma de tratamento. Esquece a ideia de processar o Centro Clínico, de pores o caso em praça pública e pensa na melhor solução para resolvermos o caso, pondo sempre em primeiro lugar o bem-estar da criança. Prometo-te que farei o mesmo. Depois disso, reunir-nos-emos e tomaremos uma decisão.
- Estás em vantagem, falaram-te de mim, disseram-te quem sou. Eu não sei quem ou como és. Quem me diz que durante estes três meses, não desapareces e nunca mais sei nada de ti, nem do bebé?
- Isso é uma tontice e tu não me pareces nada tonto. Em primeiro lugar se tencionasse fazer o que dizes, tê-lo-ia feito, imediatamente após saber o que se passava, e quando descobrisses a minha identidade, eu poderia estar em qualquer parte do mundo. Como já te disse, embora os meus recursos financeiros não se assemelhem aos teus, tenho o suficiente para viver razoavelmente bem em qualquer lugar,  até precisar voltar ao trabalho. E em vez disso, o que fiz foi vir ter contigo, procurar um entendimento. Em segundo lugar, não sou tão ingénua, que não saiba que mal ponha os pés para fora deste escritório, porás alguém a investigar-me e a vigiar-me, para que te informe, tão logo faça, o que pensas que vou fazer. Podia evitar-te o trabalho e dar-te todas essas informações, mas sei que não acreditarias em mim e farias as tuas próprias investigações na mesma.
Mirou-a de tal modo que Teresa sentiu um arrepio. Era como se quisesse mergulhar dentro dela, chegar ao seu coração, quiçá à sua alma. Ela ainda não o conhecia. Não sabia quão difícil era enganar aquele homem, mas não precisava nenhuma bola de cristal, para ver que era um tipo duro, dono de uma vontade férrea, alguém que ela não gostaria de ter como inimigo.
-Põe-me à prova – disse-lhe com voz rouca. - Fala-me de ti, diz-me quem és, e o porquê de teres recorrido à Procriação Medicamente Assistida. És uma mulher jovem, inteligente e bonita. Porque não te casaste e engravidaste de modo natural?
- Como sabes, que não me casei?
- Estaríamos aqui, a ter esta conversa, se fosses casada? - retorquiu 
Teresa pensou que ele tinha razão. Se fosse casada não teria recorrido àquele processo para engravidar. Resolveu arriscar.
- Nasci de mãe solteira, numa pequena aldeia, no vale de Lafões, perto das Termas de S. Pedro do Sul, onde vivi até terminar o Secundário. Depois vim para Lisboa, viver com uma tia-avó, para poder frequentar a Universidade. 
No último ano do curso, tive que abandonar os estudos e voltar à aldeia, para cuidar da minha mãe, gravemente doente. Depois da sua morte, regressei a Lisboa, para casa dessa minha tia.  A intenção era terminar o curso, mas estávamos a meio do ano letivo e enquanto esperava pelo fim desse ano e início do próximo, empreguei-me numa pastelaria e apaixonei-me pela vida de empresária de tal modo que quando o dono decidiu vender o negócio, com a ajuda da minha tia, que não tinha outros parentes que não eu, comprei-o. Sou a dona da pastelaria e padaria “Flor da Avenida”, na Avenida Estados Unidos da América.  Recorri ao PMA, porque desde menina sempre sonhei ser mãe e não estava interessada em nenhuma relação. O que realmente não esperava é que a vida me armasse esta cilada. Satisfeito?





E hoje a minha Princesa mais nova faz 1 ano






10.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVII


Tentando aparentar uma calma que não tinha, João voltou para o seu lugar e sentou-se.
- Muito bem, Teresa. Suponho que não tenha inconveniente em que nos tratemos pelo nome. Vamos resolver o assunto com calma entre os dois, pelo menos durante a gravidez, de modo algum, quero ser o motivo, de um possível aborto. Deseja tomar alguma coisa?
- Uma água por favor.
Ele carregou no intercomunicador e disse:
- Olga, por favor, traz-me um café. E um copo de água para a dona Teresa!
Enquanto aguardavam pelas bebidas, ficaram em silêncio, observando-se mutuamente. Era como se cada um estudasse o outro, na tentativa de descobrir se eram ou não confiáveis.
Pouco depois, Olga entrou trazendo um tabuleiro com as bebidas que poisou sobre a secretária.
- Mais alguma coisa? – perguntou Olga ao poisar sobre a secretária o tabuleiro com as bebidas.
-Localiza o Afonso e diz-lhe que abandone a missão, e regresse à empresa.
-Sem nenhuma explicação? – perguntou.
-Mais tarde, falo com ele.
Quando a porta se fechou atrás da assistente, João  disse:
- Como deve calcular, quando o Centro Clínico entrou em contato comigo, fiquei revoltado, aquela era a minha única hipótese de ser pai, de ter um herdeiro, que desse sentido ao trabalho, de toda uma vida, de sentir o que é ter nos braços um pequeno ser, a quem amar, proteger e educar. Quero esse filho. Pelo que me disse há pouco, você deseja-o de igual modo, pelo que não vou correr o risco de a ofender, oferecendo-lhe dinheiro para que mo entregue quando nascer. De modo que temos um problema para resolver. O que pensa fazer?
- Como bem disse, é um problema que temos de resolver, mas de momento a única coisa que quero é paz. Quase mal acabei de saber, que o filho que tanto desejara, estava a caminho; e sem ter sequer tempo para festejar, dizem-me que houve um erro, que o pai dessa criança está disposto a tudo para ma tirar, que por causa disso posso ver-me envolvida numa longa batalha judicial, que a imprensa vai levar meses a alimentar-se do escândalo, vai esmiuçar a minha vida até ao meu nascimento, quiçá para além disso. Não preciso do seu dinheiro, tenho mais do que suficiente para criar e educar sem esforço, um ou dois filhos, porém podia precisar muito, trabalhar sem descanso, dia e noite até à exaustão, que não aceitaria nunca dinheiro, para ceder os meus direitos de mãe.
Fez uma ligeira pausa, como que tentando reorganizar os seus pensamentos, enquanto o empresário a olhava admirado com a paixão que ela punha nas palavras, e mentalmente se interrogava, se ela usaria a mesma paixão na intimidade da sua cama. Passou a mão pela testa, tentando afastar tão inoportunos pensamentos, enquanto Teresa alheia aos seus pensamentos, continuava:
- Não sei se sabe, mas a maior parte dos abortos espontâneos acontecem nos primeiros três meses de gravidez, razão porque nós, mulheres, não gostamos de falar do nosso estado, antes de decorrido esse tempo. Compreendo o seu desespero, e em consciência sei que não lhe posso negar o direito de ver, e conviver com a criança, tal como os casais que se separam não o podem fazer. Seria uma crueldade, e eu não sou cruel.


3.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIV




Terminado o almoço, Gustavo e Teresa passaram ao escritório, onde a jovem pôs o advogado ao corrente de tudo o que lhe foi dito no Centro Clínico onde fizera a Inseminação terminando com as perguntas:
- Ele é mesmo tão poderoso como os médicos me fizeram crer? E se processar o Centro, eles vão revelar o meu nome?
- João Teixeira é um empresário muito importante. E é um homem duro que se fez a si próprio. Começou com a criação de um jogo que se tornou num enorme sucesso, não apenas em Portugal, mas a nível Mundial. Depois desse, outros vieram. Fundou a “TecnInformática”, e rodeou-se de excelentes colaboradores. E em pouco mais de uma década, transformou uma pequena empresa, na maior firma do ramo, na Península. A sua especialidade são os jogos de computador, mas os seus engenheiros produzem software, e hardware, fabricam computadores e telemóveis. E os seus produtos estão ao nível dos melhores do mundo. Isto diz-te quão poderoso ele é.
 Se afirmou que vai processar a Clínica, acredito que o faça. A  lei tem em relação à PMA, ainda muitas falhas, embora já tenha  sofrido quatro alterações, desde que foi promulgada em 2006,  os legisladores vão fazendo alterações à medida que vão surgindo novos problemas para resolver, embora sempre garantindo o anonimato  da identidade de dador e recetora. O problema que se apresenta no teu caso é que ele não é dador. Fez uma reserva para uso exclusivo, que foi utilizada em proveito de outrem. Tem todo o direito de processar o Centro Clínico, mas mesmo em tribunal, o Centro não poderá revelar a tua identidade, já que isso vai contra a lei. Todavia se esse processo chega a tribunal, também chega ao conhecimento da imprensa, que vai começar a esmiuçar e sabes como é, há sempre alguém que se deixa comprar...
- Meu Deus, mas isso vai por a minha vida na praça pública.
- Lamento, mais isso é mais que certo. Gostaria de te dizer para não te preocupares, mas tenho que te ser sincero.
- Outra coisa Gustavo, supõe que isso acontece, os tribunais levam tanto tempo para resolverem os casos, entretanto o bebé nasceu. E uma vez que ele tinha feito a reserva para seu uso exclusivo, o tribunal pode decidir que a criança não é meu filho?
- De modo algum. Isso só seria possível se por esterilidade tivesses recorrido a doação simultânea de material genético dos dois sexos, ovócitos e espermatozóides com fecundação in vitro. Aí, a criança teria o ADN dele e de uma desconhecida, e a lei consideraria o caso como uma gestação  de substituição; aquilo que o povo costuma chamar de barriga de aluguer, e a criança assim gerada, não seria considerada tua. Até porque a gestação de substituição no nosso país ainda só é permitida em casos muito especiais.
 Mas esse não é o teu caso, um exame de ADN pode provar que és a mãe da criança e em princípio os tribunais dão sempre prioridade às mães desde que elas tenham meios financeiros, para criarem a criança, e uma conduta irrepreensível.
-Sei, mas se esse homem é tão poderoso como dizes, pode muito bem comprar testemunhos falsos, que me apresentem perante um juiz como uma pessoa sem integridade moral?  
- Pode tentá-lo, apesar de hoje em dia, já não ser tão fácil assim, uma boa defesa pode apresentar provas em contrário, e desacreditar os falsos testemunhos. O problema é que ele sofreu uma doença grave que o deixou estéril, e esse filho é a única hipótese desse homem vir a experimentar as emoções da paternidade, e dar continuidade ao seu nome. Qualquer juiz vai ter isso em conta, especialmente se o juiz nomeado for homem; quase de certeza vai decretar uma guarda partilhada. E depois pensa nisto, o teu filho será o único herdeiro de tudo o que o homem tem.
-Sabes que isso não me interessa, tenho mais do que suficiente para lhe dar um bom futuro. O que me preocupa, é aquilo que alguns tablóides, que estão sempre à procura de escândalos podem fazer da minha vida.  Tanta gente no mundo que recorre à Procriação Medicamente Assistida,  sem problemas tinha que me acontecer uma coisa destas a mim. Sabes alguma coisa dele, como pessoa?
- Muito pouco. Além da parte profissional, apenas aquilo que a imprensa publica. Que é solteiro, e pouco dado a aparecer em eventos. Lamento Teresa, gostaria de te dizer que não te preocupasses, mas não posso de modo algum escamotear a verdade. E ela é de facto preocupante.  Como já te disse. a própria lei, ainda tem nestes casos muitas falhas. Como todas as situações novas, a que o progresso ou a ciência dão origem, as leis vão sendo criadas e vão sofrendo alterações à medida que os casos se apresentam, e  que eu saiba, um caso destes nunca aconteceu antes.
- De qualquer modo, obrigado. Foi bom falar contigo, fiquei elucidada e posso agir a partir daqui.
-E o que pensas fazer? Vais voltar para a aldeia?
-Talvez. Antes de decidir se vou ou fico, tenho de pensar no que me disseste e talvez tomar alguma providência. Agora vou-me embora, preciso pensar com calma. 

27.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XI




Teresa saiu do médico com as pernas a tremer e sentindo-se agoniada.
Não que o resultado dos exames fosse diferente do que esperava. Estava realmente grávida e estava tudo bem com ela, e salvo qualquer imprevisto, que pode sempre surgir durante uma gravidez, tudo iria correr bem, não fora o facto de ter sido informada, que o pessoal do Centro Clínico de Procriação Medicamente Assistida, tinha cometido um erro grave, e ela estar a conceber um filho, cujo pai não era dador. Para piorar a situação, o homem tinha feito a recolha para seu uso exclusivo no futuro, e ao ter sido informado do engano, queria saber quem era a recetora, nem que fosse através dos tribunais, e uma vez aí, nunca se sabia o que podia acontecer.
E agora? O que ia fazer? Podia fingir que não sabia de nada, mas segundo o médico, o homem era poderoso, e estava disposto a tudo. A direção do Centro, receava que o escândalo de semelhante erro, os levasse à descredibilização total e por consequência à falência e ao encerramento. Apesar de lhe garantirem que não iam revelar a sua identidade, ela não acreditou. Quando vissem que o homem não cedia e iria mesmo para os tribunais, iriam entrar em acordo e denunciá-la-iam para se salvarem. E o que aconteceria depois, com ela e o bebé?
Quando se sentiu mais calma, pegou no telemóvel e marcou um número.
-Inês, estás em casa? – perguntou assim que a amiga atendeu.
- Estou. Estás bem? O que aconteceu? – perguntou Inês que estranhou a voz da sua interlocutora.
- Não dá para falar pelo telefone. Posso ir agora aí?
- Claro, mulher. Isso nem se pergunta.
- Até já.
Desligou, pôs o carro a trabalhar e um quarto de hora depois tocava a campainha da casa da amiga. Esta abriu a porta e assustou-se. A Teresa que tinha na sua frente, pálida e de olhos vermelhos pelo choro, em nada se parecia com a aquela, que nas vésperas estivera em sua casa, radiante de felicidade. Pensou imediatamente que o exame médico afinal provara que a amiga não estava grávida. Já tinha ouvido falar de mulheres que desejavam tanto um filho, que acabavam tendo sintomas de gravidez sem que estivessem grávidas.  Mas Teresa não manifestara qualquer sintoma que ela soubesse. E fizera dois testes que deram resultado positivo. Poderiam os testes dar um resultado errado? O melhor era não se por a adivinhar e saber o que se passava na realidade.
- O Martin está a dormir? – perguntou Teresa, depois de cumprimentar a amiga.
- Está. Mas entra, vamos para a sala e conta-me o que te aflige. Talvez te possa ajudar.
Teresa encaminhou-se para a sala, e a dona da casa seguiu-a depois de fechar a porta. Já sentadas, a jovem disse:
- Como sabes tinha consulta marcada para hoje no Centro de PMA, com  o médico, que efetuou o processo. Assim que cheguei e antes de entrar no consultório foi-me feito um exame ao sangue, que penso seja o normal nestes casos. Esperei um pouco pela entrada no consultório, o médico fez-me algumas perguntas entre as quais se eu já tinha feito o teste de gravidez e depois a assistente preparou-me e ele foi examinar-me. Confirmou a gravidez, e voltou para a secretária e enquanto eu me vestia, ouvi-o falar ao telefone. Mal eu voltei para a cadeira a porta abriu-se e entrou outro homem que me foi apresentado como sendo o diretor do Centro Clínico.
-Sim, mas até agora não vi razão para teres ficado assim. Não podes abreviar?
- O diretor disse-me que tinha havido um erro grave, falou uma série de coisas a que nem prestei atenção, tão nervosa fiquei, só entendi que eu ia gerar um filho de alguém, que não tinha feito doação, mas sim reserva para o futuro, por se encontrar doente, e ir ficar estéril. Entendes?
-Sim, mas o que tens a ver com isso, o erro não foi teu.
- E achas que isso interessa ao homem? Não. Ele quer saber tudo sobre mim. O seu advogado já ameaçou o Centro de que se não souber quem está a gerar o seu bebé, vai para os tribunais a imprensa etc. Em resumo pode criar um tal escândalo que poderá não só fechar o centro por falta de credibilidade, como tornar a minha vida num inferno. E o pior é que os médicos dizem que o homem é tão poderoso que não terá qualquer problema em fazê-lo.
-Mas quem é esse homem?