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5.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XV



Depois de se ter despedido dos amigos Teresa, foi à pastelaria, onde conversou com Mário, informando-o que durante a gravidez se ia afastar do negócio, e tinha acabado de contratar Inês para gerir o mesmo.
-Escusado será dizer que espero que lhe dês o mesmo apoio, que me tens dado. Sei que às vezes os pais tendem a exigir demais dos filhos, mas lembra-te que é o seu primeiro emprego e que é natural, que precise da tua ajuda nos primeiros tempos.
- Mas tu gostas tanto do que fazes! Estás a passar mal?
-Não. Mas sabes como é, daqui a pouco começam os enjoos, e este não é o melhor local para se trabalhar nessa situação. Depois a tua filha está farta de estar em casa, ia procurar um trabalho em breve, e onde poderá estar melhor do que aqui, para desenvolver as suas capacidades?
Despediu-se com um beijo e um até amanhã e dirigiu-se a casa. Abriu o guarda-fato e foi passando a mão pela roupa, pensando no que devia vestir, já que queria uma roupa o mais formal possível, mas leve porque o dia estava muito quente. Acabou por escolher um conjunto de calças e túnica sem mangas, em seda verde água, que estendeu sobre a cama. Abriu a gaveta e escolheu entre a roupa íntima, um conjunto de fino algodão branco, e com ele na mão foi para a casa de banho, colocou uma touca na cabeça para não molhar o cabelo, e meteu-se debaixo  do duche. Voltou ao quarto só em cuecas e sutiã, e vestiu-se.
Regressou à casa de banho, escovou o cabelo e apanhou-o num coque no alto da cabeça. Não era adepta de muita maquilhagem pelo que passou apenas um pouco de brilho nos lábios e uma leve sombra nos olhos. Olhou-se no espelho e deu-se por satisfeita. Abriu a sapateira e olhou os pares de sapatos. Apenas dois pares de saltos altos, ainda por estrear, os restantes tipo ténis, e alguns sapatos e sandálias rasos, ou com um salto de três, quatro centímetros. Com um metro e setenta e cinco, Teresa era mais alta que a generalidade das mulheres,  por essa razão nunca usava saltos. Ficava enorme e isso parecia amedrontar e afastar dela as pessoas.
Escolheu umas sandálias rasas de tiras brancas e uma carteira igualmente branca. Pegou no telemóvel, procurou a morada da “TecnInformática” agarrou nas chaves do carro e saiu. Desde menina Teresa nunca aparentou ter medo de nada. Fora criada na aldeia, possuía o espírito forte e talvez um pouco ingénuo, que leva os aldeões a encarar as maiores adversidades, com coragem. Depois de pensar nas várias hipóteses, e de saber através de Gustavo o que podia esperar da lei, decidira que tinham que resolver o assunto entre os dois sem toda a exposição mediática,  que resultaria da ida para os tribunais, e que ela acreditava não seria bom para nenhum dos dois e especialmente para a criança que trazia no ventre. Não queria levar muito tempo a magicar no que podia acontecer, não fora que o sistema nervoso lhe pregasse alguma partida, e acabasse por perder o bebé.
A TecnInformática ocupava um enorme edifício de cinco andares. Estacionou o automóvel, no único lugar vago no parque e parou por momentos observando admirada o tamanho da empresa. Procurou a porta principal e dirigiu-se ao porteiro.
-Boa tarde! Tenho uma entrevista marcada com o senhor João Teixeira para as dezasseis horas, - disse aparentando uma naturalidade que estava longe de sentir, pois temia que o porteiro se informasse sobre a dita entrevista e não a deixasse entrar. - Pode informar-me qual o andar?
Relaxou um pouco com a resposta
- É no quinto andar, menina. Mas tem que me mostrar a identificação e assinar o livro de entrada.


28.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VII





Fosse qual fosse o desfecho da tragédia que  Gil vivia no momento, ele  tinha tomado algumas decisões que iria pôr em prática a partir do dia seguinte.
Quando deixou o futebol, e embora se tivesse associado ao irmão, nunca pensou que o seu futuro passasse pelo empresariado, fizera-o apenas para fazer progredir o negócio, e a verdade é que o conseguiu, pois, três anos depois abriram uma filial no Porto e ultimamente já estudavam a hipótese de abrir outra em Faro. De facto, ele ia pouco à firma, dedicando-se de alma e coração ao curso que terminara à pouco, e à escrita. Era Marco quem a geria e a fazia crescer, embora nunca o tivesse conseguido se ele não se tivesse tornado sócio e não tivesse injetado na firma, uma boa quantia monetária.   
Agora ele ia doar os seus sessenta por cento da empresa ao irmão, de modo a torná-lo completamente independente. Por outro lado, esperava montar uma boa clínica à sua irmã, que se formara em medicina e que estava de momento a terminar a especialização em neurologia em Nova Iorque. Depois com as suas vidas estabilizadas, ele podia dedicar-se por completo, à escrita, e à sua filha, se Deus permitisse que ela chegasse a nascer. Teria que contratar uma boa ama para lhe ajudar com a menina, pois nada sabia de como cuidar de um bebé.
Pouco jantou. Estava física e emocionalmente cansado. E no dia seguinte teria uma reunião com o irmão e o advogado, a fim de iniciar o processo de doação das suas ações. Mais tarde, teria que entrar em contato com a agência de emprego a fim de lhe enviarem algumas amas. Teria que fazer várias entrevistas, a vida da filha era demasiado preciosa para a colocar nas mãos de uma ama mal qualificada. Calculava que tivesse algum tempo, embora a bebé pudesse nascer a qualquer momento se surgisse algum problema na mãe, que pudesse por em risco a sua vida. Todavia ainda assim ela teria que estar algum tempo na incubadora. Nem por um momento queria pensar, que a bebé poderia morrer antes de ver a luz do dia. A filha era uma guerreira ia nascer saudável, apesar do corpo que a estava a gerar estar apenas artificialmente vivo.
 Todavia como passava as tardes no hospital, ficava apenas com as manhãs para tratar dessas entrevistas.
Fazia-lhe tanta falta a irmã. Decerto ela seria não só um grande apoio moral, como uma ajuda nos primeiros meses de vida da sua filha. Apesar de já lhe faltar pouco mais de  um mês para o regresso, não podia pedir-lhe que interrompesse a sua vida e os seus sonhos por sua causa.
Abrira o portátil e como todos os dias, durante mais de uma hora pesquisou sobre bebés prematuros. Depois desligou-o e dirigiu-se ao quarto no piso superior.  Preparando-se para dormir, foi à casa de banho,  escovou os dentes, despiu-se e vestiu o pijama. Voltou ao quarto e deitou-se. Porém a madrugava já se aproximava quando conseguiu adormecer.

20.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE III





Teresa sempre lhe dizia que trabalhava demais. Numas férias, pelo Natal, há oito anos atrás, quis que ele a acompanhasse à terra a fim de conhecer a sua família. Aquilo cheirou-lhe a compromisso e isso era algo que estava fora das suas ambições. Ela foi sozinha, e ele aproveitou para se despedir do banco, entregar na editora, o trabalho que tinha em mãos e partir. A Inglaterra pareceu-lhe o melhor sítio para levar a cabo o seu plano de enriquecimento e foi para lá que seguiu. Nunca mais soube da jovem Teresa.
  Que seria feito dela? Teria regressado à terra quando acabou o curso, ou teria ficado na cidade? Devia ter… trinta e um anos. E se era linda quando a conheceu, agora devia ser uma mulher muito bela. Talvez tivesse casado, quem sabe tinha filhos. Passou a mão pela testa, como se quisesse afastar aqueles pensamentos.
Devia concentrar-se no negócio do dia seguinte. Estava prestes a comprar mais uma empresa, para juntar ao lote das que já tinha. Naqueles oito anos, construíra quase um império. E tudo começou com a compra de uma pequena fábrica de loiça, em vias de falência. Quando conseguiu erguê-la e já lhe dava lucro comprou outra.
Tinha-se rodeado de pessoal eficiente e de confiança. Tornara-se num negociador implacável. Por vezes, sentia – se como um abutre humano sempre seguindo aqueles que estavam na pré falência.
Os seus negócios eram tão diversificados que iam desde a fruta até aos medicamentos.
Agora estava na eminência de adquirir uma empresa de produtos para o lar, no seu país. Já tinha apresentado uma boa proposta, e no dia seguinte se veria se o negócio se concretizava.
Pensou que talvez fosse a sua última aquisição. Sentia-se cada dia mais cansado. Quase não viveu com a ânsia de enriquecer, e agora que sentido tinha a sua vida? Com quem partilhar aquela esplêndida casa?
Se ao menos a mãe fosse viva. Mas coitada, partira antes de ver o filho concretizar os seus sonhos de grandeza.
Estava a ficar velho. Decididamente. Só assim se justificavam os sentimentos que ultimamente o vinham assaltando.
Se ao menos tivesse um irmão, um sobrinho, alguém de família. Mas apenas lhe restavam uns primos, com quem nunca teve afinidade e que segundo informações recentes tinham emigrado para o Canadá.
 Estava sozinho. Olhou o relógio. Quase duas horas. Eram horas de dormir. Levou o copo, para a cozinha
Depois dirigiu-se à casa de banho.
Tomou um duche, vestiu apenas uns calções de pijama, escovou os dentes e dirigiu-se ao quarto.
Puxou a colcha para trás, e antes de se deitar, lançou um breve olhar para a cama. Demasiado grande para a sua solidão.




22.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE VI






-O que há com a empresa? É mau negócio? O Júlio estava entusiasmado.
-Eu sei, e pelo que ele diz parece ser um bom negócio, mas não acho bem que te desligues do assunto. Porque não vais até lá?
- Não confias no Júlio?
-Deus me livre e guarde disso, António. Até porque eu estarei lá na altura da compra e todos os documentos passarão pelas minhas mãos. Porém gostaria que fosses comigo. Não que seja necessário, pois com a procuração que tenho posso representar-te em qualquer negócio. Mas era uma maneira de te tirar deste escritório e libertar a tua cabeça dessa obsessiva ideia de vingança. Pelo menos por uns dias.
- Está bem. Quando será feita a escritura da compra?
- Dentro de dias. O Júlio tem estado à espera que tu te decidas a ir até lá. Parece que ele confia mais em ti do que em si próprio. A propósito, sabes que ele vai casar?
- Não. Não tenho estado com ele ultimamente. Quando aceitei fazer sociedade com ele no negócio dos carros deleguei nele toda a responsabilidade dessa parte dos negócios. Os restaurante e principalmente a imobiliária, ocupam-me todo o tempo. 
- Claro. Diz-me uma coisa. Há quanto tempo não vais ver a tua mãe?
- Há duas ou três semanas. Porquê? Passa-se alguma coisa com ela? Está doente?
- Não. Mas está muito triste. Disse à Gabi que sentia saudades tuas. Que se sente muito só e que lhe parece que continuas em França, tanto tempo leva sem te ver. Como sabes eu e a tua irmã quisemos que fosse viver connosco, mas ela prefere estar lá na casa onde viveu toda a vida e que diz está cheia de recordações. Diz que dali só sai morta. Devias ir vê-la. Caramba um homem não pode virar escravo dos seus negócios.
-Tens razão, mas que queres, foram muitos anos a trabalhar catorze a dezasseis horas por dia. E depois há sempre tanta coisa para resolver.
- Arranja dois ou três bons gestores. Eles podem fazer a maioria do teu trabalho. Não vais à falência por isso e ganhas em qualidade de vida e saúde. Nem sei como tens aguentado tudo isto sozinho.
- Tenho-te a ti, e à secretária que me recomendaste e que é uma excelente profissional. E mais três empregadas no escritório, e uma dúzia de gerentes nos restaurantes. E o Júlio tem-se mostrado bastante competente com o setor automóvel. Logo que resolva este problema com a integração ou não da Imobiliária “ Casa Nova”, prometo tratar disso. Gostava de trazer para a empresa o Rui Martins, mas duvido que ele queira deixar a atual empresa. Enfim, quando chegar a hora se verá.
- Quando é que terás a resposta do Jorge Maldonado?
- Dei-lhe oito dias.
- Acreditas que ele convença a filha?
- Não sei. Se bem que para te ser franco gostaria que não o conseguisse. Conheces a filha dele?
- E quem não conhece a Paula Maldonado? É uma excelente profissional, a sua empresa de eventos é uma das melhores do país, está constantemente a ser requisitada. Terminou há pouco um relacionamento de quatro anos, quando todos esperavam que mais dia, menos dia, marcaria a data do casamento. Não deve estar com vontade de se comprometer com ninguém, mesmo que seja para salvar o pai da ruína. Estás apaixonado por ela?
- Não. Mas um dia terei que casar. E o que sei dela agrada-me. Mas repito, espero que ela não aceite.
- Confesso que não te entendo. Se ela te agrada, porque não tentas uma aproximação e esqueces essa maldita vingança? E como esperas que não aceite se dizes que te interessa? Sabes que mais? És demasiado complicado para mim. Bom, tenho que ir. Combinei com a Gabi que ia buscar o Pedro à escola, uma vez que a esta hora ela tem uma consulta no dentista. Até amanhã.
-Até amanhã Eduardo.


11.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXVII



Por fim decidiu-se. Fosse o que fosse que estava a acontecer, quanto mais depressa enfrentasse o problema, menor seria a sua angústia. Sentou-se na cama, e acariciou-lhe a cabeça.
- Bom, querida, não precisas chorar, não queres sair, não saímos.
Era a segunda vez que o marido a chamava de querida, e tal como da outra vez, aquela simples palavra soou-lhe como uma carícia. Pedro sempre a tratava pelo nome. Nunca lhe falara de amor nem mesmo nos momentos de maior intimidade.
-Desculpa, -disse olhando-o por entre as lágrimas. Não queria fazer esta figura mas não sei o que se passa comigo.
Ele empurrou-a levemente e estendeu-se na cama a seu lado.
A sua voz soou quase num murmúrio:
-Será que não sabes mesmo, ou não queres contar-me? – Lembras-te da noite do nosso casamento? Também nesse dia estavas a chorar. Nessa noite pedi-te que confiasses em mim e me contasses o que te atormentava. E tu confiaste. Quando foi, ou de que modo te magoei, para que tenhas deixado de confiar em mim?
-Nunca deixei de confiar em ti, -disse num soluço.
-Então o que há de diferente hoje, para que não me contes o que te atormenta?
- Naquela noite o que te contei reportava-se a algo que me atormentava sim, mas era um facto passado. Isto é pior, porque está relacionado com o nosso presente e futuro.
-Então confia em mim, e diz-me. Duas cabeças pensam melhor que uma só. Seja o que for, tem que haver solução.
Como não obteve resposta, ele arriscou num sussurro que ela mais adivinhou que ouviu.
-Estás cansada do casamento e queres o divórcio?
-E tu, estás? – Perguntou por sua vez
-Não. Mas não sou eu que estou a chorar. E tu não o fazes por capricho, gratuitamente. Há dias que noto que estás diferente. Nota-se no teu rosto que alguma coisa te atormenta.
- Tu também estás diferente. Também andas preocupado e não me dizes nada.
- E como queres que não ande preocupado, se dia a dia te vejo mais triste, mais pálida? Os teus olhos perderam o brilho o teu sorriso é forçado, não há alegria em ti. É preciso ser cego para não ver que estás infeliz. Pensei que estavas farta do casamento, de mim, sei lá. Receio que estejas à espera dos dois anos para entrares com o pedido de divórcio.
- E em que é que isso te afeta? O nosso casamento não é um negócio? Os negócios nem sempre correm bem, - disse entre soluços.


Parece que os dois caíram num impasse. Ela não lhe vai dizer que está grávida. A menos que ele abra o coração. Mas será que ele vai ter coragem de lhe contar a verdade escondida por trás daquele pedido de casamento?
O que vos parece?



22.5.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE I


- Não Cris, hoje não pode ser. Vou ter uma reunião importante com o meu advogado, e depois vou para casa. Foi uma semana muito intensa, preciso descansar.
- Mas amor de há uns meses para cá nunca tens tempo para nada. A semana passada fui sozinha à festa da Micá. Se hoje apareço sozinha, na festa da Francisca, todas as minhas amigas vão reparar.
- E isso importa-te? Pois eu tenho mais com que me preocupar do que com as tuas amigas.
- Já não te importas comigo, é o que é. Pois vou-te dizer uma coisa.  Se não me acompanhares vou seduzir o homem mais bonito que por lá esteja. E depois não digas que não te avisei.
- Faz como entenderes. E desculpa mas tenho de desligar. Tenho um cliente ao telefone.
Desligou o telemóvel e levantando o intercomunicador, recomendou à sua secretária.
- Rita, se a menina Cristina Barbosa ligar, diga-lhe que acabei de sair. Não estou. Nem para ela nem para ninguém. Espero a vinda do doutor Araújo, faça-o entrar logo que chegue.
Pedro Mesquita  desligou o telefone, levantou-se  e caminhou até à janela. Era um homem alto, moreno, cabelo castanho, ligeiramente ondulado, que ele usava penteado para trás, deixando a descoberto uma testa alta.
Os olhos verdes, o nariz retilíneo e a boca bem desenhada, faziam dele um homem capaz de fazer suspirar muitas mulheres. Se aliarmos a tudo isso o extrato bancário da sua conta, não era de admirar que onde quer que fosse as mulheres andassem à sua volta como abelhas de roda das flores. Coisa com que ele lidara bem em tempos, mas que atualmente o aborrecia demais.
Pedro tinha trinta e oito anos, era um dos empresários de maior sucesso no ramo da restauração. Aos vinte e cinco anos herdara do pai um restaurante, em Setúbal, e parte de outro em Lisboa, que o seu pai mantinha em sociedade com o cunhado. Sob a sua gerência e com uma apurada visão para os negócios, naqueles treze anos, Pedro criara uma rede de restaurantes que se estendiam de norte a sul do país, e aumentara em muito a sua fortuna. O tio, que inicialmente fora seu sócio, morrera havia oito anos, e o seu filho Paulo Amado, pusera à venda, a sua parte no negócio. O seu  primo não se interessava pelos negócios, o que ele queria mesmo era dinheiro para gastar na borga, com os amigos e as mulheres. Naquela altura, Pedro já tinha ampliado o negócio, com a compra de outros restaurantes, e não dispunha de dinheiro líquido para comprar a parte do primo, pelo que teve que recorrer aos bancos, contraindo uma dívida que levara mais tempo  a pagar do que o primo levou a delapidar o que recebera. Depois, sem dinheiro, nem amigos, acabara por lhe pedir ajuda, e ele dera-lhe um emprego, ali nos escritórios, da empresa. Paulo falecera há seis meses num acidente de carro, quando conduzia em excesso de velocidade completamente alcoolizado.


12.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTEII







A morte de Afonso, ocorrera há seis meses. Para Amélia, o que se tinha passado naquele dia e seguintes estava muito confuso na sua memória. Sabia que a acompanhante do marido, não era a sua secretária, mas não sabia quem era, nem o que fazia com o marido. Se era uma amiga, uma cliente, ou algo mais. E não procurou saber. Esteve sempre acompanhada pelo irmão, e se ele se inteirou de algo, não lho disse.
Uma semana depois, quando discutia com os sogros, o rumo a dar à empresa, que o marido geria, desde que o sogro se retirara dos negócios,   Amélia sentiu-se mal, e levada pelo sogro para o hospital, o médico informou-a de que acabara de ter um aborto espontâneo. O bebé que ela esperava ser a sua companhia e a sua força para tocar a vida para a frente deixara de existir. Tinha apenas oito semanas de vida, e o médico disse-lhe que o aborto espontâneo era muito comum nas primeiras doze semanas.
Foi um choque em cima de outro e Amélia quase caiu em depressão. Valeu-lhe o carinho do irmão, e a amizade dos colegas.
A empresa voltou para os sogros, com quem já não se encontrava há mais de três meses. A sogra não se conformava com a morte do filho, e cada vez que estavam juntas, Amélia ficava com a sensação de que secretamente a sogra a culpava pela morte do filho.
Agora, passados seis meses, finalmente, encontrou coragem para abrir a caixa que a secretária do marido lhe tinha enviado com as coisas dele que estavam no escritório, logo após a sua morte.
As roupas dele, já ela as doara, para uma instituição de solidariedade social. Agora tinha que verificar a caixa, e ver o que nela havia além do computador do marido.
Pôs o portátil de lado, e pegou na moldura de prata, que ela lhe oferecera logo após o casamento, com a sua fotografia. Olhou a sua imagem e pensou como era possível uma tão grande reviravolta na sua vida, em pouco mais de dois anos. Poisou-a no chão a seu lado e pegou num envelope grande castanho. Pela grossura, deveria conter um livro ou um bloco. Virou-o, e não conseguiu abafar um grito ao ver um monte de fotos que se espalhavam à sua volta. Eram fotos de uma mulher jovem, morena, de grande beleza. Sozinha, ou acompanhada de Afonso, em atitudes que revelavam uma grande intimidade. Sentiu um aperto no peito, ao reparar no enlevo com que o marido, olhava para a jovem.
Ela não se recordava de ver igual atitude no marido a não ser durante a lua-de-mel.
Ali estava a prova da traição de Afonso. Não teve dúvidas de que aquela, seria a acompanhante do marido, naquele dia fatal. Guardou as fotos de novo no envelope, e levantando-se guardou aquele na gaveta da secretária. Ia ficar com elas, para lhe recordar sempre, a falsidade masculina, e a livrarem de novas tentações.
Colocou a moldura e o portátil em cima desta, e continuou a observar os restantes papéis, coisas sem importância que rasgou e deitou no lixo.


14.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXX






Na faculdade tinha feito amizade com o teu irmão. Eu tinha ouvido falar dos sonhos dele, de ir para África, e admirava-o muito. Creio que ele me admirava porque a minha história era conhecida. Dessa admiração mútua, nasceu uma profunda amizade. Quando surgiu a oportunidade de começar com o negócio da confecção, o padre Miguel deu-me o acesso a uma conta no banco, dizendo-me que era o dinheiro que eu lhe dera, e que o guardara para eu iniciar a vida depois dos estudos. Mas o dinheiro não chegava e eu não ia sobrecarregá-los com mais encargos. De modo que decidi desistir e procurar um emprego em qualquer firma. Não sei como o teu irmão soube, juro que não falei nada com ele, sobre o assunto, embora tenha comentado com outros amigos que se tivesse dinheiro comprava aquela microempresa de confecções. O teu irmão pagou tudo o que me faltava e ainda me ajudou com  o investimento inicial. 
Jurei que lhe devolveria tudo com juros, quando triunfasse, e tentei fazê-lo três anos mais tarde, mas ele não aceitou. Disse que tinha sido  como um presente de aniversário.  E que lhe retribuiria um dia se ele precisasse. Por isso, quando me procurou e me ofereceu a compra da sua parte na fábrica eu não hesitei. Mas só nessa altura soube que ele tinha uma irmã.
 Até te conhecer, era um lobo solitário. Nunca tinha pensado numa mulher como companheira de vida, nunca pensara em casamento.  A minha figura agradava às mulheres e elas agradavam-me a mim. Desculpa se te pareço cínico, mas estou a ser o mais sincero possível. Tive várias amantes. Mas quando te conheci, e me enfrentaste, senti que tinha encontrado a minha alma gémea. Cada vez que o fazias, ficava louco. Não davas qualquer sinal de que te agradava, e eu  que sempre vivi rodeado de belas mulheres, não sabia como te conquistar. Quando enfim começamos a entender-nos, pensei que era um sonho. Nunca tinha estado apaixonado antes, desconhecia o sentimento. E era algo tão novo, tão incrível.  E quando fizemos amor, senti-me o último rei da terra. Depois, os dois sabemos o que aconteceu.  A tua falta de confiança, fez com que me sentisse destroçado. Sei que fui muito duro, disse coisas horríveis, mas acredita, não te fazia sofrer tanto quanto o meu próprio sofrimento.
O facto, da minha mãe ter morrido de parto, criou em mim uma espécie de rejeição à ideia de ter um filho. Nunca pediria à mulher, que amo, que assumisse esse risco. Creio que viveria em suspenso todo o tempo da gestação, num pesadelo constante, temendo o que podia acontecer. Por tudo isto, eu nunca te rejeitaria se me tivesses contado naquele dia. É a ti que eu amo, tal como és. E depois, quando um dia, quisermos um filho, há tantas crianças a precisarem de quem as ame e cuide delas. Como eu precisei.
Apertava-a contra si, beijava-lhe o rosto, o colo, o pescoço. As mãos nervosas, percorriam-lhe o corpo, ora se introduzindo sob o vestido até à coxa, ora  acariciando os seios através da fina seda, que os cobria.  O desejo crescendo desenfreado.
- David o jantar! – Murmurou ela os dedos acariciando-lhe a nuca. 
Levantou-se, pegou-lhe ao colo, e sussurrou-lhe ao ouvido: 
- Acho que vou querer, primeiro a sobremesa. No quarto...
O riso dela, era uma promessa de felicidade.


Fim



Elvira Carvalho


30.11.16

A TI'ESPERANÇA DOS OLHOS VERDES PARTE V




O paquete Vera Cruz estava a chegar a Alcântara. Na amurada do navio, um homem destacava-se do mar de gente que se preparava para o desembarque. Não teria ainda cinquenta anos, alto, bem vestido, mas com um ar cansado, observava a cidade.
Lisboa, a bela cidade, que deixara há quase três décadas quando partira para o Brasil em busca de fortuna. Quantas asneiras se fazem na juventude, quando a ambição nos domina. O Chico era muito jovem quando perdera os pais. Os primeiros anos, vivera com um tio sapateiro, com quem aprendera o ofício. Quando o tio morrera, o Chico ficara com a pequena oficina, onde confeccionava ou arranjava o calçado. Foi nessa altura que conheceu a Esperança. Era a moça mais bonita do bairro. Tinha uns grandes olhos castanhos, docemente amendoados. Conheceram-se e amaram-se no mesmo instante. Ele era nessa época, um belo rapaz, com um ar altaneiro que fascinava as moças casadoiras, e as deixava suspirando pelos cantos. Mas ele só tinha olhos para a sua Esperança.
Durante dois anos trocaram juras de amor, e sonharam com um futuro a dois, muito feliz.
Mas o negócio não corria bem ao Chico, cada vez mais os fregueses optavam por comprar sapatos feitos em vez de os mandarem fazer, e ele ouvira falar do Brasil, e das muitas oportunidades de conseguir fortuna lá. E um dia decidiu-se. Vendeu a oficina, e comprou a passagem. Com tudo decidido, procurou a namorada e falou-lhe da viagem, dos seus sonhos de riqueza, e da separação que teriam de viver em prol de um futuro melhor.
Ela chorou. Com intensidade, como fazem as mulheres que amam de verdade. Tentando consolá-la ele dizia que seria por pouco tempo. Logo que estivesse a trabalhar, arranjava casa, e casavam por procuração. Depois ela embarcava e ia ter com ele ao Brasil.