Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta fogo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fogo. Mostrar todas as mensagens

20.5.20

ISABEL - PARTE VI




Porém elas continuavam lá, como se tivessem sido gravadas a fogo.
No espaço de três dias toda a sua vida desabou. Isabel tinha completado há pouco dezanove anos, era uma mulher feliz, cujos sonhos e projetos, eram sempre a dois. De repente um acidente estúpido acabou com a vida de Fernando e quase acabou com a sua. Relembrou o momento em que acompanhada pelo pai, foi na manhã seguinte ao hospital, na esperança de uma boa notícia e foi informada de que o marido não tinha sobrevivido e se encontrava em morte cerebral. Lembrava-se vagamente do médico explicando-lhes que a pancada na cabeça fora muito forte, o cérebro sofrera um grande inchaço e a pressão exercida pelo capacete dera origem a hemorragia cerebral. No entanto eles mantinham-no artificialmente vivo, porque precisavam de falar com ela sobre a doação de órgãos. Foi-lhe explicado que a morte repentina de um homem jovem e saudável, como Fernando, podia ser a salvação de várias pessoas, que aguardavam um transplante como única salvação. Ela não gostaria de poder salvá-las, autorizando a doação dos órgãos do marido?
Isabel ficou tão chocada que gritou com o médico e saiu correndo do gabinete.
Depois o pai conversou com ela. Fez-lhe ver que ao marido morto, os seus rins, fígado ou coração não faziam qualquer falta. E podiam ser a diferença entre a vida e a morte para outras pessoas. Além disso Fernando era um homem generoso, ele gostaria de saber que a sua morte não teria sido em vão. Ela acabara por concordar e assinar os documentos que o médico lhe apresentara. Depois não se recordava de mais nada.  
 Foi o seu pai que tratou de todos os trâmites para o funeral. Fernando já não tinha pais apenas os tios de Albufeira que foi preciso avisar.  Isabel esteve sempre acompanhada pelos pais e sob o efeito de fortes calmantes. Talvez por isso, ela não se recordava do derradeiro momento, aquele em que se despediu do marido no cemitério.
Por mais de quinze dias, ficou em casa dos pais, no seu quarto de solteira. Depois um dia pegou nas chaves e voltou a casa.
Foi estranho e muito doloroso entrar na habitação, onde cada canto falava de amor e sentir-se morta por dentro. Mas apesar da sua juventude,  Isabel era muito mais forte do que seria de supor, numa mulher que até aí fora protegida de todas as adversidades.
Separou as suas coisas pessoais e meteu-as numa maleta para levar para casa dos pais. Tudo o resto, móveis, enxoval, e as roupas de Fernando iriam para uma instituição de caridade. Ela queria encerrar aquela etapa da sua vida.
Falou com os pais que como sempre a apoiaram e ajudaram e dois meses depois entregava as chaves da casa ao senhorio e regressava a casa à casa paterna e ao seu quarto de solteira.





2.7.17

ROSA - PARTE III


No invólucro da Rosa mulher, que era a sua figura, vivia uma inocente menina que nada sabia da vida, nem dos maus instintos de alguns homens. Talvez por isso não se assustasse, nem pensasse em fugir, quando no Domingo seguinte os dois rapazes, apareceram lá no monte, onde ela passava as tardes com o gado. De resto tinha-os visto na desfolhada, não eram totalmente estranhos.
Chegaram de mansinho, como quem não tem pressa, e, de súbito, um segurou-lhe os braços e o outro meteu-lhe a mão entre o corpete e apalpou-lhe um seio. Aterrorizada, lutava para se desenvencilhar e quanto mais lutava, mais eles riam. Atiraram-na ao chão, levantaram-lhe a saia e rasgaram-lhe as cuecas. Ela continuava a gritar e a estrebuchar, mas de nada lhe valeu. De repente, sentiu-se esmagada, sob o peso do corpo masculino e a dor fê-la gritar, ao sentir o seu corpo rasgado pelo alarve desejo do homem. A dor, a raiva, a humilhação foi tanta que a pobre quase desmaiou. Mas não teve essa sorte. E teve de suportar não só a dor física, como o resfolegar do homem e o bafo quente do segundo homem que se apossou dela mal o primeiro a deixou. Rosa sentia-se morta, nem força tinha já para protestar. Nem disse nada quando os dois a ameaçaram, que davam cabo dela, se  contasse a alguém o que lhe tinham feito, antes de abalarem rindo em direção à aldeia. Ao Domingo, o Zé Rato, sempre ia tocar a sua concertina para o adro da igreja, onde se fazia um bailarico, e foi para lá que eles se dirigiram.
Rosa, não sabia, por quanto tempo ficara ali descomposta, deitada sobre a relva. Teriam passado alguns minutos, que lhe pareceram horas, quando a custo se levantou, o corpo e a alma destruídos. Agarrou no que restava das cuecas,  e limpou-se como pôde.  Depois ajoelhou e com as mãos cavou um buraco, onde as enterrou.
Levantou-se, pegou no bordão e começou a tocar as ovelhas para o curral. Não chorava. O seu desespero era como fogo que lhe devorava as entranhas.
Assustou-se a avó, com a sua entrada em casa. Primeiro, porque costumava chegar mais tarde, segundo porque o seu aspeto era por demais estranho. Trazia o cabelo e as roupas desalinhadas, e os olhos orlados por grandes círculos roxos, encontravam-se vidrados. Pela experiência, que lhe davam os muitos anos de vida, a avó soube imediatamente o que tinha acontecido à sua menina. Pôs uma panela de água ao lume, foi buscar o alguidar de zinco, despejou-lhe um cântaro de água fria. Enquanto a água não fervia, foi buscar uma combinação da neta e um lençol velhinho mas limpo. Depois, com as mãos trementes, tirou-lhe o vestido, e não pode deixar de reparar nas manchas sanguinolentas nas coxas, nem nas manchas roxas num dos seios. Despejou o tacho da água a ferver no alguidar, já mais de meio de água fria, experimentou a temperatura e agarrando na mão da neta disse:
- Vem. Não podemos lavar a alma, mas o corpo sim. Vais sentir-te um pouco melhor.
Ajudou-a a meter-se no alguidar e deu-lhe banho como se ela fosse uma criança. Depois, com imenso carinho, enrolou-a no lençol, enxugou-a  e enfiou-lhe a combinação de estopa grosseira. E ajudou-a a, a deitar-se na cama.
Rosa não chorara nem dissera uma única palavra desde que chegara a casa e a velha senhora começava a assustar-se.


continua

23.6.16

MANEL DA LENHA - PARTE XCIII


                                                      Foto do jornal Público

Aflitos  sem saber mais onde procurar, dirigiram-se à polícia.
O agente que os atendeu perguntou se ele não teria ido para a praia. Estávamos em Maio, e o dia tinha estado muito quente. Os pais não acreditavam. O garoto nunca fora a lado nenhum sozinho. A mãe, levava-o à escola, e ia buscá-lo. O agente tomou nota do caso, depois de perguntar os sítios que a criança costumava frequentar. Iam tomar providências. Mandaram os pais para casa, o garoto podia ter chegado entretanto.  O casal dirigiu-se a casa, e no caminho encontraram um grupo de gaiatos, mais velhos do que o seu filho, que vinham da praia. E entre eles, lá vinha o Pedro. Os outros miúdos mais velhos, eram da 4ª Classe, saíram mais cedo e desafiaram o Pedro para ir com eles para a praia. E aproveitando uma distracção da contínua, que acorrera a levantar do chão, uma chorosa criança  mais pequena, o Pedro saiu e foi para a praia com eles. 
Escusado será dizer que esteve de castigo mais de uma semana. Pais, avô e padrinhos nunca mais iriam esquecer a aflição daquela tarde.  
Por esses dias, aparece nas bancas um novo semanário. O Independente com direcção de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas.
A 25 de Agosto, nova tragédia atinge o País, desta vez no coração de Lisboa. O fogo devora o Chiado, em labaredas tão grandes que são visíveis na outra margem do Tejo.  Prédios e lojas, tudo fica reduzido a cinzas. Dois mortos e mais de quarenta feridos, além de vários prédios históricos destruídos, é o rescaldo do incêndio, que os lisboetas jamais esquecerão.
A reabilitação da zona, levaria cerca de 10 anos, mas as centenas de pessoas que perderam os seus empregos, e viram as suas vidas caírem no desespero, nunca foram ressarcidas.
Em Setembro começam os jogos olímpicos de Seul, que os portugueses seguiram na esperança de que a Rosa Mota trouxesse a medalha de ouro para Portugal. E ela não nos desiludiu. 
No dia em que Portugal comemora a implantação da República, um plebiscito no Chile, derrota Pinochet, e é o princípio do fim do ditador.
E a 14 desse mesmo mês, PS e PSD chegam a acordo para a revisão da Constituição.
Pouco antes do Natal, a família dispensa a empregada, que acompanhara a Gravelina nos últimos anos. Ela já faz a sua higiene sozinha, veste-se e calça-se. O marido faz as refeições, e para  a limpeza da casa, tem a mulher a dias que vem dois dias por semana. E se for necessário alguma coisa, os filhos dão uma ajuda. A despesa é muito grande, as reformas curtas, e se bem que é o filho quem paga o ordenado da empregada, eles não querem continuar a sobrecarregá-lo com esse encargo.