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9.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE III


Uma hora depois, ainda Anabela rolava na cama sem conseguir adormecer, a cabeça cheia de tristes pensamentos.  Os dias de férias estavam a terminar, em breve teria de retornar ao trabalho, enfrentar os olhares de compaixão das colegas. E não sabia se teria coragem para isso. Pensou que o melhor que poderia fazer seria apresentar a demissão e procurar um novo emprego, onde ninguém a conhecesse e não tivesse de suportar os olhares de pena das colegas. Porém conseguir um emprego com rapidez não era fácil e as suas economias não davam para se aguentar por muito tempo.

Tirando a pequenita Patrícia, sua afilhada e os pais da menina, Anabela não tinha ninguém a quem pedir aconchego. Nunca conhecera o homem que lhe dera o ser, pois este abandonara a mãe, antes mesmo dela nascer. A mãe tinha uma enorme sede de carinho, uma ânsia de ter a sua casa, a sua família. 

Isso levara a que durante os seus primeiros anos de vida, Anabela conhecesse uma série de namorados, que a sua mãe arranjava sempre sonhando que aquele é que ia assumir uma relação séria e pôr-lhe no dedo uma aliança.  Mas isso nunca acontecia, os homens conheciam-lhe a fragilidade, aproveitavam-se dela e logo a abandonavam.

Quando a mãe deixou de acreditar na vida com que sempre sonhara, caiu em depressão e foi-se desligando da vida sem se importar com a filha. Anabela tinha onze anos quando a mãe morrera e se vira sozinha no mundo.

Quando no dia seguinte ao funeral da mãe o senhorio se apresentou na humilde residência e a pôs na rua, afirmando que a renda já estava atrasada dois meses, e ele não era seu pai para ter obrigação de lhe dar casa, Anabela pensou que só lhe restava o orfanato onde a mãe fora criada.

Salvou-a de tal destino, dona Arminda, uma vizinha, ex-professora reformada, que a acolhera em sua casa, e se responsabilizara por ela.

Apesar da avançada idade, a senhora que era viúva de um militar e não tivera filhos, tinha tratado a garota como se de uma avó amorosa se tratasse. Com ela Anabela viveu os sete melhores anos da sua vida, embora no último ano, ela se vira numa correria entre a escola onde terminava o secundário, e a casa onde a mulher que amava definhava vítima de cancro.

A “avó” Arminda faleceu no dia seguinte a Anabela ter completado os dezoito anos, como se a velha senhora tivesse esperado a sua maioridade para que ela não enfrentasse dificuldades. E mais, deixou-lhe em testamento tudo o que tinha, algum dinheiro, e a sua casa que embora antiga era grande e estava bem conservada, bem como o terreno que se estendia desde as traseiras da casa até à margem do rio.

Depois do funeral pôs o imóvel e o terreno à venda, na única agência da terra, pois desejava partir para a capital, onde pensava ter muito mais hipóteses de conseguir emprego.


8.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XV




Depois daquela tarde era frequente encontrar os dois jovens juntos. Primeiro como dois amigos, depois como namorados, passeavam-se pela beira do rio, olhos nos olhos, dedos entrelaçados, sempre na companhia do pequeno Pedro.
Naquela tarde recebeu um telegrama da mãe, dizendo que como a sua irmã tivera de regressar a casa, ela resolvera ir também, e estava agora na casa da tia Rosa em Santarém.
  Pedro sentia-se perfeitamente. Nunca mais se sentira cansado, tinha perdido a palidez com que chegara, dormia bem e até engordara um pouco. Recordando a sua doença, e o que o médico lhe dissera, ele não se atrevia a fazer promessas a Rita. Às vezes lembrava-se de ter ouvido a mãe falar nas "melhoras da morte". Melhoras que muitos doentes terminais experimentam pouco antes de morrer. E angustiado, perguntava-se se era isso que lhe estava a acontecer. Os dias sucediam-se, e nada de novo acontecia. Uma tarde Rita disse-lhe:
- Estamos a acabar as férias. A mãe acabou a segunda série de tratamentos. Só pode fazer mais para o ano.
Naquele momento, Pedro decidiu que tinha de regressar. Precisava ir ao médico. Talvez fazer outros exames. Tinham-se passado quase três meses, e a verdade é que se sentia melhor que nunca, mas não se atrevia a contar a Rita o que se passava, nem se permitia fazer projectos para o futuro. Ela estranhou o seu silêncio. E quando nessa tarde compareceu no jardim não encontrou a jovem. Apenas a D. Célia e o pequeno. A senhora olhou-o com reprovação, quando a cumprimentou, e o pequeno soltou a língua.
- Zangaste-te com a minha irmã?
 – Não. Porquê?
 – Porque ela não quis almoçar e foi para o quarto chorar...
Sentiu-se um canalha, por ter feito chorar a jovem. Mas consolava-o o facto de que se ela soubesse a verdade ia sofrer muito mais. Despediu-se da senhora, fez uma festa na cabeça do pequeno e regressou a casa da tia. Aí chegado, foi directo ao quarto, abriu o guarda-fatos e colocando a mala em cima da cama, começou a meter nela as roupas de qualquer maneira.
Logo de seguida batiam à porta do quarto.
- Entre.
A figura da tia perfilou-se no umbral, seguida da fiel empregada.
- Vais-te embora filho? Aconteceu alguma coisa grave com a tua mãe?

11.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE XIII


foto do google


No início de 2007 o pai partiu. Morreu serenamente enquanto dormia.
Depois do funeral Isabel pôs à venda a casa dos pais e foi viver para um pequeno apartamento junto do escritório. Talvez para compensar a sua solidão embrenhou-se ainda mais no trabalho.
Claro que muitas vezes se sentia sozinha. Por vezes ao olhar os casais de namorados que se cruzavam com ela na rua, sentia uma certa nostalgia, e até porque não um pouco de inveja.
Ela queria ter um homem a seu lado, a quem que amasse, e que a fizesse sentir-se  amada. Que, como um rio, penetrasse nos recônditos da sua alma sequiosa, transformando a aridez da sua vida, num oceano de novas sensações e emoções.
Era normal. Afinal era uma mulher na plenitude da vida, a quem já fora dada a conhecer uma vida de amor e paixão. Não era freira, e em todos os anos passados, teve alguns relacionamentos. Breves, sem mais intimidade que a troca de alguns beijos, pois sempre que a situação parecia caminhar para algo mais sério Isabel retraía-se e ponto final.
“Por esse andar, um dia vais acordar velha e sozinha” costumava dizer-lhe Amélia sua assistente, amiga e confidente,  sempre a seu lado desde o primeiro trabalho.
Aquele era um cenário, que não lhe agradava nada. Mas que fazer, se ela ainda não esquecera Fernando? Ela nunca conseguiria partilhar a sua vida com um homem a pensar noutro. Nem acreditava que uma união assim fosse feliz, para qualquer dos dois.  
Veio-lhe à memória a imagem do marido, mas pela primeira vez em muitos anos, era uma imagem esbatida, como que envolta em neblina.
Deu mais uma volta na cama, ajeitou a almofada e finalmente adormeceu.
Acordou tarde e com a cabeça pesada. O sono fora povoado de sonhos. Sonhos esquisitos, em que via um homem com o rosto encoberto, envolto em neblina. Ela sabia que o homem era Fernando era o seu corpo, o seu jeito, mas quando o rosto se tornava visível era um desconhecido com uns profundos olhos cinzentos. Depois o rosto ia-se esfumando e ficava de novo encoberto e ela voltava a ter a certeza de que era Fernando, mas então a neblina desaparecia e ela via uma figura masculina com um pé em cima de uma muralha, o corpo inclinado para a frente e o rosto voltado para o lado contrário. Era o mesmo desconhecido? Ou era outro? Ela não sabia. Mas de uma coisa tinha certeza. Não era Fernando. Mas então o homem endireitava-se e afastava-se e embora ela não lhe visse o rosto, sabia que era o falecido marido.


Nota: Este conto, vai ser interrompido NO DIA 15, para postagens mais alusivas à época, regressando pós Ano Novo para o seu desfecho.