Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta recordações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta recordações. Mostrar todas as mensagens

11.11.20

CILADAS DA VIDA PARTE LVII

 


Quatro semanas se passaram depois desta conversa que aproximou emocionalmente os dois irmãos. Quatro semanas em que muita coisa aconteceu na vida deles, e dos que com eles conviviam.

João continuava a passar diariamente as horas em que as enfermeira faziam as refeições com Teresa e fiel ao seu desejo de num futuro próximo pedir-lhe que se casasse com ele, decidiu que ela devia saber como tinha sido a sua vida, quem tinha sido e quem era. Por sua vez Teresa, também abriu o livro das recordações e falou da sua infância na aldeia, da mãe e da avó, ambas desiludidas com o sexo oposto, contara que ela própria tivera uma má experiência amorosa, quando estava na faculdade e que tudo isso contribuíra para a sua decisão de que nunca  iria querer saber de homem algum na sua vida. Essa fora a razão que a levara a querer ser mãe solteira, e a procurar a clínica de Procriação Medicamente Assistida.

Com o convívio diário e com todas as confidências trocadas os dois sentiam que começavam a estar unidos por qualquer coisa maior, mais íntima e mais pessoal do que a responsabilidade de criarem as três crianças.  

Inês ia regularmente todos os fins de semana vê-la, levava-lhe o correio, falava-lhe de como o negócio estava a decorrer e contava-lhe novidades de clientes e empregadas. Às vezes levava o filho e Teresa ficava radiante com o menino que crescia a olhos vistos e aumentava o vocabulário de uma visita para a outra.

Também João tinha ido jantar uma noite com o irmão e a futura cunhada, com quem simpatizou de imediato. Esperava que Teresa fizesse os três meses e tivessem a conversa que decidiria o seu futuro a fim de os convidar a irem passar um dia lá a casa para lhos apresentar e estreitar os laços de sangue que os uniam.

E chegou o dia em que Teresa ia ter a sua consulta das doze semanas. De mútuo acordo, os dois combinaram com Sandra, que ele acompanharia Teresa à consulta, e ele a chamaria depois se a médica achasse necessário dar-lhe novas instruções.

Já na consulta a médica fez-lhe a ecografia das doze semanas depois de lhe ter medido a tensão arterial, a ter pesado e lhe ter feito várias perguntas sobre como se tinha sentido durante aquelas quatro semanas.

Depois de vários minutos em que a observou atentamente disse:

-Está tudo bem com os vossos bebés. Vejam, aqui estão eles, minúsculos ainda, medem apenas cinco centímetros, mas já estão completamente formados da cabeça aos pés.  Vejam.

- Já se consegue ver se são meninos ou meninas – perguntou João.

- Vamos ver – disse a médica e depois de uns segundos apontou o ecrã. -  Este é um menino sem duvida, reparem aqui - disse ampliando a imagem - Este outro tem o cordão umbilical a impedir a descoberta, e este como vêm tem as pernitas cruzadas. Pode ser que se deixem ver na próxima ecografia. Mas às vezes não se deixam ver até ao momento em que nascem

Mas como são gémeos se um é menino, os outros também devem ser, ou não? – perguntou João.

-De modo algum. Os gémeos só são obrigatoriamente do mesmo sexo quando são gémeos monozigóticos.  Ou seja, o óvulo é fecundado por um só espermatozoide que se divide em dois depois de fecundado. São formados na mesma placenta dividem o saco amniótico, possuem o mesmo genoma e o mesmo DNA, e por isso são tão iguais que também se chamam idênticos. Podem distinguir-se apenas pelas impressões digitais, que são diferentes. Os vossos filhos são gémeos dizigóticos uma vez que não dividem a placenta nem o saco amniótico o que quer dizer que houve três óvulos, fecundados por três espermatozoides diferentes e assim tanto podem ser três meninos, como dois meninos e uma menina ou o contrário.

 A consulta está terminada, a Teresa recuperou muito bem, agora o risco de aborto foi reduzido, embora não esteja totalmente afastado e o repouso continue a ser recomendado, já não precisa estar o tempo todo na cama. Claro que não pode fazer esforços como subir escadas ou carregar pesos, deve evitar viagens grandes, mas já pode dar pequenos passeios, apanhar sol por causa da vitamina D. Continua com as vitaminas, o ácido fólico e volta para a consulta das vinte semanas a menos que surja algum problema. Vai continuar acompanhada com a enfermeira?

- Até que os bebés nasçam pelo menos, - respondeu João.

- Isso é bom. Pode sair e mandá-la entrar?


À margem:

Hoje dia 11 deslocar-me-ei ao hospital De Santa Maria para ver como está o olho do transplante, e ver se me vêm o outro que me está a dar grandes problemas.  Vamos ver.

21.5.20

ISABEL - PARTE VII

                                              

Embrenhada nas suas recordações não se desviou a tempo do homem parado na sua frente, e, só não caiu, porque uns braços fortes a envolveram.
- Desculpe – murmurou quase sem voz
Os olhos cinzentos do homem cravaram-se nos seus. Era um olhar tão intenso e penetrante, que ela pensou que lhe rasgava as entranhas e a penetrava até à alma.  Porém a sua voz, ligeiramente rouca, soou gentil e educada ao perguntar:
-Sente-se bem?
Isabel assentiu com a cabeça, murmurou um obrigado e afastou-se apressada daquele homem que tanto a tinha desassossegado.
Chegou por  fim ao local onde tinha deixado o saco com as suas coisas. Guardou nele, o telemóvel e o porta-moedas, despiu os calções e a T-shirt, estendeu na areia a toalha colorida, e sentando-se nela começou a espalhar sobre o corpo, o protector solar. O telemóvel tocou e Isabel esboçou um gesto de aborrecimento mas não atendeu. Quando acabou guardou o frasco, voltou a colocar os óculos escuros e fitou o mar. A maré tinha subido um bom bocado desde que ela chegara, o sol aparecia a espaços entre as nuvens, e logo desaparecia como se estivesse a jogar às escondidas com aqueles que estavam cá em baixo esperando por ele. Mas o tempo tinha aquecido bastante e ali ao lado, havia muitas crianças brincando, vigiadas de perto por três mulheres. As crianças, mais ou menos da mesma idade, tinham todos chapéu igual.
 “Crianças de alguma creche” pensou Isabel.
O telemóvel voltou a tocar. Desta vez atendeu e durante breves minutos foi respondendo ao que lhe perguntavam do outro lado. Por fim disse:
- Depois de amanhã estou aí. Por favor Amélia vê se não estás sempre a ligar.
Calou-se e escutou o que lhe diziam do outro lado.
-Eu sei, mas amanhã vou para cima. E Segunda-feira já estou no escritório.  Portanto resolve só o que for mais urgente, eu vejo o resto depois.
Calou-se por momentos.
- Sim, claro. Já visionaste o vídeo da campanha, do novo dentífrico? Sim? Óptimo. 
Escutou de novo:
- O quê? Um novo director comercial? Mas o que aconteceu com o Paulo?
Voltou a escutar, retorquindo ainda antes de encerrar a chamada.
- Transferido? Por interesse dele? Bom, depois vejo isso. Oxalá o substituto esteja à sua altura.
Desligou a chamada no exacto momento em que uma bola lhe veio bater nas pernas.
Era uma bola pequena com desenhos do Super-homem. Agarrou-a e olhou em frente.
Um rapazinho de uns três anos de idade corria na sua direcção seguido de perto por uma das mulheres.
-Queres a bola? - perguntou-lhe Isabel sorrindo.
O miúdo fez um sinal afirmativo com a cabeça.
- Desculpe. Estamos sempre a avisar para terem cuidado mas sabe como é. São crianças – disse a mulher.
- Não tem importância – retorquiu ela atirando a bola para o menino.
Este reagiu de uma forma inusitada. Agarrou a bola, correu para Isabel, deu-lhe um beijo rápido na face e logo voltou para junto dos amiguinhos.
- Desculpe – murmurou a mulher, antes de seguir o rapazinho para junto da água.
Pela segunda vez naquela manhã, Isabel sentiu um estranho desassossego. Uma sensação desconhecida que lhe apertava o peito e a angustiava.
“Estou demasiado sensível hoje” pensou.
Sacudiu a cabeça, retirou o lenço e os óculos que guardou no saco, e pondo-se de pé dirigiu-se para o mar.
 Precisava dar um mergulho. Sentir a carícia das águas. E afastar de vez tristes recordações. Mas, será que o ia conseguir?
Um quarto de hora depois, regressava ao areal. Com gestos mecânicos enxugou-se,  vestiu-se, e preparou-se para regressar a casa
As nuvens tinham desaparecido, o sol brilhava radioso, cobrindo voluptuosamente toda a cidade. 

9.10.19

LUÍSA




O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem enfermeira, arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o mapa que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto numero 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das três horas da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memória as recordações que a atormentavam.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar que um dia ia ser sua mulher. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. A química entre os dois era perfeita, a paixão muito grande, e quando assim é perde-se a noção do perigo, esquecem-se precauções, e um dia, Luísa teve a desagradável surpresa de se saber grávida. Foi um choque. Não que ela não quisesse ser mãe. Esse era um dos sonhos da sua vida. Mas não agora nesta altura da vida, quando ainda tentava consolidar a sua carreira de enfermeira. Um filho vinha estragar todos os seus planos atuais, mas nem por isso pensou uma única vez que fosse, em livrar-se da criança. Todavia João reagiu de modo diferente do que ela esperava. Ele não queria a criança, e insistia para que ela fizesse um aborto. Recordou a última discussão, na tarde do dia anterior.
“-  Mas Luísa,- insistira ele - não podemos ter um filho nesta altura, minha querida. Não podemos casar já, acabei o curso agora, nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho, são capazes de te despedir…
- Um filho que é teu, não esqueças - argumentara  ela. - E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável. E depois tenho a certeza que os nossos pais nos ajudarão nos primeiros tempos, até que consigas empregar-te.
-Mas Luísa, somos tão novos! Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Ouve o que te digo...
- Não João, não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Pensa bem, Luísa…
- Não, não e não. Não há o que pensar. Já te disse que não posso, nem quero, fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.” 
Luísa saíra batendo a porta da casa, onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capítulo da sua vida. Mas essa era a única certeza, porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava, porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto, que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomara a pílula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro carácter de João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. Mas, e ela?  Poderia olhar para ele com o mesmo amor, depois daquela desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruir o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite de plantão, decorrera na maior normalidade, todavia Luísa acabou deixando o trabalho às oito horas da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minúsculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto cansado, abriu-se num sorriso radioso.

Fim




20.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVIII


- Em Londres, para cortar todos os vínculos com o passado, pus de parte o Rui, e adotei o meu segundo nome como principal. Com formação em economia, inglês e alemão,  pouco tempo depois, estava empregado numa multinacional, e muito bem remunerado. Continuei a estudar os movimentos das empresas e a investir na bolsa. Ganhei muito dinheiro. Em menos de dois anos mais que tripliquei o meu pecúlio. Era já uma fortuna considerável. Então comprei a primeira empresa. Uma pequena firma de indústria transformadora, em vias de falência. Recuperei-a e fiz dela uma empresa de sucesso. Depois dessa vieram outras. Todas prosperaram e são hoje uma fonte de riqueza. Penso que se fiz alguma coisa de jeito na vida, foram essas reestruturações e revitalizações de empresas. Estavam para fechar, iam despedir todo o pessoal. E graças a mim salvaram-se, e ninguém perdeu os seus empregos. 
Fez uma pausa. Era visível que aquelas recordações lhe provocavam grande sofrimento. 
- Dizem que dinheiro atrai dinheiro, e talvez por isso eu fui capitalizando cada dia mais. Pena que a minha mãe, não tenha vivido o suficiente para usufruir dele. No fundo ela foi a grande vítima. Primeiro do meu pai, e depois do seu amor por mim. Um amor que a levou a assumir uma culpa que não era sua, e lhe deu cabo da saúde e da vida. Por minha culpa.
A voz extinguiu-se-lhe num soluço.
-Não foi culpa tua, Rui, não foi - sussurrou Teresa apertando-lhe a mão.
Após um curto silêncio, ele continuou:
- É tudo Tê. Falta só dizer-te que é bem verdade que o dinheiro não dá felicidade.Sinto-me vazio. A solidão nunca foi uma companheira amorosa. Amarga os meus dias, e aterroriza hoje as minhas noites, quase tanto, quanto o meu pai o fazia outrora. Os dois anos mais felizes da minha vida, foram os que partilhamos. Nunca, nem antes nem depois de ti, uma mulher me fez sentir, tão completo como tu. E ontem, o meu coração quase explodiu de felicidade, quando descobri que me deste um filho. Mas não podia apresentar-me a ele, sem primeiro despir a alma, das negras recordações que carrego. Queria e precisava, ir para ele de espírito limpo. Consegues entender-me? – Perguntou fitando-a com ansiedade.
Ela continuava sem palavras.  Esmagada pelo sofrimento que via nos olhos dele. E ao mesmo tempo maravilhada, pela sinceridade masculina. Limitou-se a um aceno de cabeça.
- Casa comigo, Tê! E se esta ânsia de estar contigo, o resto da minha vida, se este desejo de vos proteger, e fazer felizes não é amor, ensina-me a amar-vos.
Ela tinha-lhe dito que tinha de ganhar a sua confiança.  Mas o que ele acabara de fazer, era a maior de todas as provas de amor. Finalmente, o homem deixara de ser o desconhecido, a quem tudo dera, sem nada receber em troca. Abrira-lhe as portas da sua alma. Mostrara-lhe quão vulnerável e sofrido era. E com isso matara todo o ressentimento, que ela experimentara.  Sentiu que o destino lhes estava a dar uma segunda oportunidade de serem felizes. 
Com os olhos rasos de água, e o coração exultante de alegria, fitou o rosto ansioso dele, e sem deixar de o olhar, segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-o.
Maravilhado, ele retribuiu ao mesmo tempo que a abraçava.
Com a emoção à flor da pele, beijaram-se intensa e apaixonadamente. Era o reencontro de duas almas, livres de todos os obstáculos que outrora as mantiveram separadas, querendo apagar todo um passado de sofrimento. Mas quando a boca masculina roçou o pescoço feminino, a a mão dele acariciou o tecido sobre o seu seio, o corpo ansiando por algo mais, ela afastou-o suavemente dizendo:
-Hoje não, Rui. Vem. Vamos buscar o nosso filho.


13.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVIII




Calou-se por uns segundos, como se passados todos aqueles anos, as recordações continuassem a ser muito dolorosas.
Ela sentiu vontade de se levantar, e de o abraçar fortemente, para mitigar aquela dor. Mas quando se aprestava para o fazer, ele retomou a palavra.
-Há coisas de que um homem não consegue falar, porque a dor lhe trespassa  o coração e a vergonha lhe rasga as entranhas.
Calou-se de novo por alguns segundos, passou a mão pelo cabelo e retomou a palavra.
 E então contou  como após o divórcio, se sentia motivo de troça de todo o bairro, de como isso destruíra a confiança em si próprio e nas mulheres, e dos cinco anos que passou em Luanda, trabalhando que nem um doido, tentando não só esquecer o passado, mas também juntar o máximo de dinheiro que lhe permitisse montar a sua empresa. 
Falou-lhe do seu primeiro carro que tinha de conduzir de dia, enquanto terminava o curso que abandonara quando casara. Falou dos pais, do irmão, da morte dos progenitores, enfim de tudo o que acontecera com ele até ao momento em que recebera no escritório a carta dela.
Mergulhado no mar tenebroso das lembranças, não deu pela aproximação da mulher, senão quando os braços dela o enlaçaram pelas costas e lhe disse:
- Perdoa, não queria fazer-te sofrer.
Voltou-se e segurando-lhe o rosto entre as mãos, disse:
- Não há nada para perdoar, Isabel. Tens razão, sempre a tiveste. Não podemos querer, que alguém retribua o nosso amor, se não deixamos que essa pessoa o descubra e nós próprios fazemos tudo para não acreditar nele .
- O que queres dizer com isso? - perguntou trémula.
-Vem, vamos sentar-nos e esclarecer tudo o que há para esclarecer de uma vez - disse pegando-lhe na mão e reconduzindo-a ao sofá.
Sentaram-se ambos lado a lado, mas não abraçados. Ricardo não queria perder a cabeça, antes de ter mostrado tudo o que lhe ia na alma, para que nunca mais houvesse uma dúvida a separá-los.
- Impus a mim mesmo duas regras de ouro. Nunca mais fazer sexo com ninguém sem proteção, e nunca mais entregar o coração a mulher alguma. Aproveitaria da vida as oportunidades que ela me desse e era tudo. Por isso eu nunca poderia ter-me envolvido com a Susana. Ela estava na idade em que eu fora enganado, e sei melhor que ninguém a marca que um desengano nessa idade pode deixar.
Quando fiz o teste do ADN, e descobri que a Matilde era minha sobrinha, decidi que ela tinha que ser minha. De um modo que não sei explicar, amei-a imediatamente. Era como se aquela outra criança que tanto amei e nem cheguei a conhecer, viesse agora para os meus braços. Porém eu não queria tirar-ta, e tu não te separarias dela. Estava num impasse quando o Artur me aconselhou a pedir-te em casamento. Hesitei. Tinha medo do que esse casamento me podia trazer. Tentei manter o coração à margem e guiar-me apenas pelo desejo que despertaste em mim. Mas ainda assim prometi a mim mesmo que tudo faria para que a nossa relação fosse agradável. Mas tu não ajudaste muito. Não aceitavas nada do que te oferecia, e aos poucos ias-te afastando de mim. Do modo que amavas a Matilde, sempre pensei que querias ter filhos e esperava que um dia me viesses dizer que estavas grávida.
 Eu não sabia que tomavas a pílula, e fazíamos amor praticamente todos os dias, mas nunca engravidaste. Comecei a pensar que era estéril, e mais dia, menos dia, ias descobri-lo. Cheguei a pensar que já o sabias e era por isso que ias perdendo a alegria e a naturalidade. E foi nessa altura que me dei conta de como te amava e de que ficaria destruído se te perdesse. 
  

10.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLV


Nessa mesma tarde saiu do emprego com o ramo de rosas na mão e o presente para o marido na mala, e como sempre  ele já a esperava à porta.
Cumprimentou-o com o habitual beijo rápido e ele pôs o carro em movimento.
-Obrigada pelas rosas, São lindas.
-Fico feliz por teres gostado. Na verdade, gostava de te comprar uma jóia, não tens nada além da aliança e do fio que te dei pelo Natal, mas receei que não aceitasses. Sei que gostas de flores, mas só alegram o momento, dois dias depois estão mortas e vão para o lixo.
- Nas minhas recordações, sempre que me lembrar deste dia, elas vão estar tão bonitas como estão agora, e a sensação de felicidade vai ser igual à que hoje me proporcionaram.
Ele lançou-lhe um breve olhar e logo voltou a sua atenção para a estrada. Uns segundos depois disse:
- Nunca conheci ninguém como tu.
Ela não respondeu. Porque não tinha nada para dizer, ou porque acabavam de chegar ao prédio onde viviam. Ele acionou o comando da porta da garagem e estacionou no lugar que lhe estava reservado. Saíram cada um pela sua porta, e dirigiram-se para o elevador.
-Pensei que a exemplo do dia de casamento, não quisesses sair. Encomendei o jantar, vêm entregar, - olhou o relógio – dentro de meia hora. Temos tempo para um banho, o dia esteve muito quente. Podemos tomá-lo juntos, - disse num sussurro ao ouvido dela.
-Não! – A negativa saiu tão brusca que se assustou a si própria. – Desculpa, mas realmente preferia fazê-lo sozinha.
Se ficou aborrecido, não o demonstrou. Na verdade, já tinha decidido, que nessa noite teriam que discutir a relação. Não suportava mais a tristeza que notava no olhar feminino. Esboçou um sorriso.
- Sem problema. Ficas com a suite, eu uso a outra casa de banho.
Entraram em casa, e imediatamente o olfato detetou um perfume floral. Sobre a mesa da entrada estava um bonito arranjo de rosas vermelhas. Isabel foi à cozinha buscar uma jarra para colocar o ramo que trouxera do escritório, e viu  sobre a mesa da cozinha, outro arranjo igual ao da entrada. Pensou que devia haver flores em todas as divisões da casa e deixou a jarra em cima do balcão.
Quando passou pela casa de banho, no corredor, ouviu o chuveiro. O marido já estava no banho. Ela chegou ao quarto, abriu a cómoda para tirar a roupa interior que vestiria a seguir ao banho, deu a volta e abafou um grito de surpresa, ao ver um tapete de pétalas vermelhas, que ia até à cama,e se estendia sobre a colcha, e pela mesa-de-cabeceira. Refugiou-se na casa de banho, e fechou a porta. Não sabia que pensar. Aquilo era obra de um homem apaixonado. Pelo menos, assim era nos livros e nos filmes. Mas ele não estava apaixonado por ela, não acreditava no amor, tinha o coração seco. Então porquê aquele teatro?
Tomou um duche rápido, enxugou-se, vestiu as duas minúsculas peças íntimas, enfiou um roupão e sentou-se a secar o cabelo. Depois penteou-o todo para um dos lados do rosto e entrançou-o.
Foi ao quarto retirou uns calções brancos e uma T-shirt. De súbito, lembrou-se da mesa posta na noite do seu casamento, e pensou que aquela roupa não seria adequada, se ele tivesse preparado uma mesa igual, o que era quase certo olhando para o resto da casa.
Voltou a guardar a roupa, e tirou do guarda fato o vestido comprido preto que comprara para o casamento de Natália, e vestiu-o. Calçou umas sandálias de salto alto, desmanchou a trança e escovou o cabelo mantendo-o na mesma posição. Olhou-se ao espelho. Talvez tivesse exagerado no traje, talvez Ricardo estivesse vestido desportivamente. Encolheu os ombros, pegou no embrulho de presente e saiu em direção à sala.



3.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XII




Glória, a sua secretária veio arrancá-lo, dos seus pensamentos . Um dos seus melhores clientes queria um carro para a próxima semana. Como sempre com motorista, mas desta vez queria o Lamborghini. 
- E já verificaste se não há nenhuma reserva anterior? – perguntou.
- Não há. Só no domingo para o casamento. Então faz a marcação conforme é costume. E avisa o motorista que habitualmente transporta o cliente.
A secretária saiu e ele foi verificar o correio eletrónico, já que vários dos seus clientes usavam esse meio para fazerem as reservas. O negócio estava cada vez melhor. Até estava a pensar comprar mais dois carros no final do ano, ou princípio do próximo. Muitos clientes, especialmente os estrangeiros, preferiam o aluguer de um carro de luxo, sempre que necessário, em vez de o comprarem. Alguns nem tinham carta de condução, teriam que investir no carro e contratar um motorista. Era uma despesa enorme. Assim, tinham o privilégio de poderem mudar de marca cada vez que faziam um novo aluguer.
O curso de gestão de empresas, dera-lhe a oportunidade de gerir a sua própria empresa, todavia o que mais o apaixonava, era a mecânica, e a condução. Ainda há dois meses tinha levado um casal a Coimbra, quando o motorista que os deveria transportar, estava de licença por nascimento do primeiro filho e todos os outros estavam ocupados.
Uma semana depois, Ricardo tinha o resultado do teste, mas estava mais confuso que nunca. Porque embora o teste fosse claro no resultado de que ele não era o pai da menina, a compatibilidade com a criança era grande e aconselhavam um novo teste para determinar o grau de parentesco.
Sem saber que pensar, telefonou ao seu amigo Artur pedindo-lhe para passar pelo seu escritório. Este disse-lhe que já tencionava visitá-lo nesse dia pois  acabara a investigação que ele lhe pedira.
Uma hora mais tarde os dois estavam reunidos, e Ricardo lia o relatório que o investigador lhe entregara, enquanto este esperava calmamente a reação do empresário.

-Não é possível. Como é que chegaste a esta conclusão? Eu nunca saí com essa tal Susana. Na verdade até tinha as minhas dúvidas de que ela tivesse realmente existido. 
- Mas existiu. E segundo a sua melhor amiga, ela namorou com um tipo cuja descrição encaixa perfeitamente na tua pessoa. Acredita que fiquei muito surpreendido. Então mostrei-lhe aquela foto do jantar de aniversário do Sérgio, em que tu estás com ele e os restantes rapazes a festejar. Perguntei-lhe se o namorado da Susana era algum dos homens da foto e ela apontou para ti sem hesitar. Não sei o que aconteceu, mas  se me disseres o que se passa, talvez possa ajudar-te.




AQUI está mais um pouco do que andei fazendo pelo Algarve. espero que vos agrade

12.4.18

RENASCER - IX





Dois meses depois, Carlos continuava na psiquiatria do hospital sem saber mais de si do que aquilo que lhe contavam os demais. Pais, irmãs, cunhados, amigos de infância, muita gente se deslocara da Régua até Lisboa para verem o homem que voltara à vida quase sete meses depois de ter sido dado como morto em combate. Não reconheceu ninguém à exceção de Cacilda, a mais nova das irmãs. Porque a reconheceu imediatamente e não reconheceu Amália a irmã mais velha era mais um mistério da sua cabeça que ele não sabia decifrar, e que intrigou o psiquiatra. Este, fez-lhe a seguinte proposta. Gostaria de iniciar um novo tratamento com base na hipnose clínica. Porém aproximava-se o Natal e ele ia-lhe dar alta para a quadra natalícia. Queria que ele fosse a casa, convivesse com família e amigos, andasse pelos lugares da sua infância e juventude. Acreditava que nesse contexto ele poderia recuperar a memória. Se tal não acontecesse, quando regressasse ao hospital, se ele estivesse de acordo, começariam então as sessões de hipnose.
Proposta que ele aceitou imediatamente, receava endoidecer com tanta luta para se recordar de qualquer coisa, um pequeno acontecimento que fosse, e sentir-se completamente vazio. Às vezes pensava que estava num pesadelo, que ia acordar a qualquer hora, e então beliscava-se a si próprio mas nada mudava. Duas vezes por semana, Luísa ia vê-lo, e ele agarra-se aquelas visitas como náufrago, à bóia que o vai salvar. Os dois tornaram-se amigos. Ambos viveram uma tragédia, e talvez por isso, um buscasse no outro, a força que os havia de fazer esquecer. Naquele dia, mais uma vez, Luísa foi visitá-lo.
- Boa tarde Carlos. Como se sente hoje.
- Na mesma. Um pouco mais animado porque o médico me vai dar alta para passar o Natal na terra com a família. Pensa que isso me pode trazer de volta a memória, e me propôs se eu voltar na mesma, no regresso, ser hipnotizado para ver se revivendo o que se passou, quebro o bloqueio que me faz estar assim.
- E isso não é perigoso?
- O médico diz que não. Ele pensa que se isso não resultar, poderei levar anos até que um qualquer facto me faça recuperar a memória. Eu nem quero pensar nisso. Mais me valera ter morrido naquele dia.
- Não diga isso, meu amigo, está vivo, é jovem, teoricamente tem muitos anos pela frente, mesmo que durante algum tempo não se lembre, virá o dia em que recupere a memória. Para os mortos não há retorno nem esperança.
- A Luísa não sabe o que é não saber nada, não ter recordações, nem amigos, nem familiares.
- Mas o Carlos tem. Já o visitaram.
- É verdade. Mas se exceptuarmos o meu pai que reconheci porque foi como se me estivesse a ver ao espelho, embora mais velho, e a minha irmã Cacilda, acreditaria no que me dizem, apenas porque o desejo com toda a minha alma. Como acreditei que aquela carteira era minha, só porque ma deram e disseram que era.
- Entendo. Deus queira que a hipnose resulte.


2.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXVI



 Aquele domingo marcou o início de uma nova vida para Amélia e o filho. Conheceram Alfredo e a família. A jovem percebeu a forte amizade entre o caseiro e o dono da propriedade, e entendeu o desejo deste, de partilhar com o seu irmão de criação a herdade.
Martim, logo fez amizade com os dois meninos, mas sobretudo encantou-se com Matilde, uma bonequinha loira de três anos, sempre atrás deles e a querer entrar nas brincadeiras dos manos. A avó entabulou uma longa conversa com Augusta, a mãe de Alfredo. Noutros tempos, quando os respetivos maridos, eram vivos, encontravam-se de vez em quando para confraternizar. Depois que ficaram viúvas, ambas se entregaram à sua dor e se meteram em casa, deixando de lado o convívio social. Agora conversavam animadas trocando recordações, e vivências. Depois do almoço, Paulo aproveitou que as mulheres estavam entretidas na cozinha, e Alfredo ia levar as crianças a ver os animais, para convidar Amélia a dar um passeio pela herdade. Encaminharam-se na direção do rio.
. Dá para perceber que eles gostam muito de ti.
- Como eu deles. Na verdade pode dizer-se que são a minha única família. Daí a minha ideia de lhes doar metade desta herdade.
- Comentaste isso alguma vez com eles?
-Achas? Se nem eu mesmo tinha pensado nisso até que vi a dimensão atual da quinta e vi os filhos deles. Pensei que eles mereciam ter mais oportunidades na vida, do que as que são dadas aos filhos dum simples caseiro. Incomoda-te a minha decisão?
- Porque havia de me incomodar? Os bens são teus.
- Mas eu fiz-te uma proposta. E se nos casarmos?
- Se eu aceitar casar contigo, não será pelo teu dinheiro, mas porque soubeste chegar ao meu coração. Toda a vida tenho trabalhado para me sustentar e ao meu filho.
Ele parou. Pôs-lhe as mãos nos ombros e atraiu-a para si. Sem desviar os seus olhos dos dela, baixou o rosto e os seus lábios poisaram sobre a boca feminina. Primeiro suavemente, numa carícia tão suave como o roçar de uma pena, depois mais intenso, a sua língua impaciente, forçou a boca dela, que se abriu e entregou, como um botão de rosa que desabrocha, sob um intenso raio solar.
As mãos grandes e nervosas do homem introduziram-se por baixo da blusa dela acariciando-lhe as costas, para depois, desapertar o sutiã, e acariciar-lhe os seios, enquanto a apertava contra o tronco de uma árvore o corpo dele, pressionando o dela, fazendo-lhe sentir a sua excitação.
O chamamento de Martim ao longe suou, como uma campainha de alarme, aos ouvidos dos dois que se largaram imediatamente. Amélia baixou os olhos envergonhada, enquanto Paulo a ajudava a compor a roupa. Ele estava encantado com a mulher apaixonada que acabara de descobrir, ela envergonhada pela sua reação às carícias masculinas.
- Meu Deus! Isto não devia ter acontecido!
- Porquê? Isto é a prova da química que há entre nós. Não podemos lutar contra os sentimentos. Vá lá, querida, diz que sim, que me aceitas na vossa vida e que vamos formar uma família feliz.


Nota: 1 Este episódio parece um final, mas só parece. Não esqueçam que gato escaldado de água fria tem medo, e Amélia jurou não cair noutra quando soube da traição do marido. 

Nota 2  A minha princesa faz 9 anos no domingo. E sou eu que estou a preparar a festinha dela. De modo que não sei se conseguirei visitar-vos a todos, hoje e amanhã.

12.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXIX




-Tonta. Como foi possível pensares que eu te ia deixar por causa disso? - Perguntou, sem deixar de olhá-la com imensa ternura.
-Dizes isso agora, mas quando os anos passarem, vais recriminar-me. E não vou aguentar. Morro de desgosto.
- Escutei-te. Escuta-me tu agora. Nasci numa aldeia do norte. Minha mãe morreu de parto, e fui criado pelo meu pai e por uma sua irmã, viúva, que vivia lá em casa. Não me lembro de um único afago do meu pai. Creio que ele me culpava pela morte da minha mãe. A minha tia, também não era muito carinhosa, pelo que as minhas recordações de infância, não são como deves calcular muito boas. Fui crescendo com mais sonhos, que dinheiro para concretizá-los, pois lá em casa ele rareava. Aos catorze anos, farto daquela vida, fugi para a cidade. Mas na cidade, ninguém ligava a um miúdo, ninguém lhe dava trabalho. Vagueei pelas ruas durante vários dias. Cheio de fome, entrei numa igreja, disposto a roubar a caixa das esmolas para comer. Faltou-me a coragem e sentei-me num banco a chorar. Depois de algum tempo senti que uma mão me afagava a cabeça, e vi que era o padre. Tentei fugir, mas ele segurou-me o pulso com força, falou-me com tal suavidade, que quase sem dar por isso, acabei por lhe falar da minha vida, dos meus sonhos, da fuga, enfim uma verdadeira confissão. Então ele levou-me a um pequeno café que havia perto da igreja, e pagou-me uma refeição. Depois disse que ia tomar conta de mim, que me ia ajudar a realizar os meus sonhos.  Pediu a morada do meu pai e escreveu-lhe a dizer que eu estava bem e que ia estudar. Depois levou-me para casa de uma irmã que tinha dois filhos, um da minha idade, e outro um pouco mais velho. Eles acolheram-me muito bem, partilharam comigo, roupa, alimentação, e carinho. O padre Miguel, e algumas senhoras da catequese, pagaram-me os estudos e obrigaram-me a estudar. Graças a eles, não sou hoje um vadio. Era aplicado e cheguei a fazer dois anos num. Depois fui para a faculdade. Na primeira semana na faculdade, o padre Miguel, trouxe-me um bilhete de comboio e informou-me que meu pai tinha morrido. Voltei à terra para o funeral, cheio de pena, de não ter conseguido ganhar o seu amor. Depois regressei para a minha verdadeira família. O padre Miguel e os seus. E para a faculdade.  Queria ajudar nas despesas, mas eles não me deixavam trabalhar. Eu tinha um incrível jeito para o desenho e comecei a vender alguns desenhos, aos amigos, e a fazer ilustrações para editoras, e jornais. O que ganhava, não era muito, mas dava tudo ao padre Miguel, para ajudar nas despesas. 


  

19.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXXIII







O telemóvel tocou. Isabel pousou o livro e atendeu. Era Amélia a reforçar o convite para irem ao tal bar. Isabel voltou a descartar qualquer hipótese de sair. Desligou e olhou para o relógio. Dez e vinte, era muito cedo para se deitar, mas a chamada fizera-a perder o interesse pela leitura. Que fazer? Olhou o portátil na mesinha de bambu e vidro junto ao sofá. Mas não lhe tocou. Na verdade navegava tanto por questões de trabalho que em casa muito raramente o abria. Aconchegou o robe ao corpo seminu e estendeu-se no sofá. Fechou os olhos e reviveu a cena dessa tarde. Quem seria aquele homem? Luís. Ele dissera que se chamava Luís. Bom pelo menos a partir de agora o desconhecido tinha nome. Mas isso mudava alguma coisa? Lembrou-se da mãe. Ela sempre dizia que cada um nasce com o seu destino traçado. Costumava dizer que não há coincidências. As coisas acontecem, para seguir a ordem natural, dos caminhos do destino de cada um. Ela não acreditava muito no destino. Sempre acreditou que o destino, é obra do que cada um faz na vida. Agora já não tinha tanta certeza disso. Ela não fizera nada para trazer para a sua vida aquele homem, nem os estranhos desejos que a assaltavam desde que o conhecera.
Será que a mãe tinha razão? Que ele estivera sempre no seu destino, à espera da hora certa para aparecer? E se assim era, que papel ia interpretar no teatro da sua vida? Seria um grande papel, ou era uma figuração apenas? De súbito deu-se conta de algo muito estranho. Ultimamente quase não se recordava de Fernando. E quando o recordava tinha dificuldade em lembrar as suas feições. Que estranho poder tinha aquele homem para invadir assim a sua vida e a sua mente, e esvaziar a gaveta das memórias que ela guardou com esmerado cuidado durante quase 20 anos?
 Isabel jamais acreditaria que situações assim acontecessem na vida real. E porque haviam de lhe acontecer logo a ela? Que já tinha desistido de ter uma família e estruturara toda a sua vida, sobre recordações? E agora que fazer? Esperar que o destino ou lá o que era os juntasse de novo? Tentar esquecer e reconstruir a muralha atrás da qual vivera todos aqueles anos? E se voltassem a encontrar-se o que ela faria? Tentaria dar uma hipótese a si mesma com dizia Amélia, ou fugiria de novo? E mais importante que tudo. Quem lhe dizia que o homem não era comprometido? E ainda que o não fosse quem lhe dizia que se ia interessar por ela? Um homem como ele devia ser como uma flor à beira de uma colmeia.
Exausta acabou por adormecer ali mesmo no sofá.



                                             

9.2.13

EM SÁBADO DE CARNAVAL

VASCULHANDO O BAÚ DAS MEMÓRIAS ENCONTREI ESTA FOTO DE FINAIS DOS ANOS 50. COMO EU DISSE NA HISTÓRIA DO MANUEL, QUE MUITOS ACOMPANHARAM, ELE SEMPRE GOSTOU DESTA ÉPOCA.  COSTUMAVA FAZER ELE MESMO UMAS MÁSCARAS, ESQUISITAS MISTO DE "CARETOS" E TRIBAIS. E SAÍA SEMPRE NESTES DIAS. UM ANO RESOLVEU QUE IA COM OS FILHOS  E ENTÃO FOI ASSIM. VESTIDOS COM TRAJES  METADE NOSSOS E METADE EMPRESTADOS. LEMBRO-ME QUE AS CAMISAS ERAM NOSSAS, OS LENÇOS E AS SAIAS NAZARENAS ERAM DE UMA VIZINHA CASADA COM UM PESCADOR DA SECA. OS COLARES FORAM FEITOS POR MEU PAI COM A NOSSA AJUDA. ERAM DE PAPEL COLORIDO.  AQUELAS COISAS QUE SEGURAVAM O LENÇO FORAM FEITAS COM UMA RODELA DE CARTÃO, FORRADO COM UM RETALHO PRETO DE UMA SAIA DA MINHA MÃE, QUE EU E A MINHA IRMÃ, ADORNAMOS COM UM PONTO CADEIA. TAMBÉM OS AVENTAIS FORAM BORDADOS POR NÓS. O MEU PAI E O MEU IRMÃO VESTIAM ROUPA DELES. APENAS AS GRAVATAS O BARRETE E O CHAPÉU ERAM DE UM AMIGO DO MEU PAI. E A FAIXA DA CINTURA QUE AQUI NÃO SE VÊ. PARA MIM E MEUS IRMÃOS FOI O CARNAVAL DA NOSSA VIDA.


BOM FIM DE SEMANA E BOM CARNAVAL

6.8.09

ESTAÇÕES DE COMBOIOS




Para aqueles que se lembram das viagens de comboios, eis aqui alguma estações que eram bem bonitas.

Porque tenho estado sem pc, e também porque é mês de férias deixo este filme com votos de boas férias para quem está de férias e bom final de semana para quem trabalha.