A mãe de Luísa, fora uma mulher frágil, que não resistira a uma pneumonia, e morrera quando ela tinha dez anos. José o pai, era um homem rude, de princípios rígidos. Acabou de criar sozinho a filha, dando-lhe tudo o que ela precisava exceto amor.
Infelizmente para Luísa, o pai era também um homem muito ambicioso, que tinha reparado há muito, na maneira como Álvaro, o seu vizinho olhava para a sua filha. Ele ficara viúvo uns anos antes, quando a sua esposa se suicidara. Não tinha filhos, e era muito rico. Na cabeça do pai de Luísa, ele já a tinha casado com o vizinho, quando descobriu que a filha andava "enrabichada" pelo jovem médico.
Nuno até podia ser médico, mas não era rico. Ou pelo menos, não o era em terras, que era a única riqueza que José entendia. Entre Nuno e Álvaro a escolha dele era óbvia.
Proibiu terminantemente a jovem de se encontrar com o médico e ameaçou-a de a mandar para a casa dos avós paternos que moravam numa remota aldeia minhota, onde ela nunca fora e com quem não tinha tido o mínimo contato.
Prestes a fazer dezoito anos, Luísa era muito jovem e teve medo de que o pai cumprisse a ameaça. Chorou baba e ranho, mas acabou o namoro com Nuno. Ele não lhe perdoou. E quatro meses depois partia para África. Durante dezasseis anos, apenas uma vez ela o vira, numa reportagem sobre as condições de vida no Bangladesh.
Entretanto o pai combinara o casamento dela com o vizinho, com quem se casara pouco depois de completar os dezoito anos.
Fechou a torneira da água. Abriu o armário e retirou um frasco com sais de banho que espalhou na água. Despiu a blusa e as calças de ganga. Libertou-se das minúsculas peças de lingerie, e lançou uma rápida olhada ao espelho antes de entrar na banheira. Os seus olhos azuis escureceram e o seu rosto contraiu-se num esgar amargo, ao ver as múltiplas cicatrizes que o seu corpo bem proporcionado, apresentava.
Mergulhou na água quente, e cerrou os olhos, tentando em vão esquecer aquilo que acabava de observar. Cada uma daquelas cicatrizes, representavam muitas horas de choro, e sofrimento. Cada uma, abrira uma ferida enorme no seu espírito. Essa era uma das razões porque ela não se queria ver refletida num espelho.
E a razão que a mantinha afastada dos homens, desde que enviuvara há quase catorze anos.
Com raiva, pegou na esponja e começou a esfregar a pele com violência. Como se assim fizesse desaparecer dela todas as cicatrizes. Mas não adiantava. Ainda que por algum milagre as fizesse desaparecer da sua pele, jamais conseguiria apagá-las da sua memória.
Com raiva, pegou na esponja e começou a esfregar a pele com violência. Como se assim fizesse desaparecer dela todas as cicatrizes. Mas não adiantava. Ainda que por algum milagre as fizesse desaparecer da sua pele, jamais conseguiria apagá-las da sua memória.



