Mal Helena pôs o carro a rodar, Fernando perguntou ansioso.
Ela tinha ficado encantada com ele no hospital, quando ainda não sabia que era o seu pai. Ele era bonito e carinhoso. A mãe dissera que ele chegaria por volta das onze e ela queria estar junto do portão da quinta para o receber. Queria encontrá-lo sozinha, tinha a certeza de que ia chorar, quando o abraçasse e não queria virar motivo de gozo para os primos.
As preocupações de Lena eram bem diferentes. Ela sentia-se pressionada por toda a família para aceitar o pedido de casamento que Gonçalo lhe fizera.
Muito cedo, antes de se levantar, ouvindo os sons familiares da quinta; os pássaros que saudavam o nascer de um novo dia, a brisa suave que passava por entre as folhas das árvores, o cantar do galo, ela pensava na volta que a sua vida dera e no que ela iria fazer dali para a frente.
Sabia que Gonçalo tinha sido sincero, mas não era preciso ser psicóloga, para saber que devido aquele terrível acidente, e sobretudo à amnésia que se seguira, a descoberta atual de ser pai, vinha preencher a carência de afetos e de família a que voluntariamente se submetera ao longo dos últimos catorze anos.
E pelo que conhecera dele enquanto namorara e pelo que agora lhe contara acerca da proteção à sua irmã viúva e aos seus sobrinhos, Gonçalo era um homem de família.
Debatia-se num mar de dúvidas. Era verdade que apesar de desiludida pelo seu abandono e pensar que não passara de brinquedo de verão para ele, o su coração nunca o esquecera. Afinal fora o seu primeiro e único amor. Também sabia que se não fosse com ele nunca se casaria, pois não queria dar um padrasto à sua filha.
Mas embora soubesse tudo isso, a razão continuava a dizer-lhe que não podia ceder. Ele não se recordava dela. Conhecera-a há uma semana, e desde esse dia, apenas na véspera estivera com ele várias horas. É certo que havia uma enorme tensão sexual entre os dois, quando estavam juntos, mas um casamento não se sustenta de sexo. O desejo, quando não é parte do amor, morre quando é satisfeito.
Ela não sabia que fazer e não podia aconselhar-se com ninguém, porque toda a família a empurrava para o casamento. E se telefonasse à Rita. É verdade que tinha pensado contar-lhe pessoalmente, mas se ela só vinha na Sexta à tarde, provavelmente só a veria no sábado e nessa altura com Gonçalo presente não havia lugar para essas conversas. Não, o melhor seria falar com ela logo pela manhã antes que ele chegasse.
E se bem o pensou, logo o pôs em prática. Logo depois do pequeno--almoço, desculpou-se perante a família, afirmando precisar de fazer uma chamada e recolheu-se no quarto a fim de ligar à amiga.
Assim que Rita atendeu, Helena contou o mais resumidamente possível os últimos acontecimentos, mas ficou dececionada ao perceber que a amiga não entendia as suas dúvidas e entrava no grupo de apoio ao casamento.
-Nada disso! Estou apenas a raciocinar em voz alta. E dizes
que a criança é parecidíssima com a Laura? Que idade tem essa menina? Viste a
data de nascimento?
-Claro. Faz em Maio, treze anos. Não estás a pensar que
essa criança pode ser minha, estás?
-Porque não? Eu estava presente no hospital, quando o
Ricardo te perguntou se continuavas apaixonado por aquela jovem, e falou de
como vocês passaram as férias grudados um no outro.
-Não! Tu conheces-me. Eu nunca seria irresponsável ao ponto
de engravidar uma jovem, quando ainda não tinha condições de casar com ela. De
certeza tomei precauções para que isso não acontecesse.
-Tu és médico. Sabes
melhor que ninguém que não há nenhum método cem por cento infalível. Essas
coisas acontecem. Pensa no que aconteceu com a tua irmã. Pensas que ela queria
engravidar naquela altura?
- Mas como é
possível, se houve uma paixão tão intensa assim, eu continuar a não me lembrar
dessa época?
- É possível! O nosso cérebro, é um enorme armazém, cheio de
milhares e milhares de memórias. Elas não são todas guardadas da mesma maneira.
Há milhares de coisas que vivenciamos um dia e que nunca mais recordamos porque
o nosso cérebro as arquiva como sem importância, outras que recordamos durante
uma época e outras que recordamos toda a vida, porque elas são arquivadas em
diversos zonas consoante a importância que lhes damos nos momentos em que as
vivemos. Não te vou falar dos vários tipos de amnésia, porque já falámos disso há bastante tempo e tenho a certeza que tens investigado todas, suas causas e sintomas. Sabes que quando a amnésia é provocada por um trauma psicológico, stress, ou álcool ela pode terminar em qualquer momento logo que a vida do paciente volte ao normal. Mas quando é provocada por um trauma físico, como uma
pancada na cabeça, um AVC, um tumor, ou qualquer outra agressão, a zona do cérebro que foi afetada, pode não recuperar nunca e
nesse caso, as memórias armazenadas nessa zona desaparecem para sempre tal como
documentos desaparecem quando devorados por um incêndio.
- E não posso fazer nada? Meu Deus, não posso viver nesta
incerteza o resto da vida.
- Mas admitindo que seja ela, e que a menina possa ser
minha filha. Que direito tenho eu de entrar assim sem mais nem menos na vida
delas? E se ela tem alguém? O facto de não ser casada, não quer dizer que não
viva numa relação feliz.
-Ou não. E não podes sabê-lo sem falares com ela.
-Se ela quiser falar comigo! E se isso não acontecer?
-Está tão atormentado, que quase não raciocinas. Estás de
serviço amanhã?
- Não! Estou livre este fim de semana.
- Dá no mesmo. Podes sempre ir lá logo de manhã. Leva um
Kit de ADN, e faz a recolha.
Se como penso a menina for tua filha, ela não poderá deixar
de te ouvir. Tens o direito de poder ver e acompanhar o crescimento e educação
dela, mesmo que ela tenha outra relação e não queira saber de ti como possível marido.
E se não tiver ninguém, depende de ti quereres ou não conquistá-la de novo.
-- Meu Deus,
Fernando! Não posso admitir que aquela menina linda possa ser minha filha, e
pensar que podia levar a vida inteira sem ter conhecimento disso.
-Tens que o admitir se fizeres o teste de ADN e for esse o
resultado. E ela não poderá tirar os teus direitos de pai.
-Mas como vou fazer o teste de ADN sem a sua autorização?
Isso é ilegal!
-É? Mas não dizem que os fins justificam os meios? De resto se o resultado for negativo, ela
nunca saberá que o fizeste. E se for positivo, não terá coragem de participar
de ti. Pensará que a filha não lhe perdoaria se soubesse que acabou com a tua
carreira, e as mulheres pensam sempre nos filhos antes de qualquer outra
coisa. E agora se te fosses vestir e
fossemos dar uma volta por aí?
- Desculpa, sei que
a tua intenção é boa, mas não tenho vontade nenhuma de sair.
-- Bom então agora aceito aquela cerveja que me ofereceste
há bocado. Também não estou com muita vontade de sair. Tens estado com a Laura?
Como é que ela está?
Gonçalo levantou—se e foi à cozinha buscar a cerveja. Não
lhe passara despercebida a tristeza na voz do amigo.
Gonçalo acabou de jantar. Levou o prato sujo para o lava loiça, e ligou a máquina de café. Eram oito e meia e ele ainda queria dormir umas duas horas antes de se dirigir ao hospital onde passaria a noite nas urgências. Não conseguia deixar de pensar naquela mulher que segurara nos braços durante alguns segundos nessa manhã e na estranha sensação de que ela era parte de si mesmo.
Aquilo nunca lhe acontecera antes. Passara o dia em casa
da irmã, mas não quisera ficar para o jantar, pois precisava de por os seus
pensamentos em ordem, coisa que não conseguia lá em casa, com a natural
traquinice dos sobrinhos por um lado e por outro a insistência de Laura em que
ele devia arranjar uma companheira.
Fugira do lar paterno por causa da mania casamenteira da
mãe. Agora era a irmã. Como se fosse fácil! Desde que há mais de treze anos
sofrera aquele terrível acidente, que o deixara cinquenta e cinco dias, em coma
no Hospital de Santo António no Porto e mais de seis meses em tratamento, no Serviço
de Medicina Física e .de Reabilitação do Hospital de Braga, para onde fora
transferido quando recobrara a consciência, que vivia numa constante procura,
embora para ser sincero, nem sabia bem de quê. O acidente fora tão grave, que os médicos
chegaram a julga-lo perdido, segundo lhe disseram mais tarde ao assegurarem-lhe que
estar vivo, era um verdadeiro milagre.
Todavia as mazelas físicas não foram o pior, apesar de
quase o terem matado. O pior fora a amnésia. Uma perda de memória parcial
devido, segundo os médicos, à parte do cérebro afetado pela pancada, ou segundo
o psicólogo, que o visitou no hospital, a algo ou alguém, em que ia a pensar no
momento do acidente e que o seu subconsciente não quer recordar, para não
sofrer de novo o choque brutal que quase o matara.
O acidente ocorrera no último dia de Setembro, ia fazer
dentro de meses catorze anos. Gonçalo conduzia a sua mota nova, que o pai lhe
oferecera pouco tempo antes como prenda de aniversário, de Braga onde fora
visitar os pais, para o Porto, quando um carro que seguia em sentido contrário
e cujo motorista adormecera ao volante, veio em cima dele. O choque violento,
projetou-o para fora da estrada, fazendo-o embater contra o muro de uma quinta.
Quando acordou no
hospital, as vivências dos últimos anos, tinham desaparecido. Com o tempo, o
apoio psiquiátrico e psicológico, que o hospital lhe disponibilizara, a sua memória foi voltando, mas havia um
pequeno lapso de tempo que Gonçalo não conseguiu recordar e que o deixava
frustrado. Era como se não estivesse inteiro, e isso mesmo o afastara sempre de
uma relação séria.
A última recordação que tinha era a de ter ido de férias
para o Algarve, com uns amigos, dois meses antes do acidente. Sabia que se tinha apaixonado por uma jovem
nessas férias, pois os amigos brincavam com ele sobre isso, mas não se lembrava
dela, nem sequer do seu nome, e não quisera contar aos amigos o que se passava
com ele, para não ser motivo de troça ou de pena. Nem mesmo a família sabia,
pois lhes fizera crer que tinha recuperado a memória por completo.
Desde essa data que inconscientemente procurava essa mulher
em todas as que se cruzavam com ele. Mas como encontrar uma mulher sem nome nem
rosto? Convencido de que isso era impossível, acabara por desistir, porém nessa
manhã, quando aquela mulher chocara com ele, o seu coração acelerou e o seu
corpo reagiu de forma esquisita, como se de alguma forma reconhecesse aquele
outro que lhe tinha caído nos braços.
Seria ela, a mulher por quem se apaixonara no passado? Num
breve segundo, quando a olhou pareceu-lhe descobrir surpresa no olhar feminino.
Tinha de descobrir quem era, e se tivera no passado alguma ligação com ele.
Fosse quem fosse a mulher com quem, segundo os amigos, vivera uma
intensa história de amor naquelas férias, tê-lo-ia esquecido e estaria
decerto casada, pelo que não esperava outra coisa que a sua libertação do
passado, para poder pôr um ponto final naquela época e encarar enfim a vida,
como qualquer homem da sua idade.
Bebeu o café, lavou o prato e a chávena e depois de os
guardar foi para o quarto, descalçou os sapatos e deitou-se vestido sobre a
colcha. Precisava dormir um pouco as noites no Serviço de Urgências costumavam
ser complicadas, mas não sabia se ia conseguir.