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11.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VIII



Laura ficou na porta vendo o carro afastar-se, perguntando-se mentalmente porque tinha acedido ao convite que Fernando fizera a si próprio. Fechou a porta agradecendo a Deus que os pais iam chegar daqui a pouco e passar com ela a semana. Assim não teria de voltar a aceitar a visita diária do jovem.

 Não sabia o que se passava com ela, mas não se sentia bem na sua presença, ficava sempre inquieta, como se de algum modo a presença dele a incomodasse. E não devia ser assim, Fernando era o melhor amigo de Gonçalo, quase um irmão e durante toda a sua infância e adolescência, os três estavam sempre juntos, ora na casa deles ora na do Fernando, pois eram vizinhos e os seus respetivos pais amigos de longa data. Mas depois ela foi para a Universidade, conhecera Quim e afastara-se não só do vizinho, mas até da própria família. 

Foi como se os dois tivessem criado um mundo mágico, onde só existiam eles. Mais tarde após o casamento, com a ida para Lisboa essa separação foi ainda mais real.

 Apesar de Fernando continuar a ser um grande amigo de Gonçalo, Laura só o via ocasionalmente quando ia visitar o irmão, já que Fernando foi um grande apoio para Gonçalo após o grave acidente de mota, que quase lhe roubara a vida e o obrigara a longos meses de internamento hospitalar. 

Depois que o irmão recuperou, nunca mais o viu, até à morte repentina do marido.

Aí quando ela julgou endoidecer de dor, Fernando por vontade própria, ou a pedido de Gonçalo, esteve sempre lá, tentando apoiá-la com todo o seu conhecimento e amizade.

Esse apoio manteve-se na altura do parto e nos primeiros meses de vida do Miguel.

Mas um dia ela agradecera-lhe todo o apoio recebido até aí, disse-lhe que estava bem melhor e que desejava ficar sozinha com os filhos. Depois disso Fernando afastara-se e só voltaram a ver-se depois que o irmão encontrara Helena e a filha e começara a preparar o casamento.

Laura, não se lembrava bem de quando descobrira que Fernando tinha por ela um sentimento que nada tinha a ver com a amizade. Não que até à véspera, ele tivesse dito alguma coisa, mas se há coisa que não escapa a uma mulher é o desejo refletido no olhar masculino.

 A princípio ficou sem saber como proceder, o coração ainda cheio da imagem de Quim e da dor da sua ausência. Aceitara a companhia e ajuda de Fernando, como aceitara do irmão, ou dos pais. Nunca lhe passara pela cabeça que o amigo de infância pudesse ter por ela outro afeto que não fora uma amizade profunda de quem foi criado junto, quase como uma irmã.

 Tinha receio de magoá-lo, mas não podia fingir que desconhecia o que acabara de descobrir.  Por isso lhe pedira que não voltasse e ele afastara-se sem sequer tentar contestá-la. 

Talvez por perceber que não tinha qualquer hipótese de que ela viesse a corresponder ao seu sentimento.


11.6.20

ISABEL - PARTE XXII





A campainha tocou e a senhora levantou-se rapidamente. O coração dizia-lhe que era o filho. Abriu a porta e uns braços fortes levantaram-na e rodopiaram com ela.
- Pára filho. Pões-me tonta.
- E como está a mulher mais bonita do mundo? – perguntou Luís enquanto a punha de novo no chão
Parecia impossível que aquela mulher, pequena e franzina, pudesse ser a mãe daquele homem.
- Há quase quinze dias que não apareces nem dás notícias, - queixou-se a mulher. Tinha acabado de comentar com o teu pai, que afinal estares em Lisboa ou na Índia, para nós era a mesma coisa.
Entraram na sala e Luís abraçou o homem que se levantara ao vê-lo entrar. Foi um abraço forte emocionado que fez os olhos da mulher encherem-se de água. Era sempre assim quando se encontravam. Os dois grandes amores da sua vida.
Luís era fisicamente muito parecido com o pai. A mesma altura, embora o pai fosse mais magro. O desenho da boca, o queixo voluntarioso. Da mãe herdara os belos olhos cinzentos.
- Íamos jantar. Jantas connosco?
- Claro, mãe. Porque julgas que apareci a esta hora? - riu. - Não me apetecia jantar no hotel. E depois tenho novidades para vos contar.
- O casal trocou um olhar onde havia uma ténue esperança, mas nem um nem outro, se atreveu a dizer nada.
- Fiz hoje a escritura da minha casa. Já contratei um decorador. Dentro de duas semanas deve estar pronta. Depois vão lá conhecê-la, e retribuo o jantar.
  - Que bom filho. Fico tão contente. Estar num hotel é bom, em férias. Mas para viver é muito frio, muito impessoal, - disse a senhora. E acrescentou: - Isso quer dizer que estás a pensar assentar?
- Se por assentar, queres dizer, passar uma temporada em Lisboa, talvez sim. Se te referes às ideias do costume, digo-te já que não.
A mãe dirigiu-se à cozinha. Luís sentou-se no sofá, ao lado do pai, e encetaram uma animada conversa. Luís gostava da casa dos pais, admirava o amor que os unia, sentia-se bem entre eles, e mesmo quando andava em viagem, muitas vezes se surpreendia a pensar neles. O pior era a mania que a mãe tinha de querer vê-lo "arrumado".
A mãe voltou, chamando-os para a mesa.
 Foi um jantar animado. A senhora não se cansava de fazer perguntas, e quase não jantou, mais preocupada em olhar enlevada o rebento, ainda que o frango de cabidela estivesse uma delícia.
Duas horas mais tarde, Luís  despedia-se dos pais, prometendo telefonar em breve e regressava ao hotel. Pelo caminho veio-lhe à memória o inesperado encontro dessa tarde, e de súbito deu-se conta de um facto que o inquietou. Tinha-se apresentado como Luís. Esse era o nome do outro. Daquele que ele fora muitos anos atrás. Um nome sagrado que só os pais conheciam e usavam.





15.10.19

TI' JOÃO O DOIDO

reedição


Encontrava-me sentada na soleira da minha porta. Tinha por hábito sentar-me ali todos os dias à tardinha. Gostava de ver o sol esconder-se, lá longe, atrás do rio, que vinha espraiando-se até quase à minha porta. Gostava de ver os bandos de passarinhos que regressavam, sabe-se lá de onde, enquanto os grilos iniciavam os seus cantos, e as luzes começavam a aparecer do outro lado do rio. O sol desaparecera há pouco, deixando apenas um clarão avermelhado, sobrepondo-se ao azul do céu.
Ouvia-se o bater de remos na água. Chap...chap...chap...
Logo depois vozes fortes sobressaindo por entre o bater dos remos. Nestes rios de águas salgadas, afluentes de outros rios, abundam pequenos peixes, como a tainha, a boga, os chocos e xarrocos. Ao cair da noite, se a maré está cheia, os pescadores vão pôr "o cerco". Umas redes colocadas em círculo, presas por estacas. Quando a maré começa a vazar, todo o peixe que estava naquele perímetro tenta fugir e fica preso nas redes. Mais tarde, com a maré já vazante,, mas ainda com água suficiente para a navegabilidade dos botes, os pescadores recolhem as redes onde o peixe ficou preso. Às vezes meu pai deixava-me ir no bote para ajudar.
Nos finais de Outubro os dias são já mais curtos, pelo que a noite caiu rapidamente. Aos meus ouvidos chegou a voz de um grupo de homens que eu ainda não via, mas que se aproximavam e eu sabia bem quem eram. Os trabalhadores da quinta regressavam às suas casas falando alto como de costume. Falavam das dificuldades da vida, do dinheiro que faltava para cobrir as necessidades da mulher ou de um filho doentes. E falavam do tempo e do futebol. Sim o futebol era tema constante das suas conversas.
-Vamos ter chuva - dizia o ti 'António Moço que por ironia do destino era o mais velho dos trabalhadores
-Parece que sim, - retorquiu outro, e acrescentou. - Está mau este ano para secar o Bacalhau. Com este tempo de chuva que tem feito, nem o pessoal ganha nada de jeito, nem o patrão que o Bacalhau que se estraga só dá prejuízo.
- Pois sim Bernardino, mas nós ficamos sempre pior. Com os dias de chuva do mês passado, levámos mais de 15 dias sem trabalhar, e sem ganhar. E o pior é que comemos todos os dias.
-É verdade. Nem me quero lembrar disso. O dinheiro não chegou para pagar ao merceeiro. Isto de um homem levar um dia inteiro, de enxada na mão, exposto às condições do tempo e depois não ganhar para comer...
Passavam agora à minha porta. E foi nesse momento, que o Bernardino, mais inconsciente, talvez por ser o mais jovem, mudou o rumo à conversa.
Ó! Ti’António e que me diz à vitória do campeão no Domingo?
As vozes foram ficando cada vez mais longe e já não consegui ouvir a resposta.
- Olá pequena!
Olhei sobressaltada
-Olá ti'João, então só agora?
-É verdade. Estive ali sentado na muralha a ver os pescadores. Ah! Quem me dera ir com eles pôr o cerco. Mas isto é a vida. Enquanto um homem é novo, farta-se de trabalhar, chega a velho e pronto; não pode com as pernas, as mãos tornam-se inúteis e adeus, era uma vez um velho.
-Ora não diga isso ti'João, ainda não é tão velho assim...
-Não filha - interrompeu-me ele, - ainda não estou a morrer, mas olha que já faltou mais. Ah! Se o meu filho fosse vivo, outro galo cantava.
- Morreu em África não foi? -
- Morreu. E olhe que era um rapagão. Alto forte, moreno dos ares do campo e do mar. Não era por ser meu filho, mas levava a palma a qualquer rapaz cá da terra. Foi para a tropa, e em menos de um ano fiquei sem ele.
- Coitado - murmurei, e levantando a voz perguntei:
- Morreu na guerra?
-Sim. Oh! Malditas sejam as guerras que levam o sangue novo da humanidade. Veja lá a menina, se vale de alguma coisa a vida de um homem, na flor da idade e cheio de saúde, na frente duma metralhadora. Nunca foi doente, nunca sofreu de nada, sonhava casar-se, ter filhos…
Calou-se por momentos. E continuou em voz sumida como se falasse apenas para ele mesmo.
-Dizem que o meu filho foi um herói e deram-me uma medalha. Medalha! Bah! Que me importa a mim a medalha? Ela não me acarinha, não conversa comigo, quando à noite me vejo em casa sozinho, nem me dá o neto que me tornaria mais doce a velhice, -terminou num soluço rouco.
Passou-me pela memória o facto de lhe chamarem João, o Louco. É possível que estivesse doido sim, mas não se juízo e sim de dor.
-Vamos lá ti'João, acalme-se. Não remedeia nada com isso, e o seu filho não havia de gostar de vê-lo assim.
-Tem razão menina, mas que quer, às vezes parece que tenho umas garras no peito que me rasgam de alto a baixo. E penso, que para as guerras, só deveriam ir os velhos. E morrer lá todos. E connosco, os ódios e rancores para tirar toda a peçonha da terra. Talvez assim o mundo ficasse mais justo.
- Filha! Anda para dentro que já é muito tarde, - chamou minha mãe.
-Vou já, mãezinha, vou já.
- Vá sim menina, vá. Se calhar ainda não jantou, e já vão sendo horas. Eu também vou indo. Até amanhã.
- Até amanhã, ti' João - e fiquei-me a vê-lo afastar-se até que a escuridão da noite o tragou
- Com quem falavas tu há tanto tempo? - perguntou minha mãe
-Com o ti'João do Moinho.
-Ora valha-te Deus filha, se dás conversa a doidos.
Doido? 


Ontem passei junto ao rio, no lugar onde há muitos anos esteve a minha casa. E que saudades senti, da minha soleira, do cantar dos grilos, do pôr-do-sol, do bater dos remos na água, das conversas, dos homens do campo, e do pessoal da Seca. Saudades de uma juventude que se perdeu algures numa longínqua estação do tempo. E de repente pareceu-me ouvir a voz do ti'João. Não pude deixar de pensar que talvez em algum lugar, terá enfim reencontrado o filho e quem sabe hoje será feliz... 



Fim

15.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXV


Ouviu a campainha. Vestiu o casaco, pegou na mala, abriu a porta e saiu.
-Olá.- Disse ele, ao mesmo tempo que se inclinava e lhe aflorava a testa com um beijo breve.
- Foste pontual. Não me quero demorar.
- Não te preocupes, - disse abrindo-lhe a porta do carro.
- Onde vamos?
-A minha casa.
“Mau. Se ele pensava em levá-la para sua casa no intuito de uma tarde na cama, nunca lhe perdoaria”
- Não te preocupes. Confia em mim.
Era como se ele tivesse adivinhado os seus pensamentos. Chegaram a um luxuoso condomínio. Um segurança, abriu o portão e o carro rolou até se deter em frente de um bonito edifício de dois pisos.
Ajudou-a a descer, e conduziu-a pelo braço até casa. Abriu a porta, e desviou-se para lhe dar passagem. Quase de uma forma inconsciente fechou a porta com o calcanhar. Teresa, não se atrevia a falar. Deixou que lhe despisse o casaco, e a conduzisse à sala.
Pegou num comando e fez correr o reposteiro que cobria a enorme janela, inundando a sala de luz. Ela viu que estava numa divisão de grandes dimensões. Reparou na parede coberta de livros, atrás de um dos sofás. No móvel bar, e na brancura dos enormes sofás. Em frente de um deles, uma mesa de vidro. Sobre ela um par de ténis de criança, e um álbum.
- Senta-te Tê. Trouxe-te aqui para te mostrar algo, que nunca pensei mostrar a ninguém.
Sentou-se e ele sentou-se a seu lado. Pegou no álbum, abriu-o e entregou-lho.
Ela viu vários recortes de jornal. Eram muito antigos. Leu o primeiro.
Relatava um crime. Uma mulher vítima de maus tratos, matara o marido. E tinha uma foto de um homem estendido no chão. Leu outro. Falava do mesmo crime. Sem compreender o que se passava, virou a página. E viu mais recortes. Com ligeiras variantes, mais ou menos sensacionalistas, os recortes traziam todos a mesma notícia.
Numa delas havia uma foto de criança. Dizia-se que era o filho do casal, que devia ser enviado para numa instituição estatal.  Numa outra dizia-se que a mulher aguardava julgamento em prisão preventiva, e que o filho fora acolhido por uns tios.
Sem saber o que pensar olhou para Rui.
- Eram os meus pais. Eu sou essa criança.- Disse com voz rouca.
Sentiu-se zonza. Como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O que viu nos olhos do homem, era terrível. Estendeu a mão e colocando-a sobre a masculina, apertou-a suavemente. Ele continuou
 - Por mais que me esforce, não me recordo de ter visto algum dia o meu pai sóbrio. Em contrapartida sempre me lembro de ouvir os seus gritos e o choro da minha mãe, quando ele lhe batia.

2.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XIV (ADENDA)


Boa tarde, amigos, gente do meu chão. 
Fui hoje a nova consulta e pela primeira vez desde Fevereiro, a minha córnea teve melhoras significativas. O Professor disse mesmo que melhorou mais durante o mês de Julho do que de Fevereiro a Julho, pelo que decidiu que continue o tratamento durante este mês. Volto à consulta no dia 27 de Agosto e aí já me deve marcar a data para a nova cirurgia. 
O marido Graças a Deus está a recuperar bem, embora ainda mostre alguma debilidade, a visão ainda não esteja totalmente bem, e tenha alguma dificuldade em pronunciar algumas palavras. Mas é um guerreiro e tenho fé de que vai ficar bom. E hoje acompanhou-me à consulta.
Muito obrigada a todos pelo apoio que me têm dispensado. Que Deus vos abençoe.








Abriu a porta, mas se esperava surpreender a mulher que estava sentada atrás da secretária enganou-se. Ela levantou o olhar mas não demonstrou nenhuma surpresa. Era como se já estivesse à sua espera. Bem dadas as circunstâncias, talvez fosse previsível que ele a procurasse, mas havia alguma coisa que não batia certo.
Lembrou do olhar da sua secretária. Era isso. Ela fora avisada da sua visita.
- Precisamos conversar.
- De trabalho?  – Perguntou tentando manter-se o mais calma possível.
- Também. Mas não só.
- Só de trabalho. O resto não te interessa.
- Porque julgas que não me interessa?
- Deixaste-o bem explícito há muito tempo Rui. Ah! Desculpa, se me enganei no nome. É que tinhas-me dito que era o teu nome. Não sabia que até nisso mentias.
- O meu nome é Rui Mário. Só mais tarde abandonei o Rui…
- Devia ter imaginado algo assim. Afinal és perito em abandonos.
- Não penses que não me arrependi, Tê.
Parecia sincero, mas ela não acreditava nele. Nunca mais acreditaria nele.
- E foi por isso que voltaste, que me procuraste por todo este tempo, até me teres encontrado? – Perguntou irónica.
-Se te dissesse que tinha voltado, para te procurar desesperado, estava a mentir, e não gosto de mentiras. Mas se te disser que nunca te esqueci, e que muitas vezes sonhei voltar a ter-te a meu lado, juro que é verdade, Tê.
- Não me chames Tê. Não to autorizo. E por favor se não tens nenhum assunto de trabalho, podes sair.
- Muito bem. Trataremos dos nossos assuntos, outro dia, noutro local.
- Não haverá outro dia, como não há nossos assuntos.
Estava verdadeiramente irritada.
- Sempre ficaste linda quando te irritas, quase tanto como… - murmurou ele com uma entoação que penetrou nas recordações dela, como um estilete. Depois, como se não se tivesse dado conta da emoção que tinha provocado, continuou. – Falemos então de trabalho. Há quanto tempo estás na empresa?
- Há quase seis anos, - respondeu, ainda inquieta pelas recordações que lhe assaltaram o espírito
- Então suponho que conheces praticamente todos os empregados, mesmo os que foram admitidos antes de tu cá estares.
- Sim
- E utilizas para admissão de pessoal o método?
- Gestão por competências.
- Muito bem. Posso ver os mapas?
- Claro
- Levantou-se. Vestia uma saia justa, azul escura que lhe moldava cada curva do corpo. Uma blusa de seda azul-bebé que lhe realçava os seios arredondados.
O homem semicerrou os olhos. Como fora possível ter tido aquela mulher e abandoná-la? Porque deixara que a ambição comandasse a sua vida? 
Ela tirou uma pasta da estante. Abriu-a sobre a secretária, e durante o resto da tarde, examinaram mapas e mensurações por competências de vários funcionários, a começar pelas chefes de secção, com quem se tinha reunido nessa  manhã.

9.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLIV

Boa noite, amigos. O estado do meu marido, continua estável e ele continua a fazer exames. Hoje está a fazer registo de Holter, fez vários testes neurológicos e falei com o neurologista que me disse que continuam à procura do que pode ter causado o AVC. Disse que vai continuar a fazer exames esta semana e dia 12 vai fazer uma ressonância a Lisboa. Também me disse que amanhã vão tentar levantá-lo e que vai ser visto por um colega de fisioterapia.
É tudo por hoje. A minha eterna gratidão para vós.


Artur já a esperava junto à porta quando saiu. Cumprimentou o amigo, e sentou-se a seu lado, apertando o cinto de segurança.
-Os meus parabéns – disse ele
- Obrigado. O Artur conhece o Ricardo há muito tempo? – perguntou
- Quase desde sempre. Morei durante quinze anos no mesmo andar que os seus pais. Quando fui para lá viver ele devia ter uns três ou quatro anos. E depois disso sempre estive mais ou menos em contacto com ele, exceto os anos que esteve em Angola.
-Então conheceu a primeira mulher dele?
-Claro!
- Estiveram casados muito tempo? Eram muito apaixonados? Como era ela?
- Porquê todas essas perguntas agora?
- Curiosidade. Ele nunca fala do seu passado. Não sei nada dele, até ao dia que me apareceu em casa.
- E isso é mau?
-É como se eu não tivesse qualquer importância para ele.
- Posso garantir-lhe que isso não é verdade. Às vezes há coisas que por muito dolorosas, ou estúpidas, um homem tem vergonha de contar. Isso, nada tem a ver com os sentimentos dele por si.
- E esse é o caso dele!
Não era uma pergunta, mas uma constatação.
- É. O que aconteceu com ele foi cruel e doloroso. Cabe-lhe a si fazê-lo esquecer, se é que já não esqueceu.
Tinham chegado à porta do prédio onde vivera até há meia dúzia de meses.
- Pode descer Isabel, eu vou ver se arranjo lugar para estacionar o carro.
A jovem desceu, abriu a porta do prédio e como tantas vezes fizera ao longo dos anos, bateu com os nós dos dedos na porta da amiga. Natália abriu a porta, e Matilde estendeu os braços para ela, feliz com a surpresa.
-Já comeu quase há uma hora, mas como ouviu que a Isabel vinha almoçar, cismou que a mãe ia deitá-la e não consegui fazê-lo.
Isabel pegou-lhe ao colo e depois de a beijar, ralhou:
- Sua marota! Vamos lá fazer ó-ó, senão logo os avós não a levam ao parque. Mas primeiro tens que fazer xixi!
Colocou-a no chão, e a menina encaminhou-se para o bacio atravessado na entrada de casa de banho. Puxou para baixo os calções e sentou-se.
- Muito bem! - aprovou a mãe.  
Esperou que ela urinasse, limpou-a e levou-a para o quarto. Deitou-a, deu-lhe um beijo e colocou o lençol por cima dela.
- Agora a Matilde vai fazer um soninho muito bom e depois do lanche vai ao parque. A mãe vai almoçar e depois vai trabalhar outra vez
 Fechou a porta suavemente e encontrou os amigos a conversar na cozinha.
- Vamos almoçar? – perguntou Natália. – O tempo passa a correr daqui a pouco já passou a sua hora de almoço.
- Vou só lavar as mãos e já volto!




26.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIII







Chegou uns minutos depois.
- Desculpem. Atrasei-me um pouco. Vou só lavar as mãos, volto já.
O almoço decorreu animado. Matilde, queria saber tudo, fazia muitas perguntas.
Simão respondia brincando com a irmã. Os pais sorriam felizes, e Ana comia calada. Sentia-se marginalizada. Porque é que o irmão, não tinha sido assim simpático com ela, como o estava sendo com Matilde?
Acabado o almoço, o pai voltou para o escritório. A irmã, que tinha combinado ir ver uma casa com o noivo, despediu-se dizendo que iria à noite ao aeroporto.
Simão, também se aprestava para sair, quando ela disse:
-Espera. Quero falar contigo.
A empregada, levantava a mesa, e a mãe que se dirigia para a sala, disse.
- Porque não vão para o escritório do pai? Lá podem conversar à vontade.
Nenhum dos dois respondeu, mas Ana encaminhou-se para o escritório, e ele seguiu-a.
Ela entrou e aproximou-se da janela. Ele fechou a porta e apoiou nela as costas.
Semicerrou os olhos. Como era linda. Assim, vista na contraluz da janela, era como uma aparição.
Decorreram uns momentos de espera até que ela se voltou. Estava zangada. Ele sabia. Conhecia-a, como se conhecia a si mesmo. Escondeu as mãos nos bolsos, para que ela não se desse conta dos punhos cerrados, quando se aproximou.
- Vais ficar aí especado sem dizer nada? A porta não cai.
- Eu? – Procurou parecer indiferente. - Estou à espera. Afinal foste tu que quiseste falar comigo.
- Vais-te embora hoje e não me dizias nada. Soube pelo pai. -  queixou-se ela.
- Não tinha que te dizer, Ana. Sabias que ia estar poucos dias, tenho uma exposição na próxima semana. Tens a tua vida, a tua casa, que nem sei onde fica, não ia ao escritório para to comunicar. Além disso, supus que o pai o fizesse.
- Não é desculpa, Simão. Os telefones também servem para as pessoas se comunicarem. E não me venhas dizer que não sabias o número. Qualquer pessoa desta casa, to daria.
Era verdade. Ele sabia que lho devia ter comunicado. Porém preferia partir sem se despedir dela. Era menos doloroso. E só ele sabia o quanto lhe doía.  

reedição

Amanhã vou estar fora em visita de estudo. Desculpem a ausência

20.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE III




Francisca ficou uns momentos indecisa, olhando a porta fechada. Naquela manhã de Sábado, tomavam o pequeno-almoço, quando Ana chegou. Era sempre assim. Ela e o pai, trabalhavam juntos no mesmo escritório, mas quando a filha queria falar das suas coisas, procurava o pai em casa. Tinham-se encerrado no escritório, e Afonso continuava lá após a saída da filha. Sabia que ele não gostava de ser interrompido quando lá estava. Tinha-lho dito há quase vinte e cinco anos, logo após o casamento, e ela sempre respeitara essa regra. Mas também sabia que naquele momento, se estaria a debater com sentimentos contraditórios, e a precisar dela. Pousou o livro e levantou-se. Alisou a saia justa que lhe moldava o corpo, ainda esbelto, passou a mão pelos cabelos e dirigiu-se ao escritório.
Deu uma pancada com os nós dos dedos na porta e girou o puxador.
Afonso, levantou a cabeça quando a porta se abriu e viu Francisca, na ombreira esperando um convite para entrar. Esboçou um sorriso.
- Entra. Que milagre te traz aqui?
- Pensei que precisavas de conversar, -disse ela sorrindo.
Ele levantou-se, colocou-lhe um braço à roda da cintura e conduziu-a até ao sofá.
-Já sabes, a última da Ana?
Assentiu com um movimento de cabeça.
-Desorienta-me. Não sei o que se passa com ela. Profissionalmente é uma excelente advogada, capaz de competir com os melhores do país. Mas na vida pessoal é um desastre. Gostava de vê-la casada. Três vezes anunciou que ia casar, para desistir pouco tempo depois. Não é como os irmãos. Não sei a quem sai. Tu não és assim.
- Não tem de ser como eu, - disse com suavidade, ao mesmo tempo que a sua mão tocou o rosto do marido numa terna carícia. Não sou a sua mãe biológica.
- Mas és a única que ela conhece. E depois, Olga também não era assim.
- Não te preocupes. Ela ainda não conheceu o amor. Quando o conhecer casará e será muito feliz, vais ver. Não podes pressioná-la. Um casamento sem amor é um inferno em vida.
-Mas se estava  tão entusiasmada com o Paulo, algum encanto lhe achou. E o amor também pode nascer depois do casamento. Connosco foi assim.
- É demasiado arriscado. É como voar num trapézio sem rede. Nós arriscamos por causa das crianças. Pensa, ter-te-ias casado com uma desconhecida, se não precisasses dela para criar as miúdas? Claro que não. Eu também não o teria feito, se não fosse por igual motivo. O destino foi bom connosco. Apaixonamos-nos e somos felizes. Mas imagina que isso não tinha acontecido? Ou pior, que um de nós se tinha apaixonado por outra pessoa? O que teria sido a nossa vida? Ana é jovem, não tem filhos nem necessidades materiais. Não tem porque correr esse risco. É melhor ter acabado agora, do que meio ano depois de um casamento desastroso, com um divórcio que acarreta sempre sofrimento.
Afonso segurou-lhe o rosto, entre as mãos, mergulhou os seus olhos no olhar cálido da mulher.
- És sempre tão doce, tão sensata. Não sei o que faria sem ti.
Sem desviar o olhar inclinou-se para ela e os seus lábios buscaram a boca feminina.

reedição










18.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XIX

Cerca das dez e meia, Adélia bateu à porta. Uma, duas vezes. Como ninguém abriu, pensou que a casa estava vazia. E como tinha a chave abriu a porta. A primeira coisa que viu, foi a porta do quarto, aberta, logo pensou que a tal jovem já estava acordada e decerto tinha saído com Miguel.
Dirigiu-se à cozinha, e nesse momento a porta da casa de banho abriu-se e Adélia viu a jovem. Deveria ter acabado de tomar banho, vestia um robe branco e tinha enrolada uma toalha em volta da cabeça, como se fora um turbante. Estacou surpreendida com a intrusão de uma estranha lá em casa.
A mulher apressou-se a dizer:
-Bom dia! Sou Adélia, e venho fazer a limpeza da casa. Estive cá de manhã, mas o Menino pediu para não fazer barulho, para não a acordar e por isso fui embora. Voltei agora. Como bati e não me abriram a porta, pensei que tinham saído.
- Bom dia, Adélia. Quando acordei, o Miguel já não estava em casa. Mas ele já me tinha falado de si. Fique à vontade. Decerto conhece melhor a casa do que eu. Vou trocar de roupa.
Dez minutos passados, Adélia dirigiu-se ao quarto, com roupa limpa para a cama. Viu que esta se encontrava arrumada e disse:
- Não precisava, ter feito a cama. Costumo mudar a roupa sempre que venho fazer a limpeza. E se a menina tiver roupa para lavar, ponha no cesto que está ao pé do tanque. Eu depois levo e meto tudo na máquina. Trago já passada a ferro.
 Calou-se. Se esperava que a jovem respondesse enganou-se. Ela continuava no sofá, com um livro nas mãos, mas Adélia teve a nítida sensação, que não lia. Parecia ausente.
Pouco depois insistiu:
-Sabe, a minha máquina, foi o Menino Miguel, quem ma ofereceu o ano passado. Antigamente eu lavava a roupa aqui mesmo, no tanque do quintal.
A jovem não respondeu e Adélia acabou por desistir da conversa.
Miguel dissera que a jovem estava doente. O que teria ela? Não parecia doente. Talvez estivesse um pouco magra de mais. Mas isso agora parecia moda. A gente nova estava cada dia mais esquelética. Enquanto prendia o lençol, deu uma breve mirada para a jovem. Parecia ausente. Talvez até nem a tivesse ouvido.  Terminou de arrumar o quarto, enrolou a roupa suja e com ela nos braços, parou na sala, bem em frente da jovem.
-A menina já comeu? Quer que lhe prepare alguma coisa?
A jovem olhou-a com estranheza. Como se regressasse de um lugar distante.
- Não tenho fome.
-Ó menina, mas precisa comer. Vou buscar um copo de leite.
-Não. Leite, não. 
-Então, trago-lhe um sumo?
-Pode ser. Obrigado



20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXVIII


Apesar de Jorge não ter levantado a voz, nem parecer alterado, aquela ordem continha tal força, que o filho não se atreveu a contestá-la. Levantou-se e seguiu o pai até ao escritório, parando à porta, ao ver Jorge abria uma gaveta que que habitualmente estava fechada à chave. 
- Entra. Fecha a porta e senta-te. Quero que vejas uns documentos.
Sem saber que pensar, o jovem obedeceu.
-Lê isto, - disse o pai estendendo-lhe a certidão do seu primeiro casamento.
Ele leu o documento e devolveu-o sem saber o que pensar.
- Antes que comeces a pensar noutra enormidade, a meu respeito, aqui tens o registo do divórcio, e devo dizer-te que a tua mãe, sabia que eu era divorciado quando aceitou casar comigo.
-Não sabia. E não entendo porque me mostras isto agora. 
-Serás capaz de entender, se te disser que a jovem com quem me viste, é filha da minha primeira mulher, e nasceu cinco meses após o divórcio?
Cláudio levantou-se e encarou o pai.
- O que é que estás a querer dizer-me? Que essa mulher é tua filha? E como é que nunca nos disseste nada?
- Eu próprio não sabia. Natália escondeu-me que estava grávida, e como foi viver para Lisboa, eu nunca soube. Quando ela morreu, a filha encontrou esses documentos e resolveu procurar-me. Queria saber se eu era o seu pai, e embora eu tivesse a certeza que o era, desde que me disse a data do seu nascimento, ela insistiu num teste de paternidade. Fui buscar hoje o resultado. Aqui tens.
O jovem leu o teste que provava que Helena Trindade era filha de Jorge Noronha. Envergonhado estendeu o documento ao pai.
- Onde é que ela está?- Perguntou sem se poder conter.
- Voltou à sua casa em Lisboa. Mas espero trazê-la em breve para cá. Tão depressa conte à tua mãe. O que me dói, é saber que conhecendo-me há mais de vinte anos, e depois da nossa conversa naquela noite, foste capaz de  me julgar como um ser, imoral e sem sentimentos, que abandonava a mulher doente em casa e saía para encontros amorosos, ainda mais, com uma miúda. Estou muito dececionado contigo.
- Desculpa pai. Fiquei cego de ciúmes. Lembras-te da jovem que conheci em Coimbra? A mulher por quem me apaixonei e que me deixou com uma carta de adeus? Era ela, a Helena.
- Helena, a minha filha?- Desta vez era Jorge que se mostrava surpreendido. Que coincidência. E continuas apaixonado?
- Que te parece? Não me apetece comer, durmo mal, penso nela a toda a hora e até há  minutos, tinha vontade de te esganar, por julgar que eram amantes.
-Postas as coisas assim, não tenho dúvidas, de que estás apaixonado. Mas lembra-te que para uma relação ser feliz, o amor tem que ser recíproco.
- Tenho a certeza de que não lhe sou indiferente. Mas ela tem medo, não sei se de mim ou do próprio sentimento que lhe despertei.
- O meu casamento com a mãe dela, falhou por causa desse medo, e de um ciúme exacerbado. Para felicidade de ambos, oxalá Helena, não tenha herdado isso da mãe. E agora? Que pensas fazer?
- Agora, enquanto o vinho não terminar a fermentação e não fizermos a trasfega para os barris onde vai envelhecer, não posso fazer nada. Mas logo que a operação termine gostava de ir buscá-la a Lisboa. Mas tens que contar à mãe, o mais depressa possível.
-- Conto fazê-lo depois de amanhã. Faz um mês que foi operada, o médico deve dar-lhe alta. A enfermeira diz que ela está bem, já não preciosa de cuidados especiais, a não ser claro os esforços físicos. Mas quero confirmar com o médico. Agora o melhor é ir para a cama que já é tarde. Boa noite, filho.
- Boa noite, pai. E perdoe-me.
- Não há nada a perdoar. Provavelmente no teu lugar, pensaria o mesmo. 




11.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE VIII



Gabriel, que até aí permanecera em pé, sentou-se a seu lado. Apesar de toda a  sua fama de homem sem escrúpulos, Gabriel não gostava de ver uma mulher a chorar.  
Sentia-se atordoado. Primeiro tinha sido a surpresa, de descobrir que a sua insignificante secretária era a lindíssima bailarina. Depois a ideia de que havia alguma coisa por trás daquela insólita atitude, e agora aquela confissão. Nunca se sentira tão desconcertado. Principalmente porque sentia um estranho desejo de abraçá-la, e confortá-la. Por outro lado, sentia-se enganado, enraivecido e com vontade de denunciá-la à polícia.
- Toma. Enxuga esse rosto, e vamos embora. Precisas ir buscar alguma coisa lá dentro?
- Não. Só trouxe a bolsa e tenho-a aqui. 
-Ótimo. Espera aqui por mim, vou só despedir-me do casal com quem vim. 
Levantou-lhe o queixo obrigando-a a fitá-lo.
- Não te passe pela cabeça fugir. Estou tentado a confiar em ti. Não me faças acreditar, que todo esse choro foi fingimento. Acredita que posso ser muito pior do pensas que sou, se descobrir que me tentas enganar..
Afastou-se. Encontrou os amigos no bar, desculpou-se com uma dor de cabeça, o que fez o amigo soltar uma gargalhada, sinal evidente de que pensava que ele tinha arranjado companhia, e voltou ao jardim.
Encontrou-a exatamente no mesmo lugar, os olhos vermelhos, o olhar perdido. Uma tal expressão de sofrimento que o deixou atônito.
Ajudou-a a levantar-se, e caminharam juntos até ao estacionamento.
- Trouxeste o carro?
-Não. Vim com a Inês.
Abriu a porta do carro.
-Entra. Vamos conversar como dois adultos. Na tua casa, ou na minha, tu escolhes.
- Num lugar público.
- Não. Ou confias em mim, ou não. E se não confias, também não tem qualquer interesse o que tenhas para me dizer. De qualquer modo vou levar-te a casa, se me disseres onde moras.
Ela disse-lho e ele dirigiu em silêncio até à porta. Ela também se manteve em silêncio, perdida nos seus pensamentos. Não sabia se podia confiar nele. Mas sentia-se tão cansada!
- Chegamos.
Ele estacionou, saiu e deu a volta ao carro. A jovem continuava absorta, como se estivesse ausente. Ele abriu a porta e estendeu-lhe a mão. Voltou a sentir uma impressão estranha. Raios, tinha razão para estar zangado, ela acabara por confessar que estava na empresa para o espiar. No entanto passado o choque inicial, e principalmente depois que a vira chorar, sentia  a sua raiva amolecer.  Ouviu-se a dizer:
- Queres deixar para amanhã? Deves estar cansada!
- Não. Se tenho que o fazer, quanto mais depressa melhor.
Pegou nas chaves, mas sentindo as mãos trementes estendeu-lhas:
- Por favor, abra o senhor!

4.7.17

ROSA - PARTE V


Dois dias depois, Rosa estava na cidade grande. Quase sem dinheiro, o ourives dissera que os brincos não valiam grande coisa, e pagou por eles tão pouco que quase nada sobrara depois de comprar o bilhete para a capital.
A cidade era enorme e ela não sabia para onde ir nem o que fazer. Caminhou por uma rua, tão grande que era maior que a sua aldeia, batendo a todas as portas, pedindo trabalho. Mas as pessoas olhavam-na de alto a baixo como se ela não regulasse bem da cabeça e fechavam-lhe a porta na cara. Algumas até lhe acicatavam os cães. Realmente o seu aspeto não era muito agradável. A saia castanha de casimira até ao tornozelo estava bastante amassada da longa viagem de comboio, a blusa de pano-cru, com uma gola redonda, em cuja orla a avó fizera um enfeite, estava enxovalhada, as tamancas de madeira e couro e a cesta de vime escuro, onde transportava algumas peças de roupa, completavam a sua indumentária.
Faminta e cansada, sentou-se num banco de um jardim sem saber o que fazer ou para onde ir.
Pouco depois, uma mulher de meia-idade sentou-se a seu lado no banco e meteu conversa com ela. Perguntou-lhe o nome, a idade, se estava sozinha em Lisboa, se não tinha família.
Desorientada e carente, Rosa contou de onde viera, falou da morte da avó, única parente que tivera até aí, do seu desejo de arranjar trabalho, afinal a cidade era tão grande, tinha tanta casa, mal haveria de ser, que ninguém precisasse de uma criada. E ela sabia fazer tudo menos comida, que nunca cozinhara e só sabia fazer chá.
Depois de a ouvir, a mulher disse que tinha trabalho para ela. Era só acompanhá-la até à sua casa.
Rosa sentiu que lhe nascia uma alma nova, quase teve vontade de abraçar a mulher.
Quando lá chegaram, esta levou-a para um quarto como Rosa nunca tinha visto. Era espaçoso, tinha uma grande cama de casal, coberta por uma colcha adamascada em tons de vinho, reposteiros do mesmo tecido, duas mesas-de-cabeceiras e um armário com as portas em espelho de alto-a-baixo. Ao lado uma porta. A mulher abriu a porta e Rosa viu um quarto de banho parecido com aquele que tinha visto na casa grande lá da aldeia. A mulher disse-lhe para se lavar e vestir as roupas que estavam no armário. Deviam ser mais ou menos do seu tamanho.
- As tuas não servem. Não se usam na cidade nem fazem jus à tua beleza. Daqui por meia hora, venho buscar-te para o jantar.



Continua

Nota:  Parece que esta história tem escandalizado alguns leitores. Pois, ela não é uma história delicodoce  como algumas que escrevo e tanto vos agradam. É uma história de vida, de uma mulher do povo, entre os anos trinta e setenta do século passado. E antes que me perguntem, se a história é verídica, digo-vos que não, mas que há nela muita veracidade. As pessoas da minha geração sabem de muitas, Rosas, Marias, Joaquinas, etc que existiram neste país. É também um pouco da história deste país, noutros tempos, que eram bem mais difíceis do que os actuais.



5.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XVII







Enquanto terminava a maquilhagem, Daniela pensava em tudo o que lhe acontecera desde que conhecera David. A raiva que a tomara, de início, foi substituída por um sentimento que ela ainda não sabia bem como definir. O que sabia, é que o seu corpo entrava em ebulição quando ele estava perto, e que desde o dia em que quase se beijaram no escritório, que ela vivia a sonhar com os seus beijos. Sabia que se estava a meter num terreno perigoso, mas não lhe importava. Tinha quase trinta e dois anos, era uma mulher adulta. Sabia que não podia sonhar com o casamento, mas também não ia levar o resto da vida, em abstinência total. David agradava-lhe, e percebia que ele também a desejava. O único problema era o facto de serem sócios. Misturar o trabalho com uma aventura, não ia dar certo, ela sabia-o.
Acabou de se arranjar no momento em que a campainha tocou. Abriu a porta, e saiu.
-Estás linda!
-Obrigada.
-Tens algum sitio especial onde queiras ir? – Perguntou-lhe enquanto punha o carro em marcha.
 - Não. Escolhe tu.
Levou-a para um restaurante à beira-mar.
- Um local muito bonito. Costumas vir aqui muitas vezes?
- Algumas. Não conhecias?
- Não.
- Enquanto esperavam ser atendidos, ele pegou-lhe na mão e pediu num sussurro.
- Fala-me de ti.
- Não é um tema interessante.
- Isso, sou eu quem decide.
- Bom. Fui uma criança feliz, mimada pelos pais e pelo Daniel que tem mais três anos do que eu, e que até à minha entrada para a faculdade sempre foi muito protetor. Cursei contabilidade e gestão de Empresas, porque sempre me fascinou a ideia de vir a gerir o negócio da família, tanto mais que o meu irmão, se direcionou para a medicina e desde muito novo mostrou a sua vocação para se por ao serviço dos mais necessitados. Não fora a doença do nosso pai, e já há muito tinha ido para África.
Calou-se enquanto o empregado tomava nota do pedido.
-A minha mãe morreu quando entrei para a faculdade. Cancro no peito. Era ainda jovem e morreu em seis meses. Senti muito a sua falta. Nessa época conheci o Filipe. Era simpático, bonito, e foi um grande apoio, para a minha dor. Casamo-nos dois anos depois. O casamento não foi o que esperava, e ao fim de quatro anos, o divórcio foi a única solução.
A doença do meu pai, não me deixou tempo para carpir mágoas. O meu irmão não queria ouvir falar da fábrica, e o pai já não conseguia continuar. Comecei a trabalhar a seu lado, mas em breve, ele teve que ser hospitalizado e pouco tempo depois morreu. E é tudo.



29.5.17

JOGO PERIGOSO -PARTE X


Ouviu-se de novo a pancada na porta, e à sua ordem de entrada, Rita abriu a porta e deixou passar Glória.
Era uma mulher alta, magra e muito bonita. Uma das modelos que no ano anterior tinha participado no catálogo e que pouco tempo depois se tinha convertido em sua amante.
Aproximou-se, como se estivesse desfilando, deu a volta à secretária e exclamou enquanto o abraçava.
- Que se passa amorzinho, não tens aparecido, não telefonas…
Afastou-a sem violência, mas com firmeza.
- Senta-te Glória, precisamos falar.
Esperou que ela se sentasse e depois fez o mesmo recostando-se na cadeira, sem que lhe passasse despercebido o cruzar das pernas, com que ela o presenteou. Procurou uma desculpa.
- Sabes que não disponho de muito tempo livre.
-Sei. Mas antes tinhas sempre tempo para mim…
- Antes, tinha mais tempo. Acabei de comprar uma nova fábrica. Estou demasiado ocupado. Compreendo que és jovem, bonita, e que mereces gozar a vida. Será melhor que não te prendas comigo.
- Quer isso dizer que estás a correr comigo?- Perguntou os olhos faiscantes de raiva. Quem é ela? Uma nova modelo? Foi por isso que não quiseste que participasse neste catálogo?
- Nada disso, Glória. Não tenho ninguém, acredita. Quero que sejas feliz, e eu não tenho tempo, nem estou preparado para uma relação séria.
- Não acredito. Por tua causa rejeitei um bom contrato, que me podia levar até ao Japão. E agora corres comigo.
- Lamento. Posso ajudar-te até teres um novo contrato, e mover as minhas influências para conseguir-to rapidamente.
Estendeu a mão, pegou num cheque, que tinha em cima da mesa e estendeu-lho. Ela estava furiosa, e preparava-se para uma discussão, mas um rápido olhar ao cheque, acalmou-a. Um lampejo de gozo perpassou pelo olhar masculino. Ela pegou no cheque, dobrou-o e meteu-o na mala. Não agradeceu. Limitou-se a dizer:
-Espero que me consigas um bom contrato em breve.
Voltou-lhe as costas e saiu deixando a porta aberta. Rita assomou à porta, e sorriu:
-Foi dispensada? Pensava que desta vez, tinhas sido apanhado. É muito bonita.
- Tão bonita, quanto oca. Bom, põe-te em contacto com a Lanvin em Paris, e vê se o meu amigo Louis Courtney, está.
- Tens pressa em despachá-la para longe?
Ele não respondeu