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22.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIII





O empregado voltou com a lista das sobremesas.
-Aconselho-te o pudim de pão. É muito bom.
Fizeram o pedido.
- Não tens saudades dos teus pais e irmãos? – perguntou curiosa.
- Claro que sim, - respondeu com tristeza. Tenho cunhados e sobrinhos que nem conheço. Mas não posso voltar. 

-- Não enquanto Portugal mantiver uma guerra colonial, com a qual não concordo e que considero injusta. Quando vim, sabia que me estava a despedir deles para sempre. A menos que um dia haja uma reviravolta política, que acabe com a guerra e a colonização.

- E acreditas que isso vai acontecer algum dia?
- Acredito que sim. Mais dia, menos dia, a juventude vai acordar e dizer basta. 
Terão que ser os jovens, já que os outros, ou estão demasiado comprometidos com o regime, ou estão paralisados pelo medo, ou sem forças para lutar. Tinha grandes esperanças no General Humberto Delgado. Penso que se ele tivesse chegado ao poder, poderia ter mudado o curso da história. Mas os esbirros do regime, não deixaram.

- Voltarias para Portugal, se o regime mudasse? 
-Para ficar? Não! Pelo menos enquanto os tios forem vivos. Talvez tu não entendas o que sinto por eles. É amor, respeito e gratidão. Estão velhos. Sei que precisam de mim. Mas decerto que iria a Portugal sim. Para abraçar os meus pais e irmãos. Para conhecer os cunhados e sobrinhos; família que ainda não conheço. Para rever a nossa terra, os lugares onde passei a minha meninice, os amigos de infância, se é que por lá está algum.
E não é engraçado, que me lembre dos teus pais e não me recorde de ti?

-Não admira. Era uma criança, de nove anos, quando partiste. Eu sim, lembro-me de ti. Eras um magricela alto, só tinhas pernas.
Riram os dois.
Aos poucos o restaurante fora-se esvaziando. Eles também tinham terminado, e Sofia sentiu pena de que assim fosse. A noite tinha sido maravilhosa, a refeição deliciosa, e tinha adorado as explicações do marido. Mas as horas corriam e o momento de maiores intimidades aproximava-se. E sentia um aperto no peito.



13.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VIII




Terminado o jantar, Eva começou a retirar a loiça da mesa, perguntando:
-Faço café para os dois?
- Se não te importares! – respondeu observando-a dissimuladamente.
Ela procurou no armário a embalagem de cápsulas, e as chávenas e tirou os cafés.
-A que horas, tens que estar no casino? – perguntou ela.
- Não sou empregado do casino, Eva. Sou jogador profissional sim, mas trabalho por conta própria. Posso ir todos os dias, e geralmente vou, mas posso estar  alguns dias, sem aparecer. Por isso não paro muito tempo num mesmo sítio. Hoje estou aqui, amanhã ou daqui a um mês posso estar na Itália, no Mónaco, ou em qualquer outro lugar do planeta, desde que haja um bom casino. Como te disse sou um cidadão do mundo.
- Mas para isso não é preciso ter muito dinheiro? Ou ganhas sempre?
Ele sorriu divertido com a sua ingenuidade.
- Nenhum jogador ganha sempre, a menos que faça batota, mas isso é crime e é severamente punido.  Eu nunca me arriscaria a fazer batota. Pode-se dizer que nos ganhos há dois componentes que funcionam em pleno. A concentração e a sorte. A condição mais importante para o profissional, é retirar-se da mesa a tempo, quer esteja a ganhar, ou a perder. Porque a verdade é essa, umas vezes ganhamos e outras perdemos.
- Quer dizer que não escolheste essa profissão pensando enriquecer?
- De modo algum. Na verdade nunca desejei ser rico. Sou um bocado aventureiro, desfruto do que a vida me dá. Não sou rico, mas digamos que tenho o suficiente para não me preocupar com o futuro. O dinheiro do jogo, só entra nas minhas contas, no sentido em que o que perco num dia, tem que ser igual ou inferior ao que ganhei no anterior. Essa é a diferença entre um jogador profissional, e um “agarrado” como era o teu marido. Nós jogamos pelo prazer único do jogo, racionalmente, sem emoção. Homens dominados pelo vício são capazes de vender a alma ao diabo, pelo jogo. É uma dependência com a da heroína ou de outra droga qualquer. Nunca suspeitaste que o teu marido era viciado no jogo?
- Não. É claro que as chegadas a casa quase de madrugada e a falta de dinheiro, me fizeram acreditar que alguma coisa não estava bem. Suspeitei que ele me traía, que havia outra mulher na sua vida. No dia em que quis discutir com ele, o nosso casamento, saiu de casa batendo a porta e não voltou. De madrugada, a polícia bateu-me à porta, avisando da sua morte. Pensei que tinha sido um acidente, até que o agente me informou, que ele tinha subido àquele terraço com intenções claras de se matar, e que várias pessoas, incluindo a própria polícia, tinham tentado sem sucesso demovê-lo de atirar-se de lá. 

4.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXIII









Por volta das quatro,  dirigiu-se ao hotel
Ao chegar ao átrio do mesmo, verificou que o empregado já não era o mesmo que o atendera no final da manhã. 
- Boa tarde. Sou Pedro Medeiros. Já aqui estive de manhã para saber se a menina Rita Sequeira, tinha deixado alguma mensagem para mim. O seu colega disse-me que não tinha nada, mas para passar a esta hora, podia ser que o senhor tivesse.
- Boa tarde. Sim a menina Rita deixou-me um envelope para lhe entregar, caso o senhor viesse procurá-la. - E abrindo uma gaveta retirou um envelope que lhe estendeu. - Aqui está.
Com mão trémula recebeu o envelope, agradeceu ao empregado e dirigiu-se a passos largos para o automóvel.
Aí chegado hesitou. Abria ou não o envelope imediatamente? Seria uma despedida? Um contato? Só havia uma maneira de o descobrir. Com as mãos a tremer, abriu o envelope e retirou de dentro dele uma folha de papel perfumado. Cada vez mais ansioso percorreu-a com o olhar. Tinha pouca coisa escrita. Apenas uma morada em Castelo Branco e a assinatura da jovem. Mas para ele aquilo foi como a mais bela declaração de amor. 
Olhou a cabine telefone,pensando que devia telefonar à mãe, mas de pronto decidiu retomar a viagem. Ligaria à mãe quando chegasse a Castelo Branco. Afinal ela já sabia que tinha chegado bem a S. Pedro e só esperaria novo telefonema à noite. Pôs o motor a trabalhar e o carro arrancou em direção ao sul. O sol aquecia a natureza, e a felicidade inundava o seu coração.Tinha a certeza de que Rita ia perceber as suas razões, e não só lhe ia perdoar, como  ia aceitar ser a rainha da sua vida.

Fim


Elvira Carvalho


                                          
Bom gente ontem estive no Hospital de Santa Maria desde as duas e meia até aos vinte para as seis. 
As notícias não foram lá grande coisa. Foi-me dito que tão breve haja uma córnea, farei o transplante e também que embora seja uma cirurgia combinada, ou seja tirar pontos, silicone, redução de um edema ocular e transplante de córnea, não me será posta a lente nesse dia por uma questão de prevenção de possibilidade de rejeição. O professor disse-me que prefere que eu faça a recuperação total do transplante e só depois fazer uma pequena cirurgia para por a lente.  Postas as coisas neste pé, não será tão cedo que eu estarei livre disto. E já faz hoje 8 meses. 

2.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXI



Ela sentia-se feliz. Era bom ver de novo a alegria do filho. E foi com um sorriso que agitou a mão numa despedida uma hora mais tarde, quando o carro desapareceu na curva da estrada.
Pedro não era homem de velocidades. Por isso não acelerou mais do que o costume. Mas fez a viagem de seguida, não parando uma única vez, nem quando passou pela casa da tia Palmira. Tinha pressa de ver Rita. Queria contar-lhe o porquê do seu comportamento, dizer-lhe quanto a amava, e pedir-lhe que aceitasse partilhar o seu futuro, porque ele já não o imaginava sem ela. Estacionou no parque do hotel, e dirigiu-se à receção:
-  Bom dia. Por favor, podia avisar a menina Rita Sequeira de que Pedro Medeiros deseja falar-lhe.
 – Lamento. A menina Rita e a família já não estão neste hotel.
- Como assim? - perguntou empalidecendo. - Disseram-me que estariam cá até domingo...
 – Parece que anteciparam a partida. Ontem à tarde veio o chefe de família e esta manhã partiram os quatro.
Pedro  sentiu que o mundo ruía à sua volta. Sentiu-se tão mal, que o empregado perguntou:
- Quer um copo de água?
 – Não obrigado.  A menina Rita não deixou nenhum recado para mim? Meu nome é Pedro Medeiros.
 – Comigo não. Só se com o meu colega. Mas ele hoje, só entra às dezasseis horas.
-Obrigado. Eu volto mais tarde.
Arrependido de não ter tido uma conversa franca com Rita, mas recusando deitar fora a esperança de que ainda pudesse haver uma mensagem, Pedro dirigiu-se a casa da tia Palmira, que arregalou os olhos de espanto quando o viu.
- Então rapaz o que aconteceu? Porquê esta volta tão repentina? Estavas tão aflito com o emprego. Despediram-te? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas?
E sem lhe dar tempo a responder voltou-se para a fiel empregada e disse:



8.6.19

UM PRESENTE INESPERADO -PARTE XVII




Três dias depois, Ricardo telefonou ao seu amigo Artur. Disse-lhe que precisava de um conselho e convidou-o para jantar com ele nessa noite.
Às oito horas, como combinado encontraram-se no café-restaurante, na mesma rua onde se situava a sua empresa. Cumprimentaram-se e depois escolheram uma mesa um pouco afastada, onde podiam conversar mais à vontade. Mal se sentaram, o empregado apareceu. Escolheram o prato e quando ele se afastou com o pedido, Artur perguntou:
- Que se passa? Descobriste alguma coisa sobre o teu irmão?
- Nem tentei. Os meus pais eram ambos filhos únicos, e uma vez que tanto eles, como os seus pais, meus avós já morreram, a única hipótese da menina ser da minha família, é ser filha dele. Não sei como nem onde, mas aqueles dois tinham que se ter encontrado. De resto, pensando na Susana pela carta de despedida que ela deixou, e conhecendo o João, diria que ambos se moviam nas mesmas águas do ódio, revolta e inveja. Acontece que eu não deixo de pensar naquela menina. É minha sobrinha e gostaria de cuidar dela e lhe dar um bom futuro.
-E porque não o fazes? Oficialmente é tua filha.
-A sua tia não ma entregaria, e eu não quero entrar na justiça. Não seria justo com elas. A menina nunca conheceu outra mãe. Já pensei abrir uma conta em seu nome e depositar uma verba para quando atingir a maioridade ir para a Universidade. Mas até atingir essa idade, ela precisa de tudo, pois segundo o teu relatório, a tia está desempregada. Que me aconselhas?
-Casa-te com ela.
-Estás doido?
-Porquê? É a solução ideal. A menina será criada pelos dois, como pai e mãe. Sei o que te aconteceu há anos, e sei o que pensas em relação ao casamento. Conheço-te desde que andavas de bibe. Mas Isabel, não é como Ivone. Não te vai convencer a casar, serás tu quem terá de a convencer. Não te irá trair, pois não tem namorado, nem é jovem de amizades masculinas, toda a gente na rua, me deu as melhores informações dela. Além disso, nenhum dos dois está apaixonado, mas ambos querem o melhor para a criança. Será um casamento de conveniência, ninguém engana, ninguém vai enganado. Acredita é o melhor que podes fazer.
- Não era essa a solução que esperava me desses.
-Eu sei. Mas se pensares bem, não é só a melhor solução. É a única, uma vez que não serias capaz de recorrer à Justiça para separares as duas. Pelo que descobri nas minhas investigações, ela é capaz de fazer qualquer sacrifício pela menina. E tu tens quase  quarenta anos, ainda és jovem, mas os anos passam a correr. Um dia começas a sentir o peso da solidão. Olha para mim. Pouco tempo depois de ter entrado na polícia, o meu colega foi morto quando procedíamos a uma investigação na Cova da Moura. Fiquei muito traumatizado. Podia ter sido eu, pois segundos antes, era eu que estava naquele sítio. Na altura pensei que o mesmo me podia acontecer a qualquer momento e que não tinha o direito de arrastar uma mulher e possíveis filhos para um tal destino. E decidi ficar solteiro. Todavia agora, dava qualquer coisa para ter uma companhia. E sabes de uma coisa? Se uma certa senhora me der uma oportunidade, não morro sem ir ao altar.
O empregado veio servi-los e os dois começaram a comer em silêncio, ambos embrenhados nos seus pensamentos.
Mais tarde, terminada a refeição, quando se despediram, Artur voltou a dizer.
-Pensa no que te disse. É a melhor solução.
-Vou pensar –retorquiu ele.



4.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE V


Francisca estava grávida de sete meses quando o marido se suicidou. Os negócios iam de mal a pior. Estava cheio de dívidas, e na eminência de abrir falência. Não aguentou a pressão e uma noite telefonou à mulher dizendo que ficava a fazer serão, para encerrar umas contas, fechou a loja e deu um tiro na cabeça.
Foi o empregado quem o encontrou no dia seguinte. Francisca recordava o grande choque que sofrera, não só com a morte do marido, mas também ao descobrir a situação económica em que se encontrava, pois Jorge sempre lhe escondera o rumo desastroso que o negócio tomara, e as dívidas que a firma tinha.  De um momento para o outro, viu-se obrigada a vender a casa, para as liquidar, e a buscar protecção junto dos pais, na aldeia. Foi na casa paterna que se refugiou com o   filho pequeno, e lá nascera o segundo filho. Desde então tinham passado quase três anos. Precisava encontrar um emprego, que lhe desse meio de subsistência para ela e para os filhos, mas não podia deixar duas crianças tão pequenas com a mãe, e também não podia pagar uma creche. Encontrava-se num beco sem saída. 
Naquela manhã, saía do registo civil onde fora renovar os seus documentos,  quando encontrou a Graça.
- Francisca! Que alegria. Não esperava encontrar-te aqui. Nunca mais te vi. Há tanto tempo!
Graça fora sua colega de estudos. Mais do que isso, fora uma boa amiga. Mas depois entrou na Universidade e ela ficou para trás. Nunca mais se tinham visto.
Com o à-vontade que a caracterizava, Graça pegou-lhe num braço, quase  arrastando-a atrás de si.
- Vem, vamos tomar um café. Aqui perto há uma pastelaria sossegada. Quero saber de ti.
Entraram no estabelecimento, e sentarem numa mesa perto da janela.
- Eles têm aqui uns pastéis de nata divinais. São a minha perdição. Vou pedir para as duas. Vais ver que não é exagero meu. Mas que se passa? Estás tão calada. Até parece que não gostaste de me ver.
- Claro que estou muito feliz por te ter encontrado. Ainda estou surpreendida.
O empregado aproximara-se, e Graça fez o pedido. Logo que ele se afastou perguntou:
- Casaste? E vives na cidade?
- Estou viúva. Tenho dois filhos e vivo na aldeia, em casa  dos meus pais.
Sem conseguir controlar-se, as lágrimas rolaram pela face bonita.
O empregado voltou com os cafés e dois pastéis de nata que colocou sobre a mesa. Quando ele se afastou, Graça chegou a cadeira para mais perto da amiga e pediu, apertando-lhe a mão:
-Conta-me tudo.


reedição



25.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXIX


Como todos os artistas, Miguel era um bom observador do que o rodeava, e possuía uma enorme sensibilidade. Por isso mesmo, não lhe passava despercebida a tristeza no rosto da jovem, que ele atribuía ao seu estado amnésico. Estava porém longe de imaginar, que ele poderia ser parte dessa tristeza.
O restaurante escolhido, ficava perto de casa. Era um café restaurante, não muito grande, mas acolhedor.
-Um dia, com mais tempo, havemos de ir à Adega Machado, jantar e ouvir o fado. Mas hoje jantamos aqui mesmo, a comida é boa e podemos conversar mais à vontade. - Disse ele afastando a cadeira para ela se sentar.  
Escolheram a refeição e enquanto esperavam, Miguel disse: 
- Queria arranjar alguém de confiança, para te acompanhar e ajudar no que precisares.
Amanhã, vou tentar conseguir a consulta com o tal médico. Vou contigo à primeira consulta, mas se ele achar necessário, as tais sessões de psicoterapia, não poderei acompanhar-te. Os próximos dias vão ser muito complicados, em termos de tempos para mim. Provavelmente nem as refeições, faremos juntos. Falei com a porteira, ela conhece meio mundo no bairro, talvez pudesse ajudar-me. E sabes uma coisa? Ela tem uma irmã que enviuvou há três meses. Precisa urgente de trabalho, tem uma filha estudante, que está em risco de ter de abandonar os estudos, por causa dos problemas económicos em que a morte do pai a deixou.
Calou-se enquanto o empregado servia a refeição, retomando a conversa, logo depois:
- Disse-lhe para virem amanhã. Estou a pensar, que a mãe poderá tratar da casa, fazer compras, e inclusive as refeições. E a filha, que deverá andar pela tua idade, pode acompanhar-te às sessões, ou a dar uma volta pela cidade, ir ao cinema, ou outro lado qualquer que vós, jovens, apreciais. Dava-nos jeito, e era uma maneira de as ajudar, nesta hora difícil. O que achas?
- Não sei Miguel. Faz o que achares melhor.
-Então está decidido. Claro que teremos de combinar as coisas, em função do horário da miúda. Não vamos atrapalhar os seus estudos.
- Miúda, Miguel? Não disseste que era mais ou menos da minha idade?
Ele arqueou a sobrancelha
- E?
-Eu, não sou uma miúda, - protestou com veemência.
- Pois não. Tu és ...uma senhora miúda. – Riu divertido



5.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XVIII






O empregado voltou com os pratos pedidos, e David esperou que ele se retirasse para fazer a pergunta que lhe queimava a garganta.
- Amavas o teu marido?
A afirmação saiu firme.
-Sim.
-Traiu-te?
- Sim e não. Desculpa, não me sinto preparada para falar disto. Porque não me falas de ti agora?
-Não é um tema interessante. Sou um rapaz do campo, filho de gente pobre, que com muito esforço, conseguiu estudar e que um dia conseguiu criar uma microempresa, que não mais parou de crescer.
- Só isso? E quando conheceste o Daniel? Ele disse que se conhecem há muito tempo.
-Conhecemo-nos na faculdade. Pensava que eramos amigos, até descobrir que tinha uma irmã, e que nunca me falou dela.
-Cursaste Medicina?
-Economia.
-Então não devia haver muito tema de conversa entre vós.
-Enganas-te. O teu irmão sempre se interessou pela economia dos países africanos. E havia outras coisas, em que estávamos de acordo.
-Mulheres, suponho.
-Talvez, - respondeu sorrindo
Acabaram a refeição em silêncio. A noite estava muito bonita. O ruído do mar misturava-se à música, e na pista de dança, havia já alguns pares.
O empregado entregou a lista de sobremesas, levantou os pratos e retirou-se.
- Tens alguma preferência? – Perguntou ele
- O gelado de framboesa. E tu?
Teve vontade de lhe dizer que a preferia a ela. Mas não se atreveu.
- Não sou muito apreciador de doces. Aceito a tua sugestão.
Saborearam os gelados.
- Queres dançar?
Tinha vontade de o fazer. Mas não tinha coragem. Tinha plena consciência da atração que ele lhe provocava, do desejo que lia no olhar masculino e da sua vontade em se deixar levar. Desde que se divorciara, nunca mais tinha saído com um homem, a não ser em grupo. Estava carente. A noite estava a ser maravilhosa. Tinha receio de estragar tudo.
- Preferia dar um passeio pela praia.
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Uma pergunta aos leitores: Não acham que esta  (estória) história está a ir depressa demais? Eu sei que hoje em dia vive-se a correr. Mas que vos parece?


JOGO PERIGOSO - PARTE XVII







Enquanto terminava a maquilhagem, Daniela pensava em tudo o que lhe acontecera desde que conhecera David. A raiva que a tomara, de início, foi substituída por um sentimento que ela ainda não sabia bem como definir. O que sabia, é que o seu corpo entrava em ebulição quando ele estava perto, e que desde o dia em que quase se beijaram no escritório, que ela vivia a sonhar com os seus beijos. Sabia que se estava a meter num terreno perigoso, mas não lhe importava. Tinha quase trinta e dois anos, era uma mulher adulta. Sabia que não podia sonhar com o casamento, mas também não ia levar o resto da vida, em abstinência total. David agradava-lhe, e percebia que ele também a desejava. O único problema era o facto de serem sócios. Misturar o trabalho com uma aventura, não ia dar certo, ela sabia-o.
Acabou de se arranjar no momento em que a campainha tocou. Abriu a porta, e saiu.
-Estás linda!
-Obrigada.
-Tens algum sitio especial onde queiras ir? – Perguntou-lhe enquanto punha o carro em marcha.
 - Não. Escolhe tu.
Levou-a para um restaurante à beira-mar.
- Um local muito bonito. Costumas vir aqui muitas vezes?
- Algumas. Não conhecias?
- Não.
- Enquanto esperavam ser atendidos, ele pegou-lhe na mão e pediu num sussurro.
- Fala-me de ti.
- Não é um tema interessante.
- Isso, sou eu quem decide.
- Bom. Fui uma criança feliz, mimada pelos pais e pelo Daniel que tem mais três anos do que eu, e que até à minha entrada para a faculdade sempre foi muito protetor. Cursei contabilidade e gestão de Empresas, porque sempre me fascinou a ideia de vir a gerir o negócio da família, tanto mais que o meu irmão, se direcionou para a medicina e desde muito novo mostrou a sua vocação para se por ao serviço dos mais necessitados. Não fora a doença do nosso pai, e já há muito tinha ido para África.
Calou-se enquanto o empregado tomava nota do pedido.
-A minha mãe morreu quando entrei para a faculdade. Cancro no peito. Era ainda jovem e morreu em seis meses. Senti muito a sua falta. Nessa época conheci o Filipe. Era simpático, bonito, e foi um grande apoio, para a minha dor. Casamo-nos dois anos depois. O casamento não foi o que esperava, e ao fim de quatro anos, o divórcio foi a única solução.
A doença do meu pai, não me deixou tempo para carpir mágoas. O meu irmão não queria ouvir falar da fábrica, e o pai já não conseguia continuar. Comecei a trabalhar a seu lado, mas em breve, ele teve que ser hospitalizado e pouco tempo depois morreu. E é tudo.



11.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XII




O empregado trouxe as refeições e Quim esperou que se afastasse para continuar.
Portugueses bem-sucedidos como o meu tio, contam-se pelos dedos das mãos. E vieram para cá no final dos anos quarenta, início de cinquenta. A guerra tinha acabado há pouco tempo, a mão-de-obra para a reconstrução era escassa e pagava-se muito bem. Esses às vezes vêm matar saudades dos nossos pratos. Ainda assim não são muito frequentes.
Em contrapartida os franceses apreciam muito a nossa gastronomia. E graças a isso, o restaurante está sempre cheio.
- Nem sequer imaginava o que me contas. Apenas estranhei só ouvir falar francês, quando pensava que seria um restaurante para os emigrantes portugueses. E nunca pedem comida francesa?



10.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XI


O empregado aproximou-se com a lista. Sem a abrir, Quim fez o pedido e ela ia pedir o mesmo, quando ele disse:
- Dá uma olhada na lista. Não tens que comer o mesmo que eu, a menos que seja realmente o que preferes.
-Mas gosto imenso de “Bacalhau à Brás”, - respondeu
- Então está bem. Divides comigo uma garrafa de vinho?
- Preferia água.
Feito o pedido, ele respondeu por fim à pergunta sobre seus tios.
- Voltando aos meus tios. Não, eles não têm filhos. Casaram-se já tarde, e a saúde da tia nunca foi muito boa. Sinceramente não sei, se os não tiveram por opção ou porque não os pudessem ter. O tio Joaquim é o irmão mais velho do meu pai, e é também o meu padrinho. Ele é o responsável por todos me chamarem Quim. Quando vim para cá, cada vez que ouvia chamar por ele, eu acorria julgando que era comigo. Então para evitar confusões, começaram a chamar-me, Quim. Cheguei aqui com dezasseis anos e eles cuidaram de mim como se fosse filho deles. Deram-me casa, uma profissão e amor. Tudo o que sou, devo-o a eles.