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31.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXV

 



O último dia daquele mês de agosto, amanhecera quente e com o céu ameaçando a continuação da chuva que se mantinha há vários dias, pois estava-se na época das chuvas, que rapidamente transformara a estrada de terra batida num lodaçal. 

Tiago, saíra do pavilhão que lhes servia de residência com Peter, o amigo inglês de clínica geral, Paco o anestesista espanhol, e as duas enfermeiras religiosas, bolivianas, que substituiriam as outras duas que ficaram assistindo os doentes internados, durante a noite. Percorriam com dificuldade os  poucos metros que os separavam do pavilhão hospital, dado o estado do caminho transformado num verdadeiro pântano. No país poucas são as estradas de alcatrão.  

Os três homens comentavam entre si, que não se compreendia a extrema pobreza dum país, que sendo rico em diamantes e urânio e não chegando aos cinco milhões de habitantes, estivesse entre os mais pobres do mundo. Certo que o facto de não ter saída para o mar, e as suas exportações só poderem navegar pelo rio ate Brazzaville e depois terem que seguir de comboio até Pointe-Noire no Congo, dificulta e encarece as exportações.

Mas esse não é o principal problema. O maior problema do país são os mais de oitenta grupos étnicos, com outros tantos dialetos, e o seu desejo de cada um se impor e governar os outros o que leva a constantes guerras tribais.

“Digamos -dizia Paco, - que aqui se encontra a base da famosa Torre de Babel”

O grupo encontrava-se a uns dez metros do hospital, quando de súbito se ouviu um som pavoroso, como se um trovão tivesse rebentado ali mesmo e Tiago sentiu-se projetado no espaço, enquanto sentia como se o rasgassem de alto a baixo. E de súbito havia apenas um poço negro e Tiago mergulhou nele.

Acordou banhado em suor. Estendeu a mão e acendeu o cadeeiro. Carregou no botão que elevava a cabeceira da cama. Tinha os músculos contraídos e parte do corpo em fogo como se tivesse sido ferido naquele momento.

 Pegou no copo e no jarro de água, mas as mãos tremiam-lhe tanto que entornou sobre a cana uma boa parte. Da gaveta da mesa-de-cabeceira tirou dois comprimidos de paracetamol que engoliu.

No início depois que recuperou a consciência no hospital, revivia todas as noites o acidente, tendo de tomar soporíferos para conseguir dormir. Aos poucos a situação foi melhorando. Agora havia mais de uma semana que o pesadelo não vinha atormenta-lo.

Chegara a pensar que enfim se teria livrado dele, e daí que apesar do seu estado físico, não ter melhorado nada, em relação ao que ele ansiava, tinha-se sentido mais calmo mais confiante. Mas agora o pesadelo voltara, e cada vez que isso acontecia, era como se Tiago estivesse a ter o acidente naquele momento. Ele sentia as mesmas dores, a mesma sensação que o seu corpo iria arder até ao fim e o mesmo pensamento de que tinha chegado ao fim, não voltaria a ver os pais nem a noiva.

Encheu de novo o copo de água que bebeu de um trago, como se acreditasse que a água apagaria o fogo doloroso que o consumia.

Olhou o relógio. Três e meia da manhã. Não dormiria mais. Sabia disso, tinha meses de experiência. Puxou a almofada para trás da cabeça, fechou os olhos e assim aguardou o nascer do dia.


Esta história volta depois da Páscoa

11.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXII



Passaram-se  três meses, durante os quais Teresa só saiu de casa para tirar os pontos, e para as consultas necessárias com ela ou com os bebés. Apesar de todas as ajudas com amas e enfermeiras, sentia-se sempre cansada. Continuava a dar de mamar oito a dez vezes por dia, e nos intervalos continuava a tirar leite não só para alimentar um dos bebés, como para manter estimulada a produção, congelando o excesso quando sobrava para depois lhes dar quando começasse a ser necessário um reforço.  

 E ainda assim,  pensava que era uma privilegiada. Imaginava como seria a sua vida, sem família, a viver de um emprego e ter tido três filhos em vez de um. Não sabia se teria forças para sobreviver. E ela sabia que havia milhares de mulheres em todo o mundo, que passavam por isso.  

Outra coisa que a preocupava, era a relação com o marido. Desde que viera para casa, que partilhavam o leito conjugal, mas apesar de já ter passado o tempo de resguardo ainda não tinham consumado o casamento.  No início ele abraçava-a e ela deitava a cabeça no seu ombro e dormia assim o pouco tempo que lhes era permitido entre as mamadas dos bebés.

Passados que foram dois meses, as carícias do marido tornaram-se mais insistentes, mais ousadas, mas ou por causa do cansaço ou pela preocupação, o certo é que ela perdera o desejo que sentira pelo marido antes do parto, e começou a evitá-lo, procurando que os seus corpos não se tocassem.

Embora João não se queixasse, ela sentia-lhe o desejo frustrado, e ficava nervosa, cada vez que via a noite aproximar-se, e pensava que daí a pouco ele se ia deitar a seu lado. O pior é que os bebés percebiam o nervoso da mãe e mostravam-se mais inquietos.

Isso levou Sandra a inquirir o que se passava com ela, se estava doente, se tinha dores no peito, às vezes o mesmo gretava e causava dores. Não era o seu caso.

Apesar de entre as duas ter nascido uma relação de amizade, Teresa envergonhada não se abriu.

Porém quando Inês a visitou nessa tarde Teresa contou-lhe o que a atormentava. 

Inês contara-lhe que também tinha tido esse problema e que a doutora Laura lhe dissera que o cansaço, a ansiedade, e o aleitamento dos filhos, reduziam de forma drástica a libido de muitas mulheres.  Em vez de tentarem uma relação frustrante, deveriam optar por abraços prolongados, beijos, massagens, carícias mais ou menos ousadas, e ia ver que num mês ou dois o organismo ia começar a reagir e a exigir mais. ´

-E o certo é que realmente funcionou, - disse.

 A amiga também lhe aconselhou a ter uma conversa franca com João e explicar o que se passava.  De contrário ele podia pensar que havia da parte dela uma rejeição, ou até que ela se arrependera do casamento.

Por outro lado, os bebés tinham crescido imenso e os três estavam já com um peso muito semelhante, ao de bebés não prematuros. E dentro de dois meses poderia começar a alimentação artificial com a introdução de um reforço, que se ia tornando cada vez maior até deixar de dar de mamar por completo. E nessa altura, poderia enfim relaxar e ter um tempo só para eles dado que os bebés tinham duas amas e uma enfermeira para cuidar deles. 

 Nessa mesma noite, Teresa confessou ao marido o que se passava com ela e pediu-lhe que tivesse um pouco mais de paciência. Contrariamente ao que supôs, João mostrou-se compreensivo

- Casámos há oito meses, dormimos na mesma cama há três meses e ainda não tivemos a nossa noite de núpcias. Se temos que esperar mais dois ou três meses, esperaremos.  Afinal o que são alguns meses quando Jacob esperou 7 anos para ter Raquel - terminou sorrindo para a animar.    

 

2.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXVI


 



Embora para Teresa, a viagem na ambulância parecesse levar uma eternidade, ela foi feita a alta velocidade e demorou poucos minutos a chegar ao hospital onde a parturiente já era aguardada para ser transportada à sala de cirurgia. Antes de entrar, despiram-na e enfiaram-lhe nos braços uma bata, que seria de apertar atrás, mas que foi apenas enfiada nos braços, ficando solta.
 Entretanto João recebeu também uma bata, uma touca, uma máscara e uma espécie de sapatos em plástico, tudo devidamente esterilizado, para que pudesse penetrar na sala cirúrgica e assistir ao nascimento dos seus filhos.

Por ser uma gravidez de risco em que a futura mãe passara os últimos meses de cama e o parto ia s tinha sido programado por cesariana pelo que, Teresa não fez nenhuma preparação para o parto, pelo que estava muito nervosa com medo de não ser capaz de dar à luz e de alguma coisa correr mal.

Na sala, já se encontrava uma equipa médica da qual faziam parte a obstetra doutora Laura, uma anestesista, um neonatologista e várias enfermeiras. 

A doutora, examinou a parturiente e disse:

- Um deles está prestes a nascer. Se o pai é homem de coragem pode colocar-se à cabeceira da mãe. Se pensa que vai desmaiar, o melhor é ficar o mais afastado possível, pois a nossa atenção tem que estar centrada apenas na mãe e nos bebés.

 João não respondeu, mas chegou-se ao local indicado e apertou uma das mãos da mulher entre as suas.

Enquanto a anestesista aplicava a Teresa a epidural, a doutora Laura ligava-a a um monitor fetal, para ver o progresso dos bebés.

- Já começa a ver-se a cabeça do bebé, - disse uma enfermeira, e a médica acrescentou.

-Vamos lá mãe, vamos fazer força, que isto vai ser rápido.  A vantagem nos partos múltiplos é que os bebés são bem mais pequenos passam mais facilmente o canal vaginal.

E realmente um quarto de hora depois nascia o primeiro bebé.

-É a menina, - disse a médica entregando-a rapidamente aos cuidados do neonatologista que se afastou com ela acompanhado por uma enfermeira, a fim de examinar se o bebé estava bem, apesar de prematuro e pequenino

- É uma vencedora. Conseguiu deixar os irmãos para trás, - disse a médica sorrindo enquanto observava no monitor a posição do segundo bebé. E logo acrescentou:

-Vamos lá recomeçar a fazer força, mãe. Isto vai ser muito rápido. O segundo bebé está pronto a nascer.

- E trinta minutos depois, nascia o primeiro rapazinho, que era entregue ao neonatalogista para avaliar a sua situação de saúde.

Os primeiros cinco minutos de vida, são de extrema importância para a observação dos prematuros. Entre o primeiro e o quinto minuto de vida, o bebê recebe uma nota que vai de zero a dez, com relação a parâmetros como a intensidade dos batimentos cardíacos, o tônus muscular e a respiração. Se essa nota for abaixo de sete, podem surgir complicações, e o bebé segue a incubadora, sendo monitorizado e alimentado por sonda. Com nove ou dez, estão perfeitamente capazes de viver sem qualquer ajuda artificial, embora sejam bem mais pequeninos que os bebés  com o tempo total de gravidez.

A menina já tinha sido observada e apesar de pequenina, não apresentava nenhum problema de saúde, os seus pulmões e parte respiratória funcionavam perfeitamente, não precisava de ajuda médica como apoio de vida. Recebera a nota máxima.

 A doutora Laura observava o terceiro bebé no monitor, enquanto João tentava dar ânimo à mulher, que parecia extremamente cansada, enquanto uma enfermeira lhe limpava o suor da testa

De súbito a médica disse:

- Raios! O corpo parou o trabalho de parto e o terceiro bebé está pronto para nascer, vai entrar em sofrimento. Vou ter que fazer uma cesariana  - disse enquanto trocava as luvas, que usara até aí por umas limpas.


 

26.10.20

CILADAS DA VIDA -PARTE L




Nessa mesma tarde, com a preciosa e eficiente ajuda da Olga, João pode respirar de alívio. Teresa estivera na consulta, acompanhada da enfermeira Sandra, fizera análises, onde fora detetado um princípio de anemia, mas viera para casa depois da doutora Laura Aguilar se ter convencido que a doente teria o apoio constante de uma enfermeira que a faria seguir à risca, tudo o que ela lhe prescrevera. Ainda assim queria voltar a vê-la dentro de dez dias.

Olga conseguira não uma, mas três enfermeiras. Uma ficaria na empresa, a outra substituiria Sandra durante as noites, e a terceira faria as folgas das outras duas.

Dividira o quarto com dois biombos e mandara instalar uma cama, uma cadeira e uma pequena mesa, de modo a que a enfermeira pudesse descansar perto de Teresa sem, contudo, perderem a privacidade.

Também mandou retirar toda a roupa do patrão para outro quarto e se encarregara de comprar ela mesma todos os ingredientes necessários para as refeições de Teresa, que Sandra confecionaria nos próximos dias.

Apesar da sua vida ter dado uma grande volta com os acontecimentos das últimas quarenta e oito horas, João pensava que tinha razões para se sentir feliz. Ele que sempre se sentira solitário, ganhara um irmão, com quem lhe parecera fácil desenvolver um clima de amizade fraternal e tinha Teresa, onde sonhara tê-la, desde o primeiro momento que a vira e soubera que ela tinha dentro de si o seu filho. Na sua casa. E para mais em vez de um filho ia ter três, de uma só vez. Iriam ser uma família, ele tinha a certeza, embora não soubesse ainda como convencer Teresa, de que o lugar dela, era a seu lado, criando os filhos dos dois.

Acabou o jantar, e foi ao quarto saber como ela estava. Cruzou-se com a nova enfermeira que levava o tabuleiro em que servira o jantar para a cozinha. Disse-lhe:

-Tem o seu jantar no forno. Pode jantar sossegada, enquanto isso eu faço companhia à dona Teresa.

- Como te sentes? – perguntou sentando-se na beira do leito.

- Estou bem. Com os comprimidos do enjoo, quase não tenho náuseas, mas preocupa-me toda a confusão que estou a causar na tua vida. Achas mesmo necessário uma enfermeira durante a noite? Vai estar quase sempre a dormir.!

- Acho. Imagina que vais à casa de banho e tens uma tontura? A Sandra comprou uma arrastadeira quando foi aviar o ácido fólico. A enfermeira poderá pôr-te a arrastadeira durante a noite, como fazem nos hospitais. Promete-me que não te levantarás sem que seja absolutamente necessário, e sem que ela esteja contigo.

- Se achas necessário prometo. Embora ainda pense que não era necessário.

-Tens que te cuidar.  Não só pelos bebés mas também por ti. A vida dessas crianças é muito importante, mas não podem importar mais do que a tua. Acredita, nenhuma criança é feliz, crescendo sem mãe.

Havia tal amargura nas suas palavras, que Teresa teve a certeza de que ele se referia a si próprio.

Tentando desviar a conversa disse:

- Tens uma excelente assistente.

- Olga, está comigo desde que comecei a minha atividade, num velho armazém sem quaisquer condições. É muito mais que uma assistente, é o meu braço direito. Somos quase irmãos, já que nos primeiros anos da minha vida, foi a sua mãe quem me criou. De modo que tenho a certeza, ela já te estima por saber que estás a gerar os meus filhos e tenho a certeza, será de grande ajuda para ti se lhe deres hipótese.

- Já tinha reparado que havia uma grande ligação entre os dois.

- E o que achaste das enfermeiras?  A Sandra trabalha connosco há quatro anos, sei que é uma profissional competente. A Gabriela e a Rosa, espero que sejam igualmente boas profissionais pelo menos têm bons currículos, mas és tu quem vai avaliá-las. Qualquer coisa que não te agrade, dizes-me. Quero que te sintas o mais confortável possível, para que em breve deixes de estar nessa situação de risco. Pelos bebés e por ti, - disse acariciando a mão que repousava sobre a colcha.

- Porque puseste uma enfermeira nova no lugar da Sandra em vez de vir para aqui? Porque durante a maior parte do dia eu estarei lá em baixo a trabalhar, e sentir-me-ei muito mais descansado tendo aqui uma profissional que trabalha para mim há anos, e em quem tenho plena confiança. De noite é diferente, porque estarei no quarto ao lado disponível para qualquer eventualidade.

Nesse momento a enfermeira Gabriela regressou do jantar e João despediu-se desejando uma boa noite e saiu deixando atrás de si, uma Teresa preocupada com a sensação que uma simples carícia na mão lhe provocara. Decididamente as suas hormonas estavam doidas...

14.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLV



- Mas não posso ir para a tua casa!- protestou.

- Porque não, Teresa? Conheces a casa, sabes que tem todas as condições para que fiques bem instalada.  Podes ter duas enfermeiras para cuidar de ti, embora eu o pudesse fazer pelo menos de noite, mas compreendo que não te sintas à-vontade sozinha comigo. Depois há uma coisa que não podes esquecer, as crianças que carregas no ventre são também meus filhos. Ninguém pode querer protegê-las mais, do que nós dois. E juntos somos mais fortes.

- O João tem razão, - disse Inês. – Se ele pode ter duas enfermeiras a cuidar de ti, tenho a certeza que a doutora Laura Aguilar, vai achar preferível que estejas em casa. Depois ela pode dar todas as indicações por escrito para as enfermeiras.

-Está bem, se a médica achar melhor eu vou para tua casa. Mas hoje fico aqui.

- Então eu também fico – disse Inês. - Já avisei o Gustavo de que se não aceitasses ir lá para casa, eu dormia aqui, pois não te vou deixar sozinha, depois do que a médica disse.

- Não senhora. A Inês vai para casa, eu fico com ela. Preferia levá-la para minha casa, mas se ela quer ficar aqui, eu também fico. Não é justo a Inês prejudicar a sua família por nossa causa:

- Está bem, vocês ganharam. João esperas na sala enquanto a Inês me põe na mala o que preciso e me visto?

-Claro.

Voltou costas e saiu do quarto.

Inês tirou de cima do guarda-fato a mala que colocou em cima da cama, e começou a guardar nela algumas roupas enquanto Teresa ia à casa de banho.

Quando voltou, despiu a camisa e enquanto se vestia, pediu à amiga.

- Guarda-me o vestido azul, e as sandálias da mesma cor para eu levar amanhã ao hospital. Além disso e da roupa interior põe na mala só camisas de dormir, pijamas e dois robes. E os meus objetos pessoais, que estão na casa de banho. Se vou passar o tempo na cama, não preciso de mais.

- Não me tinhas dito nada que já conhecias a casa dele, - disse Inês enquanto guardava as roupas na mala.

- Não foi de propósito apenas não se proporcionou a conversa. Foi no sábado depois do almoço. Acreditas se te disser que vive no último andar da empresa? Convidou-me a conhecer a empresa e de súbito estávamos em sua casa?

- E depois? Que aconteceu? - perguntou a amiga.

- Nada de mais. Conversámos um pouco na sala, e depois mostrou-me a casa. Convidou-me para lanchar, mas eu disse que tinha que tomar as vitaminas e ele trouxe-me a casa.

Inês fechou a mala e perguntou:

- Não te esqueces de nada? Os documentos?

- Estão aqui, - respondeu mostrando a carteira.

Teresa, saiu para a sala. Inês, pegou na mala, apagou a luz do quarto e seguiu-a.

Na sala, João tirou-lhe  a mala das mãos e disse:

-Se a Inês puder acompanhar-nos agradecia. Tenho a certeza de que a Teresa ia gostar. Aproveita, fica a conhecer a casa e pode sempre que quiser e puder ir visitá-la.

-Claro, eu sigo-vos no meu carro. Assim,  quando a Teresa estiver instalada regresso a casa.

Saíram e seguiram para o elevador.

Já na rua, João abriu a porta do carro, ajudou Teresa a sentar-se, colocou a mala no banco de trás e foi sentar-se ao volante. Arrancou depois de olhar pelo espelho  retrovisor e ver que Inês se encontrava pronta a segui-lo.

 

12.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLIV



Atendeu ao terceiro toque.

- Olá Teresa, que feliz coincidência. Estava a pensar ligar-te para saber como estás.

-Estou bem, mas preciso falar contigo. Podes vir a minha casa?

- Claro, vou já para aí. Mas … aconteceu alguma coisa?

- Nada de grave, só que preciso de conversar contigo, ainda hoje.

- Vou a caminho, até já.

Desligou a chamada, e pouco depois Inês entrava com um tabuleiro com o jantar.

- Acabei de telefonar ao João Teixeira. Uma vez que vou ser internada amanhã, quero falar com ele hoje,  e não é notícia que se dê por telefone - disse sentando-se e enquanto a amiga lhe ajeitava as almofadas nas costas para lhe por o tabuleiro com o jantar no colo.

- Bom, então é hoje que eu vou conhecê-lo. Mas agora quero isso tudo comido antes que arrefeça, ou que ele apareça e já não comas. Sabes bem o que a médica disse.  E não te preocupes nem tentes levantar-te, que eu abro a porta quando ele chegar. Entretanto vou telefonar ao Gustavo.

- E fizeste alguma coisa para o teu jantar? – perguntou Teresa, quando a amiga já ia saindo do quarto.

- Não te preocupes, encomendei uma pizza, deve estar a chegar.

Dois minutos depois a campainha tocou e logo depois Inês apareceu com a caixa da pizza na mão. 

-Vou jantar enquanto a tua visita não chega.

Quinze minutos depois, quando João chegou, já Teresa tinha jantado, e encontrava-se no leito, meio deitada meio sentada, recostada em almofadas.  Ela tinha desejado levantar-se e recebê-lo na sala, mas Inês não deixou, argumentando que ela não tinha que ter vergonha, afinal no dia seguinte seria internada e ele decerto iria vê-la deitada no hospital.

Se ele estranhou ver uma desconhecida abrir-lhe a porta, não o demonstrou. Limitou-se a dizer:

-Boa noite. Venho visitar a menina Teresa Sobral.

-Boa noite. Venha, ela está à sua espera.

Inês acompanhou-o ao quarto e preparava-se para se retirar quando Teresa lhe pediu para ficar.

- João, apresento-te a minha melhor amiga e comadre, Inês Machado.  Inês, este é João Teixeira, o pai biológico.

Esperou que os dois se cumprimentassem, e continuou.

-João, o que tenho para te contar não é fácil por isso prefiro que a Inês fique aqui. Mas por favor sentem-se - disse indicando com a mão a cama. Desde  há duas semanas que não me sentia muito bem, mas desde sábado, praticamente tenho vomitado tudo o que como. Tinha-te dito que iria marcar consulta com a minha ginecologista, mas ela está de férias, então a Inês conseguiu consulta com a médica dela. Tive consulta esta tarde e… nem sei como dizer-te.

- Que se passa? Alguma má formação do bebé? Tens que abortar? – perguntou levantando-se.

-Não. O que se passa, é que em vez de um bebé, eu estou a gerar três; e como ultimamente tenho passado mal e não tenho conseguido alimentar-me como deve ser, tenho perdido peso e a médica quer internar-me amanhã, pois se não recuperar rapidamente peso, posso vir a abortar.

- T…rês? – Gaguejou ele deixando-se cair pesadamente sobre a cama. - Meu Deus! Tens a certeza?

-Temos. Ouvimos os seus corações a bater - disse Inês.

- Mas porque é que vais ser internada?

- Porque é uma gravidez de alto risco, a médica diz que preciso repouso absoluto, ganhar peso e ter alguém que cuide de mim, e não tenho ninguém.

- Eu cuido de ti. A Inês arranja uma mala com aquilo que achares que precisas, e vais comigo.  Amanhã acompanho-te à médica e pergunto-lhe se podes ficar em casa. Sabes que tenho um posto médico com enfermeira diariamente e médico uma vez por semana, no edifício. Pois bem ela cuidará de ti de dia e contratarei outra enfermeira  para a noite. Não te preocupes vai correr tudo bem.

 

 

 

16.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE II





Atravessou o átrio do hospital, seguido pelo olhar de enfermeiras e auxiliares. Não era por acaso que Gil Gaspar tinha uma figura tão impressionante. Ele fora nos últimos anos do século passado e nos primeiros deste século, um futebolista famoso, um dos melhores do mundo, pago a peso de ouro. E como tal conhecera bem os efeitos que a fama causava nas mulheres. Elas andavam à sua volta, como abelhas em volta de flores. E ele descobrira, que a fama consegue ser mais afrodisíaca que o dinheiro. E divertia-se com elas, aceitava o que lhe davam, mas não fazia promessas nem prendia o coração a nenhuma. Até que conheceu Sara. Ela parecera-lhe totalmente diferente das outras mulheres com quem se relacionara até à data, com o seu ar tímido e meio envergonhado. E ele ficara tão encantado que em menos de seis meses estavam casados. Fora um casamento feliz durante os primeiros anos. O casal frequentava a alta sociedade, era convidado para tudo quanto era festa, pois todos queriam contar com aquele que há três anos consecutivos, ganhava o titulo, de o melhor jogador do mundo, embora ele não se fizesse presente na maioria desses eventos, porque a vida de um atleta do seu nível, exige uma vida regrada e muita concentração durante grande parte do ano, coisa que não era compatível com uma vida de festas, como era desejo da mulher.
 Gil era perfecionista, muito rigoroso com a sua preparação física e mental, e começara uma nova época de sucesso, quando teve a primeira lesão grave, que o manteve afastado dos relvados durante mais de três meses. Fora operado ao joelho e durante o resto do tempo passara horas e horas no ginásio em exercícios de recuperação e quando chegava a casa só queria atirar-se na cama e descansar. 
Seria normal que uma mulher apaixonada, entendesse o sofrimento do marido e o apoiasse. Todavia a fama tinha dado volta à cabeça da sua mulher. Sara, preocupava-se mais com o facto de que ele não pudesse voltar a ser o mesmo jogador famoso, do que com o seu sofrimento real, embora nessa altura, ele ainda não se tivesse apercebido disso. "O amor é cego", dizem, e nessa época ele estava muito apaixonado. Felizmente todo o seu esforço foi recompensado e Gil voltou aos relvados e voltou a encantar público e críticos com a magia do seu talento, terminando a época de novo em grande. Todavia menos de seis meses depois, Gil voltou a lesionar o mesmo joelho, e o cirurgião que o operara, dissera-lhe que ele jamais seria o mesmo génio com a bola, depois daquela lesão. Poderia recuperar, podia mesmo voltar aos relvados, mas nunca mais conseguiria alcançar o mesmo nível, que tivera até aí. Consciente disso, depois da recuperação, Gil decidiu abandonar o futebol. Queria que, quando se lembrassem dele, se recordassem do extraordinário jogador que fora, e não acabar a carreira arrastando-se pelos relvados, em exibições medíocres como já vira acontecer com outros atletas. 
Sara não aceitou bem a sua decisão. Ela gostava da sensação de se sentir invejada, quando aparecia em público, e era fotografada para tudo quanto era revista, como a mulher do famoso Gil Gaspar, e receava que depois do seu abandono, a vida já não tivesse o mesmo brilho que até aí.  Ele, porém, estava decidido e nada nem ninguém o podia demover. Felizmente estava a poucos meses de terminar o contrato, e, ainda em tratamento de recuperação, informou o seu agente que se ia retirar logo que terminasse o contrato.
Com o futuro não se preocupava, pois acumulara uma boa fortuna, não só como jogador, mas também dando a cara em campanhas publicitárias que lhe renderam muito dinheiro.



14.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE I





O homem tinha entre as suas, uma mão feminina e olhava sem ver, toda a parafernália de aparelhos que mantinham a mulher artificialmente viva.
Pousou com cuidado a mão em cima da cama e com movimentos lentos levantou-se. Esticou o seu comprido corpo, passou um lenço pela testa, onde se viam algumas gotas de suor, dobrou-se e passou dois dedos pela face exangue, da mulher, numa carícia que sabia ela não sentiria. Depois lentamente dirigiu-se à porta e saiu. Era um homem alto de ombros largos, que, no entanto, se encontravam naquele momento meio curvados como se a dor que carregava fosse demasiado grande. Tinha trinta e quatro anos, era moreno, de cabelos e olhos negros, a testa alta, o nariz reto, a boca bem desenhada, e um queixo forte. Um homem muito atraente, que apesar da sua grande tristeza,  fazia virar a cabeça às enfermeiras, sempre que ele passava no corredor a caminho do quarto onde jazia a sua esposa. E passava diariamente bastante tempo no hospital, desde que há três semanas, ela, a sua mulher, fora baleada, num assalto para lhe roubarem o carro, quando se dirigia a um centro comercial.
Grávida de vinte e sete semanas, Sara não resistira aos ferimentos e morrera poucos minutos depois, de ter entrado no hospital, mas dado que a criança estava bem, os médicos decidiram mantê-la artificialmente viva, o máximo de tempo possível, a fim de conseguir que a criança se pudesse desenvolver, até poder ser retirada do ventre materno, com boas hipóteses de sobrevivência.
Era uma situação extremamente dolorosa, todavia ele estava esperançado em que a criança se salvasse. Além dele, Sara não tinha mais familiares que o seu pai, a viver há duas décadas em França, para onde emigrara e onde acabara por voltar a casar e formar uma nova família.
Apesar de os médicos dizerem que não havia a mínima hipótese de ela perceber a sua presença, ele não deixava de estar junto dela todo o tempo que lhe permitiam. Não o fazia por amor. Na verdade, o seu casamento como tal, deixara de existir há bastante tempo, quando ele se apercebera de como a mulher era frívola e egoísta. Estava até decidido a pedir o divórcio, quando ela ficara grávida, e a criança fizera com que se dispusesse a dar mais uma hipótese à relação.
Foi uma ironia do destino, que o bebé que ele tanto desejara nos primeiros anos de casados, e que Sara sempre recusara ter, para não perder a linha e ficar, como costumava dizer, “gorda como um elefante” viesse a surgir exatamente quando ele tinha pensado seriamente em pôr um ponto final no casamento. 
Apesar disso, nunca desejou um fim tão trágico para a sua mulher, e o seu coração enchia-se de compaixão por ela.

Continua

Amigos o meu olho direito está melhor Graças a Deus e às gotas. O esquerdo está na mesma, nem é de esperar outra coisa enquanto o transplante não for feito. Entretanto já fiz todos os exames que me pediram embora do último, feito na Sexta-feira, só vá buscar o resultado dia 22.
E este é o primeiro capítulo da nova história, que ainda nem chegou a meio. De modo que contrariamente ao costume esta história, sairá apenas três vezes por semana. Espero que compreendam  a minha situação.