Miguel dirigiu-se à porta, abriu-a e encontraram-se num quintal. De um lado do muro, uma espécie de arrecadação com duas portas.
Do outro lado, um tanque e um estendal.
Miguel abriu a primeira porta dizendo;
- Aqui é a casa de banho.
E afastando-se deixou ver os azulejos cor de terra, que contrastavam com as loiças brancas. O lavatório, embutido num armário branco, encimado por um espelho e uma prateleira onde pontificavam alguns objectos de higiene pessoal, e num canto, um cortinado de riscas coloridas, servia para ocultar o chuveiro.
- Foi construído pouco antes da morte da avó. Como vê a casa tem mais de cem anos, e nessa altura, uma casa de banho era um luxo que poucas casas tinham. Quando herdei a casa podia fazer obras, mas venho aqui muito raramente, quase sempre nesta altura do ano, porque a luminosidade e os tons são mais belos nesta época.
A jovem fez um movimento de assentimento com a cabeça, mas não pronunciou uma palavra, sabe-se lá perdida em que labirintos interiores.
O homem abriu a outra porta e deixou à mostra duas grandes arcas.
-Contém o “enxoval” da avó. Toalhas, lençóis e outras coisas da casa. As roupas de vestir, doei tudo para um lar, depois da sua morte. Também não creio que alguma coisa lhe servisse – disse sorrindo.
A jovem continuava aparentemente ausente, e o homem interrogou-se sobre se seria capaz de levar a cabo, o que se tinha proposto, quando resolveu acolher a jovem.
- Agora que já conhece a casa, fique à vontade, eu vou comprar alguma coisa para o nosso almoço. Não quero deixá-la fechada, por isso prometa-me que vai esperar por mim.
A jovem não respondeu.
Miguel aproximou-se, e levantando-lhe o queixo, forçou-a a olhar para ele.
- Promete que me espera, enquanto eu vou comprar o nosso almoço?
Posso confiar em si?
- Promete que me espera, enquanto eu vou comprar o nosso almoço?
Posso confiar em si?
A jovem olhou-o com os olhos rasos de água e fez um movimento de assentimento com a cabeça.
Sentindo um nó na garganta, Miguel pegou nas chaves e na carteira e saiu batendo a porta, como se quisesse com esse gesto, afastar a emoção que teimava em assalta-lo.

