A terra , tinha evoluído muito nos últimos anos, devido à proximidade da praia e da serra, o que a tornava única para o turismo. Ela nunca fora muito apegada aos pais. A mãe era professora, e o pai médico, não dispunham de muito tempo para a filha, a quem não faltava nada material, mas faltava o carinho e atenção que uma jovem sensível como ela, necessitava.
Por isso estava sempre a sonhar com as férias em casa da avó, e talvez por isso se tivesse apaixonado como uma tonta por Hélder Figueiredo.
A avó recebeu-a com o carinho de sempre. Disse que estivera à sua espera para jantar, mas como se fizera tarde e precisava tomar a medicação a horas certas, já jantara. Mas o seu prato estava no forno.
A jovem levou a mala para o seu quarto, lavou o rosto e voltou para a cozinha. Sentou-se à mesa. Enquanto comia ia conversando com a avó. A certa altura disse:
- Não sabia que o teu vizinho estava cá. Vi-o na praia.
- Sozinho? – Admirou-se a avó
- Sim. Estava sentado perto das dunas com um cão.
- Deve ser um cão guia, - disse a avó
- Um cão guia? - espantou-se a jovem. - Para que quer ele um cão guia?
- Ora filha, para que é que um cego, há de quer um cão guia?
Deixou cair o garfo, o rosto sem cor.
-Cego? O Hélder, está cego? Desde quando?
- Não sei. Sabes há quantos anos não o via? Dez anos. Há dez anos que ele não vinha para cá, que não sabia nada dele, quando de repente há três meses, chegou uma carrinha cheia de homens e começaram a remodelar a casa toda. E depois na semana passada, ele chegou com o cão e um casal idoso e instalaram-se. Ainda não falei com ele, mas encontrei-me no talho, com a mulher que vive lá em casa, e conversamos. Disse-me que é a cozinheira, o marido é motorista, e percebe um pouco de jardinagem e o patrão é escritor e está cego.
-Muito amigas se fizeram para que te contasse tudo isso.
-Sabes como é, nestas terras pequenas. Depois eu confessei-lhe que o conhecia desde menino. E sabes que mais? Disse-me que veio para escrever um novo livro e que anda à procura duma secretária para lhe ajudar.



