Odete acabara de se deitar, e o pensamento voou para o seu marido. Não tinha mudado muito naqueles anos. Tinha alguns cabelos brancos é certo mas isso não lhe tirava o charme. O que mais tinha mudado era o seu olhar. A sua expressão, era agora bem mais dura do que antes da sua separação. Quando desesperada, partiu para Leeds, pensou que ele não tardaria a pedir o divórcio, para se casar com Inês. Porém João não só não pedira o divórcio, como decerto não estava com ela. Senão porque exigiria a sua volta? A menos que estivessem zangados e lhe quisesse fazer ciúmes. Mas não. O João que ela amava, não manteria durante tantos anos uma relação dúbia. Mas será que ela conhecia o marido?
Oriunda de uma família humilde,
mal terminara o décimo segundo ano, empregou-se num café pastelaria bem perto
de casa. Não era exatamente o emprego que sonhava, mas era perto de casa, não
precisava tirar passe, nem passar tempo em transportes, e estava em contacto
com pessoas o que lhe agradava bastante. Um dia João apareceu por lá de manhã.
Pediu uma torrada e um galão. Depois apareceu no dia seguinte e no outro e no
outro. Um mês, após outro. E quase sem dar por isso ela começou a esperar com
ansiedade a chegada dele. O seu coração saltava de alegria, quando ele entrava.
Reconheceu que se tinha apaixonado, quando descobriu que adormecia e acordava a
pensar nele.
Quase cinco meses depois de o
ter visto pela primeira vez, João convidou-a para ir ao cinema. Era Verão o
tempo estava quente, e depois do cinema foram até um bar, ouvir música. Depois
dessa noite outras se seguiram. A sua mãe estava deveras preocupada, e não se
cansada de lhe dizer:
- Tens que acabar com essas
saídas filha. Esse rapaz é um médico famoso. Não pode querer nada sério
contigo. Um dia destes ele arranja uma namorada da sua classe, ou uma médica como ele e nunca mais se
lembra de ti.
No se intimo, ela dava razão à
mãe, mas não se pode pedir a um coração apaixonado que pare de sonhar. Porém um
dia, João confessou-se apaixonado, e começaram a namorar. Sério, ele falou com
os seus pais, e desde aí até ao casamento, foram apenas seis meses. Seis meses
em que se sentia como uma princesa de um conto de fadas.
Depois do casamento e da
lua-de-mel, Odete decidiu estudar, e João encantado com a ideia apoiou-a. Sempre
gostara de crianças, e assim resolveu matricular-se na Escola Superior de
Educadores de Infância. Nos três anos que se seguiram, Odete não podia ter sido
mais feliz. O marido não se cansava de a mimar, Além de lhe pagar os estudos, comprava-lhe roupas, e jóias. Era carinhoso e compreensivo no dia-a-dia, e um homem
apaixonado nos momentos de intimidade. Que mais podia desejar? E ela fez os três anos correspondentes à
Licenciatura em Educação Básica, e estava a pensar começar a sua carreira
profissional, pois faltava-lhe a paciência para passar os dias em casa à espera
do marido que tinha cada dia mais trabalho e menos tempo para a vida familiar.
É já amanhã, que todos vão ficar a saber o que levou Odete a fugir de casa.
