Vivaldi Verão
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25.6.22
19.8.20
CILADAS DA VIDA - PARTE XXI
Teresa levantou-se cedo nessa
manhã, embora não tão cedo como antes de ficar grávida, quando chegava à
pastelaria antes das cinco da manhã.
No dia anterior, quando
chegara a casa extremamente nervosa por todas as emoções que sofrera desde o
momento que entrara no Centro Médico até à altura em que abandonou o parque da
TecnInformática, depois da longa conversa com o empresário, tomara um duche,
vestira um curto pijama de algodão e bebera um copo de leite. De seguida
estendera-se no sofá para um curto descanso e adormecera. Quando acordou, eram
quase dez da noite.
Embora sem fome, mas pensando
no bebé fez uma refeição frugal, e foi para a cama. Porém, ou por causa das
horas que tinha dormido anteriormente, ou porque só naquele momento conseguisse
racionalizar o que lhe acontecera, levou horas para adormecer, e o pouco tempo
dormido foi cheio de pesadelos, em que se via a ter o seu filho e quando depois
do nascimento pedia que lho mostrassem, a enfermeira ria-se e dizia-lhe que o
bebé não era seu, e que já o entregara ao pai.
Acordou transpirada e aflita.
Tomou o duche, secou os cabelos, que prendeu numa trança e vestiu-se. Correu a
persiana e abriu a janela para arejar o quarto. O céu mostrava um azul
brilhante e sem nuvens e o ar era ameno.
-Outro dia de calor
insuportável – murmurou
Olhou o relógio. Seis e um
quarto e o sol já nascera. Os longos dias de Verão, eram a sua paixão, embora o
calor infernal dos últimos dias a fizessem recordar com saudade os meses amenos
da Primavera.
Enquanto tomava o pequeno
almoço, recordou mais uma vez, a conversa com o empresário. Surpreendera-a. Depois de tudo o
que lhe tinham dito, julgara-o um homem arrogante e convencido, inflexível na
sua decisão de ir para a justiça e mentalmente tentara preparar-se para um duro
confronto, a fim de conseguir convencê-lo a não prosseguir as investigações e a ida ao
tribunal, porém fora muito mais fácil do que pensara.
Apesar da dureza latente no
empresário, e de alguns avisos da sua parte, ele mostrara-se bem mais
compreensivo e confiante do que ela esperara. Todavia não podia esquecer que os
dois eram pais daquela criança e os dois a queriam, pelo que teriam de tomar
uma decisão o mais justa possível, e essa decisão iria fazer com que os dois
tivessem de conviver. Não era de modo algum, o futuro que sonhara, quando
decidira ser mãe daquela forma.
Acabou o pequeno almoço, e
depois de uma passagem pela casa de banho, para lavar os dentes, fez a cama,
trocou os chinelos por umas práticas sandálias sem salto, fechou a janela, correu a persiana para evitar o aquecimento do quarto, e saiu. Olhou o relógio.
Quase sete e meia. A Inês só chegaria perto das nove, mas ela tinha que
verificar alguns documentos antes. Pegou nas chaves do apartamento e saiu. Como
a pastelaria ficava no passeio contrário, a menos de cem metros de distância do
apartamento, nunca usava o carro.
Sabia que ia sentir saudades
não só do trabalho na pastelaria, mas também do convívio com os clientes. Salvo
um ou outro turista, a esmagadora clientela era composta por moradores da
avenida e ruas adjacentes, que ela conhecia desde os tempos em que era apenas
mais uma empregada. Eram muito mais do
que clientes; eram amigos a quem ela tratava pelo nome.
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20.8.18
FOLHA EM BRANCO - PARTE XXI
Depois do almoço, foram até à baixa. Passearam um pouco pela Avenida das Descobertas, e sentaram -se na muralha que separava a avenida da ribeira de Bensafrim, que ali vinha desaguar no oceano. O verão terminara há muito, mas o outono mantinha-se ameno, pelo menos durante o dia, que à noite sempre se levantava vento, e fazia frio. Havia ainda muitos turistas em Lagos, e os barcos rumo à marina, ainda eram frequentes. Falaram de coisas sem importância, ou melhor, Miguel falou, a jovem limitava-se a ouvir, por vezes atenta, outras nem isso.
Por vezes Miguel desesperava, e quase tinha vontade de desistir. Ir à sua vida e deixar a jovem ali perdida nos seus labirintos interiores. Mas logo se recriminava. Ele nunca fora homem de desistir de nada, não era agora que ia começar a sê-lo. Outras vezes recriminava-se por não ter naquele dia, quando saíram da falésia, acompanhado a jovem à polícia e ter dado parte do acontecido. Mas logo se desculpabilizava, com o pensamento de que o facto de lhe ter salvo a vida, lhe dava a responsabilidade de a integrar nela. E ela só podia voltar verdadeiramente à vida quando recuperasse a memória.
Levantou-se, e estendeu a mão à jovem.
-Vamos Teresa? São horas do lanche. E ainda precisamos fazer umas compras.
Depois do lanche, entraram numa papelaria. Miguel ia comprar um caderno de desenho e um lápis para que a jovem fizesse o que o médico lhe recomendara. Ela porém estacou à entrada, onde estavam algumas revistas expostas. Com uma breve mirada, Miguel viu que se tratava de revistas sem nada se interessante, revistas de programação televisiva, e de palermices sobre os artistas, as revistas habitualmente apelidadas de cor de rosa.
Depois de efectuada a compra, dirigiu-se à saída onde a jovem continuava na mesma contemplação.
Intrigado perguntou:
- O que há de tão interessante, nessas revistas?
- Não sei. Gosto desse, - e apontou a capa de uma pequena revista, com uma conhecida artista de novelas. Miguel olhou e leu em voz alta.
-Mariana. É isso? O nome de Mariana, diz-lhe alguma coisa?- Perguntou esperançado.
-Não sei,- respondeu ela confusa. Mas gosto dele.
- Pois a partir de hoje, será Mariana. E quem sabe não é esse o seu verdadeiro nome?
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11.3.18
A TRAIÇÃO - PARTE XIII
Odete acabara de se deitar, e o pensamento voou para o seu marido. Não tinha mudado muito naqueles anos. Tinha alguns cabelos brancos é certo mas isso não lhe tirava o charme. O que mais tinha mudado era o seu olhar. A sua expressão, era agora bem mais dura do que antes da sua separação. Quando desesperada, partiu para Leeds, pensou que ele não tardaria a pedir o divórcio, para se casar com Inês. Porém João não só não pedira o divórcio, como decerto não estava com ela. Senão porque exigiria a sua volta? A menos que estivessem zangados e lhe quisesse fazer ciúmes. Mas não. O João que ela amava, não manteria durante tantos anos uma relação dúbia. Mas será que ela conhecia o marido?
Oriunda de uma família humilde,
mal terminara o décimo segundo ano, empregou-se num café pastelaria bem perto
de casa. Não era exatamente o emprego que sonhava, mas era perto de casa, não
precisava tirar passe, nem passar tempo em transportes, e estava em contacto
com pessoas o que lhe agradava bastante. Um dia João apareceu por lá de manhã.
Pediu uma torrada e um galão. Depois apareceu no dia seguinte e no outro e no
outro. Um mês, após outro. E quase sem dar por isso ela começou a esperar com
ansiedade a chegada dele. O seu coração saltava de alegria, quando ele entrava.
Reconheceu que se tinha apaixonado, quando descobriu que adormecia e acordava a
pensar nele.
Quase cinco meses depois de o
ter visto pela primeira vez, João convidou-a para ir ao cinema. Era Verão o
tempo estava quente, e depois do cinema foram até um bar, ouvir música. Depois
dessa noite outras se seguiram. A sua mãe estava deveras preocupada, e não se
cansada de lhe dizer:
- Tens que acabar com essas
saídas filha. Esse rapaz é um médico famoso. Não pode querer nada sério
contigo. Um dia destes ele arranja uma namorada da sua classe, ou uma médica como ele e nunca mais se
lembra de ti.
No se intimo, ela dava razão à
mãe, mas não se pode pedir a um coração apaixonado que pare de sonhar. Porém um
dia, João confessou-se apaixonado, e começaram a namorar. Sério, ele falou com
os seus pais, e desde aí até ao casamento, foram apenas seis meses. Seis meses
em que se sentia como uma princesa de um conto de fadas.
Depois do casamento e da
lua-de-mel, Odete decidiu estudar, e João encantado com a ideia apoiou-a. Sempre
gostara de crianças, e assim resolveu matricular-se na Escola Superior de
Educadores de Infância. Nos três anos que se seguiram, Odete não podia ter sido
mais feliz. O marido não se cansava de a mimar, Além de lhe pagar os estudos, comprava-lhe roupas, e jóias. Era carinhoso e compreensivo no dia-a-dia, e um homem
apaixonado nos momentos de intimidade. Que mais podia desejar? E ela fez os três anos correspondentes à
Licenciatura em Educação Básica, e estava a pensar começar a sua carreira
profissional, pois faltava-lhe a paciência para passar os dias em casa à espera
do marido que tinha cada dia mais trabalho e menos tempo para a vida familiar.
É já amanhã, que todos vão ficar a saber o que levou Odete a fugir de casa.
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10.7.17
ROSA - PARTE XII
O posto médico da Seca do Bacalhau
A foto é minha.
De Setembro a Março, Rosa trabalhava na Seca do Bacalhau. Trabalho duro e não muito certo pois, quando o Inverno era rigoroso e não se podia pôr o bacalhau na rua para secar, não havia trabalho. Às vezes, ficava-se uma semana inteira sem ganhar um tostão. Mas, ainda assim, vivia-se melhor que no Verão, pois sempre eram dois a ganhar. E depois era a oportunidade dela ver gente da sua aldeia e de outras aldeias vizinhas, de rir, cantar e esquecer um pouco a miséria que tinha em casa. Ali, naquele mundo maioritariamente feminino, não havia segredos. Todas sabiam quando alguma levava “porrada” do marido, quando não tinham que comer ou quando punham “um filho a estudar”.a) Muitas vezes, sem dinheiro para procurarem uma parteira, faziam – no elas próprias sem quaisquer condições. Por causa disso, não raras vezes, alguma morria com uma infecção. Algumas, trabalhavam na seca com os maridos, outras, os maridos trabalhavam nas fábricas de cortiça, ou na C.U.F. mas todas viviam irmanadas na mesma vida difícil e contudo aparentavam uma alegria difícil de explicar, pois passavam muitas horas de trabalho sempre cantando, ou contando anedotas como se o trabalho fosse leve e a vida lhes sorrisse lá fora. Então quando tocava a lavar o bacalhau nas grandes tinas de água, que levavam seis mulheres de cada lado, era ouvi-las cantar o tempo todo, ora como um só coro de muitas vozes, ora desafiando-se umas às outras em quadras repentistas que pareciam não acabar nunca. Algumas faziam graça com a própria fome, como a Rosalina, que enfiava um dedo no meio do pão e comia à roda do dedo, dizendo que comia pão com chouriço, ou a Virgínia que dizia estar a almoçar um cozido à portuguesa, enquanto emborcava uma sopa deslavada.
Por esses dias, a Ti Urbana perguntou-lhe:
-Ó Rosa, tu já estás prenha outra vez, mulher?
- Não! - A resposta foi quase um grito. Pela sua saúde, não me diga isso, que me desgraça.
- Eu não te digo mas que estás é verdade. Basta olhar as tuas pernas. Ó mulher mas tu não tens juízo?
- Ai Ti ‘Urbana, se for verdade, tenho que dar um jeito. Não quero ter mais filhos. O meu Alberto ainda não fez os sete meses.
- Vai ao posto médico. Mas olha que eu nestas coisas nunca me engano.
Na Seca, havia um posto médico, com um enfermeiro, e às quintas-feiras ia lá um médico.
Nessa semana, Rosa foi ao médico que confirmou as palavras da Ti' Urbana . Mais uma vez estava grávida!
Pediu ajuda a algumas mulheres mais velhas. Nunca fizera um aborto mas, desta vez, tinha que ser. Estava decidida a não ter mais filhos. Mas não tinha dinheiro para ir à parteira. A Adélia ensinou-lhe a fazer escalda-pés com grãos de mostarda. Fez durante três dias mas não resultou. Depois foi fazendo tudo o que as outras lhe diziam já ter feito até terminar por picar o útero com um talo de aipo até sangrar. "Resulta sempre", tinham-lhe dito. E resultou. Numa grande hemorragia, seguida de infecção, que a ia matando. Acabou numa sala de cirurgia, no hospital de Almada, onde sofreu uma histerectomia total. "Caparam-na" como ela costumava dizer. E nunca mais engravidou.
Continua
a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da Seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal, era ilegal e podia até dar cadeia.
Continua
a) pôr um filho a estudar, era na linguagem das mulheres da Seca, a designação para aborto, que nessa época em Portugal, era ilegal e podia até dar cadeia.
15.1.16
AMANHECER TARDIO - PARTE XXIX
Ele, era muito céptico em
relação às mulheres. Costumava dizer duas coisas quando o assunto eram mulheres.
Primeiro, as mulheres não prestam. Traem os homens e pior ainda traem-se as si
mesmas. Segundo, a excepção era a sua mãe, a única mulher no mundo que não
desiludira o Criador.
Horas depois, no seu quarto no
hotel, escrevia rapidamente. Acabara de ter uma
ideia para um novo livro, e imediatamente tratara de registar as primeiras
linhas, do primeiro capítulo. Parou ao perceber que tinha descrito a protagonista
com as características físicas de Isabel. Fechou o portátil e foi até à janela. Depois de um rápido olhar para a rua, atravessou o quarto a passos largos.
Sentia vontade de sair. Afinal era Sexta-feira, noite de Verão. Luís não era homem de reprimir os seus desejos. Nunca o fizera. Chegou à rua e olhou em volta. A noite estava quente, e a lua cheia, redonda como ventre fecundado, extremamente brilhante, derramava sobre a cidade toda a sua luminosidade. Se ele fosse romântico diria que estava uma noite para namorar. Mas não o era. Apetecia-lhe caminhar. Observar as pessoas com quem se cruzava.
Caminhou pela baixa até à Praça do Comercio. Sempre gostara de ver o Tejo em noites assim. Desde o tempo em que ele era “o outro”. As memórias lutavam para vir à superfície e aos poucos foi deixando que elas ocupassem o seu espaço no presente.
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