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18.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LV



                              Av. Pinheiro Chagas em Lourenço Marques, 1970
                                                          Foto Daqui

Foi uma noite de pesadelo, o Manuel e a mulher estavam apavorados com o que podia acontecer à filha, lá em cima no avião. Eles não sabiam que a filha estava já longe da tempestade e muito acima dela.
Só iriam ficar descansados quando recebessem notícias da filha. Que chegaram dias depois,  num postal enviado do aeroporto de Luanda, onde o avião fez a primeira escala. 
Mais tarde chegaria uma carta já de Lourenço Marques, que os deixaria mais sossegados. Ela diz que a cidade é grande, bonita, e que por lá tudo está calmo.
Em Junho, morrem Almada Negreiros e o barreirense e revolucionário Henrique Galvão. Este último no Brasil, onde se refugiara depois do assalto ao Santa Maria.
A 27 de Julho morre Salazar, e  em Agosto a filha manda notícias a dizer que em breve, vão para Nampula. Em Outubro, António, um dos cunhados do Manuel, que vivera na sua casa até ao casamento, parte para Moçambique, não como militar mas como trabalhador da C.U.F. Vai para Nacala, onde a empresa tem uma filial. 
 De Nampula, as notícias da filha, não falam de guerra. Falam de seca e de escassez de alimentos. Manuel prepara uma encomenda que manda para Moçambique, mas leva tanto tempo a lá chegar que metade das coisas já chegam impróprias para consumo. 
Quase no final do ano, a fiscalização vai à Seca e obriga a que os trabalhadores da mesma passem a estar registados na Caixa de Previdência. Até aí os descontos efectuados, eram para a Casa dos Pescadores, e os trabalhadores só tinham direito a um médico uma vez por semana, e a um enfermeiro diário no posto médico da seca.  Este registo na Caixa da Previdência, dava-lhes direito a outra assistência.
Também fizeram exigências que melhoravam a vida dos trabalhadores, como o uso de luvas de borracha, para lidar com o bacalhau molhado, o que em dias de muito frio, fazia toda a diferença. 
O Natal desse ano, decorreu com grande tristeza.  Era a primeira vez que um dos filhos não estava à mesa, nessa noite.

3.3.16

MANEL DA LENHA - PARTE XXIII




João o electricista, irmão do Manuel vivia numa destas casas.



Depois disto, tornou-se evidente que a mulher não podia continuar a trabalhar. Era demasiado perigoso, com três crianças que já tinham provado ser capazes de aprontar.
Mas por outro lado o ordenado dela fazia falta. Até porque ela continuava doente e o marido não sabia até quando o poderia fazer. 
Depois de muito matutar, Manuel decidiu mandar vir do norte um dos cunhados mais novos, um rapazito de doze anos, para ficar a tomar conta dos miúdos, para que a mulher pudesse continuar a trabalhar, muito embora ele não soubesse se ela aguentaria até ao fim da safra, dado o seu estado cada vez mais debilitado.
Três dias depois, Manuel foi a Santa Apolónia buscar o Luís. Era um miúdo alto e muito magro, mas esperto e agradecido por ter saído do monte onde guardava as cabras de um lavrador na Trapa.
Manuel nunca se arrependeu da sua decisão, já que Luís era carinhoso com os sobrinhos e muito responsável.
Quando Abril chegou, Gravelina já não andava. Arrastava-se como podia, a roupa a dançar sobre o corpo esquelético, o rosto encovado e macilento. Foi nessa altura que a mulher do capitão que geria a Seca, a viu e se compadeceu. Mandou chamar o Manuel, e dando-lhe dinheiro mandou que chamasse um carro de aluguer, e levasse a mulher ao médico no Barreiro. Porém quando o médico viu a mulher, escreveu uma carta e chamando uma ambulância mandou-a para o Hospital de S. José, em Lisboa, pois no Barreiro não havia hospital na época.  Manuel foi acompanhar a mulher mas voltou sozinho. Gravelina ficou logo internada dada a gravidade do seu estado. Ele voltou para casa com o coração apertado. O médico disse que a mulher tinha que ser operada com urgência, estava com a barriga toda “podre” Bom, o médico primeiro dissera outro nome, mas como Manuel quis saber o que aquilo queria dizer, o médico respondera-lhe assim. Porém dado o estado de debilidade física, Gravelina não poderia ser operada já. Teria que ficar internada um bom tempo. Lisboa, fica longe do Barreiro para as visitas.  Além disso em casa estão três crianças, e mais o cunhado que no fundo ainda é também uma criança.
À noite sentado nas escadas do casarão, enquanto as crianças dormem, Manuel eleva uma prece a Deus e afundando o rosto entre as mãos chora. Chora a angústia de não saber se a companheira, irá resistir, chora a dor de não saber o que fazer com os filhos, se a mãe não voltar, chora enfim a miséria da vida que leva, feito besta de carga, que não trabalha nunca o suficiente para uma vida digna.