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14.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO- PARTE XXIV

 



- Deixa-me pelo menos levar-te a casa. Precisas de um chá ou talvez uma bebida mais forte. Toma, enxuga o rosto, - disse estendendo-lhe um lenço. De seguida pôs o carro a trabalhar e conduziu direto à casa dela. Estacionou junto à porta, e apressou-se a dar a volta ao carro para a ajudar a sair.
- Dá-me a chave. Eu abro a porta.
Procurou a chave na mala e deu-lha. Ele abriu a porta e deu-lhe passagem. Ela acendeu a luz enquanto ele fechava a porta.
- Diz-me onde é a cozinha e vai para a sala. Tenta acalmar-te e lembra-te que não tens que dizer mais nada, a não ser que o queiras fazer.
- Eu sei. Mas preciso de o fazer. A cozinha é por trás dessa porta.
Entrou na sala e sentou-se no sofá. Recostou a cabeça e cerrou os olhos. Pouco depois Nuno entrou na sala com um tabuleiro com duas chávenas de chá, que colocou em cima da mesa. Estendeu-lhe uma chávena e pegando na outra sentou-se no cadeirão em frente.
- O homem com quem meu pai me casou, já era viúvo. A primeira mulher de Álvaro suicidou-se. Dizia-se que sofria de uma depressão grave. O que não era de admirar, se, como acredito, passou pelo mesmo que eu.

Luísa falava devagar em voz baixa, quase como se estivesse esquecida do homem que estava na sua frente, e falasse consigo mesma.

- Foram quatrocentas e vinte e sete noites de terror, contadas uma a uma, como o condenado, que espera o dia da execução. Estava desesperada, só pensava em morrer. Sabes que me tentei matar? Não aguentava mais e atirei-me do carro em movimento. Penso que foi a minha atitude,  que fez com que Álvaro se descontrolasse, e perdesse o controlo do carro. 
Ele saiu da faixa em que seguia e foi embater num camião que vinha em direção contrária. Todos os dias agradeço a Deus a sua morte. Tive acompanhamento psicológico durante anos, mas continuei com medo dos homens. Isolei-me e dediquei-me unicamente aos meus alunos. Hoje foi a primeira vez que saí, e não sei porquê, não senti medo de ti, nem sequer quando me abraçaste no carro.
- Meu Deus, Luísa! Quanto sofrimento. Comparado com isso, aquilo  por que  passei não foi nada. Penso que não tens medo de mim, porque o amor que nos uniu, ainda está latente dentro de nós. Meu Deus, como eu gostava de te tomar nos meus braços, e apagar todo esse sofrimento. Mas não posso. Porque ainda há algo que precisas saber. Há dois anos, no Zimbabwe, chamaram-me para ir ver uma criança num musseque nos arredores de Harare, que estava muito mal.

 Depois de a examinar, verifiquei que ela tinha que ser operada de urgência pois corria o risco de uma peritonite. Tinha que a levar para o hospital. No Zimbabwe como em Angola existem milhares de minas terrestres espalhadas pelos campos. Nunca cheguei ao hospital com aquela criança. Fui vítima de uma mina. Perdi a perna esquerda até à parte de cima do joelho. Estive mal. Não apenas no físico, mas também psicologicamente. Não conseguia aceitar. A minha perna esquerda não existe. É uma prótese. Só os meus pais o sabem, mas nem eles nunca me viram sem roupa. É por isso que não te posso oferecer um futuro. Não sei viver com a compaixão, não suportaria ver pena nos teus olhos, quando me visses nu.




31.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XIII

 


Na sexta-feira de semana anterior à Semana Santa, Matilde acordou maldisposta e a queixar-se da barriga. Como pertencia aos escuteiros e estivera três dias acampada com o grupo, inicialmente a mãe pensou que a má disposição fosse efeito de qualquer coisa que teria comido no acampamento. Foi fazer um chá e telefonou á Rita avisando que iria mais tarde, logo que a filha se sentisse melhor. Todavia quando regressou com o chá encontrou-a a tiritar de frio, e quando lhe mediu a temperatura verificou que estava com trinta e nove graus de febre. Deu-lhe um comprimido antipirético, aconchegou-lhe a roupa e disse-lhe para dormir um pouco mais.

Uma hora depois, ouviu-a gemer. Foi ao quarto e encontrou-a toda encolhida com as mãos na barriga e a chorar. Voltou a medir a temperatura e estava com quase quarenta graus. Assustada ajudou-a a vestir-se e a sair de casa até ao carro, saindo para o hospital no limite da velocidade.

Foi atendida por uma médica que depois de um breve exame, perguntou há quanto tempo ela tinha dores de barriga, ao que Matilde respondeu que tinha começado no último dia de aulas, mas não se queixara com receio de que a mãe não a deixasse ir acampar.

- É grave doutora? – perguntou Helena.

- Parece—me uma apendicite. Vai fazer umas análises e uma ecografia, depois será observada pelo cirurgião, e dependendo da gravidade da situação poderá ter que ser operada de urgência, pois como deve saber um apêndice infetado é muito perigoso. Mas não se preocupe. Ultimamente estamos a operar por laparoscopia, não tem perigo e recupera rapidamente. Mas o principal agora é fazer os exames que eu pedi. Vou pedir a um maqueiro que a leve, ela não pode ir a caminhar. Assim que chegarem os resultados, consoante a gravidade da situação um colega lhe dirá se terá de ser ou não submetida a uma cirurgia de urgência.

- Não será a doutora?

-O meu turno está prestes a terminar, os resultados levam algum tempo a chegar. Mas fique descansada. Qualquer dos médicos da equipa é tão ou mais competente que eu.

- E posso acompanhá-la, até fazer os exames? – perguntou Helena preocupada.

-Claro que sim, mãe. E não esteja tão aflita por favor. De todos os problemas que a Matilde poderia ter, apendicite é dos mais simples.

Entretanto chegou o maqueiro, a enfermeira passou a menina da marquesa onde se encontrava deitada para a maca e os três dirigiram-se ao laboratório.

Enquanto percorriam os enormes corredores que ligavam as urgências ao laboratório, Matilde não parou de gemer e de apertar a mão da mãe. A parte racional de Helena, repetia-lhe o que a médica dissera sobre a apendicite, mas os olhos viam o sofrimento da filha e o seu coração de mãe, estava num grande desassossego.

Quase três horas mais tarde, Matilde estava na maca, com a mãe a seu lado, separada de outros doentes por cortinas de poliéster, no espaço, fora dos gabinetes de atendimento médico. Esperavam o resultado dos exames quando um médico se lhes dirigiu, e fez algumas perguntas. Ao vê-lo, Helena quase ficava em choque, pois o médico em causa era Gonçalo Bacelar. Fazendo um esforço sobre-humano, conseguiu olhá-lo e questionar o estado de saúde da filha.  Ele voltou-se e encarou-a. Tinha uma expressão estranha, e Helena teve a certeza de que ele a teria reconhecido, embora não o desse a entender.

- A Matilde está com uma apendicite aguda, vai ser operada de urgência, a enfermeira Ilda vai prepará-la para a cirurgia e levá-la para o bloco operatório, onde uma equipa médica já está à espera dela.

E voltando—se para a menina, disse:

- Vai correr tudo bem, não te preocupes, nem fiques com medo. Dormes um bocadinho e quando acordares já passou, vais ver que não custa nada. E tu tens cara de ser uma menina corajosa.

Virou costas e afastou-se depois de deixar em cima da maca a papeleta com o nome e os resultados dos exames.

A enfermeira começou então a empurrar a maca dizendo:

-Venha comigo, mãe. Vou prepará-la para ir para o bloco e terá que guardar as roupas dela.

 

 Tenho mais dois dias de tratamento intensivo e depois começo a reduzir e aos pouco vou voltar ao vosso convívio. Ainda tenho posts programados para esta semana, mas espero estar de volta antes do fim de semana. Estou-vos muito  grata pelo vosso carinho e compreensão. 

27.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE IX


Nessa noite, pegou no último livro de Tomás Reis, "Sonho ao luar," e releu algumas páginas.
Estava quase convencida que tinha descoberto o pseudónimo de Hélder Figueiredo.
Pesquisou o autor, na Internet, mas a única coisa que encontrou, foi o nome dos vários livros, publicados e o nome da editora. Nem uma fotografia, nem a idade, nada que o identificasse. Era muito estranho.

Apesar de ter adormecido tarde, acordou cedo. Tomou banho, vestiu -se e foi para a cozinha preparar o pequeno-almoço. Preocupou-se por não encontrar a avó, que sempre se levantava cedo, e foi ao quarto, onde também a não encontrou. Começava a ficar assustada quando a porta se abriu e a avó entrou com o missal na mão. Tinha ido à missa das sete. Era o dia do aniversário da morte do marido.

Isabel, acabou de fazer as torradas, aqueceu o leite para a avó, e fez um sumo de laranja para ela.
Acabada a refeição deu um beijo na idosa, e saiu apressada, pois faltavam apenas trinta minutos para as nove horas.
Encontrou Hélder com outro homem que lhe apresentou como sendo o seu advogado. Ele estendeu-lhe o contrato que ela leu e assinou. Depois despediu-se e partiu.

- Continuo com o trabalho de ontem? – perguntou quando ficaram sós
- Sim. Preciso desses capítulos acabados. Vou à cidade. Precisa alguma coisa?
- Há pouco papel para impressão.
- Mais alguma coisa?
- Penso que não.

Ele saiu, enquanto ela ligava o computador, a impressora e o gravador, iniciando assim o seu dia de trabalho.
Às onze horas, Antónia, apareceu com um chá e biscoitos.
Porém ela estava demasiado entusiasmada, com o livro, pelo que bebeu apenas o chá e continuou o trabalho.
Quando acabou de imprimir a última folha, desligou o gravador, organizou as folhas imprimidas, furou-as e arquivou-as numa pasta.

Olhou o relógio. Hora de almoço. Desligou o computador. Hélder, ainda não tinha voltado, não podia esperar, ele podia decidir almoçar na cidade 

                                                    

24.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Mas tem que haver alguém, que ficou com  esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe por quem, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu? Foi dele a ideia de me espiares?
- Não! Ele nem sequer sabe que deixei o meu emprego anterior, e que sou agora a sua secretária. E ele não desconfia de ninguém em particular. Fui eu que desconfiei do senhor, quando soube que tinha comprado a parte do seu sócio, pouco tempo depois, e era agora o único dono da empresa.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim - concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar seriamente em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, na segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. Quase quatro anos a lutar contra aquela dor. Anos em que se deitava e se levantava a pensar em como estaria o pai. No dia seguinte era dia de o visitar. Esperava duas semanas por aquele dia  e quando ele se aproximava ficava à beira de um ataque de nervos, por não saber como ia encontrá-lo. Era deprimente e desanimador. E o pior, era ter que fingir que estava tudo bem para que o pai não ficasse ainda mais abatido.
 Por outro lado, ter sido descoberta era como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser apanhada, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar, que só não era total, pela preocupação constante com o pai.
Mas agora tinha outra preocupação. E se Gabriel a despedisse? Atualmente havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de lhe ter dito que desconfiava dele e andara a vasculhar no seu escritório – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou um pouco  sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.



3.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXIV



O doutor Fonseca voltou meia hora depois com a medicação. Um anti-inflamatório para fazer de oito em oito horas, um anti alérgico, para fazer uma vez à noite e um antitússico, já que o doente apresentava um princípio de tosse seca, irritativa. Também uma embalagem de Paracetamol, para lhe dar no intervalo do anti-inflamatório.
- Bom isto é tudo por agora e se não for nada mais do que uma gripe, amanhã ele deverá estar melhor. E não se esqueça de fazer com que beba muitos líquidos, de preferência chá, por ser uma bebida quente. Mas por favor, esteja atenta, se ele começar a vomitar ou apresentar qualquer outro sintoma diferente, telefone imediatamente para a ambulância; a ferida no rosto parece  indicar que ele bateu com a cabeça e não podemos nem devemos descartar a hipótese de um traumatismo craniano. A Luísa  tem noção de que estou a arriscar a minha carreira ao não enviá-lo para o hospital, não tem? Confio em si, por favor não nos meta em trabalhos.
- Fique descansado, doutor. Vou estar atenta e ao menor sinal de perigo, chamarei a ambulância.
O médico despediu-se e saiu, quando o dia já dava lugar à noite e esta se apresentava serena mas escura, como escuras são as noites sem lua.
Luísa  acendeu a luz do alpendre e foi à horta apanhar umas folhas de erva-príncipe. Foi para a cozinha e pôs uma cafeteira com água ao lume para fazer o chá. Cortou duas rodelas de gengibre para misturar à erva-príncipe, pois em tempos lera num livro que a mistura daqueles dois ingredientes era ótima pois que um era analgésico e anti bacteriano e o outro termogénico e relaxante. Além disso, ela fizera aquela mistura quando o irmão tivera gripe e constatara os seus efeitos benéficos.
Com o chá pronto, encheu uma chávena, pôs umas bolachas num pires e meteu tudo num tabuleiro junto com o anti-inflamatório que o médico trouxera e dirigiu-se ao quarto onde o desconhecido continuava agitado e febril. Poisou o tabuleiro em cima da cómoda e aproximou-se do doente dizendo:
- Vamos lá amigo, vamos sentar, para comer alguma coisa e tomar a medicação. E não me diga que não lhe apetece porque senão chamo a ambulância e vai para o hospital.
Com algum esforço e resmungos, o desconhecido sentou-se na cama. Ela ajeitou-lhe as almofadas atrás das costas, e colocou-lhe o tabuleiro na cama. Ele bebeu um pouco de chá e pegou no comprimido, mas ela tirou-lho da mão dizendo:
- Não senhor. Primeiro vai comer umas bolachas e depois sim, toma o comprimido. Isto é um anti-inflamatório. Nunca se tomam com o estômago vazio.
O homem fez uma careta, mas acabou comendo três bolachas. Depois pegou na chávena com uma mão, estendeu a outra e pediu:
-Por favor!
Luísa deu-lhe o medicamento, esperou que ele lhe desse a chávena vazia, pôs o tabuleiro em cima da cómoda e esperou que o homem se deitasse. Arranjou-lhe a almofada e colocou a sua mão sobre a testa dele para verificar a temperatura. Ele pegou-lhe na mão, e levou-a aos lábios dizendo:
- Muito obrigado. Agora sei que é verdade. Os anjos existem mesmo.
Ela apressou-se a virar-lhe as costas para esconder a sua perturbação, e pegando no tabuleiro, saiu do quarto sem responder.


Amigos o meu pc está doente. Vai hoje para o hospital. Tenho posts programados para os próximos dez dias. Vamos ver se a cura não é demorada, porque trabalhar com o Smartphone para mim não dá. 


27.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXI


Entraram na cozinha
-Sente-se. Vou preparar umas torradas, ou prefere outra coisa? – perguntou Luísa enquanto abria o saco do pão.
- Não se incomode, não tenho fome.
Ela voltou-se e olhou-o. Tinha o rosto entre as mãos e parecia não se encontrar bem. Aproximou-se.
- Não se está a sentir bem? -perguntou
- Parece que a cabeça me vai explodir a qualquer momento.
- Se está assim, não devia ter-se levantado. Deve ter apanhado demasiado frio, ontem pode estar a ficar com gripe. Volte para a cama, eu vou preparar um chá e já lho levo. Entretanto na casa de banho há um termómetro. É melhor ver se tem febre.
Ele não respondeu. Levantou-se e saiu da cozinha.
“Devia levá-lo ao hospital. Pode estar com uma pneumonia, ou quem sabe um traumatismo. Deve ter batido com a cabeça, para ter aquela ferida no rosto. Oxalá não me esteja a meter em problemas.” - pensou Luísa enquanto preparava o chá.
Lá fora a chuva continuava a cair sem dar tréguas, embora a tempestade já não se fizesse sentir como na noite anterior. Pelo menos o vento parecia ter amainado.
Pôs o chá num tabuleiro com umas bolachas e dirigiu-se ao quarto.
A porta estava aberta e o homem estava em cima da cama, completamente vestido e a tremer de frio.
- Pôs o termómetro? – perguntou poisando o tabuleiro sobre a mesa de cabeceira.
-Ele meteu a mão dentro da camisa e retirou-o. Estendeu-lho.
- Não admira que esteja com frio, está com quase quarenta graus.  Vamos despir e meter debaixo da roupa, disse baixando-se e tirando-lhe os sapatos e as meias.
 Depois ajudou-o a sentar-se na cama e tirou-lhe o casaco que colocou nas costas da cadeira.
-Veja se consegue despir o resto, enquanto eu vou buscar um antipirético a ver se baixamos essa febre – disse saindo do quarto.
Demorou um pouco mais do que o necessário, esperando que ele se conseguisse despir sozinho. Não se sentia à vontade para ter de o despir.
Quando voltou ao quarto, as calças e a camisa estavam em cima da cama e ele estava debaixo das mantas.
- Muito bem, agora vamos beber o chá que já está quase frio e tomar estes dois comprimidos. Se até ao final da manhã não melhorar, chamo a ambulância e vai para o hospital – disse enquanto o ajudava a sentar e lhe chegava aos lábios a chávena de chá.
- Por favor, senhora, hospital não – disse agarrando-lhe o pulso com força fazendo com que quase entornasse o chá.
- Porque não? Não compreende que pode estar mal? Ter feito um traumatismo craniano, ou estar com uma pneumonia. Por muito boa vontade que tenha, não sou médica, nem enfermeira, não tenho conhecimentos para saber a gravidade do seu estado. Além disso diz que não sabe quem é não se lembra de nada. Precisa de cuidados médicos.
-Não. Isto vai passar. Não quero ir para o hospital. Por favor, prometa que não me manda para lá…
-Não posso prometer-lhe isso. Se melhorar e a febre passar tudo bem, caso contrário não quero arcar com a responsabilidade do que lhe possa acontecer – disse saindo do quarto antes que ele voltasse a protestar.



28.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XLII





Antes de ir para casa, passou pelo hospital. O quadro clínico de Tiago evoluía favoravelmente, embora continuasse inconsciente. Continuava na UTI por precaução até fazer as vinte e quatro horas e só depois se não houvesse agravamento passaria para um quarto.
- E visitas?- Perguntou
-Enquanto estiver na UTI, uma pessoa, apenas um minuto às três horas.
-Obrigado.
Voltou para casa.
Quando chegou, já encontrou Clara impecavelmente vestida na cozinha. Tinha uma chávena de chá na mão, e falava com Antónia.
- Bom dia. Devias ter descansado um pouco mais.
- Tenho que ir ao hospital.
- Deixei as crianças na escola e fui lá. Disseram-me que o estado do Tiago está a evoluir muito bem. Depois de comeres podes descansar mais um pouco, porque só poderás vê-lo às três horas e como ontem. Apenas um minuto.
Propositadamente ou não, Antónia saiu dizendo que ia colher uns legumes para o almoço.
- Queres uma chávena de chá? Ou café, - perguntou a jovem.
- Faço-te companhia com o chá, - disse ele tirando uma chávena do armário, e sentando-se.
- Obrigado, por todo o apoio que me deste – disse ela enquanto pegava no bule e despejava o chá na caneca dele. – Foste um amor não só no hospital, como aqui. Não tinha o direito de te ter pedido para ficares comigo, mas estava com medo. Fechava os olhos e via o meu irmão, lívido como um cadáver, ligado, aquelas máquinas.
- Não fiques preocupada, eu entendi perfeitamente. Acredites ou não, eu gosto muito do teu irmão. Agora sobe e vai dormir um pouco.
- Não seria capaz. Prefiro ficar por aqui, Vou fazer um bolo, preciso de me manter ocupada. Descansaste menos do que eu, porque não vais tu dormir um pouco até ao almoço. Eu vou buscar as crianças. E depois leva-mo-las à escola, e vamos ao hospital. Vais comigo, não vais?
-Claro, querida, não te deixarei sozinha até que o Tiago esteja em casa, são e salvo.
Ela levantou a mão para lhe acariciar a face. Ele segurou-a e depositou-lhe um beijo na palma, fazendo com que ela estremecesse ao mesmo tempo que o seu rosto se tornava escarlate.
- Há muito tempo que não via uma mulher enrubescida- disse sorrindo. – És maravilhosa. Bom,- acrescentou levantando-se. Vou fazer a barba. Sabes o que me disse a Soraia, quando me despedi à porta da escola? “Hoje picas, pai”- disse imitando a voz da filha.
Clara não pode evitar rir-se e ele saiu feliz por ter conseguido desanuviar o rosto feminino.
Subiu ao quarto e escanhoou o rosto. De seguida passou o after shave. Mirou-se e não se achou mal. Enquanto se olhava pensou como o amor mudava tudo. Vinte e quatro horas antes andava irritado, sem vontade de fazer nada, questionando todas as suas atitudes até ao momento. Depois daquela noite, em que descobriu que afinal o sentimento que tinha por Clara, era muito mais que desejo, a vida parecia-lhe mais colorida apesar do momento doloroso porque passavam. Agora ele acreditava num futuro feliz. Amava a mulher e sabia que ela lhe retribuía, ela mesma lho confessara. Agora o que tinha a fazer era esperar que aquela tempestade passasse e então poderiam entender-se, amar-se, e até quem sabe aumentar a família.
Ah! Se isso acontecesse, ele ia ser o homem mais feliz do mundo. Porque ia poder viver com essa criança o que não vivera com Bernardo, muito menos com Soraia. O seu nascimento, o primeiro choro, o primeiro sorriso.
“Acorda” - disse dando uma leve palmada na sua própria face. “Não é hora de te pores a sonhar”
Voltou ao quarto, vestiu a camisa e olhou o relógio. Onze e meia. “Está quase na hora de ir buscar os miúdos para o almoço “ – pensou enquanto fechava a porta e se dirigia para o piso inferior.


Gente, desde quarta-feira que ando numa roda viva, com visitas de estudo, jornadas do património cultural, hoje acabei de chegar da festa da UTIB a nossa Universidade, e amanhã tenho aulas de manhã e uma tertúlia poética à tarde.Terça-feira as coisas acalmam e espero retomar as visitas normais.As minhas desculpas.



19.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXIII





Não queria separar-se das crianças a quem ganhara amor.  Não ia abandoná-las,  agora quando tinham aprendido a amá-la. Tinha a certeza de que elas nem se lembravam se algum dia tinham tido outra mãe que não ela. Também não acreditava, que Ricardo pusesse um ponto final no contrato, pois ele anteporia a felicidade dos filhos, aos seus desejos. Mas era evidente que ele queria transformar aquele casamento, num casamento real.
 A atração sexual entre os dois era muito intensa. Ainda assim ela não estava disposta a ceder. Não sem amor.
“Porque não aceitas o que ele te propõe” - interrogava-lhe uma voz vinda algures de algum recanto da sua cabeça.
-Porque não seria meu marido, mas um amante, e não estou preparada para me prostituir – respondia a si própria
“És uma parva, - volvia-lhe aquela voz irritante. – "Quem sabe não fazes com que ele te ame mais depressa se cederes”
-Ou perca o respeito e admiração que neste momento sente por mim.
Doía-lhe a cabeça, estava cansada demais para travar uma luta com aquele outro ser, que habitava nela e lhe chamava parva.
Tomou um comprimido e recostou-se na cama fechando os olhos.
Não soube quanto tempo esteve assim, tentando não pensar em como a sua vida se tinha complicado nos últimos meses. Ela só pensara no irmão e nas crianças tão pequenas e já sem mãe. Não pensara que o charme daquele homem, a conquistasse. Como é que ela ia ter coragem de conviver com ele dia-a-dia, (se era verdade que ia deixar a vida militar e não voltava a partir) naquele ambiente de tensão? Ia ser terrível não só para eles como para as crianças. Elas percebem sempre o que se passa à sua volta. Sentia uma tal tristeza que não conseguir reprimir o choro. Chorou de raiva, de pena, de medo, de amor, Como se chorando, expulsasse da sua cabeça. e do seu coração, tudo o que a afligia. Cansada por tantas emoções e mais calma depois daquele choro libertador, acabou por adormecer.
Acordou com a suave carícia das pequenas mãos de Soraia.
- Estás doente, mãe?
- Não, meu amor. Já mostraram ao pai os pintainhos?
- Já. E já brincámos e lanchámos. E como tu não aparecias a “Tónia” disse que estava preocupada. E que se calhar não te sentias bem.
- Está tudo bem, querida. Vai dizer à Antónia que desço já, - disse dando-lhe um beijo.
A menina saiu e ela saltou da cama e dirigiu-se à casa de banho. Olhou-se no espelho e assustou-se com o seu aspeto. Tinha os olhos vermelhos e inchados.
Lavou várias vezes o rosto com água fria, tentando disfarçar as evidências do choro e depois mudou de roupa já que o facto de ter adormecido vestida, fazia com que a roupa se encontrasse por demais enrugada.
Dirigiu-se à cozinha. Procurou no armário um pacote de chá de tília e pôs a cafeteira com água ao lume.
Sentia os olhos de Antónia cravados nela, mas a empregada era discreta demais para fazer alguma observação. Sentiu necessidade de dizer alguma coisa que a sossegasse.
- Sei que não tenho muito bom aspeto, mas estava com uma terrível enxaqueca. Tomei um comprimido e acabei dormindo. Graças a Deus já passou.
-Calculei que alguma coisa tinha acontecido. Em todos estes meses nunca deixou de assistir ao lanche dos meninos. 
-E por falar neles…
-Estão na biblioteca com o pai. Aqueles três adoram-se. Durante o lanche falou-se em presentes, já não me lembro a que propósito. O senhor disse que não lhes trouxe nada, o país onde estava era muito pobre, a única coisa que por lá há muito, são especiarias. E sabe o que lhe responderam?
- Não.
-Que a única prenda que queriam, era que nunca mais se fosse embora.
Clara sentiu que as lágrimas afloravam de novo aos seus olhos.


Esta história volta Segunda-feira. Para todos um bom fim de semana

17.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXV





Duas horas mais tarde, Odete vestindo um conjunto de seda azul celeste, composto por calças e top, desceu do quarto de hóspedes, que ocupava desde que voltara na véspera, e encontrou o marido na cozinha, comendo uma sandes de presunto e bebendo cerveja.
- Que queres lanchar? – Perguntou levantando-se
- Nada. Não me apetece comer.
- Não podes estar muitas horas sem comer. Não ajudas em nada a tua mãe se ficares doente. 
- Eu sei. Como alguma coisa lá em casa se sentir fome.
- Então senta-te enquanto acabo de comer. Quero falar contigo antes de sairmos.
Sentou-se e aguardou.
-Estive ao telefone com o meu amigo e já está tudo tratado.
Amanhã às onze horas, vais com a tua mãe ao hospital S. Francisco, e pedes para falar com o Dr. Rui Teixeira. Dizes que vais da minha parte, ele já estará à vossa espera, para assinar os documentos de internamento. A tua mãe será operada, dentro de oito dias, mas terá que fazer vários exames, testes de anestesia, e tudo o que é necessário para acautelar possíveis problemas na cirurgia. Amanhã tenho um dia complicado no hospital, não posso acompanhar-vos, mas posso garantir-te que ela vai estar bem entregue, o Rui é do melhor que temos no país como cirurgião cardiovascular. E eu próprio o assistirei no dia da cirurgia, já combinámos.
Reparou no seu rosto preocupado.
- Não fiques assim. Vai correr tudo bem, verás. Queres um chá?
- Por favor, - respondeu quase sem voz.
Ele ligou a chaleira elétrica, pôs a garrafa de cerveja, vazia, no recetáculo de reciclagem, ligou a máquina do café, introduziu-lhe uma cápsula e tirou um café que encheu a cozinha de um aroma delicioso.
Depois de o beber, abriu o armário, procurou entre os vários pacotes de chá acabando por tirar um pacotinho de camomila que pôs na chávena despejando-lhe em cima a água que acabara de ferver.
- Açúcar, ou mel? Perguntou pondo a chávena na sua frente.
-Bebo simples. Obrigado.
- Come pelo menos duas ou três bolachas, - disse colocando o pote na sua frente. – Tens que te manter o mais serena possível. Sei que é difícil, mas tens de perceber que a tua mãe já está nervosa, e com medo, porque toda a gente teme a sala de operações mesmo que seja uma coisa muito simples, quanto mais quando mexe com o coração. Quanto mais serenos estiverem, tu e o teu pai, mais confiante, ela ficará. Os teus irmãos já sabem o que se passa?
- A minha irmã, ligou-me esta manhã, e com os meus irmãos falei ontem. Só o meu pai não sabe. Tive receio que ficasse desorientado e tivesse algum acidente.
- Está bem. Eu falo com ele quando chegar. Vai lavar a cara, para que a tua mãe não veja que choraste.
-Obrigado. Não sei como te agradecer. Tenho tanto medo que alguma coisa corra mal. Não estou preparada para perder a minha mãe.
- Não penses nisso, vai correr tudo bem, - disse passando-lhe a mão pelo rosto numa suave carícia  que ela não rejeitou

10.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXIII






E telefonou. Anete contou-lhe que as suas suspeitas estavam certas. Os pais tinham-lhe contado toda a história. E convidavam-no para almoçar com eles. Mas Salvador rejeitou o convite, reforçando o que já lhe dissera, quando a deixara à porta. Aquele era um tempo de descoberta, que ela devia passar só com os pais. Mais tarde, quando a poeira assentasse, não faltaria nem tempo nem oportunidade de se reunirem todos como uma grande família que eram. Combinaram que iria buscá-la às quatro. E desligou.
Digerida que foi a tensão da difícil revelação, os pais quiseram saber tudo sobre a sua nova vida na cidade.
Um pouco antes das quatro, Salvador chegou. A jovem pediu-lhe que entrasse para lhe apresentar os pais e a simpatia foi mútua.
Depois de beberem um chá, acompanhado por uma deliciosa fatia de bolo de chocolate, os jovens despediram-se e iniciaram a viagem de regresso.
- Estás feliz? Não te sentes magoada por te terem ocultado as tuas origens? – Perguntou Salvador, atento à condução do veículo.
-Não. Se tivesse sabido mais cedo, talvez tentasse encontrar a Ana Clara. Ou talvez não o fizesse para não magoar os meus pais. Tive uma vida muito feliz ao lado deles. Sempre me senti muito amada, e se alguma diferença houve em relação aos meus irmãos, foi que sempre fui mais mimada e protegida que eles. Talvez por ser menina. Mas agora sinto-me muito feliz por ter ganho uma nova família. Especialmente por ter uma irmã, com quem partilhar sentimentos e alegrias, que não se partilham com um irmão. E adorei os meus novos sobrinhos.
- Os meus sobrinhos são encantadores, não são?
- Os nossos sobrinhos, - emendou Anete e imediatamente se ruborizou imaginando como seria, se em vez de sobrinhos, fossem filhos dos dois.
Os olhos cor de mel, fixaram-se nela e um sorriso enigmático curvou os seus lábios.
“Será que ele pensou no mesmo” pensou a jovem desviando o olhar.
- Porque te divorciaste? – Perguntou de súbito.
- Já falámos nisso.
- E não te interessaste por mais ninguém?
- Por que queres saber?
 - Agora somos quase família, não? Sou cunhado da tua irmã…
- E eu sou cunhada do teu irmão. E onde é que isso nos leva? A um parentesco por aproximação? Isso não existe. E já tenho protetores de sobra, com os meus irmãos. Não preciso de mais ninguém para me dizer o que fazer, ou como fazer. O que preciso é que me deixem viver em paz.
- Vou tentar lembrar-me disso. Estamos a chegar. Antes de sairmos telefonei ao meu irmão. Eles estão à nossa espera, ansiosos por saber o que os teus pais te contaram. Convidaram-nos para jantar. Precisas passar por casa, ou vamos diretos para casa deles?
- Vamos já. Também estou muito ansiosa. E não quero regressar tarde. Vou começar a trabalhar amanhã, não quero dormir tarde.

Aviso:
A partir de hoje, os capítulos desta história, deixarão de ser bi-diários e passarão a ser apenas uma vez por dia. Espero que não percam o interesse na continuação.


13.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE X





Ela olhou-o muito séria.
- Eu acredito. Mas tem que haver alguém, com acesso a esse dinheiro. Porque o meu pai não foi.
- Sabes que a polícia descobriu que a contabilidade da firma foi adulterada, não sabes?
- Sei. O meu pai, diz que não sabe quem o fez, mas acredita que quem o fez, foi a mesma pessoa que ficou com o dinheiro.
- E o teu pai, não desconfia de ninguém? Ou também está convencido que fui eu?
- Não. Ele não desconfia de ninguém. Fui eu que pensei, porque o senhor comprou a parte do seu sócio, pouco tempo depois.
-Parece que tenho que te agradecer a boa imagem que tens de mim- concluiu   sarcástico. Depois de uns momentos de silêncio acrescentou: 
-Bom, Sandra, deves estar muito cansada. Faz um chá e tenta dormir. Preciso pensar em tudo o que aconteceu hoje. Se não for antes, segunda-feira, conversamos.
Dirigiu-se à porta e disse ao ver que ela o seguia. 
-Não é preciso. Sei o caminho.
Saiu fechando a porta atrás de si.
Sandra, foi até à cozinha, acendeu o fogão e pôs a chaleira com água ao lume para o chá. Sentia-se arrasada. No dia seguinte era dia de visita ao pai. Estava sempre à espera do dia da visita e quando ele se aproximava ficava nervosa por não saber como ia encontrá-lo. Sentia-se impotente para o ajudar. Por outro lado, sentia como se lhe tivessem tirado um peso de cima. Não ter que fingir ser outra pessoa, não viver sempre no medo de ser descoberta, dava-lhe uma sensação de liberdade e bem-estar.
Mas ainda não sabia o que ia ser da sua vida agora. E se ele a despedisse? Havia tanta dificuldade em encontrar um bom emprego. Se fosse despedida,- e nem podia recriminá-lo se o fizesse, depois de ter dito que desconfiava dele e o espiara – como ia pagar as suas contas?  
Bebeu o chá, depois foi à casa de banho e tomou um duche. Precisava relaxar, ou não conseguiria dormir. Ao olhar-se ao espelho reparou nas manchas violáceas que tinha nos ombros, fruto da pressão das mãos de Gabriel. Procurou no armário uma bisnaga de Trombocid, e passou sobre as manchas. Vestiu o pijama, escovou os dentes e finalmente deitou-se.
O cansaço era tanto que não tardou a adormecer.


E bom ontem ultrapassamos os 27000 comentários.   Vocês são fantásticos.
Do coração. Muito obrigada


3.7.17

ROSA - PARTE IV



                                     Foto DAQUI

No dia seguinte, o patrão mandou um gaiato, filho de um seu empregado, perguntar porque Rosa não tinha ido buscar o rebanho. Na velha cama de ferro, sobre o colchão de palha de centeio, a jovem ardia em febre. Esteve assim três dias. Durante todo esse tempo a velha avó não saiu de casa sempre atenta à neta. Matou a única galinha que tinha, para lhe fazer um caldinho, e obrigou-a a beber litros de chá, misturando várias ervas que combatiam a febre e cuja composição aprendera com a sua avó que era pessoa muito entendida, em chás, espinhela caída, quebranto e outras coisas mais. No fim do terceiro dia, enfim a febre cedeu. Mas ainda esteve mais dois dias, prostrada na cama sem força nem vontade de se levantar. Parecia impossível que tivessem passado apenas cinco dias desde aquele dia. Bastante mais magra, as faces sem cor, os olhos sem brilho, ninguém reconheceria nela a rapariga alegre que fora até uma semana atrás. Nunca contou à avó o que lhe aconteceu. Não tinha sido necessário e ela morreria de vergonha, se tivesse de o dizer a alguém.  Só respondera com um seco não, quando a avó lhe perguntou se tinha sido alguém da aldeia. Depois a Avó disse:
- Deus queira que não tenhas ficado "prenha".
Sentiu-se apavorada. Não podia ser. Ela não queria ser mãe assim.
- Deus não o permitirá – murmurou. E logo mais resoluta: - Não saio mais com o rebanho. Nunca mais vou para o monte. Nunca mais. Será que a Ti‟Zefa, não precisa de ajuda lá para a casa grande? Ela já está tão velhinha…
- Descansa filha. Amanhã falo com ela. Tenho a certeza que se ela pedir ao patrão uma ajuda, ele te contrata. Se não logo se verá.
Mas não chegou a falar. O seu velho coração cansado de muitos anos de labuta parou nessa mesma noite.
No funeral, esteve a aldeia inteira e só nessa altura, Rosa teve a noção exacta do quanto a sua avó era estimada pelo resto da aldeia.
Depois do funeral, Rosa deu uma volta pela casa, juntou os poucos pertences e guardou os brincos antigos de ouro, único bem que a avó possuía. Guardou num cesto de vime as suas roupas, que a bem da verdade era bem pouca coisa, e tudo o resto deu a uma vizinha. Depois, entregou as chaves ao Sr. António, que era o dono da casa, e preparou-se para seguir até S. Pedro, onde pensava vender os brincos e comprar um bilhete de comboio para a capital.
Antes disso, porém, despediu-se da Ti’Zefa que fez questão de lhe arranjar uma merenda para o caminho, porque “precisas de comer, rapariga ou, não tarda, juntas-te à tua avó”




26.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLVIII




Foto do google

Tinham-se conhecido, muitos anos atrás. Miguel tinha dezanove anos, era estudante. Olga, quarenta e era uma mulher  muito bela, alegre, que vivia dos favores que o seu corpo proporcionava aos homens. Ganhara fama a sua beleza, e era procurada pelos homens mais ricos da cidade. Mas também por jovens estudantes, que gastavam no seu leito, a maior fatia das suas mesadas. Miguel fora um desses estudantes.
Era muito novo, quase um rapazinho. Ele apaixonou-se pela bela mulher, que lhe ensinava todos os prazeres do sexo, despertando-lhe, sentidos e emoções, nunca antes experimentados.
Ela gostou do rapaz que a tratava com cuidado e carinho, fazendo-a esquecer-se da realidade da sua vida, para se sentir apenas uma mulher amada. Foi tão intenso, que Miguel, um sonhador com alma de poeta, como ela costumava dizer, chegou a pedir-lhe para ficarem juntos, mesmo que para isso  tivesse de abandonar os estudos, e ir trabalhar para a sustentar. Ela não se iludia. Sabia que mais dia, menos dia, Miguel ia encontrar alguém,da sua idade, e nunca mais punha os pés na sua casa.
E isso aconteceu, uns tempos depois, quando Miguel se apaixonou por uma colega na universidade. Lembrar-se-ia sempre, da tarde em que chegou com o ar mais sério do mundo, e lhe contou, pedindo-lhe desculpa, por ter traído o seu amor.
Para ela não foi nenhum drama. Nunca tivera ilusões. E aquilo, era o rumo natural da vida.
Pensou que nunca mais ia aparecer. Seria o que faria qualquer outro no seu lugar. Mas Miguel não era qualquer um. Era um ser especial como ela não conhecera outro na sua vida.
Apesar de nunca mais, se ter deitado  na sua cama, de vez em quando,  Miguel aparecia por lá. De manhã, sabendo que estava sempre sozinha nessa altura.
Conversavam um pouco, bebiam um chá e ia-se embora antes da hora  do almoço. E foi assim ao longo dos anos, antes e depois, dela ter largado a 
"vida", e se ter tornado uma simples e idosa dona de casa.
 Às vezes não aparecia durante um ano ou mais. Mas quando alguma coisa o incomodava, era com ela que ia desabafar. Como quando os pais morreram. Como agora.
- Não te atormentes. A história é totalmente diferente. Desde logo, porque uma mulher de vinte anos é muito mais madura, do que tu eras nessa idade. Não confunde sentimentos, sabe muito bem o que quer. Depois, nem tu nem eu nos amávamos, embora na altura pudesses ter pensado que sim. Tu ficaste deslumbrado, pela mulher mais velha, que te despertava os sentidos. Eu, gostava do  rapazito, que me tratava como se eu fosse uma rainha. Nada mais. 
Entre nós, nunca houve amor, Miguel. Atracção física, troca de experiências, um pouco de carinho, talvez. Mas, amor não. Nenhum de nós traiu o outro, porque não há traição, onde não há amor.
Anda, vai para casa. Escuta o teu coração. E se realmente, amas a rapariga, aproveita a oportunidade que a vida te dá e sê feliz. O tempo passa rápido, e quando damos conta, a vida está no ocaso como o sol no fim do dia.
Miguel não queria ir para casa, Não naquela noite. A tensão, a que obrigara o corpo, deixara-o de rastos. Estava muito cansado, sentia-se sem forças, não queria tonar uma decisão que ia mudar a sua vida naquele momento. Podia vir a arrepender-se.
Posso, ficar aqui, esta noite?
- Claro que sim. Vou buscar um cobertor que a noite está fria.
Quando voltou, já Miguel dormia estendido no sofá. Tirou-lhe os sapatos, estendeu sobre ele o cobertor, apagou a luz e retirou-se em seguida.