Durante mais de uma hora
viajaram calados. Odete olhava pela janela como se a sua vida dependesse da
paisagem que rodeava a estrada. João conduzia atento ao trânsito. Por fim ela
quebrou o silêncio.
- A tua mãe teria gostado que
ficássemos para o almoço.
- A minha mãe é muito arguta.
Se estivéssemos umas horas com ela ia perceber que não estamos felizes.
- Mas querias ir à praia.
Pensei que só vínhamos mais tarde.
- Na praia estávamos longe dos
seus olhares.
- Não te entendo. Se tinhas
tanto medo que ela percebesse, alguma coisa, porque viemos?
- Porque já tinha combinado vir
antes do teu regresso. E já não aguentava mais, ela querer saber de ti.
Estiveste ao telefone com a tua mãe?
- Não. Tu deste-me notícias, e
se vou estar com ela quando chegar, não valia a pena telefonar.
- Há uma coisa que quero que dizer-te. Enquanto estiveres na nossa casa, não quero encontros com outro
homem. Nem telefonemas ou e-mails.
Revoltou-se. O que é que ele
estava a insinuar? Acaso julgava que ela era capaz de ter um amante?
- O bom julgador por si se
julga, - atirou mordaz
Travou repentinamente,
provocando um solavanco que a assustou.
- Estás doido? Queres matar-nos?
- O que é que disseste?
- Eu? Nada que tu não saibas.
Apertou-lhe o braço com a força, olhando-a furioso.
- Larga-me. Estás a magoar-me.
Soltou-a e reparou na mancha
vermelha no braço.
- Desculpa, -disse voltando a
pôr o carro em movimento. -Não voltará a acontecer. Não é hora nem sítio para
conversas desta natureza.
Na sua cabeça ecoava a frase que
lhe ouvira. Que quereria dizer com aquilo. Ela é que o abandonara, sem ele sequer
imaginar porquê, e punha as culpas nele? Em dois dias era a segunda vez que lhe
mandava uma indireta como se ele fosse o culpado pela separação. O que é que
ele fizera além de amá-la, e de trabalhar como um louco?
Talvez porque dispunha de pouco tempo para ela? Mas se era por ela que trabalhava tanto. Para lhe pagar os estudos lhe comprar roupas caras, lhe dar jóias. Pensava que dando-lhe tudo isso, compensaria a diferença de idade, e faria com que não se interessasse por nenhum homem mais bonito e mais jovem. Decididamente não entendia as mulheres.
Primeiro foi Inês, que se fingia apaixonada por ele e o traía. E que depois de
divorciada, lhe fez uma marcação cerrada, jurando arrependimento, para uns
meses depois voltar a casar. Só não caíra na sua teia, porque o amor que
dedicava à mulher era mais forte do que qualquer outro sentimento que experimentara na vida. E depois Odete, que ele julgara diferente,
que amara com todo o seu ser, e que sem uma explicação o abandonou,
transformando a sua vida num verdadeiro inferno. Ninguém a não ser o seu amigo
Manuel, sabia o quanto ele estivera à beira do abismo. A ele agradecia o ter
conseguido superar o seu desespero e voltar a dedicar-se de corpo e alma à
profissão. Muitos o invejavam, pelo seu sucesso profissional. Ele trocá-lo-ia pelo amor da mulher, sem a mínima hesitação.

