Helena, ouvia as explicações masculinas, com o coração
batendo apressado, e o cérebro repetindo. “É amor. Ele ama-te”. Vendo que ele
se calara e a olhava, como se esperasse uma resposta, ela murmurou:
- Continua.
-Segui-vos no carro, e ainda fiquei uns minutos do outro
lado da rua, mas depois arranquei e fui-me embora. Ia cego de raiva, o coração
ferido, a cabeça cheia de maus pensamentos. Desde esse dia, evitava
encontrar-me com o pai. Quando o via, ao telefone contigo, afastava-me, pois a
minha vontade era partir para a violência. Foram dias tenebrosos, de muito
sofrimento. Lembrava-me das horas que passámos juntos e interrogava-me. Como
era possível que me tivesse enganado tanto a teu respeito? Claro que o pai
notou logo a diferença, mas nunca lhe passou pela cabeça, a razão da mudança do meu comportamento. Uma noite questionou-me, e eu perdi a cabeça e disse-lhe
tudo o que pensava da sua atitude ignominiosa.
- E ele?- Perguntou a jovem tentando adivinhar a reação paterna.
-Ele, com toda a calma, levantou-se e ordenou. “Vem
comigo ao escritório. Agora!” Tu ainda não tiveste tempo para o conhecer, mas
eu vivo com ele há mais de vinte anos. Quando ele dá uma ordem daquele jeito,
sem mover um músculo do rosto e sem levantar a voz, quer dizer que está muito
zangado e magoado, com algo que tu fizeste ou disseste. Não me atrevi a
desobedecer. No escritório, ele pôs-me
na mão aquelas certidões; e perante o meu espanto contou-me tudo. Se a terra se
abrisse sob os meus pés, o meu espanto, não seria tão grande. Eu nem sequer
sabia, que ele já tinha sido casado, antes de casar com a mãe. Dividia-me entre
a vergonha de vos ter julgado mal, e a alegria de saber que através dele te ia encontrar.
Então foi a minha vez de o surpreender contando-lhe que eras tu a mulher que
tinha conhecido em Coimbra e por quem me tinha apaixonado.
Consegui convencê-lo a não te dizer nada, até que eu
pudesse vir buscar-te, já que naquela altura, com o vinho a fermentar no lagar,
não podia abandonar a quinta. Por outro lado, ele e a mãe tinham de conversar
antes de eu vir. Agora a mãe já sabe tudo. Que és filha dele, mas que és também a mulher
que eu amo e pretendo convencer a partilhar comigo o resto da vida. E está
ansiosa por te conhecer.
Cláudio estendeu-lhe a mão, fazendo com que a jovem se
levantasse. Com as duas mãos sobre os ombros femininos, disse sem deixar de a
fitar.
- Penso em ti assim que acordo, sonho contigo, mal
adormeço. O meu maior anseio é partilhar a minha vida contigo. Não me digas que
isto não é amor.
Séria, suportando o fogo do olhar masculino, a jovem
retorquiu:
-Eu, também te amo, Cláudio. E quero muito, ser feliz a
teu lado, e fazer-te feliz. Espero que me ajudes a vencer os meus medos, não
quero ser uma segunda edição de Natália Trindade.
Feliz, ele abraçou-a e beijou-a apaixonado.
Eu tinha dito que hoje só sairia um capítulo. Mas ainda faltam dez capítulos e eu vou dia 30
Eu tinha dito que hoje só sairia um capítulo. Mas ainda faltam dez capítulos e eu vou dia 30

