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19.7.24

UMA VIAGEM ESTRANHA

 


Outubro aproximava-se do fim. Apesar disso o céu sem nuvens e o sol, que embora não apresentasse um calor abrasador, como no verão, estava luminoso e lançava sobre a terra um calor muito agradável. Conduzia numa estrada deserta, de volta ao lar de meus pais, depois de alguns anos de ausência.

 Ao olhar a paisagem tive consciência, de que me enganara na estrada, mas segui em frente, pensando que afinal aquela estrada, iria ter a algum lugar, donde poderia retomar o caminho de casa. Porém a estrada terminou um pouco mais à frente. Parei o carro e saí para olhar à minha volta.

 À minha frente uma floresta, exibia os maravilhosos tons de outono. Curiosa avancei uns cem metros e deparei-me um enorme lago, cujas águas tão serenas, mais pareciam um enorme espelho,  sobre o qual as narcisistas árvores da margem se miravam vaidosas. Quedei-me extasiante perante tão bela imagem que  me sugeriu a natureza em paz consigo mesmo . 

Pensei que era um lugar onde o homem ainda não chegou, mas então vi mais à frente duas cadeiras lado a lado, num pequeno pontão, como que a dizer-me que estava enganada. Duas cadeiras vazias que sugerem momentos de contemplação e amor.

Contemplação pela natureza, mas também amor pela pessoa que se senta ao lado, e com quem se quer partilhar um lugar tão paradísico. Olhei à volta e não vi cabana, ou caravana, que me mostrasse que ali vivia alguém. As cadeiras estão vazias, e a paz do lugar, apenas tem por companhia a solidão, o que me leva a pensar no que terá acontecido a quem nelas se sentava. 

Enquanto me perdia em conjeturas, anoitecera e de súbito desatei a correr assustada com medo de não conseguir encontrar o carro. Então a luz do sol bateu-me no rosto, e abrindo os olhos vi que a minha mãe tinha acabado de abrir a persiana, fazendo com que a luz me  acordasse. 


  

 

10.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XVII



 Eram dez horas da manhã de segunda-feira, quando os três partiram para a aldeia na Beira Alta onde iam passar o Natal na casa dos pais de Helena.  Nas vésperas tinham passado o dia no Centro Comercial, onde ela comprara para ele, várias peças de roupa. No inverno precisa-se muito mais roupa que no verão, especialmente no norte do país onde é mais rigoroso.

 Almoçaram num dos restaurantes do Centro e depois levaram a criança ao cinema para assistir à sessão de Minions. Mais tarde passaram no supermercado, e comparam frango assado e batatas fritas para o jantar.

 O menino adorou o dia, estava encantado, com tudo, especialmente com o “tio”. Helena nunca se tinha apercebido de como ele necessitava de uma figura masculina. Mas não era só Diogo que estava encantado com Fernando. Ela também estava. Tanto que receava estar a apaixonar-se por ele. 

Sentia um formigueiro no corpo e as pernas tremiam-lhe, cada vez que ele lhe tocava, ainda que fosse apenas para a aliviar do peso do saco das compras. Dava por si, a fantasiar como seria fazer amor com ele. Sentir-se beijada e acariciada por ele. Aquilo não podia estar a acontecer. Raio de sorte a sua. A primeira vez que se apaixonara, fora por um traste, e agora ia apaixonar-se por um homem que não sabia quem era? Não devia ter-se metido naquele imbróglio, mas agora o mal já estava feito.

Felizmente que em casa dos pais, não teriam a intimidade que tiveram naquele fim de semana, e seria bem mais fácil a convivência sem constrangimentos. Tinham chegado a um determinado ponto da estrada, numa longa reta, quando ela parou o carro e voltando-se para ele informou.
- Foi aqui, na berma, naquele lado da estrada.

Ele não disse nada. Limitou-se a olhar, viu as três árvores mais à frente, alguns arbustos, e então perguntou:
- Não pensaste que podia ser uma armadilha, que podia alguém estar escondido naqueles arbustos?
- Claro que pensei. Mas também pensei que podia ser alguém em perigo de vida. Sou médica, e felizmente o meu instinto sobrepôs-se ao medo.

Ele pegou-lhe na mão e levou-a aos lábios.
-Obrigado.
Sentiu-se recompensada com a rouquidão da sua voz, e o brilho húmido do seu olhar.


27.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XI

 



-Porquê, doutora? Porque me trazes para tua casa, e me tratas como se fora alguém da tua família?
- Não sei, - disse sustentando-lhe o olhar. -Talvez porque me sinta responsável por ti, desde que te vi meio morto na estrada, ou porque a época é de fraternidade e me aflige, que não saibas quem és, nem para onde hás de ir. Ou porque sempre me senti, um pouco a Joana D'Arc, e nunca tive oportunidade de o demonstrar. Ou simplesmente,  porque gostaria que alguém me ajudasse se fosse comigo. Mas isso que importa? 

Agora tenho que ir lá acima ao quarto andar, buscar o meu filho, a festa do amigo já terá terminado. Depois acabo de preparar o jantar que na verdade já está feito, é só ligar o forno para o aquecer. Enquanto isso, podes ir para o teu quarto descansar, ou para a sala, tens lá vários livros, ou  se te apetecer, liga a Televisão.

Com os olhos brilhantes de emoção, ele beijou-lhes as mãos e disse:
-És uma mulher incrível, doutora. Oxalá a tua generosidade possa ser recompensada.

 Soltou-a e virou-se para a janela, para esconder dela o desespero que a sua situação lhe provocava.

- Não fiques assim. Tenta relaxar. Quanto mais te esforças, mais frustrado ficas. A tua RM não acusou nenhuma sequela que seja a causa da amnésia. Deves ter tido um choque grande e o teu subconsciente recusa-se a recordar. É como se ele receasse alguma coisa. Quando deixar de recear, recordarás tudo. Agora, vou buscar o Diogo. Deveríamos arranjar-te um nome. Não pudemos dizer-lhe que não te lembras e como te chamas, porque isso iria fazer uma grande confusão, na sua cabeça. Tens predileção por algum?
- Fernando – disse sem pensar, e acrescentou. Foi o primeiro que me ocorreu. Será que é o meu nome?
- Quem sabe? Pode ser. Até já – disse saindo e deixando-o a sós com os fantasmas  que o atormentavam.

Fernando, foi até à sala. Acendeu a luz, e dirigiu-se à estante que ocupava toda uma parede. Muitos livros relacionados com a medicina, diziam bem do interesse da dona da casa. Mas também havia muitos outros. Clássicos da literatura mundial, como Goethe, Balzac, Shakespeare, Dostoiévski, Homero, Dante, Camus, Victor Hugo, Sartre, Ionesco, Steinbeck, entre muitos outros. Mas também os de língua portuguesa, como Camões, Pessoa, Machado de Assis, Jorge Amado, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Virgílio Ferreira, entre um numeroso grupo de bons autores. Escolheu “O Náufrago” de Thomas Bernhard, porque no fundo era assim que ele se sentia. Um náufrago da própria vida.
Sentou-se no sofá e abriu o livro. Mas não teve tempo para iniciar a leitura, porque nesse momento, a porta abriu-se e Helena voltou com o filho.
  



6.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE III




Depois de hora e meia retida na estrada, Helena estava de novo a caminho da capital. Já era tarde e ficara  indecisa, se devia  ou não entrar na autoestrada, pois a viagem seria mais rápida. Porém chegaria sempre tarde, e como era  hora do jantar, decidiu continuar pela estrada nacional, e parar onde encontrasse um restaurante, junto à estrada, a fim de jantarem, coisa que viria a fazer, dois quilómetros mais à frente.
Depois do jantar, voltou à estrada, não sem antes verificar se o filho sentado atrás na sua cadeira tinha o cinto devidamente colocado.
Apesar de se estar nos primeiros dias de Dezembro, a noite estava estrelada, e fria. Estranhando o silêncio do menino , lançou-lhe um rápido olhar e verificou que tinha adormecido. Baixou um pouco o som do rádio e concentrou-se na condução. Não gostava de o fazer de noite, mas os dias naquela altura eram tão pequenos. Felizmente já não faltavam muito para chegar a casa. Devia estar a uns dez, doze quilómetros de Lisboa, encontrava-se numa longa reta, e há quase vinte minutos que não passava um carro por ela.
De súbito, avistou qualquer coisa na berma da estrada, lá mais  à frente, e pensando nalgum animal que de repente poderia atravessar a estrada, reduziu a velocidade. Porém à medida que se aproximava  verificou  que se tratava de um corpo humano. Mau, um corpo humano deitado na berma da estrada, naquele local solitário, sem nenhum carro ou velocípede  à vista, podia ser uma armadilha. Como médica estava habituada a tomar decisões em fracções de segundos. A estrada estava aparentemente deserta, mas as três árvores e o  tufo de vegetação imediatamente antes do corpo,  podiam esconder alguns meliantes. 
Embora a sua razão lhe gritasse que seria perigoso parar, e lhe aconselhasse prudência, o seu instinto também lhe dizia que podia ser alguém gravemente ferido, e ela era acima de tudo, médica.  Lançou um olhar inquieto ao filho que continuava adormecido e travou um pouco antes de chegar junto ao vulto. Vestiu o colete reflector, e saiu do carro. A medo perscrutou os arredores. Não se via nada, estava tudo silencioso. Receosa abriu a porta traseira e pegou no filho adormecido ao colo, pensando, que podia ser um assalto para lhe roubarem o carro, e não podia correr o risco de o levarem com o filho lá dentro. Devagar aproximou-se do vulto caído na berma da estrada. Parou por momentos e escutou. Não se via nada nem ninguém e o vulto não se mexeu. Convencida de que não se tratava de nenhum estratagema de assalto, pousou a criança no chão e debruçou-se sobre o vulto que jazia de bruços na berma da estrada.

5.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVII


Helena estava na estrada que levava à casa paterna na manhã seguinte, pouco passava das oito da manhã. Enquanto isso ela ia recordando, o que acontecera no dia anterior.

Emocionada com o sofrimento que Gonçalo expressara nas confidências que lhe fizera, ela decidira aceitar o convite dele para jantar. Assim ligara à filha e depois de saber que ela estava bem, dissera-lhe que só regressaria de manhã, estava com dores de cabeça e achava melhor não conduzir de noite. O mesmo dissera a sua mãe, quando Matilde passara o telefone à avó.

De seguida mandou uma mensagem à Rita dizendo-lhe que tinha seguido o seu conselho e por isso estava em Lisboa. Não precisava mais explicações a amiga compreenderia, e ela não corria o risco de que Rita telefonasse para saber da afilhada, e dissesse alguma coisa que não devia.

Não que ela quisesse enganar deliberadamente a família, porém não era algo que se dissesse pelo telefone. Contar-lhes-ia tudo no dia seguinte.

Jantaram num pequeno restaurante perto da praça do Chile. Durante o jantar, Gonçalo não se cansava de fazer perguntas sobre a sua filha, que ela fora respondendo com todo o amor e orgulho que sentia pela filha. Depois ele falara da sua família.

Da irmã, tão jovem e já viúva, do quanto ela sofrera com a morte súbita do marido, quando se encontrava grávida do segundo filho, dos pais que continuavam a viver em Braga.

Depois ele dissera que ia contar à família sobre elas, e que gostaria que mais tarde o acompanhassem de modo a que se conhecessem.

“Deves saber que a minha mãe e a minha irmã, vão querer logo marcar a data do casamento assim que te conheçam. Há mais de dez anos que tentam casar-me. Principalmente a minha mãe. Creio que já me apresentou todas as jovens em idade de casar, desde Braga ao Porto. Imagina agora sabendo da nossa história.” Dissera-lhe ele sorrindo.

Ela sabia que quando contasse aos pais e a Rita, o que ele lhe contara e a proposta de casamento que lhe fizera, eles também iam exercer pressão para que aceitasse.

Mais tarde, ele voltara a perguntar se ela não tinha fotos da filha, para que através delas ele pudesse acompanhar o crescimento da menina. E para mostrar à família.

Ela respondera que sim. Tinha muitas fotos e vídeos de várias fases do crescimento de Matilde em formato digital.

Trocaram então os endereços eletrónicos, e ela prometeu que nessa mesma noite lhos enviaria.

Quando chegara a Lisboa, para se encontrar com Gonçalo, Helena deixara o seu automóvel estacionado à sua porta e fora de metro. Não sabia o que ele lhe ia dizer, e não queria que ele soubesse onde morava, coisa fácil se fosse de carro e ele a seguisse.

Porém depois do jantar, ele ofereceu-se para a levar a casa, e ela tivera que lhe dar a morada.

Quando Gonçalo estacionou junto à sua porta, e antes que ela saísse do carro, ele segurou a sua mão entre as dele e murmurou um emocionado obrigado.

Com o coração acelerado ela apressou-se a sair do carro, prometendo que lhe telefonava quando contasse toda a história à filha.

Agora, a caminho de casa, preparava-se para contar à filha e depois à restante família tudo o que Gonçalo lhe contara.

10.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXII




Helena chegou a Viseu, às onze e vinte minutos. Deu a entrada no hotel, mas como a sua reserva era a partir do meio- dia, teve que aguardar na sala.
Enquanto esperava interrogava-se sobre a reação de Cláudio quando fosse buscá-la e não a encontrasse. Oxalá fosse à receção perguntar por ela, para que lhe entregassem a sua carta.  Estava triste. Nunca tinha conhecido um homem tão interessante, nunca alguém a tinha feito sentir o que sentira no dia anterior, quando ele a beijara, nunca tinha sonhado com emoções tão intensas. Se ela fosse mais velha, mais experiente, se tivesse uma vida diferente, não teria fugido. Mas a vida era como uma estrada de montanha. Cheia de ses, e ela não se considerava apta a ultrapassá-los. Daí ter-se retirado, enquanto o estrago não era demasiado grande.
Agora o mais importante era encontrar o pai, conhecê-lo, saber que tipo de pessoa era. Depois regressaria a Lisboa procuraria um trabalho e seguiria com a sua vida. No dia seguinte começaria a busca. Não acreditava que fosse fácil. Afinal pelo que lhe fora dado investigar, a região demarcada do Dão era muito grande. Estendia-se pelos vales entre as serras da Estrela, Lousã, Caramulo, Bussaco, Nave e Açor, e era atravessada por quatro rios, o Mondego, o Vouga, o Paiva e Dão. Este último, dera origem ao nome da região, quando ela fora criada em mil novecentos e oito.
Encontrar uma quinta, da qual não sabia o nome, se era grande ou pequena, num vasto espaço que engloba, os distritos de Coimbra, Viseu e Guarda, era como procurar uma agulha num palheiro. Felizmente que o tio se lembrava que a quinta ficava nos arredores de Viseu. Isso sem dúvida reduzia bastante o seu trabalho. Enquanto esperava, resolveu pedir algumas informações à rececionista.
- Desculpe…
Sem a deixar terminar a jovem informou:
-São só mais cinco minutos, o pessoal está a terminar a limpeza do quarto.
- Obrigado. Mas o que eu queria era uma informação. Disseram-me que esta zona pertence à região demarcada do Dão. É verdade?
- Claro. Deve ter visto durante a viagem, algumas dessas quintas, embora grande parte delas não se vejam, pois há pinheiros junto às estradas de modo a escondê-las do olhar de quem passa.
-Gostava de ver alguns desses vinhedos. Devem ser muito bonitos.
- Sem dúvida. Sobretudo agora, que as uvas já estão quase maduras, pois está prestes a começar a época das vindimas. Mas Viseu tem muito que ver sem serem as vinhas, e sem sair da cidade.
- Acredito. E espero ver o máximo possível, embora ainda não saiba ao certo quanto tempo ficarei.
Entretanto passava do meio-dia e uma empregada acabava de trazer a chave do quarto.
Helena pegou nela e subiu ao aposento, situado no primeiro andar. O hotel era pequeno, possuía apenas vinte e nove quartos, mas era muito acolhedor, estava muito bem situado, perto da Sé e do Museu Grão Vasco, e o preço era excelente, o que também contava sempre nas suas contas.


16.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXIII



Durante mais de uma hora viajaram calados. Odete olhava pela janela como se a sua vida dependesse da paisagem que rodeava a estrada. João conduzia atento ao trânsito. Por fim ela quebrou o silêncio.
- A tua mãe teria gostado que ficássemos para o almoço.
- A minha mãe é muito arguta. Se estivéssemos umas horas com ela ia perceber que não estamos felizes.
- Mas querias ir à praia. Pensei que só vínhamos mais tarde.
- Na praia estávamos longe dos seus olhares.
- Não te entendo. Se tinhas tanto medo que ela percebesse, alguma coisa, porque viemos?
- Porque já tinha combinado vir antes do teu regresso. E já não aguentava mais, ela querer saber de ti. Estiveste ao telefone com a tua mãe?
- Não. Tu deste-me notícias, e se vou estar com ela quando chegar, não valia a pena telefonar.
- Há uma coisa que quero que dizer-te. Enquanto estiveres na nossa casa, não quero encontros com outro homem. Nem telefonemas ou e-mails.
Revoltou-se. O que é que ele estava a insinuar? Acaso julgava que ela era capaz de ter um amante?
- O bom julgador por si se julga, - atirou mordaz
Travou repentinamente, provocando um solavanco que a assustou.
- Estás doido? Queres matar-nos?
- O que é que disseste?
- Eu? Nada que tu não saibas.
Apertou-lhe o braço com a força, olhando-a furioso.
- Larga-me. Estás a magoar-me.
Soltou-a e reparou na mancha vermelha no braço.
- Desculpa, -disse voltando a pôr o carro em movimento. -Não voltará a acontecer. Não é hora nem sítio para conversas desta natureza.
Na sua cabeça ecoava a frase que lhe ouvira. Que quereria dizer com aquilo. Ela é que o abandonara, sem ele sequer imaginar porquê, e punha as culpas nele? Em dois dias era a segunda vez que lhe mandava uma indireta como se ele fosse o culpado pela separação. O que é que ele fizera além de amá-la, e de trabalhar como um louco? Talvez porque dispunha de pouco tempo para ela? Mas  se era por ela que trabalhava tanto. Para lhe pagar os estudos lhe comprar roupas caras, lhe dar jóias. Pensava que dando-lhe tudo isso, compensaria a diferença de idade, e faria com que não se interessasse por nenhum homem mais bonito e mais jovem.   Decididamente não entendia as mulheres. Primeiro foi Inês, que se fingia apaixonada por ele e o traía. E que depois de divorciada, lhe fez uma marcação cerrada, jurando arrependimento, para uns meses depois voltar a casar. Só não caíra na sua teia, porque o amor que dedicava à mulher era mais forte do que qualquer outro sentimento que experimentara na vida. E depois Odete, que ele julgara diferente, que amara com todo o seu ser, e que sem uma explicação o abandonou, transformando a sua vida num verdadeiro inferno. Ninguém a não ser o seu amigo Manuel, sabia o quanto ele estivera à beira do abismo. A ele agradecia o ter conseguido superar o seu desespero e voltar a dedicar-se de corpo e alma à profissão. Muitos o invejavam, pelo seu sucesso profissional. Ele trocá-lo-ia pelo amor da mulher, sem a mínima hesitação.


29.1.18

O AMOR É... UM COMBOIO - PARTE XXI


- As voltas que a vida dá. Quem me diria quando os encontrei na estrada que eramos quase vizinhos. Trouxe um livro para o Martim Não sei se ele gosta de ler, ou se já o leu, mas é um livro que me apaixonou quando tinha mais ou menos a idade dele.
- Muito obrigada. Ele chegou a casa a dizer que o Paulo se tinha oferecido para o acompanhar no torneio de futebol da escola.
- Terei muito gosto, nisso, se claro tiver a sua aprovação.
Como se tivessem combinado, Martim e o seu amiguinho de quatro patas, encetaram uma corrida pelo campo, perto das margens do rio. E os dois jovens seguiram-nos passeando e conversando.
- Faria mesmo isso pelo Martim?
- Claro que sim. Não sou político, não faço promessas só para ficar bem na fotografia, ou ganhar votos. Notei que estava triste e perguntei-lhe a razão. Gostei do seu filho, logo que o vi. Há qualquer coisa nele que me faz recordar de mim mesmo, em miúdo. Perguntei-lhe porque o pai não o acompanhava, e ele disse-me que o pai tinha morrido. É verdade?
-  O Martim sabe que sou viúva. 
Ele parou. Pegou na mão de Amélia e disse fitando-a:
- Viúva? Mas… e esta aliança? Pensei que era casada.
Amélia retirou a mão, e tentando disfarçar, gritou para o filho que não queria que se afastasse tanto.
-Ah! Percebo, -disse ele sorrindo. É o escudo que defende a Princesa do ataque dos dragões. Porquê, Amélia?
- Não percebo.
-É claro que percebe. Trás essa aliança para afastar possíveis pretendentes. Eu mesmo, nunca os teria deixado ir, sem conseguir  um contacto que me permitisse voltar a vê-la, se não fosse essa aliança. Porque deve ter percebido que simpatizei consigo desde que a vi. Felizmente para os dois, o destino parece querer juntar-nos. Primeiro, descubro que é a minha advogada, e agora que somos vizinhos.
- Com a morte do meu marido, descobri a sua traição. Foi um sofrimento muito grande, perdi a fé nos homens, e jurei a mim mesma, que nunca mais ia ser traída. Por isso tenho usado isto, sim, como um escudo.
Calou-se surpreendida com o que tinha acabado de confessar. Ela nunca reconhecera aquela verdade, nem para si própria.
- Mostre que é uma mulher de coragem, e faça um favor a si mesma. Tire essa aliança e jogue-a no rio.
- Engraçado, há duas horas atrás, a minha avó disse-me o mesmo.
- A sua avó acaba de ganhar a minha estima, - disse ele sorrindo
Pensativa Amélia rodou a aliança no dedo por alguns segundos. Depois decidida, tirou-a e lançou-a para a parte mais profunda do rio..

  

25.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XVI




Pararam no caminho para jantar num restaurante à beira da estrada.
- Que se passa, mãe? Estás preocupada?- Perguntou Martim, enquanto saboreava o gelado que pedira como sobremesa.
- Aborrecida, filho. Falei hoje com o teu tio, e ele vai viajar para Cabo Verde, na próxima quinta-feira.
- Ó! Isso quer dizer que não tenho quem me acompanhe na festa.
- Eu estarei lá, filho. Estarei sempre a teu lado em todas as tuas festas.
-Eu sei, mãe. Mas não é a mesma coisa. Já te expliquei no outro dia. Quando eu era pequeno, disseste que o meu pai, estava em viagem, para que eu não ficasse triste, mas hoje eu sei que mentiste.
- Porque é que dizes isso?
- Porque eu sei que és viúva, e se o és, quer dizer que meu pai morreu. Nunca vou poder, jogar à bola com ele, nem passear, ou ir à praia. Tenho um amigo, o Hugo, que o pai morreu quando ele tinha dois anos. Mas agora vai ter um novo pai.
- Como assim?
- A mãe dele vai casar. Tu não podias casar outra vez?
- Não é tão simples assim, filho. Para se casar é preciso gostar muito de outra pessoa. E esperar que essa pessoa goste igualmente de nós.
Chamou o empregado, pediu a conta, pagou e levantou-se:
- Vamos, se nos atrasamos a avó fica em cuidado.
O resto da viagem decorreu em silêncio. De vez em quando, Amélia olhava o filho pelo espelho retrovisor, mas o gaiato mantinha-se sério, o rosto voltado para a paisagem, perdido sabe-se lá em que pensamentos.
Foram recebidos com alegres latidos, por Rex, mas nem o fiel amigo, conseguiu alegrar o menino, que depois de beijar a sua bisavó anunciou que estava cansado e ia dormir.
- O que tem ele, filha? – Perguntou a idosa à neta, logo que ficaram sós.
- Está triste. Na sexta-feira é a festa da escola, vai haver um jogo de futebol em que eles devem ir com o pai. Martim contava ir com o tio, mas o Ricardo vai de férias para Cabo Verde.
- Pois é filha, essas modernices de produção independente, são muito bonitas na teoria, mas as crianças crescem e sentem a falta de um pai. E tu melhor que ninguém devias ter pensado nisso. Não sentiste tu sempre a falta da tua mãe?
- É diferente avó. Eu não me tenho preocupado apenas com a parte material da sua educação. Eu dei-lhe todo o meu amor.
- Sim, filha sim. Mas o que ele quer na festa da escola, é mais do que o teu amor. É um pai.

Atenção, a quem quiser dar uma olhada pelo meu registo de passeio, pode fazê-lo AQUI

24.10.15

FOLHA EM BRANCO PARTE III



foto da net
Miguel aproximou-se. Colocou-lhe um dedo debaixo do queixo, obrigando-a a olhá-lo.
O desespero que viu no seu olhar, foi tão grande que ele sentiu uma vontade imperiosa de cuidar e proteger a jovem. Era um sentimento estranho e avassalador.  
“Deve ser, assim que um pai se sente, perante o sofrimento da sua filha” - pensou enquanto a olhava. 
- Não se preocupe, - disse tentando incutir nela uma tranquilidade que ele mesmo não sentia. Logo ou amanhã lembrará.
Venha comigo. A minha casa não é lá grande coisa, mas nela encontrará abrigo até que se lembre de quem é e onde mora. Aqui sozinha não está bem. Este local é muito belo, mas às vezes é traiçoeiro, - disse enquanto dava voltas à cabeça, indeciso, sem saber se devia ou não contar à jovem, que meia hora antes, ele a salvara de se esborrachar no fundo da falésia.
Por fim decidiu que era melhor não dizer nada. Colocou a maleta sob o braço esquerdo, pegou o cavalete com a mão esquerda e estendeu a mão direita à jovem.
- Venha.
Como um autómato a jovem deu-lhe a mãe e começaram a caminhar em direcção à estrada, onde Miguel tinha o seu velho carro.
Aí chegado, abriu a porta do velho “carocha” e fez entrar a jovem. Depois guardou o material de pintura e sem uma palavra, sentou-se ao volante e arrancou em direcção à sua casa nos arredores da cidade.
Era uma habitação antiga, à qual se tinha acesso por dois altos degraus em pedra, ladeados por um pequeno corrimão de ferro, que já fora verde, mas que agora apresentava largos pedaços ferrugentos.
- A casa é muito antiga. Era de minha avó, foi aqui que nasceu meu pai. Este corrimão, foi posto aqui,quase no fim da vida da avó Ermelinda, para a ajudar na subida, - disse Miguel enquanto galgava os dois degraus com facilidade. Venha, não tenha medo- disse abrindo a pesada porta de madeira
A jovem seguiu-o e encontrou-se num pequeno patamar donde partiam três degraus de pedra que davam acesso à sala. Embora a casa fosse um rés-do-chão, no exterior, no interior estava quase ao nível do primeiro andar.
Subidos os três degraus, encontraram-se numa sala, com uma grade de ferro, à volta do fosso da escada.