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24.11.21

A CORAGEM DE DIZER: BASTA!




A mulher que caminhava pela praia naquele entardecer, era muito bonita, mas trazia nos olhos uma tristeza, que parecia impossível de esconder. Ali perto, duas crianças brincavam na areia, enquanto a mãe sacudia a toalha e a metia no saco, dando por findo aquele dia de praia.

Ela porém, nem se apercebia do que se passava à sua volta. Parecia perdida num outro mar, que não aquele que suavemente lhe beijava os pés. Um mar  de recordações.

Fora num fim de tarde assim, que conhecera Eduardo. 

Ela caminhava pelo parque da cidade, olhando embevecida as crianças que brincavam no escorrega, fazendo grande algazarra. As flores, impregnavam o ar com um intenso, mas agradável aroma.

 Rita, ia tão absorta, que não viu aquela raiz, na qual foi tropeçar, saindo projetada para...os braços dele. Sim porque fora ele. que por ali passava e a segurara, quando se apercebeu que ela ia cair. 

Rita sentiu o olhar intenso e trocista do homem, e sentiu-se envergonhada, mas coisa esquisita, sentiu uma estranha sensação de felicidade. Agradeceu sentindo-se corar sob o olhar masculino. 

Eduardo pelo contrário parecia divertido com a sua atrapalhação. E depois de algumas palavras que ela quase não escutou, combinaram encontrar-se no dia seguinte. Naquela noite, o sono tardou para Rita.

 Ela não conseguia esquecer o desconhecido do parque. E só nessa altura se deu conta que tinha esquecido de perguntar o seu nome. Que faria ele no parque? Passaria ali por um acaso, e a vida teria caprichado naquele tropeço, para que se conhecessem? E se assim era qual iria ser o seu papel na vida dela? Era bonito, pensava ela. E dava voltas na cama, ansiando pelo nascimento do novo dia.

 Pobre Rita! Se ela soubesse o quanto ia sofrer por aquele homem, teria sufocado a sua lembrança, e nunca teria voltado ao parque, para o encontro. Mas ela era muito jovem, tinha a cabeça cheia de sonhos românticos, e ansiava pelo amor.

No início Eduardo parecia ser o homem dos seus sonhos. E o que começou com uma amizade, não tardou em transformar-se numa intensa paixão. Ela vivia cada beijo, cada instante, sentindo-se a mulher mais feliz e mais amada da terra.

Casaram num dia de sol em pleno mês de Maio. Eduardo não quis casar na igreja, e isso foi uma pequena nuvem a ensombrar a felicidade de Rita, cuja fé lhe pedia a bênção no altar. Porém em breve essa contrariedade deixou de ter significado, ultrapassada por outras bem maiores.

Três dias, durou  a lua de mel. 

Três dias como o Carnaval. Carnaval! Estranha associação, pensava enquanto continuava caminhando pela praia solitária.
Mas a verdade é que ao fim de três dias, a ternura dera lugar à prepotência, os beijos, às palavras duras, e sarcásticas. Menos de um mês depois, começaram as ameaças. Começou a pensar, que o homem com quem se casara, era um desconhecido, que usara uma máscara, pela qual ela se apaixonara. Como fora possível iludir-se assim?
 
Nunca mais saíram juntos. Ele saía depois do jantar e voltava tarde da noite, algumas vezes dormia fora, e chegava a casa a cheirar a perfume barato.  

Mas apesar da sua juventude, Rita era uma mulher de coragem e substituído o amor pela desilusão, decidiu pôr um ponto final no casamento.  
E naquela  tarde, passeava junto ao mar, a sua falsa liberdade.
Falsa sim, porque se o divórcio a libertara do casamento, não levara do seu peito, a desilusão e a dor, nem do seu cérebro a amarga recordação do que fora a sua vida durante o casamento.



12.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXIII

 


O mês de Setembro aproximava-se do fim, os bebés tinham feito sete meses há dias, estavam grandes e tão desenvolvidos que ninguém diria terem sido prematuros. Os três já se sentavam sozinhos, e interagiam tanto com os pais como com as enfermeiras e as amas.

Aproveitando o bom tempo de Verão, iam todos os dias à rua. Umas vezes com a mãe,  Sandra e uma das amas, outras com as amas e a enfermeira. E até já tinham ido alguns dias à praia, nessas alturas também com o pai, que procurava passar o máximo de tempo em casa com eles, mas que muitas vezes tinha que descer porque os negócios não se compadeciam com o abandono, e ele tinha muitos empregados, gente que dependia daquele emprego para viver.

Quando os bebés tinham cinco meses e meio, Teresa começou o desmame, sempre orientada pelas enfermeiras que continuavam lá em casa. Sandra de dia,  Rosa aos fins de semana, e Gabriela de noite. Reduzindo uma mamada de cada vez a cada quatro dias dias e tirando leite apenas três vezes por dia, compensando com o leite congelado anteriormente, de forma a que o corpo se fosse habituando a produzir consoante as novas necessidades, e evitando assim possíveis complicações como ingurgitamento, obstrução dos ductos, ou mesmo uma mastite. O processo durara quarenta e cinco dias, mas finalmente terminara na totalidade sem problemas de maior.

Pouco depois dos bebés completarem seis meses, marcara uma consulta com a doutora Laura, e conversara com ela sobre a sua vida sexual que ainda não iniciara, apesar de estar agora cada dia mais recetiva às carícias do marido. Contou-lhe que João não sabia se ainda podia ou não ser pai, devido ao tal tratamento agressivo que o fizera recorrer à clínica de PMA para guardar o seu sémen e pediu aconselhamento sobre contracetivos.

A médica disse-lhe que se estivesse no lugar dela, poria um dispositivo intrauterino, (DIU) Ela não poderia engravidar nos próximos anos e embora a eficácia da pílula fosse praticamente total, sempre podia ver o seu efeito anulado com alguns medicamentos. O DIU seria ideal, pelo que depois de um exame, ela mesma lho poderia implantar.

E fora o que acontecera.

Mas ainda não houvera uma noite de amor entre eles, apesar das carícias serem cada dia mais prazerosas, em parte porque João lhe queria proporcionar uma noite especial, fora do ambiente da casa, com as crianças amas e enfermeira.

Naquela Sexta feira, fazia um ano que após a consulta das doze semanas, os dois tinham decidido casar. João pensou que Tinha chegado a hora de iniciarem a vida conjugal, antes que ele perdesse de vez o controlo e acabasse por se esquecer da mini lua de mel que lhe queria proporcionar.

Assim falou com o irmão, que imediatamente se prontificou a falar com a mulher e a  irem ficar na sua casa a partir dessa noite e até domingo à tarde, de modo a que o casal pudesse ter um fim de semana só para eles.  Depois disso telefonou para um hotel nos arredores e marcou uma suite para recém casados,  para essa mesma noite. Marcou uma mesa para jantar num dos melhores restaurantes da cidade e foi a uma ourivesaria onde comprou um fio de ouro com um rubi em forma de coração. Só então voltou para casa.

Teresa esperava que a levasse a jantar fora nesse dia, porque na véspera tinham falado na data, mas não esperava que o marido chegasse a casa e lhe pedisse que colocasse numa mala, roupas para os dois dias que iam passar fora.

-Mas e os bebés? – perguntou.

- Não te preocupes. O David e a Helena estão a chegar, vão ficar aqui até ao nosso regresso. E as amas. E a enfermeira Gabriela de noite e a enfermeira Rosa no fim de semana. Vão estar bem cuidados e nós vamos ter um tempo só nosso. Como se tivéssemos acabado de casar agora. E se a saudade apertar, fazemos uma vídeo chamada. Vou tomar um duche. Mas antes quero dar-te uma coisa. 

Meteu a mão no bolso e entregou-lhe a caixinha que ela abriu com mãos trémulas.

- Meu Deus é tão lindo! – exclamou

- A medalha, - explicou João enquanto lho punha no pescoço– simboliza o meu coração, que é teu há muito tempo. Então, porque choras? - perguntou apertando-a contra o seu peito.

- Choro porque estou feliz, não te preocupes. Anda, vai lá tomar o teu duche, enquanto faço a mala.

 

 

11.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXI





Teresa gostou realmente do restaurante. O edifício situado na marginal, com o bar e a esplanada estendendo-se pela rocha, como que entrava no mar delimitando a fronteira entre as praias da Rainha e da Conceição. A sala de refeições era muito agradável, com largas janelas para a praia. A mesa que lhes estava reservada situava-se precisamente junto a uma dessas janelas, donde se podia observar o vai e vem das ondas, transmitindo uma sensação de calma que acabou descontraindo a jovem.

-Preferes carne ou peixe? - perguntou João enquanto consultava a carta. A especialidade aqui são os pratos à base de peixe ou marisco, mas o Bife Tártaro do Mâitre, ou o Carré de borrego assado com maçãs, também são uma delícia.

- Vou escolher o Robalo no forno à Portuguesa, pois receio que os pratos mais elaborados de carne me enjoem e te faça passar vergonha.

- Muito bem, vamos para o robalo. E entradas? Gostas de Ostras?

- Não sei, nunca comi, mas também não será hoje que vou experimentar. Além do receio de enjoar, habitualmente não como muito e se começo com as entradas receio já não comer mais nada. Mas tu, pede o que te apetecer, não tens que te preocupar comigo.

-Desculpa, mas não estou de acordo. És a convidada, portanto a pessoa mais importante nesta mesa. Se receias enjoar com a carne ou com as entradas então não as pedimos. Desejo que relaxes e saboreies a refeição.  E se possível, que te esqueças do papel, que ambos desempenhamos nesta peça, em que a vida nos meteu. Imagina que sou um amigo de longa data, que não vias há muito tempo. Será mais fácil para os ti.

Os olhos de Teresa tinham um brilho húmido, como se estivesse a reter as lágrimas. João estendeu a mão e apertou a dela. Recordou que ela lhe dissera estar sozinha na vida, e sentiu toda a sua fragilidade como se fora a sua própria. Sabia bem o que era sofrer, e não sentir o consolo de um abraço, ou simplesmente uma palavra de ânimo de pai ou mãe. Em silêncio jurou a si mesmo, que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para a proteger.

O empregado chegou, eles fizeram o pedido, e durante breves segundos mantiveram-se em silêncio observando o vai vem das ondas, cada um perdido sabe-se lá em que mundo, presos de que fantasmas. Depois Teresa levantou-se dizendo:

-Desculpa, tenho que ir à casa de banho.

E afastou-se. Mais do que uma necessidade fisiológica, própria do seu estado, Teresa queria esconder dele as lágrimas que não conseguia reter por mais tempo. Precisava dois minutos de solidão para lavar o rosto e recompor-se da emoção que aquele homem lhe provocara. Era aquele o homem, que Gonçalo e o médico do Centro Clínico, lhe descreveram como um homem duro, capaz de tudo para atingir os seus fins? A ela parecia-lhe mais o Príncipe de um conto de fadas. Enxugou o rosto e abanou a cabeça. Não! Não se deixaria iludir. Os Príncipes não existiam na vida real. O que existia eram sapos, capazes de boas representações.

Regressou à mesa no momento em que o empregado se aproximava com o pedido

 

4.6.20

ISABEL - PARTE XVII

                                             
- E depois? Não falaram? Não trocaram número de telefone? Não sabes como encontrá-lo?
Isabel abanou a cabeça e então contou o encontro do dia anterior, e de como ela fugira da estação de serviço de Palmela.
-Ó Isabel, tu estás irremediavelmente apaixonada - sentenciou Amélia.
- Estás louca! - Como posso estar apaixonada por um homem que mal conheço? De quem, nem o nome sei?
- Sempre achei que a tua fortaleza, a tua indiferença para as coisas do coração, era mais aparente que real. És uma mulher dedicada e sensível. Basta ver como cuidaste dos teus pais. Julgaste viver um grande amor…
- Não julguei. Eu vivi um grande amor – interrompeu Isabel
- Será Isabel? Eras uma menina ingénua e sonhadora que nada sabia da vida. Aos dezoito anos, não nos apaixonamos pelo homem. Enamoramos-nos do próprio amor. O homem, vem por acréscimo. E se muitas vezes é o companheiro ideal, que nos vai acompanhar pelo resto da vida, na maior parte das vezes os príncipes não passam de sapos disfarçados, que transformam os nossos sonhos em pesadelos. Culpa deles, ou nossa? Provavelmente de ambos, não sei. Consegues olhar para ti hoje, e, comparar-te à Isabel que eras nesse tempo? Claro que não. Quem nos diz, que se o Fernando não tivesse partido,  teria acompanhado a tua evolução? Ou quem sabe, não ficaria lá atrás no seu cantinho? Quem sabe se vocês, seriam hoje um casal feliz, ou se estariam divorciados? Ninguém.
Mas tu assumiste que ele era o teu grande amor e criaste à tua volta uma espécie de casulo, onde te encerraste, com a tua dor. Por causa disso afastaste todas as hipóteses de viveres um novo amor. Um amor de mulher, mais madura, que conhece a vida, os seus sonhos e as suas dores.
Isabel permanecia com os cotovelos em cima da mesa e o rosto entra as mãos. No fundo ela sabia que a amiga tinha razão. Mas custava-lhe admitir a verdade, até para si própria. Amélia passou-lhe a mão pelos cabelos, num gesto carinhoso, e acrescentou.
- Se a vida te está dando outra oportunidade não a desperdices minha amiga. Quem sabe se é a derradeira? E nada pior, do que viver o resto da vida imaginando, o que ela poderia ter sido e não foi por sermos covardes.
- Mas eu não sei nada sobre ele. Nem sequer o nome. Apenas que tem uns olhos cinzentos que parecem mergulhar dentro de nós até ao mais ínfimo da nossa alma. E uma voz rouca, sensual…
- E um corpo alto atlético e moreno, e uns braços fortes onde gostavas de te acolher – riu Amélia.
- Não sejas assim, - disse zangada. Vamos-nos deixar de conversas e trabalhar. Marca as entrevistas para quarta-feira. Uma para as dez horas a outra para as quinze. Telefona à Dulce e pergunta se a campanha do início das aulas que lhe entreguei antes das férias está pronta, quero vê-la. Como foi o Paulo que a aprovou, gostava que ele a visse. Se a gravação estiver pronta, telefona-lhe e pede para ele passar por cá para a ver.
Amélia afastou-se e levando a mão à testa, imitou o gesto do militar perante um superior dizendo:

- Sim chefe.

13.5.20

ISABEL PARTE I


                                      Foto minha 
Isabel saltou da cama, subiu a persiana e abriu a janela deixando que o ar frio e húmido lhe viesse acariciar o rosto.  Olhou o céu coberto de nuvens a ameaçar chuva.  Sentiu um arrepio. Fechou a janela e dirigiu-se à casa de banho. Era o seu último dia de férias no Algarve, e pensava ir para a praia como nos dias anteriores.  
Mas o dia estava desagradável. Nem parecia que se estava no final de Julho. Enquanto tomava o duche matinal, pensava no que faria nesse dia. Não tinha amigos naquela cidade, onde se encontrava pela primeira vez. Não lhe apetecia meter-se no carro e ir à descoberta dos arredores. Já o fizera noutras ocasiões. Fechou a água e envolveu-se na toalha. Era uma mulher muito bonita. Deveria rondar o metro e setenta, morena de grandes olhos escuros e boca bem desenhada. O cabelo negro, com um corte moderno deixava a descoberto a beleza do rosto. O corpo esguio e bem proporcionado, não passava nunca despercebido. Embora parecesse mais nova, já completara trinta e oito anos, e encontrava-se sozinha.  
Com movimentos suaves, espalhou sobre o  corpo o creme hidratante. Depois decidida vestiu o bikini, uns calções de ganga, e uma t-shirt branca. Calçou uns ténis meio velhos, mas muito confortáveis. Pegou numa toalha de praia e no protector solar e colocou-os sobre a mesa da cozinha.  Abriu o frigorífico e tirou uma garrafa de água, que juntou às restantes coisas. Foi ao quarto abriu de novo a janela e voltou a olhar o tempo. Mantinha-se na mesma ou mais fechado. Agora caía uma chuvinha miudinha, tão fina que mais parecia nevoeiro. Isabel voltou-se e fez a cama. Depois abriu a gaveta da cómoda e retirou um lenço azul, que enrolou à volta da cabeça, como se fosse um turbante.  Lançou um breve olhar ao espelho que encimava a cómoda, agarrou nos óculos escuros e retirou de um gancho atrás da porta, a bolsa que costumava levar para a praia. Dirigiu-se à cozinha e colocou todas as outras coisas dentro da bolsa. Juntou-lhe um pequeno porta-moedas e o estojo com os óculos escuros. Pegou nas  chaves e no telemóvel e saiu. Pisava forte com ar de pessoa decidida. Desceu a rua, passou por uma típica travessa estreitinha e com algumas escadas e desembocou no Largo do Infante. Olhou à volta. A Igreja de Santa Maria estava aberta, e Isabel resolveu entrar.  Não era hora de missa, ela já lá tinha estado no dia em que chegara e sabia que a missa era só à tarde. Mas ela sempre gostara de se recolher na igreja. Gostava daquele silêncio. Convidava ao recolhimento, e à oração.  E era assim que ela gostava de estar na casa do Senhor. 



Nota: Como alguns disseram ontem, o blogue não é uma obrigação, mas é a única ponte que tenho para estar convosco, numa altura, em que não vejo amigos nem irmãos nem outros familiares além do filho nora e netas. Daí o querer manter o blogue ativo.  

22.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXX



Uma semana antes, o tempo, embora frio, estava seco e com dias bonitos.  Ricardo fizera as reservas para o almoço, no restaurante da Adraga, situado na praia do mesmo nome, na zona de Sintra.
Com um excelente serviço e uma esplêndida vista, com a sala virada para o mar, e a esplanada para a serra, com o casario de Almoçageme na encosta, e o Castelo da Pena, lá no alto. Infelizmente não esperava o dia invernoso que nesse momento, se fazia sentir, mas que podia ele fazer? Não podia controlar a natureza, mas tinha encomendado um bom menu, e recomendado que não faltasse o champanhe e um bolo de noiva, ainda que pequeno. 
Apesar de tudo, o almoço foi ótimo, o serviço uma simpatia, e o mar encapelado , não deixava de ter o seu encanto.
Depois de almoço, que se prolongara até ao meio da tarde, como o tempo não estava para passeios, voltaram para Lisboa. Os noivos iam ficar a viver no apartamento dele, no Parque das Nações. Mais tarde, talvez Ricardo vendesse o apartamento e comprasse uma casa noutra zona da cidade, mas de momento o apartamento era o ideal. Possuía, uma suite, dois quartos, uma sala, uma bela cozinha, e uma casa de banho.Uma das condições de Isabel era que não tivessem lua-de-mel. E embora inicialmente isso não lhe tivesse agradado, como o casamento só pudera ser marcado para aquela data, ele acabara por concordar.
Faltavam poucos dias para o Natal, era o primeiro que passariam em família, havia muita coisa para fazer e pouco tempo. Natália ofereceu-se para ficar com a Matilde naquela noite e eles ficariam em casa, depois da noiva ter rejeitado ir passar a noite num hotel. Para ela, aquela ia ser a noite mais importante da sua vida, e queria vivê-la no recesso do seu novo lar, porque acreditava que essa recordação, que esperava fosse boa, energizasse a casa, para um futuro feliz.
Durante o tempo que mediou até ao casamento, não tiveram mais intimidade do que uns beijos e algumas carícias mais apaixonadas, pois ela sempre fazia questão, de que Natália estivesse lá em casa, quando Ricardo chegava. E mesmo quando foi ao apartamento dele para preparar o quarto para a filha, e levar as suas roupas, fez-se sempre acompanhar da menina e da vizinha, com o pretexto de que  a vizinha seria uma boa ajuda.
Na verdade, Isabel tinha medo de estar a sós com o futuro marido. Porque quando ele a beijava, ela perdia a cabeça, parecia que o seu corpo ficava doido, queria sempre mais, e tinha vergonha de si própria. Tinha a certeza, que não fora a presença de Natália, teria feito amor com ele, quase desde a primeira vez que se beijaram. Às vezes perguntava-se o que pensaria Ricardo do seu “assanhamento”, e tinha receio que ele desistisse do casamento, depois de terem feito amor. Por isso fazia tanta questão da presença da amiga, quando estavam juntos. 
Ricardo percebeu que ela não queria fazer sexo antes do casamento, e embora não percebesse tanta timidez, numa mulher com trinta e três anos, fez que não entendia e conteve o desejo intenso que sentia cada vez lhe tocava.
Naquele momento de regresso a Lisboa, Ricardo tinha a mão de Isabel presa nas suas. Com o polegar acariciava-lhe a palma da mão e admirava-se com o rubor da mulher, enquanto conversava com Artur e Natália, que segurava no colo a menina adormecida.




Esta história volta segunda-feira

29.1.19

SANTUÁRIO DO SENHOR BOM JESUS DO CARVALHAL






Na primeira foto panorâmica do belo painel de azulejos de "Os círios no Santuário do Senhor Jesus". Na segunda uma composição dos vários quadros. Por favor ampliem as fotos.Consta que este era o mais importante local de culto antes antes de 1917 e das aparições na Cova de Iria. Hoje apesar de se encontrar a pouco mais de 1Km do famoso jardim Oriental do Berardo, acredito que a maioria das pessoas que vão ao Bombarral, visitar o jardim, se vão sem saberem do belo Santuário ali tão perto.






"O Carvalhal foi repovoado depois da reconquista de Óbidos aos Mouros em 1147, por D. Afonso Henriques. Em 1371, D. Fernando desanexou o Cadaval de Óbidos e o Carvalhal passou a pertencer ao concelho do Cadaval; em 24 de Outubro de 1855 voltou a pertencer a Óbidos e em 28 de Março de 1914, com a criação do concelho do Bombarral, passou a fazer parte do novo concelho. A Paróquia foi curato da apresentação do prior de beneficiados de Nossa Senhora da Assunção de Óbidos até à nova restauração pastoral do Patriarcado, já no séc. XX. O Santuário foi construído sobre as ruínas duma primitiva ermida dedicada a São Pedro de Finis Terra que ruíu com o terramoto de 1755. Entretanto, sem precisão de data, já a Imagem do Senhor Jesus fora recolhida na capela-mor da referida ermida que seria a primeira igreja paroquial. A Imagem do Senhor Jesus é duma beleza ímpar, envolve mistério e lenda,  não se sabendo com exactidão a sua origem. Poderá admitir-se a hipótese de, na ocasião da reforma protestante na Europa Central, a Imagem ter sido lançada ao mar, como aconteceu em situações de radicalidade no movimento protestante, vindo a ser encontrada na praia de Peniche.

A lenda diz: "andava um pescador no mar de Peniche, eis senão quando, vê um caixote a boiar perto do barco, com muita curiosidade, arrasta o caixote para a praia e logo se faz ouvir uma voz: leva-me até poderes... O pescador, convencido que estava uma pessoa dentro do caixote, abriu-o e ficou surpreendido ao olhar para a Imagem do crucificado. Obediente àquela voz misteriosa, o pescador colocou a Imagem aos ombros e começou a caminhar na direcção para onde habitualmente ia fazer a venda do peixe. A Imagem não lhe pesava, mas quando chegou junto a ermida de São Pedro, tornou-se tão pesada que não conseguiu avançar mais. Foi ao casario que ficava próximo chamar alguém para o ajudar, mas o peso da imagem era tanto que resolveram deixá-la na Ermida. Logo se divulgou a noticia que naquela Capela estava "huma devota antiga imagem de Christo crucificado, pela qual Deus obra muytos milagres e he mui frequentada de devotos Romeyros das Villas circunvisinhas". Assim, ao longo do séc. XIX e início do séc. XX, o Templo ampliou-se, construiram-se as casas dos romeiros e outras acomodações para acolher os peregrinos. O sino mais antigo que se encontra numa das torres da igreja tem a data de 1737 com a seguinte inscrição: "Bone-Jesus-Miserere Nobis"; seria o único sino da primitiva igreja; os outros três sinos, da mesma torre, datam de 1862. A segunda torre foi construída por iniciativa do padre José da Costa Prata e concluí-se em 1909. O arvoredo do adro da igreja foi plantado em Abril de 1867. O coreto foi construído em 1895. Em 1910 o mesmo sacerdote adquiriu o terreno da parte baixa do Santuário, que arborizou e murou, ampliando assim, substancialmente, o recinto do Santuário.

Descrição da Igreja do Santuário:

A igreja, de uma só nave, tem o tecto em madeira ornamentado com 15 painéis de florões, contendo o do centro os símbolos da paixão de Jesus. Na capela-mor está o Sacrário em talha dourada e um retábulo constituído por duas colunas coríntias, em madeira, entre as quais estão as imagens do Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria, ambas em madeira policromada; ao fundo, em posição elevada, com acesso próprio, está o Trono trabalhado em talha dourada Joanina, onde se guarda a veneranda Imagem do Senhor Jesus. Há uma capela lateral, onde se encontra a imagem do Senhor dos Passos, enquadrada num vistoso baldaquino dourado; na mesma capela podemos venerar as imagens de Nossa Senhora das Dores, Santo António, Santo Antão, Santa Teresa do Menino Jesus, São Luís de Gonzaga, Santa Rita, Santa Luzia, Nossa Senhora da Conceição e Santa Filomena; há ainda um altar túmulo com a imagem do Senhor Morto; nesta capela Celebra-se o Sacramento da Reconciliação. Em frente está o Baptistério com a antiga pia em pedra e o nicho dos Santos Óleos. Do mesmo lado, na parede, está um púlpito em madeira muito bem trabalhada. No corpo da igreja, de frente, estão dois altares, um com a imagem de São Pedro e o outro com a imagem de São Paulo. "


Fonte : site oficial do Santuário


Dá para perceber que não tenho escrito nada novo. 
E que estou a "roubar" textos de outro blog que poucos leitores do Sexta visitam. Em compasso de espera para a cirurgia, com uma festa de aniversário para preparar para esse mesmo dia e a azáfama do lançamento do livro, o tempo não dá para nada.



16.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXIII



Durante mais de uma hora viajaram calados. Odete olhava pela janela como se a sua vida dependesse da paisagem que rodeava a estrada. João conduzia atento ao trânsito. Por fim ela quebrou o silêncio.
- A tua mãe teria gostado que ficássemos para o almoço.
- A minha mãe é muito arguta. Se estivéssemos umas horas com ela ia perceber que não estamos felizes.
- Mas querias ir à praia. Pensei que só vínhamos mais tarde.
- Na praia estávamos longe dos seus olhares.
- Não te entendo. Se tinhas tanto medo que ela percebesse, alguma coisa, porque viemos?
- Porque já tinha combinado vir antes do teu regresso. E já não aguentava mais, ela querer saber de ti. Estiveste ao telefone com a tua mãe?
- Não. Tu deste-me notícias, e se vou estar com ela quando chegar, não valia a pena telefonar.
- Há uma coisa que quero que dizer-te. Enquanto estiveres na nossa casa, não quero encontros com outro homem. Nem telefonemas ou e-mails.
Revoltou-se. O que é que ele estava a insinuar? Acaso julgava que ela era capaz de ter um amante?
- O bom julgador por si se julga, - atirou mordaz
Travou repentinamente, provocando um solavanco que a assustou.
- Estás doido? Queres matar-nos?
- O que é que disseste?
- Eu? Nada que tu não saibas.
Apertou-lhe o braço com a força, olhando-a furioso.
- Larga-me. Estás a magoar-me.
Soltou-a e reparou na mancha vermelha no braço.
- Desculpa, -disse voltando a pôr o carro em movimento. -Não voltará a acontecer. Não é hora nem sítio para conversas desta natureza.
Na sua cabeça ecoava a frase que lhe ouvira. Que quereria dizer com aquilo. Ela é que o abandonara, sem ele sequer imaginar porquê, e punha as culpas nele? Em dois dias era a segunda vez que lhe mandava uma indireta como se ele fosse o culpado pela separação. O que é que ele fizera além de amá-la, e de trabalhar como um louco? Talvez porque dispunha de pouco tempo para ela? Mas  se era por ela que trabalhava tanto. Para lhe pagar os estudos lhe comprar roupas caras, lhe dar jóias. Pensava que dando-lhe tudo isso, compensaria a diferença de idade, e faria com que não se interessasse por nenhum homem mais bonito e mais jovem.   Decididamente não entendia as mulheres. Primeiro foi Inês, que se fingia apaixonada por ele e o traía. E que depois de divorciada, lhe fez uma marcação cerrada, jurando arrependimento, para uns meses depois voltar a casar. Só não caíra na sua teia, porque o amor que dedicava à mulher era mais forte do que qualquer outro sentimento que experimentara na vida. E depois Odete, que ele julgara diferente, que amara com todo o seu ser, e que sem uma explicação o abandonou, transformando a sua vida num verdadeiro inferno. Ninguém a não ser o seu amigo Manuel, sabia o quanto ele estivera à beira do abismo. A ele agradecia o ter conseguido superar o seu desespero e voltar a dedicar-se de corpo e alma à profissão. Muitos o invejavam, pelo seu sucesso profissional. Ele trocá-lo-ia pelo amor da mulher, sem a mínima hesitação.


A TRAIÇÃO - PARTE XXII





Acabava o pequeno-almoço, quando a sogra e a irmã chegaram da missa.
- Bons-dias. Passaram bem a noite? – Perguntou Antónia, a mãe de João.
- Que pergunta mulher. Na idade deles só passam mal a noite se estão doentes, - disse a tia Margarida.  E acrescentou de seguida, - vou assar um pedaço de cabrito para o almoço. Vocês só vão depois de almoçar, não é verdade?
- Estávamos a pensar ir antes, tia. Vai estar um dia de calor infernal, é melhor irmos já. Almoçamos pelo caminho, e chegamos com tempo suficiente para descansar um pouco e ir visitar a minha sogra. A Odete está preocupada com a mãe, não é verdade querida?
Não pôde deixar de o olhar, desconcertada. Minutos antes, estava a propor-lhe uma manhã de praia, e agora estava com pressa de regressar?
- É verdade que estou preocupada. Me desculpem, mas a ideia de vir foi do João, eu teria preferido ficar junto dela, mas apesar disso acreditem que gostei muito de conhecer a cidade, e de estar convosco. E prometo-vos que voltarei noutra altura para ficar mais tempo, - disse sem olhar para o marido. Agora se me dão licença, vou arrumar as minhas coisas.
Já no quarto, procurou no armário, lençóis limpos para fazer a cama, levando os outros para a casa de banho, onde se encontrava o recetáculo para a roupa suja.
Depois colocou a maleta em cima da cama e começou a meter nela as suas coisas. Estava desesperada. Devia estar doida quando pensou que conseguia enfrentar o marido com indiferença. Que a raiva que sentia lhe daria forças. E ali estava, sem saber qual o jogo que o marido estava a jogar, e por causa da doença da mãe, completamente nas suas mãos.  E pensar que ela pensara, que ele era a sua alma gémea. Sobressaltou-se com o toque do telemóvel. Atendeu, e durante uns minutos falou com a irmã que lhe telefonava para saber como estava a mãe. Terminava a chamada quando João entrou no quarto. Desligou o telemóvel e guardou-o, sem dar nenhuma explicação ao marido que a olhava com um ar interrogativo. Ele que pensasse o que quisesse.
- Estás pronta?
- Para dançar ao toque da tua música? Sim meu senhor, e meu amo, - disse com ironia
Ele não respondeu. Limitou-se a pegar na maleta e a sair sem olhar para ver se o seguia.



Parece que a maioria já entendeu que a Inês foi a culpada da separação destes dois. Mas será que foi mesmo? Será que os complexos dos dois, a sua insegurança não foi a real culpada?
Que vos parece? Vai acabar bem ou vai acabar num divórcio? 



15.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXI




Amanhecera há bastante tempo quando ela acordou. Ainda sonolenta olhou à sua volta com estranheza, e logo se lembrou de onde estava. Sentou-se na cama e olhou o lugar onde João dormira. A almofada ainda conservava a forma da sua cabeça. Estendeu a mão e tocou-lhe. Estava fria, o que queria dizer que já devia ter acordado há bastante tempo. Foi até ao armário e retirou a roupa para vestir. Com ela na mão foi para a casa de banho. Tomou um duche rápido, enrolou-se na toalha e secou o cabelo.
Depois vestiu-se e voltou ao quarto. Puxou os lençóis para arejar a cama e saiu do quarto. Na cozinha encontrou João, mas nem sinal das duas idosas.
-Bom dia, - saudou.
- Bom dia. Dormiste bem?
-Que nem uma pedra. Onde estão tua mãe e a tia Margarida?
- Foram à missa das oito. Senta-te. Deves ter fome. Queres torradas?
-Sim.
-Com manteiga ou doce? – Perguntou enquanto metia duas fatias de pão na torradeira.
- Manteiga. A que horas vamos regressar? – Perguntou despejando num copo o sumo de laranja.
-Ainda não pensei nisso. Tens pressa?
- Gostava de ir ver a minha mãe, coisa que não poderei fazer, se chegarmos muito tarde.
-A tua mãe passou bem a noite e está bem. E o teu pai chega esta noite.
-Como sabes?
Está no contrato com a empresa de enfermagem. A enfermeira deve ligar-me de manhã e à noite, para me fazer o relatório do estado da doente, - disse pondo na sua frente as torradas e o recipiente com a manteiga, acrescentando em seguida. Se quiseres, podemos ir à praia da Costa Nova. É uma zona muito bonita, com as suas casas de riscas que lembram estranhos e gigantescos pijamas. Trouxeste fato de banho?
- Não.
- Podemos passar pelo fórum e comprar, se quiseres ir claro.
- Preferia ficar aqui pela cidade. Não me apetece a praia.
- Então não vamos.
- Porquê, João?
- Porquê… o quê, - perguntou arqueando o sobrolho.
- Porque viemos, porque tens estado a tratar-me como se eu fosse uma princesa?
Um sorriso rasgado espelhou-se-lhe no rosto.
-Ah, isso? Se calhar é porque penso que és mesmo uma princesa.
- Deixa-te de tolices. Estou a falar a sério
- Eu também Alteza, eu também, - retorquiu sorrindo


28.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE XVII



Isabel, tivera um dia complicado no escritório. O telefonema de Hélder, no fim da manhã, contribuíra para uma desconcentração na parte da tarde, que a obrigara a um esforço extra para fazer alguma coisa de útil. Felizmente que no dia seguinte era sábado, podia descansar um pouco. Cansada, tomou um relaxante banho, espalhou sobre o corpo um creme hidratante, enfiou uma curta camisa de dormir, o robe de seda, e sem ânimo para fazer jantar, pensou em fazer um chá e duas tostas. Acabara de pôr a chaleira ao lume com a água para o chá, quando a campainha tocou. Espreitou pelo ralo, e ficou sem cor ao reconhecer o escritor. Olhou para si mesma, para a roupa inapropriada para receber visitas, que vestia, mas acalmou-se ao pensar que ele não podia vê-la. Mas seria mesmo ele? Devia estar enganada. Ele não sabia onde ela morava. Nem se devia lembrar já da sua existência. Nesse momento a campainha voltou a tocar de forma impaciente. Voltou a espreitar. Não havia dúvida. Era ele. Abriu a porta, quando ele se aprestava para tocar pela terceira vez.
- O que estás aqui a fazer? Como soubeste onde morava?
- Se me convidares a entrar, posso responder a isso e a muito mais.
- Mas estás sozinho? E o Rex?
Ele sorriu. Sem se dar conta, perguntando pelo cão guia, ela tinha-se denunciado.
- Já não preciso dele, - disse tirando os óculos e deixando-a mirar-se nos belos olhos escuros. Mas vamos ficar a conversar aqui ao pé da porta? Não me mandas entrar?
- Sim, claro, desculpa. Vem para a sala. Senta-te. Vou só apagar o lume, ia fazer um chá.
Regressou logo a seguir. Ele estava de pé, com uma foto dos dois na mão. Tinha sido tirada pouco antes de se separarem dez anos antes, e a lembrança do que tinha acontecido na época tingiu de carmim, as faces da jovem.
- Senta-te. Suponho que convenceste a minha avó a dar-te a minha morada, -disse sentando-se no sofá em frente dele. Só não entendo para quê? Dez anos é muito tempo, para ainda te lembrares de mim.
- Dez anos Isabel? Pensas mesmo que não te reconheci? Que não sei que eras tu que estiveste a meu lado estes dois meses?
Ela perdeu a cor. Balbuciou.
- Como o soubeste? E desde quando?
- Senti-o no primeiro momento na praia, quando me saudaste. Não quis acreditar, pensei que estava a ficar maluco, e por isso não te respondi. Depois, procuraste-me para te ofereceres como secretária, e fiquei meio convencido que realmente eras tu, mas a certeza, só a tive quando leste para mim. Lembrava-me bem quantas vezes, tínhamos lido um para o outro há dez anos. Quando falaste do teu amigo, senti vontade de te abraçar e te dizer que não podias esconder-te. Estavas dentro de mim, achar-te-ia sempre, mas depois pensei que devias ter uma razão para te esconderes, quem sabe tinhas um namorado, sei lá. Dez anos, é muito tempo, não sabia nada de ti, podias até ter casado. Esperei que fosses tu a falar. Além disso que podia eu oferecer-te, na situação em que me encontrava?  Mas logo depois, começou a acontecer algo, com que eu já não sonhava. Começava a distinguir formas e movimentos. Então fiz a mala e parti para Barcelona, pois tinha sido lá que tinha tentado todos os tratamentos para recuperar a visão.

19.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE III


Agora, Isabel tem vinte e seis anos, um bom emprego como advogada, num escritório de advocacia, e encontra-se de férias que mais uma vez decidiu passar na casa da avó, que ela adora e com quem está a pensar, passar mais tempo. Na verdade, anda a estudar a hipótese de montar o seu próprio escritório de advocacia, na aldeia. 

6.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XIX






Pagaram a conta, e saíram, mas em vez de se dirigirem ao carro, contornaram o restaurante e dirigiram-se à praia. Descalçaram-se. 
Ele passou-lhe um braço pelos ombros e caminharam em silêncio, afastando-se do recinto iluminado do restaurante. Estava a ser uma noite de sonho, para Daniela. De súbito recordou-se do seu casamento e da causa do seu divórcio. Estremeceu.
- Tens frio? -Perguntou ele solícito.
-Um pouco.
Tirou o casaco e colocou-lho sobre os ombros. Uma mão acariciou-lhe o rosto, outra apoiou-se nas suas costas atraindo-a com delicada firmeza para ele. Os olhos cinzentos, escurecidos pela paixão, buscaram os verdes que se mostravam inconscientes do abandono que refletiam.
Sem deixar de a fitar, a sua boca buscou a dela, com um gesto de autoridade, e ela soube que desejava acima de tudo submeter-se a esse doce domínio.
A língua dele, esfregou-se levemente contra a dela, numa dança erótica que acendeu todas as partes sensíveis do seu corpo, levando-a a acariciar-lhe os músculos das costas, enquanto se apertava contra o corpo masculino. Gemeu desiludida, quando ele a soltou, e lhe pegou na mão dizendo:
-Vamos embora. Se continuamos aqui, não conseguirei controlar-me.
Percorreram o caminho inverso em direção ao carro, sem pronunciarem uma palavra. Aí, David retirou a areia dos pés, limpando-os com as meias, calçou os sapatos nos pés nus, e depois de lançar um olhar à jovem que já tinha as sandálias calçadas, pôs o carro em marcha. Cada um absorto nos seus sentimentos, seguiram em silêncio até à casa da jovem.
- Queres entrar? – Perguntou ela saindo do carro
Mergulhou nela um olhar intenso.
- Queres que entre?
Voltou-lhe as costas, envergonhada
- Sim
Fê-la voltar-se, e beijou-a apaixonadamente.
-Importas-te de ir entrando? Volto já.
Dirigiu-se ao carro e arrancou velozmente. Sem saber o que pensar, a jovem entrou em casa. Acendeu a luz, largou a mala em cima de uma cadeira, e dirigiu-se à cozinha para fazer um chá.
A campainha tocou e ela foi abrir. Era David que voltava.



23.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCIII


                                                      Foto do jornal Público

Aflitos  sem saber mais onde procurar, dirigiram-se à polícia.
O agente que os atendeu perguntou se ele não teria ido para a praia. Estávamos em Maio, e o dia tinha estado muito quente. Os pais não acreditavam. O garoto nunca fora a lado nenhum sozinho. A mãe, levava-o à escola, e ia buscá-lo. O agente tomou nota do caso, depois de perguntar os sítios que a criança costumava frequentar. Iam tomar providências. Mandaram os pais para casa, o garoto podia ter chegado entretanto.  O casal dirigiu-se a casa, e no caminho encontraram um grupo de gaiatos, mais velhos do que o seu filho, que vinham da praia. E entre eles, lá vinha o Pedro. Os outros miúdos mais velhos, eram da 4ª Classe, saíram mais cedo e desafiaram o Pedro para ir com eles para a praia. E aproveitando uma distracção da contínua, que acorrera a levantar do chão, uma chorosa criança  mais pequena, o Pedro saiu e foi para a praia com eles. 
Escusado será dizer que esteve de castigo mais de uma semana. Pais, avô e padrinhos nunca mais iriam esquecer a aflição daquela tarde.  
Por esses dias, aparece nas bancas um novo semanário. O Independente com direcção de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas.
A 25 de Agosto, nova tragédia atinge o País, desta vez no coração de Lisboa. O fogo devora o Chiado, em labaredas tão grandes que são visíveis na outra margem do Tejo.  Prédios e lojas, tudo fica reduzido a cinzas. Dois mortos e mais de quarenta feridos, além de vários prédios históricos destruídos, é o rescaldo do incêndio, que os lisboetas jamais esquecerão.
A reabilitação da zona, levaria cerca de 10 anos, mas as centenas de pessoas que perderam os seus empregos, e viram as suas vidas caírem no desespero, nunca foram ressarcidas.
Em Setembro começam os jogos olímpicos de Seul, que os portugueses seguiram na esperança de que a Rosa Mota trouxesse a medalha de ouro para Portugal. E ela não nos desiludiu. 
No dia em que Portugal comemora a implantação da República, um plebiscito no Chile, derrota Pinochet, e é o princípio do fim do ditador.
E a 14 desse mesmo mês, PS e PSD chegam a acordo para a revisão da Constituição.
Pouco antes do Natal, a família dispensa a empregada, que acompanhara a Gravelina nos últimos anos. Ela já faz a sua higiene sozinha, veste-se e calça-se. O marido faz as refeições, e para  a limpeza da casa, tem a mulher a dias que vem dois dias por semana. E se for necessário alguma coisa, os filhos dão uma ajuda. A despesa é muito grande, as reformas curtas, e se bem que é o filho quem paga o ordenado da empregada, eles não querem continuar a sobrecarregá-lo com esse encargo.  


26.1.16

AMANHECER TARDIO XLII







Eram quase nove e meia, quando a campainha da porta tocou. Pensando ser a porteira, Isabel abriu e deparou com Luís. Tentou fechar a porta mas o homem apressou-se a colocar o pé entre esta e o batente impedindo-o.
- Desculpa Isabel mas vou entrar. Preciso falar contigo. Depois de me escutares, se entenderes que devo sair, prometo que o faço.
Ela não respondeu. Estava espantada. Como é que ele sabia a sua morada? E se ela não lhe abriu a porta da rua como é que a porteira o deixou subir sem ao menos avisá-la? Ele entrou e fechou a porta atrás de si.
- Vem. Já vais entender tudo, - disse como se tivesse lido os seus pensamentos.
Tremente Isabel dirigiu-se à sala seguida por ele.
 - Senta-te Isabel. A conversa vai ser longa. Mas antes, deixa que te dê o livro que deixaste lá esta tarde. Tem uma dedicatória especial.
Estendeu-lhe o livro, que ela pousou sobre a mesinha. Estava pálida e os olhos apresentavam sinais evidentes de choro.
- Lê Isabel. A conversa vai ser mais fácil depois.
Ela abriu o livro e leu:
“Para a mulher da minha vida. Luís” E logo por baixo “Com muito amor. Nuno Luís Teixeira Fraga”
Olhou-o espantada.
- Esse é o meu nome completo. Quando eu era menino, e porque o meu pai se chama Nuno, toda a família me chamava de Luís. Usei esse nome até aos dezanove anos. Depois…
E então, Luís falou de Odete, da sua traição e de como esse facto influenciara a sua vida, e a sua relação com as mulheres, daí para a frente. Falou da sua vida de aventureiro, dos muitos anos vividos no estrangeiro, da sua auto caravana, do trabalho de jornalista independente até há bem pouco tempo, do êxito do primeiro livro, "Amanhecer tardio",  da decisão de se dedicar só à sua carreira de escritor, do desejo dos pais em vê-lo de volta ao País.
Isabel quase não se atrevia a respirar. Percebia que o homem estava desnudando a sua alma para ela, e isso era tão grandioso, tão emocionante, que todas as suas dúvidas se dissiparam.
- Quando cheguei, e antes de iniciar a minha nova vida, decidi ir uns dias de férias. Nem sei porque escolhi Lagos, - continuou Luís. Naquele dia, o meu último dia de férias, por causa do nevoeiro não me apetecia ir à praia, mas sentia-me atraído para lá como se alguma coisa me empurrasse. Quando me cruzei contigo fiquei intrigado. Mas quando tropeçaste e te segurei nos braços, não sei o que me aconteceu, que nunca mais deixei de pensar em ti. Depois, começaram a acontecer muitas coisas estranhas. Passei a encontrar-te em diversas ocasiões. Por vezes nem sequer me vias, mas eu sim. Quando naquele dia chocámos na esquina da rua, e te disse que me chamava Luís, o meu subconsciente já tinha entendido aquilo que eu só entendi bem mais tarde. Porque hoje, eu sou Nuno para toda a gente, excepto para duas pessoas a quem muito amo. Meus pais, para quem continuo a ser o Luís.
As lágrimas rolavam silenciosas pelas faces de Isabel.
- Na altura nem me apercebi disso, mas hoje vejo que nesse momento, já estava a dar-te um lugar muito especial na minha vida. Ontem, quando saí do metro, vi-te entrar neste prédio. Espantado, bati à porta da porteira. Acreditas que eu moro no 6º C deste mesmo prédio?
- Não é possível!
- É. E nem imaginas, a minha luta ontem, para não descer e vir ter contigo. Mas eu tinha um plano e queria cumpri-lo. Tinhas aceitado ir almoçar comigo no Domingo. Sabes onde ia levar-te? A casa dos meus pais. E lá, com eles por testemunha, ia pedir-te para partilhares a minha vida, oferecendo-te em troca o meu amor.
Levantou-se.
-Só não esperava que aparecesses no hotel e estragasses a surpresa!
- Oh! Luís, e eu que pensei tão mal de ti. Sentia-me enganada. Perdoa-me.
Ele estendeu-lhe a mão e puxou-a para si. Apertou-a de encontro ao peito, segurou-lhe o queixo, e com a urgência de quem se buscou por toda a eternidade aprisionou a sua boca num longo e apaixonado beijo.


FIM


 Elvira Carvalho

15.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXIX





Duas horas mais tarde, Luís  despedia-se dos pais, prometendo telefonar em breve e regressava ao hotel. Pelo caminho veio-lhe à memória o inesperado encontro dessa tarde, e de súbito deu-se conta de um facto que o inquietou. Tinha-se apresentado como Luís. Luís era o nome do outro. Daquele que ele fora muitos anos atrás. Um nome sagrado que só os pais usavam. Porque razão, se apresentara assim? E porque é que aquela mulher o inquietara, desde que a teve nos braços, naquela manhã de nevoeiro na praia? Não era uma jovenzinha. Era bonita sim, mas na sua vida errante tinha encontrado mulheres bem mais belas, que esquecera horas depois. Não era casada. Além de não usar aliança, viu-a em várias ocasiões sempre só. O que seria que o atraía? Talvez fosse o seu olhar de gazela assustada. Há muito que não via um olhar assim. Mas podia ser falso. Nas mulheres tudo era falso.
Ele, era muito céptico em relação às mulheres. Costumava dizer duas coisas quando o assunto eram mulheres. Primeiro, as mulheres não prestam. Traem os homens e pior ainda traem-se as si mesmas. Segundo, a excepção era a sua mãe, a única mulher no mundo que não desiludira o Criador. 
Horas depois, no seu quarto no hotel, escrevia rapidamente.   Acabara de ter uma ideia para um novo livro, e imediatamente tratara de registar as primeiras linhas, do primeiro capítulo. Parou ao perceber que tinha descrito a protagonista com as características físicas de Isabel. 
Fechou o portátil e foi até à janela. Depois de um rápido olhar para a rua,  atravessou o quarto a passos largos. 
Sentia vontade de sair. Afinal era Sexta-feira, noite de Verão. Luís não era homem de reprimir os seus desejos. Nunca o fizera. Chegou à rua e olhou em volta. A noite estava quente, e a lua cheia, redonda como ventre fecundado, extremamente brilhante, derramava sobre a cidade toda a sua luminosidade. Se ele fosse romântico diria que estava uma noite para namorar. Mas não o era. Apetecia-lhe caminhar. Observar as pessoas com quem se cruzava.  
Caminhou pela baixa até  à Praça do Comercio. Sempre gostara de ver o Tejo em noites assim. Desde o tempo em que ele era “o outro”. As memórias lutavam para vir à superfície e aos poucos foi deixando que elas ocupassem o seu espaço no presente.